terça-feira, 4 de junho de 2013

ELIANE CANTANHÊDE

A má notícia nossa de cada dia

BRASÍLIA - A presidente Dilma que vá nos perdoando, mas já virou rotina: todo dia é dia de má notícia, sobretudo na economia.

A de ontem veio da balança comercial, que voltou ao azul em maio, mas com um saldo positivo 74,3% menor do que há um ano e acumulando um resultado em 2013 que é simplesmente o pior da história.

É ou não é preocupante? Ainda mais dentro de um contexto em que tudo parece desandando. A previsão de crescimento do PIB de 2013 era de 4,5%, caiu para 3,5% e acaba de ser revista para 2,77%. Onde vai parar? Ou melhor, onde vamos parar?

Há convergência de crescimento baixo com inflação sempre no teto da meta, juros subindo, indústria acuada, famílias consumindo menos, superavit primário (economia para pagar juros) decepcionante e dólar disparando --a cotação da semana passada foi a mais alta desde 2009.

Tudo, então, fica assim: o pior desde não sei quando, o mais baixo da história, a maior queda em tantos anos... E o governo respondendo sempre com um mesmo dado: os altos níveis de emprego, o que é de fato muito bom e tem efeitos eleitorais certeiros, mas não é suficiente para salvar a lavoura.

(Aliás, a imagem não é adequada, porque, se há alguma coisa positiva, além do emprego, é a lavoura --que salva o PIB e mantém a balança comercial ainda positiva.)

Em meio às más notícias na economia, uma atrás da outra, a presidente agora está à volta com duas tabas em pé de guerra. Uma é literal, a dos índios, que se rebelam de norte a sul. Outra é o Congresso, onde índio quer apito e os caciques exigem muito mais.

Não bastasse, setores conservadores articulam-se em torno de temas como aborto e união gay para passeatas em Brasília e demonstrações de força em todo o país, mirando as urnas de 2014. Estão crescendo.


Esse cenário e o clima não são bons para a imagem de Dilma hoje e não ajudam a reeleição amanhã.

Outros mundos

Na semana passada, cientistas da Nasa puseram o telescópio espacial Kepler em uma espécie de coma tecnológico: a sonda, desenhada para buscar planetas semelhantes à Terra girando em torno de estrelas na nossa vizinhança cósmica, falhou de uma forma que parece irremediável.

Lançada em 2009, a Kepler encontrou 132 planetas e 2.700 outros astros que podem passar no teste e esperam estudos mais detalhados. A confirmação será feita por telescópios terrestres que agora sabem para onde olhar nos céus.

Custando US$ 550 milhões, a sonda Kepler revolucionou nossa visão do Universo e do nosso lugar nele.

A noção de que estrelas têm planetas girando à sua volta é muito antiga, remontando ao menos à Grécia Antiga, onde filósofos como Epicuro, já no século 4º a.C., sugeriram a existência de outros mundos: "Existem infinitos mundos parecidos e diferentes do nosso. Pois os átomos, infinitos em número, se espalham pelas profundezas do espaço." A noção foi elaborada por Giordano Bruno ao final do século 16 em seu tratado "Sobre o Universo Infinito e os Mundos". Para Bruno, esses outros mundos seriam semelhantes à Terra, também habitados.

Era claro que, caso existissem outras Terras, a centralidade da nossa estaria ameaçada. No debate sobre a existência de outros mundos, essa era a questão essencial: somos únicos e, portanto, especiais de alguma forma, ou apenas a norma do que existe pelos confins do espaço?

Foram necessários 413 anos após a morte de Bruno para que tivéssemos uma resposta ao menos parcial a essa pergunta. Em quatro séculos, passamos da mera especulação sobre a existência de outras Terras à observação concreta de planetas que, se não são como o nosso, ao menos podem ser semelhantes.

Hoje, temos uma disciplina em astronomia chamada de planetologia comparada, na qual as propriedades de planetas diversos são examinadas e estudadas em detalhes.

Mesmo que ainda em sua infância, aprendemos já várias coisas: que estrelas, na sua maioria, têm planetas girando à sua volta; que a vida só é possível naqueles que respeitam uma série de regularidades nas suas propriedades astronômicas e que têm composição química bem específica.

Note que quando cientistas falam de vida em outros planetas se referem à vida como nós a conhecemos, isto é, baseada em compostos de carbono e em soluções aquosas. Outros tipos, mesmo que interessantes, são provavelmente ficção. (A menos que a vida tenha evoluído de tal forma que tenha deixado para trás sua carcaça de carbono, existindo numa espécie de rede digital definida em campos eletromagnéticos, sem existência física.)

Se estamos ainda na infância de nossa exploração cósmica, podemos ao menos nos contentar com o que já aprendemos: há centenas de bilhões de planetas na nossa galáxia; se não são infinitos, esses mundos são incontáveis; talvez existam alguns com propriedades semelhantes às do nosso; detalhes da vida nesses mundos dependem da história de cada um e, por isso, somos únicos no Universo, produtos da Terra e de sua história única.

Outras sondas mais poderosas do que a Kepler continuarão a busca. Mas o que já aprendemos demonstra nossa importância cósmica.


Marcelo Gleiser

04 de junho de 2013 | N° 11702
LUÍS AUGUSTO FISCHER

História da matemática

Minha praia é a literatura, que estudo e leciono regularmente. Mas não posso alegar inocência total em matéria de matemática, porque gosto do campo e porque estudei um pouco, em outra encarnação.

Isso me leva a ler, de vez em quando, livros sobre matemática, e calhou de encontrar uma instigante História da Matemática – Uma Visão Crítica, Desfazendo Mitos e Lendas (Zahar), de Tatiana Roque, professora da UFRJ, especialista no ramo e experiente pesquisadora de história da ciência. Tropeço em muitas partes, fico boiando em momentos de demonstração; mas também vibro com a argumentação e com descobertas, que sempre ocorrem.

Sou um fascinado por história, qualquer uma, em especial a da literatura, de forma que leio estudos historiográficos de qualquer área sempre com esse interesse por debaixo. E aqui a autora se encarrega de mostrar, com paciência e texto seguro, o quanto há de construção histórica nas descrições aparentemente neutras do desenvolvimento da matemática.

Um dos alvos centrais do livro é a fantasia de que a Europa é a única a ter desenvolvido matemática de verdade, sendo ela também, na mesma fantasia, a herdeira natural de fases anteriores, dos conhecimentos mesopotâmicos e gregos. A autora relata a história tradicional, mistificadora, e argui os fatos com cautela e ótima informação.

Mas o legal mesmo, para o leitor vadio que sou, é descobrir pérolas pelo caminho. Uma delas: ao repassar a história do indiano Baskhara (sim, o da fórmula aquela), o livro mostra em linguagem algébrica moderna aquela coisa toda, e depois reproduz o exemplo de um antigo livro indiano.

Assim, depois da aridez dos x, y e z, diz o exemplo: “De um enxame de abelhas, tome a metade, depois a raiz. Esse grupo extrai o pólen de um campo de jasmins. Oito nonos flutuam pelo céu. Uma abelha solitária escuta seu macho zumbir sobre uma flor de lótus. Atraído pela fragrância, ele tinha se deixado aprisionar na noite anterior. Quantas abelhas havia no enxame?”

Não é uma beleza? Toda uma ficção, com traços poéticos, para apresentar problemas matemáticos. (O resultado, para quem se interessa: são 72 abelhas, no total.)



04 de junho de 2013 | N° 11702
PAULO SANT’ANA

Esportivas

O notável cirurgião torácico José Camargo, que também é colunista de ZH, afirma que o problema do atual time do Grêmio está localizado na precariedade da preparação física. Camargo diz que foi um erro o Grêmio desfazer-se do preparador físico Paulo Paixão.

Já o gremistão Fernando Ernesto Corrêa diz que o problema atual do time do Grêmio é sua covardia tática, faz um gol e recua miseravelmente.

Não entendo como se levanta a dúvida sobre quem jogará amanhã contra o Vitória, se Kleber ou Welliton.

Pelo amor de Deus, é a hora do Kleber. Se ele não jogar agora, nunca mais jogará.

Justiça seja feita, Luxemburgo não tem essa dúvida. Se por acaso não escalasse Kleber, estaria delirante.

O Internacional não dá sorte com treinadores que foram ídolos do clube: Falcão não deu certo como treinador no Inter. O mesmo com Fernandão. O mesmo com Figueroa.

Paulo César Carpegiani também não deu certo treinando o Inter.

Minha pergunta: Dunga dará certo como treinador no Inter?

A regra a respeito tem sido quase sempre a seguinte: quem foi grande jogador será treinador medíocre, quem foi mau jogador, caso de Luiz Felipe e Luxemburgo, pode vir a ser grande treinador.

Faço um balanço sobre as duas contratações que ajudei a fazer no Grêmio: Dida vem se constituindo em figura ímpar, fez duas defesas espetaculares e milagrosas quando estava 0 a 0 contra o Santa Fe e se constitui em tranquilidade da torcida nas intervenções em bolas altas e reposição da bola.

Já com Barcos não acontece o mesmo: ele está jogando muito aquém do que rendia no Palmeiras. Não sei o que está acontecendo com Barcos, embora o esquema tático fajuto que o Grêmio está empregando não o ajude, tanto que ele recua lá para a meia-cancha em busca de maior participação.

Luxemburgo deu a entender que deverá poupar Elano e Zé Roberto neste Brasileirão, por vezes revezando-os, em face da veterania deles.

Não concordo a respeito de Elano, ele tem apenas 31 anos de idade, Ronaldinho Gaúcho tem 33 anos e é o melhor jogador brasileiro da atualidade. Consta que não foi convocado para a Seleção Brasileira apenas por motivos boêmios.

Então, que história é essa de poupar Elano?

Quanto a Zé Roberto, concordo. Ele tem 39 anos, foi garçom da Ceia de Cristo, merece certos descansos.

Ademais, jogador a ser poupado tem de ser o ruim.


Jogador ruim no plantel é um perigo, dali a pouco ele entra numa emergência e sempre nada resolve.

04 de junho de 2013 | N° 11702
DAVID COIMBRA

Contra Ibsen

Então bastou o Barcelona perder uma e o doutor Ibsen Pinheiro e todos os seus sequazes defensivistas saíram do tugúrio onde se escondiam e voltaram para a superfície de dedo em riste, bradando: “Eu avisei! Eu avisei!”

Doutor Ibsen. Francamente. Dias atrás, ele escreveu um artigo para Zero Hora. Texto iridescente, como só acontece com artigos de Ibsen, porém falacioso. Discorreu sobre o futebol enganoso (na opinião dele) do Barcelona. Chegou a afirmar que o toque impecável, plástico e inteligente (na minha opinião) do Barcelona disfarçava as deficiências ofensivas do time.

Deficiências que o Santos provou com regalo, na final do Mundial de Clubes, pouco tempo atrás. Deficiências que deram ao Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta e Guardiola dois Mundiais, duas Ligas dos Campeões da Europa, três campeonatos espanhóis, uma Copa da Europa e três Supercopas da Espanha, isso em três temporadas.

Mas, para Ibsen, supertime de verdade foi o que ele ajudou a montar, o Inter dos anos 70, que só não teria sido campeão do mundo porque na época não existia campeonato do mundo. Neste ponto, claro, Ibsen deixou-se ludibriar por seu coloradismo, abraçando a provocação de torcedores do Inter que dizem que Mundial, de fato, só vale o promovido pela Fifa, como se a Fifa fosse dona exclusiva e ciumenta do futebol.

Nos anos 70, houve campeões mundiais, sim, um deles o Bayern de Beckenbauer e Sepp Mayer. Que na final bateu o Cruzeiro de Joãozinho, Nelinho e Palhinha. Que foi campeão da Libertadores, título nunca conquistado pelo Inter de Falcão e Figueroa. Mas não quero descer ao submundo do bate-boca Gre-Nal, não me atraiam para esse pântano. Quero aproveitar para falar sobre o importante, sobre o cerne do artigo de Ibsen: os supertimes de futebol. Ocorre que são vários os supertimes, mas raros os übertimes, essa última categoria criada agora por mim.

Aquele Inter dos anos 70 foi um supertime, realmente. Mas não foi melhor do que o Cruzeiro de Palhinha e Joãozinho ou do que o Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes. Talvez tenha sido melhor do que a Academia do Palmeiras de Ademir da Guia, certamente foi melhor do que a Supermáquina do Flu de Rivellino, apesar de a Supermáquina ter Rivellino, e foi melhor também do que o Atlético Mineiro de Cerezo e do que o Botafogo de Jairzinho, mas, não tenho dúvida alguma, foi inferior ao Flamengo de Zico.

Nenhum time brasileiro dos anos 70 foi melhor do que o Flamengo de Zico. Agora, o Flamengo de Zico foi inferior ao Bayern de Beckenbauer e ao Ajax de Cruyff. Esses dois estão na categoria de übertimes, porque foram times que transformaram o futebol. E aí deparamos com o critério definitivo: os übertimes são os que mudaram o futebol.

Outros übertimes? O Honved, da Hungria, que tinha Bozsik, Czibor, Kocsis e Puskas, o Major Galopante, isso entre os anos 40 e 50. Seu sucedâneo foi o Real Madrid de, não por acaso, Puskas, mais Gento, que cobria 100 metros de grama em 10 segundos com a bola no pé, e Alfredo Di Stéfano, a Flecha Loira, que seus contemporâneos juram ter sido melhor do que Maradona. Depois desse, resplandece o Santos de Pelé, bicampeão do mundo em 62 e 63, passando por Bayern e Ajax, atravessando um deserto entre os anos de 80 e 90 e desaguando gloriosamente no Barcelona dos anos 10 do novo século.

Apenas seis übertimes. Times que transformaram o futebol.

E nós tivemos o privilégio de assistir ao Barcelona que mudou tudo, uma Revolução Francesa de chuteiras, um time que fez da posse de bola uma arma defensiva, que fez os adversários se transformarem em assistentes embasbacados do seu jogo macio, que amassou todos os inimigos com a facilidade de adultos enfrentando crianças, o Barcelona em que jogadores pequeninos bocejavam enquanto nocauteavam gigantes.

Nunca houve um time como o Barcelona. Nunca nenhum time negaceou, envolveu e subjugou o inimigo tão docemente como o Barcelona, como uma mulher de olhos tristes.


Porém, ah, porém, o Barcelona é formado por homens. E, por certo momento, sem Guardiola e sem Messi, passou por breve crise, tornando-se alvo dos defensivistas. Ora, qualquer grupo humano, por qualificado que seja, passa por crises. Até os Beatles passaram por crises. Pois o Barcelona são os Beatles do futebol. Não me venha Ibsen Pinheiro com seus Phill Collins.

04 de junho de 2013 | N° 11702
MARIO CORSO - interino

Câmeras na escola

Entrei na escola com cinco anos. Fui sempre o mais novo da turma, tinha entre um e dois anos menos do que os colegas. O físico tampouco ajudava, franzino e míope. Não venham me ensinar o que é bullying, sei o que é ir para a aula e enfrentar o pátio. Isso me tornou sensível a propostas que tentam diminuir o mal-estar na vida escolar. A discussão sobre o uso de câmeras nas escolas me tocou.

As câmeras de vigilância estão em todos os lugares. No começo, a novidade incomodava, evocava um mundo controlado, totalitário. Mas logo nos demos conta de que elas inibem e esclarecem crimes, ajudam em coisas prosaicas como controlar o trânsito. É uma vigilância barata, segura, muitas mais virão.

Porém, a presença de câmeras na escola coloca outras questões. O objetivo seria o mesmo, proteger e prevenir. As intenções são louváveis, mas elas esquecem um fator fundamental: a escola é a primeira socialização não controlada pelos pais e é necessário que assim seja.

Com o olhar vigilante e onipresente da família, não se cresce. Crescemos quando resolvemos sozinhos nossos problemas, quando administramos entre os colegas as querelas nem sempre fáceis. Entre as crianças, inúmeras rusgas se resolvem sozinhas, os pais nem ficam sabendo, e é ótimo que assim seja.

O bullying deve ser combatido, mas não dessa forma. O preço a pagar pela suposta segurança compromete a essência de uma das funções da escola, que é aprender a viver em sociedade sem os pais e a sua proteção, evocada pela presença da câmera.

Na sala de aula e no pátio da escola, cada um vale por si. É preciso aprender a respeitar e ser respeitado. Nós todos já passamos por isso e sabemos como era difícil. Não existe outra forma, é isso ou a infantilização perpétua. A transição da casa para a escola nunca vai ser amena.

Essa proposta de vigilância não se ancora em razões pedagógicas, e sim na angústia dos pais em controlar seus filhos. Não creio que seja a escola que reivindica câmeras, mas quem a paga. São os pais inseguros que querem estender seu olhar para onde não devem.


Existe uma correlação forte entre pais controladores e filhos imaturos, adolescentes eternos que demoram para assumir responsabilidades. É possível cuidar dos nossos filhos mesmo permitindo a eles experiências longe dos nossos olhos. A escola é deles, esse é o seu espaço e seu desafio. A escola ajuda seus filhos a crescer e eles não estão sozinhos, os professores estão lá, acredite neles. Puxe da memória, muito do que somos foi por ter enfrentado o pátio.

segunda-feira, 3 de junho de 2013


A CORAGEM DE ADRIANA LINS DE OLIVEIRA BEZERRA

JUIZA DE CAJAZEIRAS É CONTRA A BOLSA FAMÍLIA E DIZ POR QUE !

Apenas a título de esclarecimento, aos que respeitam opiniões contrárias, e apenas a esses, é que escrevo agora. Fui alvo de críticas e agressões acerca de minha opinião avessa ao Bolsa Família, programa criado pelo Governo Federal há 10 anos. Grande parte optou por uma justificativa simplista: - “ é rica, juíza, elite, fala porque nunca passou necessidades, nunca passou fome...”.

Pronto, essa justificativa encerra a questão e resolve o problema. É uma idiota que nada sabe sobre a vida. Apenas a título de informação saibam que não sou rica, nunca fui e nunca serei. 

Meu salário é bom, e com ele, se Deus quiser, nunca passarei fome nem necessidade, mas lutei por ele, e como lutei. Sofri, estudei, trabalhei e lutei, repita-se. Mas isso é uma outra história que em outro momento, se interessar a alguém, posso contar.

Contudo, existem outros motivos que levam as pessoas a formarem suas opiniões que não necessariamente as suas condições financeiras. Nunca passei fome, graças a Deus e ao trabalho de meus pais, mas da mesma forma que nunca faltou, também nunca sobrou.

Trabalho desde os 18 anos de idade, quando me submeti a concurso público e fui ser funcionária pública, trabalhar oito horas diárias e ganhar menos do que um salário mínimo, apesar da Constituição Federal já vedar tal conduta. Mas como já disse, isso é uma outra história.

O final de semana passado retrata exatamente um dos fatores que me levam a formar a opinião que tenho. Um simples “boato” de que o Bolsa Família iria acabar foi suficiente para causar um caos em várias agências da Caixa Econômica Federal. Uma pessoa me disse que teve que pedir dinheiro emprestado para sair do seu sítio para receber o bolsa família que “ía acabar”...

A pergunta é: de que viveriam essas pessoas se o bolsa família acabasse? A minha resposta: passariam ainda mais fome do que tinham quando começaram a recebê-lo. E sabem porque? Porque agora, com a certeza do “benefício”, não se propõem mais a trabalhar, ou estudar ou se profissionalizar. Enfim. Estão escravizados.

É a isso que me oponho. Quando esse programa foi implantado a situação das pessoas era caótica, lastimável. Essas pessoas estão sendo tratadas como inúteis, incpazes. A partir do momento em que se implanta um programa de assistência sem uma política paralela de reestruturação, capacitação para restabelecimento de condições de trabalho, auto sustento, enfim, de independência, ou se considera que essas pessoas não tem capacidade para tanto ou não se está querendo ajudar, mas tão somente escravizar. É no que acredito.

A ONU, embora elogie o programa, critica o assistencialismo e o apelo político que ele gera. Segundo essa Organização o programa rendeu muita popularidade e votos, mas as DESIGUALDADES continuam elevadas com pequenos progressos.

Como programa de caráter EMERGENCIAL, o Bolsa Família foi importante, mas onde está a inclusão socieconômica sustentável das populações? O saudoso Luiz Gonzaga já dizia em uma de suas canções, de composição com Zé Dantas: - “Seu Doutor uma esmola para o homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão...”. 

É nisso que acredito muito antes de me tornar Juíza. A Coordenadora do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil afirmou que da forma como o programa funciona, não tem sido útil para identificar e retirar as crianças do trabalho e que esse programa não tem impacto nenhum na redução do trabalho infantil.

Vejam a entrevista de Frei Beto ( que não é juiz), um dos líderes do Fome Zero e me digam o que acham. O programa existe há 10 anos e pouquíssimo foi mudado na vida dessas pessoas. O que foi feito de efetivo para reestruturar essas  famílias?

Visitem as casas dessas pessoas e me digam o quanto mudou! Enquanto apresentam índices de redução de evasão escolar, em razão do Bolsa Escola, os adolescentes que passam pela Vara que ocupo não sabem a data de seus nascimentos, não sabem o seu nome completo, não sabem o nome de seus pais e, pasmem, não tem a menor ideia de seus endereços. Que noção de civilidade esses meninos tem? Esses mesmos meninos que estão querendo jogar na prisão!?!

Quem ou QUE vai dar essa noção de civilidade senão um programa SÉRIO de educação, capacitação, dignificação das pessoas? Bolsa família não dignifica. Escraviza. É o que acho.
As pessoas se tornam escravas da vontade política e não formadoras dessa vontade. E isso para mim é um =FAZ de CONTA, SIM=.

Não disse que a Presidente era um faz de conta. Disse que o Brasil é um País de faz de conta. Defender a redução da maioridade penal é um exemplo disso. Defender a pena de morte também. Fazem de conta que isso vai resolver a criminalidade e não vai. Da mesma forma que fazem de conta que cumprem o ECA, que existe há mais de vinte anos, e não cumprem. Nunca cumpriram.

Como eu posso cobrar de alguém a quem eu nunca dei a chance? As pessoas não podem viver de esmolas. Precisam aprender a andar com as próprias pernas e precisam saber que isso é responsabilidade delas também.

É dever dos Governos Federal, Estadual e Municipal oferecer essas condições e dos cidadãos escolher uma delas e seguir suas vidas com a dignidade que cada profissão oferece, porque todas a tem.

Vejo mulheres jovens e saudáveis pedindo dinheiro nas ruas. Cada uma com seus três ou quatro filhos. Mas nenhuma pede um emprego. Porque?

Os senhores tem  ideia de quantos cartões desse programa estão nas famosas “Bocas de fumo”? Vejo homens jovens e saudáveis nas portas dos bares ou papeando nas esquinas em pleno dia da semana. Porque não estão trabalhando? Qual o trabalho que as políticas públicas oferecem ou a capacitação?

É certo que existem alguns programas profissionalizantes. Mas são tímidos, limitados, e não recebem a milésima parte do investimento que o programa de “caridade” gasta. A quê isso vai nos levar, senhores? A quê nos levou até agora? Como estão essas pessoas? Sem fome? Tem certeza que R$ 130,00 (cento e trinta reais) realmente mata essa fome?

Não sou contra partido político algum. Sou contra políticas públicas inúteis e danosas ao futuro da nossa Nação. Sou e serei sempre. É a minha opinião senhores. Respeitem. Discordem, mas respeitem. E não sejam tão simplistas assim. As coisas não são simples e não podem ser “explicadas” dessa forma principalmente por quem não me conhece.

O homem precisa ser dignificado e não escravizado. As pessoas continuam sofrendo com a seca absolutamente TODOS OS ANOS HÁ DÉCADAS. - E o que foi feito de política de irrigação, de política que permaneça que se perpetue e que de fato transforme a vida do sertanejo?

É contra isso que sou. Sou Nordestina com muito orgulho e me sinto humilhada com notícias como as que passaram no Jornal Nacional com pessoas “famintas” na porta do Banco para receberem suas migalhas.

Não precisamos disso. Somos inteligentes e capazes. Temos força e vontade de trabalhar. Só precisamos de oportunidades e onde elas estão? Onde está a água das chuvas do ano passado? Bem. Não sei se melhorei muito a situação. Mas não foi essa a minha intenção. Precisava apenas explicar os meus motivos.

Aos que me criticaram com decência, fico com as críticas para refletir sobre elas na construção de minhas opiniões futuras. Aos que apenas me agrediram, fico com a dor que me causaram e com o consolo de que o tempo cura quase tudo. Aos que perderam alguns minutos de suas vidas para lerem essa minha resposta. Agradeço a atenção.

A todos. Reafirmo. Esta é a minha opinião. Não a de uma Juíza, mas a de uma mulher que quer muito mais do que ESMOLAS para o cidadão brasileiro e, principalmente, para os jovens adolescentes. 

Que Deus esteja conosco!
Cajazeiras – PB, 26 de maio de 2013.

Adriana Lins de Oliveira Bezerra - Juíza de Direito, Eleitora e Cidadã

Chris Rea Wonderful Life

Enya – Fairytale

CIRQUE DU SOLEIL - Alegria

THEN & NOW Part 2



03 de junho de 2013 | N° 17452
ARTIGOS - Paulo Brossard*

E agora, José?

Desde o começo da atual crise econômica, as autoridades do Hemisfério Norte externaram suas preocupações a respeito da gravidade da crise, de modo a preparar a opinião de seus países quanto a medidas que teriam de ser adotadas; as nossas, sem excluir a senhora presidente da República, manifestaram-se quase com desdém acerca do problema, afirmando que o Brasil vencera com tranquilidade a de 2008 e com maior razão superaria a emergente, porque suas condições agora eram muito maiores e melhores do que naquela emergência.

Os dias se passaram e algumas dificuldades começaram a pipocar, mas as nossas autoridades continuaram a mostrar a mesma tranquilidade ou imobilismo, só quebrado com a implacável rebelião dos fatos.

O primeiro deles, salvo engano, quando da denominada desindustrialização do setor siderúrgico, a receber o cataplasma do alívio fiscal e o conforto do socorro creditício. Ocorre que os casos agudos foram surgindo e a eles estendido o remédio rotulado de desoneração fiscal. A medida era de efeito pronto, mas, obviamente, não teria duração indeterminada; de mais a mais, a medida é emergencial e um dia terá de acabar; e o setor beneficiado poderá suportar a supressão do benefício?

Desde logo é de ser notado que a desoneração já produziu outros efeitos, a arrecadação federal caiu e não foi pouco. Dir-se-á que uma certa retração econômica também terá influído nesse resultado e não seria eu a contestar o fato. Ambos os fatos, senão ainda outros, terão contribuído para a consequência inegável e reconhecida, a arrecadação federal encolheu. E isso não pode ser ignorado indefinidamente. Enquanto isso, acerca de reforma tributária nenhuma palavra.

Como os nascituros não esperam para nascer, os fatos passaram a ocupar o palco dos acontecimentos, sem hora marcada. Um deles, na minha opinião, foi o que tomou conta do cenário dada sua realidade, objetividade e notoriedade; tornou-se sabido e ressabido que os nossos bens industrializados deixaram de possuir competitividade no mercado externo, até no mercado interno em relação a bens importados. Não se trata de opinião, mas de fato. É evidente que a indústria nacional não poderá sofrer diante dessa realidade e como ela outros setores, dada a óbvia correlação de fatores de organização econômica nacional. E então?

Os juros, que de outubro de 2012 a março do corrente ano se mantiveram em 7,25%, passaram a 8% e é admitida nova ou novas majorações.

Há outro dado que me passou inquietante, a notícia divulgada, faz poucos dias, foi breve e amarga. No ano findo, o setor industrial registrou o pior resultado desde 2006. Suponho seja desnecessário insistir no assunto. A evidência dispensa provas e demonstrações.

Eis senão quando, no feriado de Corpus Christi, os meios de divulgação publicaram as novidades de véspera; três jornais que tive em mãos, a Zero Hora e dois de São Paulo, o Estadão e a Folha, estamparam em suas primeiras páginas manchetes praticamente iguais; a ZH: “PIB decepciona, juro sobe e dólar dispara”; a Folha de S. Paulo: “PIB decepciona, mas Banco Central aumenta juros ainda mais”; o Estado de S. Paulo: “O PIB decepciona, mas Banco Central eleva juros para conter a inflação”, salientando que não há espaço no orçamento para nova desoneração de imposto, gerando o declínio da arrecadação.

A sagaz e criteriosa Eliane Cantanhêde resumiu tudo nesta frase: “Parece que está morrendo na praia aquela onda de Brasil Grande”.

Enfim, o ministro da Fazenda, cuja impassibilidade marmórea é proverbial, aludiu à reforma de seu plano.


*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF

03 de junho de 2013 | N° 17452
CÍNTIA MOSCOVICH

Meu sangue ferve por você

Tem gente que acha que as coisas engraçadas não são sérias ou graves – como se o legitimamente engraçado não fosse absolutamente sério e grave.

Pensei nisso, no peso das coisas risíveis, quando, faz pouquinho tempo, a Claudia Tajes anunciou no Facebook que tinha entregue os originais de seu nono livro, Sangue Quente. Ainda não li a nova cria, mas sei que, como todos os outros livros da Tajes, Sangue Quente vai ser um lançamento de arromba, para dizer o mínimo dos mínimos.

Sei também que a própria Claudia, naqueles acessos de genuína modéstia que lhe são característicos e quase se desculpando por fazer os outros se divertirem, vai considerar o livro mais um acidente de percurso do que, digamos, “literatura séria”.

(O modus vivendi claudiano tem disso: de chamar de “livrinho” joias que qualquer autor adoraria assinar, de não dar a mínima para rapapés e de olhar o mundo de uma perspectiva oblíqua e quase absurda de tão verdadeira. A Claudia não se leva a sério por pura sanidade.)

Daí que me bateu a saudade de Por Isso Eu Sou Vingativa, de 2011, que li, claro, numa única madrugada, entre gargalhadas e comiseração. A protagonista, Sara Gomes, uma moça que trabalha na lavanderia da família, decide dar o troco aos homens que a magoaram no passado. São oito enredos de vingança terríveis, romances frustrados à base de humilhações e crueldades, histórias tão horrorosas quanto ridículas.

O texto é de uma simplicidade, de um humor, de uma ironia, de um tudo da melhor extração, porque se passa dentro do verossímil, do sujo, do baixo, mas sem um pingo de apelação.

Claudia denuncia os fiascos amorosos e familiares de todo mundo, toca no carne viva das frustrações, no núcleo da vergonha e celebra o inconfessável sabor da vingança. Dá até para a gente pensar que é possível restabelecer a autoestima de uma mulher através de acertos de contas temporões. O pior é que ela faz tudo isso como se lidar com a linguagem fosse fácil e como se escrever não demandasse esforço. É quase impossível mas é o que ela tem realizado desde a estreia, com Dez (Quase) Amores, de 2000.


Esperemos por Sangue Quente (que tem o subtítulo de Contos com Alguma Raiva), com a certeza de que o melhor – e o mais bem-humorado – da literatura brasileira está por vir. Coisa muito séria.

03 de junho de 2013 | N° 17452
PAULO SANT’ANA

Os animais falantes

O Ministério da Saúde divulgou na semana passada um levantamento bombástico: faltam 50 mil médicos no Brasil.

E o mesmo Ministério da Saúde é até modesto: só quer importar 6 mil médicos.

O Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers) divulga 20 vezes por dia na Rádio Gaúcha o seu slogan-chefe: “Não se faz medicina sem médicos”.

Ora, se o Cremers afirma que não se faz medicina sem médicos, então como é que ele é contra a importação de médicos, se há falta de 50 mil deles no Brasil?

É a mais berrante contradição que já vi em toda a minha vida.

Ora, se não se faz medicina sem médicos e há falta de 50 mil médicos no Brasil, a conclusão é de que não se faz medicina no Brasil.

Como não importar médicos para só então fazer medicina no Brasil?

Não estou falando, obviamente, da enorme e eficiente medicina que os médicos brasileiros fazem nos grandes centros.

Mas é que lá no interior do Brasil, nos grotões, não tem medicina. E tem de ter.

O grande e maior pensador brasileiro, Millôr Fernandes, saiu-se com este genial pensamento: “Uma coisa é certa: se os animais falassem, não seria conosco, os homens, que eles iriam bater papo”.

Esse pensamento de Millôr dá o que pensar. Em primeiro lugar, se a natureza já contemplou os animais com os maus-tratos a que são submetidos pelos homens, não reservaria um castigo ainda maior para eles: o de ter de conversar conosco, falar conosco. Só ouviriam besteiras.

A segunda impressão é de que os animais falam, sim, senhores, mas entre si. Eu tenho curiosidade para saber o que eles falam entre si. Certamente se referem frequentemente às bestialidades que os homens cometem contra os animais.

Se as baleias, por exemplo, falassem, de que adiantariam seus oceânicos discursos dirigidos aos homens no sentido de que cessassem de dizimá-las como fizeram e fazem há milhares de anos. Bilhões de exemplares de baleias já foram mortos pelos homens. Se elas falassem, seríamos surdos aos seus apelos de sobrevivência.

Se os macacos falassem, certamente seriam os seres mais inteligentes sobre a Terra. Sem falar, eles já quase encostam nos homens em inteligência.

Se os cães falassem, ou escutassem a linguagem humana, acabaria essa imbecilidade nossa de amarrá-los em guias e coleiras. E, se os pitbulls falassem, quem sabe se não seriam menos ferozes, já que pediríamos explicações a eles sobre o morticínio que praticam contra crianças, idosos e pessoas em geral.

E, se os donos de pitbulls falassem, eles teriam de explicar como é que podem criar esses exterminadores do meio social.


E, se os animais falassem e os homens não, hoje a supremacia entre os seres seria dos animais sobre os homens, certamente.

03 de junho de 2013 | N° 17452
L. F. VERISSIMO

Touradas

A alma ibérica se divide em duas, uma mais caliente e a outra menos. Portugal é uma Espanha ponderada. A divisão está evidente na tourada, essa metáfora para todas as dicotomias humanas. Na Espanha matam o touro, em Portugal apenas o irritam. Ainda não se chegou a um acordo sobre o que, exatamente, toureiro e touro simbolizam. A metáfora não é clara. Razão x instinto? Cultura x natureza?

Civilização x força bruta? Ou – como li em algum lugar – tudo não passa de um ritual de sedução, com o Homem subjugando a Mulher, a Besta Primeva e todos os seus terrores, numa espécie de tango sangrento em que não falta uma penetração no fim? Ou o toureiro gracioso é a mulher estilizada e o touro resfolgante uma paródia de homem? Enfim, seja o que for que se decide numa arena de touros, os espanhóis terminam o ritual, os portugueses deixam pra lá.

Na Argentina, os líderes militares da época da repressão foram processados e as atrocidades cometidas pela ditadura punidas, ou pelo menos amplamente discutidas. No Chile, aos poucos a história ainda mal contada do governo Pinochet se incorpora à história oficial do país – para ser reconhecida e expiada, para que reconciliação não signifique absolvição e para que nunca mais se repita.

No Brasil, a repressão foi menos assassina do que na Argentina e no Chile – se é que se pode falar em graduações de barbaridade – e ninguém ainda teve que dar muitas explicações. No caso, a simpática irresolução portuguesa desserve a História. Pois, se o touro continua vivo, o que há para expiar? Aqui, até agora, venceu o deixa-pra-lá-ismo.


Já que temos que ser ibéricos, o que é melhor, ser português ou espanhol? Os espanhóis parecem viver mais perto do coração selvagem da vida. Os portugueses preferem menos drama e menos sangue. Voltando ao touro: uma tourada espanhola sempre acaba com o animal morto, com uma resolução. Uma tourada portuguesa pode ser um espetáculo emocionante, mas o touro sobrevive e nada se resolve. E ainda se discute se convém irritar o touro.

domingo, 2 de junho de 2013

Mude — este é o Segredo Sagrado!

MUDE — um poema de Edson Marques

Rolando Boldrin declamando linda poesia sobre a amizade....


MUDE — Todo trabalho tem que ser um Jogo — Prazerosíssimo.
FERREIRA GULLAR

No limite

Matam mesmo quando o assaltado não oferece resistência. Matam para matar, por nada, para nada

O que, afinal, está acontecendo? Em três meses, milhares de motocicletas são roubadas em São Paulo, centenas de residências e transeuntes são assaltados, trabalhadores, mulheres e pais de família são assassinados com uma frequência assustadora. Viver em São Paulo tornou-se risco de morte, é isso? Quer dizer, então, que a cidade está em guerra?

Pior: a cidade está ocupada por bandidos armados que surgem a qualquer momento e em qualquer ponto dela, empunhando fuzis, armas automáticas, decididos a tirar a vida de qualquer um.

Pelo modo como agem, parecem particularmente empenhados em matar, como se isso lhes desse especial satisfação. Matam mesmo quando o assaltado não oferece resistência. Matam para matar, por nada, para nada.

Mas por que razão agem assim? Uma hipótese é a de que estejam drogados, por ser difícil admitir que sejam todos homicidas natos.

Sou da teoria de que o cara nasce poeta e nasce homicida. Digo isso porque sei de gente que em hipótese alguma admitiria tirar a vida de alguém, enquanto outros, a primeira coisa em que pensam, se alguém os ofende, é acabar com ele. Felizmente, raras pessoas são assim.

Daí levantarmos a hipótese de que, se tantos assaltantes matam gratuitamente, é por estarem fora de si, drogados.

Aliás, a droga é um dos motivos que levam aos roubos e assaltos. Com frequência, a polícia, quando prende assaltantes, encontra drogas com eles. Isso explica parte do terror que assusta a cidade, mas não explica tudo.

Não explica, por exemplo, ações criminosas levadas a cabo por verdadeiras equipes de bandidos, munidos de armas pesadas, sofisticadas, obedecendo a um plano minuciosamente traçado.

Quando a polícia chega à sede da quadrilha, depara-se com vasta quantidade de armas, munições e até planos de ação cuidadosamente elaborados.

Esses dados parecem indicar que, fora os bandidos comuns e os drogados, há organizações criminosas, diferentes das antigas quadrilhas do passado: estas de agora se valem de novos recursos teóricos e tecnológicos, que fazem delas organizações eficazes.

Além dos novos meios de comunicação e um conhecimento detalhado do aparelho repressivo, de que dispõem, parece-me haver, em algumas delas, pelo menos, a ação organizada e planejada, apoiada em uma infraestrutura capaz de acumular o produto roubado para vendê-lo, mais tarde, dentro de um esquema que inclui o comércio legal.

Do contrário, como se explica a descoberta frequente de galpões e armazéns cheios de mercadorias roubadas, numa quantidade que tornaria inviável comercializá-las, a não ser com apoio num sistema legal de comércio?

Ou seja, nestes casos, legalidade e ilegalidade se confundem, ou melhor, o comércio legal se alia ao crime e lucra com isso. Trata-se, portanto, de um tipo de criminalidade bem mais ameaçadora, porque capaz de minar a estrutura social e corromper setores inclusive responsáveis pelo combate ao crime, incluindo aí os aparelhos policial e judicial.

Estas são algumas considerações e especulações de alguém que não é especialista no assunto, mas que foi levado a refletir sobre o problema.

Não tenho dúvida de que as autoridades responsáveis pelo combate à criminalidade, em São Paulo e no país, estão igualmente preocupadas e buscando solução para tão grave problema.

Mas isso não basta para tranquilizar as pessoas. Ouvi, outro dia, na televisão, um cidadão afirmar que nem ele nem qualquer membro de sua família sai mais à noite, seja para ir ao cinema seja para jantar num restaurante.

Significa que os cidadãos são agora reféns dos bandidos? Isso se torna tanto mais assustador quando se sabe que o Brasil mesmo, como país, é um dos mais violentos do mundo. Li que se mata mais gente aqui do que na guerra civil da Síria.

É hora, portanto, de o governo, em suas diferentes instâncias, buscar com seriedade a solução desse problema.

Não por acaso, faz poucos dias, o governador de São Paulo admitiu quanto é grave a situação, tanto que anunciou um programa de combate à criminalidade, prevendo bônus aos policiais que mais se empenharem no combate ao crime, além da ampliação do efetivo policial. Tais medidas não solucionarão o problema, mas, pelo menos, implicam o reconhecimento de quão grave ele é.


MAURICIO STYCER

Renovar ou repetir?

Depois de "Salve Jorge", há alívio no ar com perspectiva de que "Amor à Vida" seja, ao menos, decente

Neste ano comemoram-se 50 anos da primeira telenovela exibida de forma diária no Brasil, "2-5499 Ocupado", um texto argentino adaptado por Dulce Santucci, com Tarcísio Meira e Glória Menezes como protagonistas, exibida na TV Excelsior entre julho e setembro de 1963.

Não cabe aqui descrever a rica história do gênero no Brasil, onde adquiriu uma especificidade única, nem detalhar as diferentes etapas do seu desenvolvimento, quase sempre em paralelo com o próprio país.

O fato é que a novela, desde o início da década de 1970, tornou-se o principal produto da televisão, e ainda hoje ocupa um espaço notável no cotidiano do brasileiro.

Item mais nobre desta indústria, a chamada "novela das oito" (hoje, "das nove"), da Globo, é uma espécie de instituição nacional há mais de 40 anos. Mesmo com a audiência em queda, sofrendo a concorrência de outras mídias, ela permanece como referência em matéria de entretenimento.

Veja, por exemplo, "Salve Jorge", encerrada há duas semanas, depois de acumular as mais baixas audiências da história neste horário. O último capítulo registrou 46 pontos no Ibope (cada ponto equivale a 62 mil domicílios na Grande São Paulo), sendo responsável por 76% dos aparelhos ligados no horário. Para um fracasso, os números impressionam.

A novela de Gloria Perez foi um ponto fora da curva não apenas em matéria de ibope. "Salve Jorge" destoou, também, de um movimento, que parece em curso, de renovação do gênero. Mesmo que não tenha uma política clara neste sentido, a Globo tem apoiado produções nitidamente destinadas a dar um novo impulso à indústria.

"Cordel Encantado" (2011), "Avenida Brasil" e "Cheias de Charme", ambas em 2012, apresentaram novidades interessantes e, em alguns aspectos, fixaram novos padrões. A primeira mostrou o potencial de uma história mágica filmada com técnicas de cinema. A segunda introduziu padrão de seriado americano em um novelão. E a terceira contou uma história infantil em ritmo de internet.

Não bastasse, os três folhetins chamaram a atenção pela qualidade dos textos, o cuidado com a produção e os elencos bem dirigidos.

"Avenida Brasil" e "Cheias de Charme", cada uma à sua maneira, conseguiram ainda retratar o fenômeno de mobilidade social vivido pelo país nos últimos anos.

Exibida logo depois de "Avenida Brasil", "Salve Jorge" passou a impressão de ser uma novela do século passado. Fiel ao estilo que a notabilizou a partir da década de 1990, Gloria Perez propôs, mais uma vez, o que a crítica Esther Hamburger chama de "novelas de intervenção" ""histórias calcadas em situações reais, destinadas a mobilizar a população e prestar serviços"" sem se dar conta de que isso já não é mais tão necessário nos dias de hoje.

Depois deste "desastre" há um clima de alívio no ar com a perspectiva de que "Amor à Vida" seja, ao menos, uma novela decente.

Walcyr Carrasco está imprimindo ritmo alucinante à trama, o que mostra sensibilidade às demandas do espectador atual. Também tem recorrido a diferentes "golpes baixos" (vilão gay, discurso contra aborto, participação especial de Neymar), mas parece-me não ter nada de novo a dizer. Seu objetivo, dá a entender, é apenas o de recuperar a audiência perdida por "Salve Jorge".


mauriciostycer@uol.com.br
JOSÉ SIMÃO

Disparada Gay! Cadê o Feliciano!

Acho hilárias aquelas bichas evangélicas que viraram homens. Viraram héteras. Héteras de Jesus! Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Hoje é Corpus Alegres! Parada Gay! Ops, Disparada Gay. Porque gay não tem parada nem pra tirar foto 3x4!

E este ano vai ser: Viva Daniela Mercury! Fora Feliciano! A Daniela arrombou o armário e jogou do décimo andar. E Feliciano? O pastor da chapinha? O Feliciano vai pra Parada Gay fantasiado de armário!

Já imaginou o Feliciano de chapinha, em cima dum trio elétrico, fantasiado de armário? E depois esticar a noite assistindo a um show da Preta Gil na The Week! Bolsonaro não vai porque foi pescar com o Ricky Martin e o Elton John! Todo pitbull é uma Lassie enrustida!

E um cara postou no Twitter: "Na física, Lei de Newton. Na lógica, Lei de Murphy. E na Parada Gay, Lady Gaga". A Lei da Lady Gaga.

Treze quilômetros de biba. A maior minoria do planeta.

E eu conheço uma rua perfeita pra estacionar pra Parada Gay. Aquela rua atrás do Masp: Professor PICAROLA! Como diz aquela biba: "Gostei dos dois!". Rarará.

E sabe como se chama Parada Gay em Portugal? Portugays! E acho hilárias aquelas bichas evangélicas que viraram homens. Viraram héteras. Héteras de Jesus!

E aquele ex-gay pastor e deputado baiano pelo PSB revela: "Não posso ficar perto de homem, a carne é fraca". Então, não é ex-gay. A cura saiu pela culatra. Rarará!
E a maior biba do mundo foi Santos Dumont. Que adorava voar! Rarará!

E com toda essa confusão, a Caixa devia gravar outro comercial: "O Dudu tá lendo errado". Rarará! E tô adorando o Aécio contando piadas no intervalo da novela. Concorrência com o Ary Toledo!

E o site "Sensacionalista" revela a estratégia do Barcelona pro segundo semestre: o Neymar cava o pênalti e o Messi bate! Rarará. É mole? É mole mas sobe!

E eu tenho uma amiga tão carente que se apaixonou pelo telemarketing! "Você é muito importante para nós." Aí, ela acreditou, chorou e se apaixonou!

E o Daniel continua se esgoelando na abertura da novela: "Grita! Grita! Grita!". E mais um predestinado. Um guarda municipal em Curitiba chamado Guardiano! Rarará!

Nóis sofre mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!


simao@uol.com.br