sábado, 5 de agosto de 2017

ANTONIO PRATA

ESTRANHOS NO NINHO

Infiltrados no bolo

Garotos se veem, trocam seus bolos de figurinhas e, lado a lado, escolhem as que lhes faltam

Não sei se marcam via redes sociais ou se a aglomeração surge espontaneamente, todo domingo, diante da banca. Sei é que se trata de um movimento horizontal, sem lideranças e composto, majoritariamente, por jovens. Oito, nove anos, na média, e é bonito de ver como, já nesta tenra idade, praticam o coletivismo no melhor espírito Occupy: os garotos se encontram, trocam seus bolos de figurinhas e, sentados no meio-fio, lado a lado, escolhem as repetidas que lhes faltam.

A etiqueta, logo entendi, era dar o mesmo número de figurinhas que se pegou, mas a maioria das crianças não estava nem aí para questões contábeis. "Você ainda não tem o Messi?!", berrou um garotinho, ao ver meu álbum, meteu a mão no bolso e me deu o camisa 10 da Argentina. Ofereci meu bolo, mas ele o recusou: "Já completei", disse, magnânimo e --não pude deixar de notar-- um tanto condescendente com este colecionador bissexto que, dez dias antes da Copa, só tinha preenchido o Irã.

Pensei em explicar que neste país os adultos deixam tudo pra última hora, mas que diante daquele feirão de trocas eu me enchia de esperança. Até a morte do bafo me pareceu justificada, como se obter figurinhas estapeando-as contra o chão fizesse parte de uma etapa ultrapassada do capitalismo, onde os mais hábeis (ou de mãos mais suadas) acabavam rapelando os menos favorecidos pela técnica (ou pelas glândulas sudoríparas). Foi então que chegou o sardento --e a esperança se foi.

Trocados nossos bolos, comecei a folhear meu álbum. "Nossa, cê não tem o Neymar?!", perguntou o moleque. "Não. Cê tem?". "Ahã. Tenho sete, mas meu pai não deixa eu trazer as do Brasil, ele diz que é valioso". "Hum". "Nossa, cê não tem a brilhante da Espanha?!". "Não, cê tem?". "Ahã, tenho três, mas meu pai não deixa eu trazer as brilhantes, ele diz que é valioso". Aos poucos, fui percebendo que o bolo do sardento era o ralo do volume morto da Cantareira: só dava zagueiro da Costa do Marfim, goleiro da Suíça, reserva do Japão.

Peguei algumas de que precisava e disse pra ele fazer o mesmo com as minhas. Só que, em vez de abrir seu álbum, ele abriu foi um sorriso --um sorriso corrupto, devo dizer-- e passou a tirar do meu bolo tudo o que era brilhante, jogador do Brasil, da Espanha, da Itália. Deus do céu, cadê os pais dessa criança?! --pensei, mas não por muito tempo: "Aê, filhão, tá esperto, hein?!", soou a voz, orgulhosa, atrás de mim.

Enquanto o garoto dilapidava meu bolo, fiquei olhando o pai, com ódio e tristeza: quando a gente começa a ter fé no futuro do Brasil, surge o atraso e nos brinda com um chubaba. Meu consolo é acreditar que sardentão e sardentinho não foram lá trocar figurinhas: eram P2, PMs infiltrados para deslegitimar o movimento.


¡No pasarán!

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