sábado, 30 de maio de 2015


31 de maio de 2015 | N° 18179
MOISÉS MENDES

O deboche

José Maria Marin é o mais vistoso exemplar das figuras da ditadura que ainda prosperam, bajulam, são bajuladas, corrompem, são corrompidas e circulam impunemente. Marin é um deboche com a polícia, o Ministério Público, a Justiça e o jornalismo.

O homem preso na Suíça prestou grandes serviços aos militares golpistas. Um de seus feitos, como deputado paulista pela Arena, foi denunciar a TV Cultura – mantida pelo Estado – como uma instituição que não correspondia aos anseios do regime. Insinuava que a TV havia sido tomada por comunistas dedicados a conspirar contra o governo.

Um discurso de Marin, no dia 7 de outubro de 1975, apontava na direção de Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da Cultura, que passou a ser investigado pela polícia política. No dia 24, Herzog foi preso no DOI-Codi, o porão da repressão. Um dia depois, foi encontrado enforcado na cela.

Ivo Herzog, filho de Vladimir, não tem dúvida de que Marin perseguiu seu pai e inspirou o assassinato, mantido por décadas pelos chefes dos criminosos sob a farsa de suicídio. Depois, de maio de 1982 a março de 1983, Marin foi governador nomeado de São Paulo, em substituição, vejam só, a Paulo Maluf. Presidiu a Federação Paulista de Futebol de 1982 a 1988 e foi, acreditem, no início da redemocratização, chefe da delegação brasileira na Copa de 1986 no México.

Andou fora da política e do futebol por um tempo, até ser eleito vice-presidente da CBF e, há três anos, assumir o comando da federação, com a renúncia de Ricardo Teixeira (que fugiu para Miami, depois de uma série de denúncias de corrupção).

Em janeiro de 2012, na cerimônia de premiação da Copa São Paulo de Futebol Júnior, Marin enfiou no bolso uma das medalhas que deveria entregar a um atleta. Foi flagrado pela TV, e o roubo ganhou tratamento de fato humorístico por boa parte da imprensa. No ano passado, refestelou-se pelo mundo como presidente do Comitê Organizador da Copa no Brasil.

O jornalista Juca Kfouri contou em fevereiro deste ano que ele roubava até energia elétrica do prédio em que mora em São Paulo. O porteiro do prédio sabe bem quem é Marin. O porteiro do prédio da CBF também. O roupeiro da CBF, o massagista da Seleção, todos sabem quem é Marin.

Mas poucos têm a coragem de um Kfouri para defini-lo como o “personagem bizarro”, que elogiava até torturadores em seus discursos como deputado. Corria por debaixo das mesas das redações, pelas conversas em hotéis que hospedam a Seleção e pelas trocas de e-mails pela internet que Marin era tudo o que o FBI já sabe que é. Ninguém incomodava sua impunidade e tampouco a vida mansa de seus amigos João Havelange e Ricardo Teixeira.

Faltam uma polícia, um Ministério Público e um juiz Sergio Moro na vida de José Maria Marin. Assim como faltou jornalismo, para que Marin fosse formalmente identificado como corrupto, antes da ação dos investigadores suíços e americanos. Aqui, as suspeitas contra o sujeito eram apenas curiosidades compartilhadas quase como folclore.


Marin é a excrescência dos que ajudaram a sustentar a ditadura e conquistaram cumplicidades para desfrutar do prestígio sempre renovado pelo dinheiro e pelo gangsterismo do futebol. Alguém terá de assumir aqui a continuidade do trabalho iniciado pelo FBI, para que os cupinchas de Marin saiam da toca, ou a direita brasileira só conhecerá cadeia na Suíça.

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