sábado, 5 de agosto de 2017


CLÓVIS ROSSI

Um pouquinho menos não dói

SÃO PAULO - Os tempos de inflação alucinada legaram uma teoria que o mundo político toma como palavra de Deus: sempre que a inflação dispara, a popularidade do governante despenca.

Mesmo Luiz Inácio Lula da Silva, que, na oposição, se beneficiava da teoria, quando coincidia com a realidade, passou a ser adepto incondicional dela ao chegar ao governo. Tanto que, logo após assumir, topou elevar os juros de 25% para 26,5% porque Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, lhe disse que a inflação dispara sempre que chega a dois dígitos.

Teoria tão científica quanto o jogo de búzios, mas quem é louco de desafiar os espíritos?

Não é que o Banco Central do pós-Meirelles bancou o desafio, ao jogar apenas para 2012 a obtenção da meta de 4,5% de inflação? Parece, mas só parece, que o BC está adotando outra teoria que os políticos às vezes acariciam, a de que às vezes é bom aceitar um pouquinho mais de inflação em troca de um pouquinho mais de crescimento (ou um pouquinho menos de desaceleração do crescimento).

Na verdade, o BC de Alexandre Tombini faz o contrário dos búzios de Meirelles: não acredita que a inflação vá disparar só porque há alguma pressão sobre os preços.

Por isso, contraria o mercado que cobra mais sangue, na forma de juros mais altos. Que os riscos existem, é evidente. Mas ninguém, nem o BC nem seus críticos, podem ter certezas sobre o futuro, ainda mais em um país em que é difícil ter certezas até sobre o passado.

Entre os críticos, haverá certamente gente honestamente preocupada com uma eventual disparada dos preços.

Mas com certeza há também gente triste porque a contenção nos juros reduz a transferência de renda de todos nós, contribuintes, para a minoria de rentistas que detêm títulos do governo e exige a maior remuneração para eles.

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