quarta-feira, 28 de março de 2018


28 DE MARÇO DE 2018
NÍLSON SOUZA

Robôs e realezas


Pelo que tenho visto e ouvido, a batalha final da política brasileira não será entre arremessadores de pedras e ovos nem entre portadores de foices e martelos, mas, sim, entre robôs. Todo dia, tem notícia sobre robôs cibernéticos que propagam falsidades, tanto para promover seus preferidos quanto para destruir inimigos.

Pior: não são máquinas com formato humano, como aqueles simpáticos bonequinhos japoneses ou monstruosos transformers de filme, que poderíamos facilmente identificar e ao menos tentar fugir deles. Os novos e ameaçadores vilões disfarçam-se de algoritmos, aquelas equações incompreensíveis para os mortais comuns, que servem para solucionar alguns problemas e criar outros ainda maiores.

São cada vez mais frequentes os alertas sobre as armadilhas das redes sociais, que parecem operar como os dementadores de Harry Potter. Oferecem-nos a maçã envenenada do acesso fácil e da comunicação plena apenas para sugar nossos dados, nossos pensamentos e a nossa vontade.

E, em breve, também o nosso voto. Já estou ficando preocupado. Do jeito que está indo a coisa, vou acabar votando sem querer em alguma mistura de mal com atraso e pitadas de psicopatia.

Vade retro, Zuckerberg!

A rainha ganhava menos do que o príncipe. Foi um escândalo quando os produtores da premiada série The Crown, que conta a história de Elizabeth II, da Inglaterra, revelaram que o salário da atriz Claire Foy, intérprete da soberana, era menor do que o de Matt Smith, ator que faz o papel do príncipe Phillip, marido da monarca.

A patrulha das redes sociais partiu com tudo para cima do ator, exigindo que ele doasse a diferença salarial para uma organização que combate abusos sexuais. Porém, os responsáveis pelo filme saíram em defesa dos seus artistas, assumindo a responsabilidade pela disparidade salarial e garantindo que um nem sequer conhecia o salário do outro. Antes de pedirem desculpas, ainda lembraram que a discrepância não se deu por motivos de gênero, mas porque Smith era mais famoso quando foi contratado.

Ainda assim, em tempos de igualdade de gênero, a escorregadela escancarou a histórica discriminação profissional das mulheres em relação aos seus companheiros de trabalho. E, para quem acompanha a série - como este escriba, cativado pelo olhar azul e pela interpretação magnífica de Claire Foy nos 20 capítulos das duas primeiras temporadas -, a injustiça ficou ainda mais evidente. Mas a única culpa do príncipe, ao menos nesse episódio, foi ter nascido homem.

Nobres ou plebeus, carregamos esse pecado original determinado por milênios de cultura machista. Podemos até alegar inocência, mas não podemos ignorar que sempre foi e que continua sendo assim. Com raras exceções, os homens continuam no comando das empresas, das instituições públicas, dos governos, do mundo. Como mudar isso? Confesso que não sei, mas espero que seja pela cumplicidade e não pela animosidade.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 27 de março de 2018


27 DE MARÇO DE 2018
ARTIGOS

A VIDA É HOJE. VAMOS NOS AJUDAR?


Aniversários são boas datas para refletirmos sobre passado, presente e futuro. Precisamos colocar nessa reflexão o debate sobre as ações que nos levaram a ser a pior capital do Brasil em termos de recursos disponíveis em caixa, à falta de investimentos em serviços, às injustiças do IPTU, a uma das tarifas de ônibus mais caras do país, obras que não saem do papel há décadas. As despesas têm de estar dentro das receitas para avançarmos.

Nessa reflexão em busca da cidade que queremos, todos devem participar: sociedade civil, empresários, vereadores, jornalistas. Buscando o engajamento em torno de ações para resolver problemas. Superando projetos pessoais, partidários, eleitorais ou os interesses de algum setor. Precisamos agir, mudar em nome do interesse público de 1,5 milhão de habitantes, e não só o interesse de alguns.

Estamos construindo novos caminhos. Com gestão e transparência, retomamos as obras da Copa, entregamos a licença do Cais Mauá, criamos 2,3 mil novas vagas na educação infantil, viabilizamos mais tempo com o professor em sala de aula. Na saúde, foi aberta a Clínica da Família, com o conceito moderno de garantir ao paciente a resolução ágil de seu problema; com o telessaúde, colocamos a tecnologia a serviço do cidadão. A integração da Guarda Municipal com as forças públicas de segurança ajudou a diminuir os índices de criminalidade na Capital.

Sabemos que ainda precisamos fazer muito, de parcerias com a sociedade. O que não podemos é ficar parados porque "sempre se fez assim". Mudanças simbólicas serão realizadas se fizermos os debates necessários. Porto Alegre tem potencial para celebrar conquistas concretas nos seus próximos aniversários. Vamos nos ajudar?

NELSON MARCHEZAN

27 DE MARÇO DE 2018
RBS BRASÍLIA

Meirelles: de fiador a defensor


Depois de ser o fiador da gestão de Michel Temer junto aos mercados, Henrique Meirelles se farda para ser o defensor, nas urnas, do governo mais impopular dos últimos tempos. Esse será o papel do ministro da Fazenda, que sonha em ser presidente da República, se ele de fato levar até o fim o plano de ser candidato pelo PMDB. Para Temer, a baixa competitividade de Meirelles é o que menos importa. 

O que o presidente precisa é de alguém com credibilidade que possa defender o seu legado, caso ele mesmo não tenha condições de colocar em pé a sua candidatura. De um elenco ministerial sofrível, o chefe da equipe econômica é o que Temer tem de melhor a apresentar. Sem falar do prestígio que o ministro continua a ostentar junto ao empresariado. É por tudo isso que Temer se adiantou à confirmação do próprio Meirelles. Antes de o ministro começar a palestra em Porto Alegre, o presidente da República, em Brasília, acabava com o mistério.

No PT, defensores de um plano B para a Presidência da República estão atônitos com a insistência do grupo que não abre mão da ideia da candidatura Lula. Mesmo que o STF decida que ele não deve ser preso, a condenação em segunda instância o enquadra na Lei da Ficha Limpa. A análise do registro da candidatura é com o TSE.

Nome do PSB gaúcho ao Senado, o ex-deputado Beto Albuquerque adianta que busca uma aliança robusta, que garanta um bom tempo de TV, mas descarta acordo com o candidato do PP ao Piratini, Luis Carlos Heinze. Beto nada tem contra Heinze, inclusive foram colegas de plenário, mas acredita que o deputado do PP estará alinhado ao candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL-RJ).

- E com o Bolsonaro não dá - sentencia Beto.

O ministro Edson Fachin optou por não fazer o feriado prolongado desta semana do Supremo Tribunal Federal. Audiências referentes a processos estão em sua agenda de ontem e hoje. De acordo com a agenda oficial do STF, além de Fachin, apenas a presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia, teve compromissos oficiais em Brasília. Ela teve 11 audiências ao longo da segunda-feira.

Colaborou Silvana Pires - CAROLINA BAHIA

27 DE MARÇO DE 2018
GERAL


Depois de 24 anos, de volta às mãos do dono

LUIZ CARLOS BORGES comprou na Polônia, em 1994, violão que foi furtado em Viamão meses após aquisição

Passados 24 anos, o cantor e compositor nativista Luiz Carlos Borges voltou a dedilhar as cordas de aço de um violão que comprou em 1994, na Polônia. Furtado cinco meses depois no sítio do músico, em Viamão, na Região Metropolitana, o instrumento estava com um motorista de transporte por aplicativo e foi recuperado pela 2ª Delegacia de Polícia (2ª DP) de Porto Alegre na sexta-feira. Ontem, Borges foi buscá-lo.

O músico espremeu os olhos para enxergar a assinatura do fabricante no interior da caixa acústica e verificou a letra C talhada a mão no alto da cabeça do violão para ter certeza de que se tratava do equipamento furtado. Torceu as tarraxas para acertar a afinação das cordas e tocou uma de suas composições mais famosas, Tropa de Osso.

- É muito boa a emoção de colocar a mão em um instrumento que tu comprou por achar bom - comentou.

Borges lembrou que, ao passear por uma feira na Cracóvia, depois de um show, viu o violão branco que o fez interromper a caminhada. Conversou com o fabricante, alemão de Frankfurt, conhecido pelo apelido de Cheri - o nome inscrito no interior da peça. O artesão explicou ter trabalhado dois anos naquele e em outros quatro violões, que se diferenciavam por detalhes. Disse que os havia produzido especialmente para a feira e que o comprador daquele, o último dos cinco, teria de ser, obrigatoriamente, sul-americano.

- Os outros tinham sido vendidos um para cada continente. Ásia, África, Europa e América do Norte (o vendedor dividiu o continente americano em Sul e Norte e não considerou a Oceania). Faltava a América do Sul. Mostrei meu passaporte e comecei a pechinchar - recordou o artista.

Adquiriu o instrumento por cerca de US$ 900 (o que hoje corresponderia a US$ 1,5 mil, ou R$ 4,9 mil), mas não teve tempo de levá-lo aos palcos. Apenas um jingle e duas músicas de amigos foram gravadas com o equipamento.

- De vez em quando, colocava o disco (do amigo que gravou as músicas) para ouvir esse violão. Gosto da delicadeza dele. Deu uma amarelada e precisa de alguns reparos, mas segue muito bom. Tão bom que, mesmo assim, malcuidado, afina bem ainda. Foi um dos motivos pelos quais comprei - explicou.

CONVERSA EM CORRIDA DE APP ORIGINOU APURAÇÃO

O paradeiro do instrumento começou a ser revelado quando um motorista de transporte por aplicativo comentou com um cliente ter comprado um violão que acreditava ter pertencido ao cantor tradicionalista - a polícia ainda não esclareceu como o condutor sabia a origem da peça. O passageiro, músico, mostrou interesse e fez perguntas sobre as características, como marca, modelo e cor. Dias depois, o homem levou as informações a Borges, de quem é amigo de longa data.

O nativista informou a polícia e a 2ª DP seguiu o rastro. Conforme apuraram os investigadores, o equipamento teria sido vendido ao motorista por R$ 100 há mais de 10 anos, depois de ter estado com outras duas pessoas.

- Ele (o motorista) entregou o violão tranquilamente. Não pareceu ter agido com má-fé. Até disse que gostaria de conhecer o Borges pessoalmente - contou o delegado César Carrion.

O furto, registrado em 11 de outubro de 1994, já prescreveu, mas há possibilidade de indiciamento por receptação.

MARCELO KERVALT

27 DE MARÇO DE 2018

INDICADORES - Ricardo Felizzola

Sinto vergonha de mim


Após as "supremas" decisões recentes que nossa Democracia permite, fundamentada na nossa gloriosa Constituição de 1988, como a de "salvar o corpo" do chefe do PCC condenado a 65 anos e colocá-lo em liberdade, entre outras, só me resta hoje reescrever Rui Barbosa, com a licença de todos:

"Sinto vergonha de mim... por ter sido educador de parte deste povo, por ter batalhado sempre pela Justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdade e por ver este povo já chamado de varonil enveredar pelo caminho da desonra. 

Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e ter que entregar a meus filhos, simples e abominavelmente, a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula mater da sociedade, a demasiada preocupação com o eu feliz a qualquer custo, buscando a tal felicidade em caminhos eivados em desrespeito para com o seu próximo. 

Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade, a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos floreios para justificar atos criminosos, a tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre contestar?, voltar atrás e mudar o futuro. Tenho vergonha de mim pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer... 

Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir, pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade. 

Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro! De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem- se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

Ou o Brasil toma rumo, ou vamos criar a antimatéria da ética mundial, considerando que todos, independentemente do que façam, são inocentes até morrer....

Ricardo Felizzola escreve às terças-feiras, a cada 15 dias. Na edição de quarta-feira, Ricardo Hingel.

27 DE MARÇO DE 2018
CARPINEJAR

A vida é uma caixa de bombons



A ambição apaga as pequenas delícias e você não se emociona nem mais com uma caixa de bombons. É que já está completamente indiferente à vida.

Não se surpreende mais com o chocolate. Não tem doçura dentro de si para entender outras doçuras.

Na infância, ganhar uma caixinha de bombons, exclusivamente para mim, era o ideal de Páscoa, o meu sonho de Última Ceia, quadro da nossa cozinha.

Com a disputa constante de três irmãos pela sobremesa, o presente representava uma reserva de guerra de um mês. Eu me sentia milionário. Não cabia em mim de felicidade. Podia ser capaz de qualquer coisa, podia vir prova de matemática na escola, que não estragaria os meus dias.

Planejava como daria conta da multidão de doces em minhas mãos. Comia, primeiro, os que eu mais gostava. Vinham sempre três de cada tipo de bombom.

Os dias inaugurais acabavam sendo os mais eufóricos. Havia uma sedução no momento de abrir a embalagem. Um striptease lento e inesquecível. Sentava na cama quando me encontrava sozinho no quarto e desenroscava as hélices dos dois lados da embalagem simultaneamente. Tirava o papel alumínio com a unha - pela ânsia, a unha ficava com casquinha de chocolate - e olhava com dedicação o bombom antes da mordida, tal bola de cristal. Mordia no meio para comer o recheio antes e depois me deslumbrar com a casquinha.

Andava de bom humor porque havia a esperança sortida na gaveta do criado-mudo. Não desfrutava de igual sensação de posse, poucas vezes eu me vi dono de algo, talvez unicamente com a toalha bordada da educação física e com o material escolar em que constavam o meu nome e sobrenome presos numa tirinha de durex.

Bancava ainda o generoso no final da caixinha. Como restavam os bombons de passas, de coco e os amargos, que detestava, eu oferecia para os pais e irmãos.

- Quer um?

Nunca distribuía no início, mas sempre no final, na rabeira. Recebia assim elogios infinitos da família, que não entendia a minha trapaça.

- Fabrício reparte os seus presentes. É um exemplo. Façam como ele.

CARPINEJAR

segunda-feira, 26 de março de 2018


26 DE MARÇO DE 2018
DAVID COIMBRA

O que significa o ódio ao "cidadão de bem"


Virou moda, no Brasil, criticar o "cidadão de bem". Funciona assim: quando um dos nossos Guevaras caboclos quer dar aparência de contestador da sociedade hipócrita, isto é, quando quer parecer melhor do que os outros, ele cita ironicamente o "cidadão de bem" como apoiador de alguma proposta reacionária ou, pior, do governo Temer. A ideia é dizer que, na verdade, o cidadão de bem não existe, porque seu pensamento é do mal.

Só que o cidadão de bem existe, sim. Ele é o sujeito que não tem muitos outros interesses além de trabalhar, cuidar da sua família e divertir-se com seus amigos. É quem gasta em dobro para ter serviços que deveriam ser prestados pelo Estado. Quem paga os impostos que, quase sempre, sustentam os que o criticam.

Para os Guevaras de Smartphone, o cidadão de bem vestiu camisa amarela, empunhou a bandeira do Brasil e bateu panelas para colocar Temer no poder. Errado. O cidadão de bem fez isso para tirar o PT do poder. Quem colocou Temer no poder foi o PT. Temer e seus amigos sempre foram aliados do PT. Hoje, os petistas tentam passar a ideia de que Temer e seus amigos eram a pior parte do governo do PT. Errado de novo. A pior parte do governo do PT era o PT.

Provo. Lembre-se do que ocorreu dias atrás, na bizarra caravana de Lula pelo Rio Grande do Sul. Lula chamou os produtores rurais de caloteiros e disse que, nas estâncias, os cavalos são mais bem tratados do que os trabalhadores. Também isso não é verdade. Foram divulgados dados do Banco Central mostrando que o crédito rural tem as menores taxas de inadimplência do país. Quanto à situação dos trabalhadores do campo, conheço alguns, e eles vivem em melhores condições do que os que moram na cidade.

Mas esse é um aspecto secundário. O importante é a essência do discurso de Lula, que é a mesma que a dos que falam mal do cidadão de bem. O pensamento subjacente é de que o brasileiro da classe média e da classe alta odeia o brasileiro da classe baixa. Mais: o brasileiro da classe baixa só está lá embaixo por causa dos que estão na média e na alta - aquele que consegue ganhar um pouco mais só ganha um pouco mais porque outros ganham muito menos. É um raciocínio do século 19: a riqueza de um país é um bloco mineral, sólido e morto, jamais crescerá. Logo, se alguém tem mais do bloco, outros têm menos. E, para quem tem menos, qual é a proteção? A única proteção? O PT e seu messias, Lula. São eles, com a doce bajulação dos Guevarinhas, que vão tirar dos ricos para dar aos pobres.

Com essa filosofia rudimentar, Lula não tenta se eleger. Ele sabe que não se elegerá, ainda que o STF confirme o golpe que prepara contra a justiça e o livre da punição. Lula queimou suas pontes. A ofensa aos produtores rurais e as fartas ameaças que fez em seus discursos demonstram isso. Lula, agora, só quer escapar da cadeia. E o PT, partido que abriga tanta gente séria e honesta, partido que um dia foi de fato propositivo, tornou-se apenas um triste relho de caudilho. Um partido que tem dono.

O destino de Lula e o do PT, porém, são menos importantes. O importante é o efeito que esse movimento está gerando. No passado, foi esse preconceito dos Guevaras caboclos contra o cidadão de bem que fundou o ódio ao PT e expurgou o partido do poder. No presente, esse pensamento, cevado em cada frase de Lula e de seus aduladores, está radicalizando ainda mais a sociedade brasileira. No futuro, um futuro não muito distante, quem se posicionar no outro extremo levará vantagem. E virá o Apocalipse. Bolsonaro será eleito presidente do Brasil.

DAVID COIMBRA

26 DE MARÇO DE 2018
CIDADANIA

Escolha a causa certa para você


Em meados de 2005, a professora Jacqueline Navarro se viu literalmente aprisionada pela síndrome do pânico. Sufocada por sintomas típicos como tremores, taquicardia, falta de ar e sensação de perigo iminente, a moradora de Porto Alegre não ousou cruzar a porta por mais de seis meses.

Foi em uma sessão de terapia que surgiu a ideia de se dedicar ao trabalho voluntário como parte do processo de readaptação ao mundo. Faltava escolher uma causa para abraçar. Uma coincidência a ajudou a definir a atividade que lhe traria realização pessoal e capacidade para melhorar a vida de crianças e adolescentes de famílias de baixa renda.

- Fiz balé por 17 anos, e meu terapeuta dançava flamenco. Conversando com ele, decidi lançar um projeto de dança - conta.

Hoje com 300 jovens, o projeto Ballet Cultuarte foi lançado em Alvorada e, a partir deste ano, será oferecido em Porto Alegre. A escolha de Jacqueline representou a oportunidade que Gislaine de Oliveira Figueiredo, 24 anos, aguardava. A jovem sonhava com a dança, mas os cursos lhe fechavam as portas por ser cega. Aceita no Cultuarte, agora atua como instrutora voluntária no mesmo projeto.

Para que iniciativas como essa prosperem, especialistas no terceiro setor referendam a receita de Jacqueline: combinar afinidade pessoal à demanda social por aquele serviço. Antes de sair à rua, planeje e busque informações.

- A primeira coisa é se questionar: o que quero mudar? A situação de uma praça? De um grupo de pessoas? Depois, tem de ir atrás de dados. Já existe alguém trabalhando com aquilo? - ensina a especialista em mobilização social do Itaú Social Cláudia Sintoni.


26 DE MARÇO DE 2018
EDITORIAL

LUZES E SOMBRAS DE UMA CELEBRAÇÃO


Porto Alegre chega aos 246 anos com muitos desafios relevantes: recuperar sua autoestima, superar a crise financeira que degrada a olhos vistos os serviços públicos, estancar a evasão de cérebros e talentos, atrair e facilitar investimentos e abrir novas perspectivas econômicas que gerem emprego e renda. A capital dos gaúchos celebra seu aniversário em um misto de orgulho e temores. Esse sentimento dúbio e aparentemente contraditório representa, na verdade, uma oportunidade de evolução. Pesquisas revelam, por exemplo, que a segurança está no topo das preocupações dos habitantes da cidade, um alerta fundamental para dar paz à população e, com isso, favorecer todas as atividades inerentes a uma metrópole, entre elas a convivência e o prazer da descoberta da própria cidade.

As cidades se desenvolvem a partir da identificação e do investimento em vocações naturais, mas Porto Alegre ainda extrai pouco proveito de suas inclinações para as áreas da saúde, da educação, a cultura e, também, o futebol. Reconhecer a excelência nessas áreas não significa ignorar os problemas, mas sim apontar a necessidade de uma ação coordenada que acelere o desenvolvimento e a geração de renda das vocações, de modo que os benefícios se espalhem para todos os campos da Capital.

É justamente esse contraste que muitas vezes turva a visão de futuro. É difícil aceitar que uma cidade com medicina de ponta tenha tanta gente desassistida e que uma região com algumas das melhores universidades do país ostente índices capengas na educação. A boa notícia é que as soluções não estão necessariamente distantes. Cabe aos porto- alegrenses, e a suas lideranças, saber alargar o alcance desses avanços, em favor de todos.

Alguns sinais claros já se materializam e dão alento para a volta da autoestima, como o início das obras de modernização e ampliação do aeroporto Salgado Filho. Na mesma sintonia, Porto Alegre assistirá, neste sábado, à inauguração da Sala da Ospa, um projeto bem menos ambicioso do que o inacabado espaço nas margens do Guaíba, mas nem por isso menos eficiente na sua proposta de valorizar a cultura.

Outra notícia particularmente promissora a ser comemorada neste aniversário é o encaminhamento positivo das obras do Cais Mauá, região nevrálgica e até agora abandonada da cidade. Os novos investidores vêm dando sinais de respeito à cidade e aos seus moradores, abrindo o diálogo com grupos impactados por uma mudança que pode mudar a face desleixada de uma cidade que não soube cuidar de si mesma.

Mas tudo isso será insuficiente se Porto Alegre não encaminhar saídas para problemas fundamentais, como a aparência de abandono de locais públicos, a violência, a burocracia que desestimula negócios, entre tantos outros temas. Nem todas as soluções estão ao alcance dos entes municipais, mas eles são os agentes fundamentais não só para a melhora da sensação de bem-estar de seus habitantes nos espaços públicos e privados, mas também para a atração e retenção de empresas e talentos.

Porto Alegre não é obra de um homem só ou de um só governo. Os açorianos que aqui chegaram há 246 anos não imaginavam o tamanho e a complexidade do projeto que começavam a erguer. Um emaranhado de ruas, praças, pessoas de todas as origens e credos, prédios, memórias, problemas e soluções. Tudo isso tem um futuro em comum. Acreditar nele e trabalhar por ele é o maior presente que a cidade poderia receber.

EDITORIAL

26 DE MARÇO DE 2018
L.F. VERISSIMO

Duelo

Em outros tempos, o bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso só poderia terminar de um jeito: num duelo. Pistola ou espada, à escolha do ofendido. Ou, no caso, do mais ofendido. Em outros tempos, lavava-se a honra com sangue, mesmo que, muitas vezes, o sangue detergente fosse só de um arranhão. A História está cheia de duelos dos dois tipos, os que terminavam em morte e os que terminavam em empate - com os dois vivos ou os dois mortos.

Alexander Hamilton, um dos chamados pais da pátria americana, morreu num duelo com Aaron Burr, terceiro vice-presidente dos Estados Unidos na administração de Thomas Jefferson. O poeta russo Alexander Pushkin morreu num duelo com o marido enganado da sua amante. Já Salvador Allende e seu desafeto político Raúl Rettig sobreviveram a um duelo sem sangue. E o último duelo realizado em Portugal, em 1925, teve um morto - de síncope, dias depois.

Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso não poderiam confiar na própria pontaria ou destreza com a espada, ou na pontaria ou destreza com a espada do adversário, e escolher o tipo de duelo que lhes conviria. Mas só mostrarem-se dispostos a arriscar a morte para defender sua honra os redimiria - e redimiria o Supremo - aos olhos da nação.

E pensemos no espetáculo inédito. Praça dos Três Poderes. Primeiras horas de uma manhã brumosa. Chegam os duelistas, acompanhados dos seus padrinhos. A ministra Cármen Lúcia oferece a possibilidade de conciliação. Nem Gilmar nem Luís Roberto aceitam. Gilmar declara a extensão da sua revolta:

- Psicopata, não!

São definidas as regras do duelo. Escolheram espadas. Luís Roberto insiste que Gilmar seja revistado, para prevenir um punhal escondido.

L.F. VERISSIMO

24 DE MARÇO DE 2018
LYA LUFT

Ônus e bônus da vida


Hora de escrever esta coluna. Geralmente, é só sentar e brotam as tantas ideias que giram na minha cabeça nessas horas de ócio, talvez criativo, que cada vez mais me permito. Na mão, um bom livro (ainda curto mais os de papel), na frente, uma bela paisagem, um dos bônus que a vida me concedeu, e nuvens, e árvores começando a se colorir, cada vez de outra cor. Agora as paineiras logo vão se derramar como creme de morango (sempre gulosa) sobre as outras árvores do parque.

Mas, hoje, duas sombras além da maior de todas que ainda empalidece meus dias: um Supremo estranhíssimo (perdoem se sou ignorante nos assuntos de Justiça), deixando boquiaberta boa parte do país, insegura, perplexa, entristecida.

Outra notícia, ainda não muito divulgada: uma grande rede de livrarias (não é a Cultura, graças a Deus) suspendendo pagamentos às editoras, deixando-as alarmadas. Terão de renegociar ou cancelar contratos, reduzir ainda mais as edições e as traduções, reprogramar suas vidas já difíceis em tempos tão difíceis. Todos sentiremos os ônus.

Quem comenta por aí que a crise passou? Podemos ser ignorantes, alguns de nós ou a maioria, em assuntos de economia e política, mas nosso bolso, meu bolso, não se engana. Consigo errar cálculos na calculadora, e recorro a meu marido engenheiro ou a algum filho ou neto mais iluminado do que eu nesses assuntos, mas a conta bancária, a carteira, não erram. Então, estes são dias estranhos, repito seguidamente nesta coluna e em Whats ou e-mails (quase não usamos mais e-mails, já notaram?).

Mas o jardineiro me manda vídeos daquela família de bugios fazendo artes nas nossas árvores do bosque, a turma crescendo, seguidamente filhotes agarrados às costas da mãe. Uma vizinha me conta que rasgaram a tela da janela do seu quarto, e me ouço dando uma risada.

Além do mais, hoje (estou escrevendo na sexta-feira, naturalmente), recebo no Renascença, com os queridos colegas e amigos Faraco, Aldyr e Deonísio, o Prêmio Açorianos pelo conjunto da obra.

O coração se alegra, por mais que eu seja avessa a cerimônias, homenagens e premiações. Loucura minha, eu sei, mas, em tantos anos de carreira, já pedi mais de uma vez que alguém recebesse o prêmio por mim. Coisas que nem anos de terapia resolveram.

Mas este aceitei, e vou receber, com satisfação, sobretudo pelo carinho que representa, pelos meus muitos longos anos de labuta, pelo trabalho, e estima, de Luciano, Sergius, toda a equipe de Cultura de Porto Alegre, e, afinal, porque é uma honra mesmo.

Saio brevemente do meu recolhimento para curtir o bônus dessa noite, resultado de várias décadas em que, em cada página, cada parágrafo de livro ou artigo, procurei dar o melhor de mim: o leitor merece. E eu também.

LYA LUFT


24 DE MARÇO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Qualquer corda


Quando menina, nunca olhava embaixo da cama a fim de conferir se havia algum monstro aguardando que eu apagasse a luz para só então me atacar. Bicho-papão era coisa que não me apavorava, mas eu tinha um medo absurdo de areia movediça, como se isso fosse um perigo menos fantasioso do que monstros embaixo da cama. Ficava em pânico quando via cenas de filmes em que alguém caía numa poça melequenta e, sem conseguir nadar, ia sendo tragado aos poucos para o fundo. Help, um salva-vidas! Não havia. Até que, subitamente, alguém surgia com uma corda e resgatava a vítima que, a essa altura, estava apenas com as duas mãos para o lado de fora.

Aí eu cresci. E admito, encabulada, mesmo grandinha ainda passei boa parte da vida me perguntando: quem é que vai aparecer com a corda?

Porque tem hora que você se sente bem assim: num lodo, enterrada até a cintura, sem ninguém por perto para puxar você pelo braço, para te alcançar uma boia, para jogar um cipó. Como é que você foi parar nesse lamaçal? Ah, pois é.

Sabe como é que foi, seu moço, eu conto: vinha correndo naquela direção, no meio da mata fechada, assustada por achar que estava sendo perseguida por algum animal selvagem, e então corri, corri tanto que quando vi, tchibum, caí nesse areal movediço desgraçado, e a margem, que seria facilmente alcançável com duas braçadas, ficou longe demais das minhas possibilidades. Estou imobilizada pela força sugadora desse buraco maligno.

Quantas vezes isso já nos aconteceu? Metaforicamente, é claro. Sabe como é que foi, seu moço, eu conto: vinha fugindo da minha verdadeira identidade, sem coragem para ser uma pessoa mais original e livre, assustada por achar que não daria conta de viver fora dos padrões, e então corri, corri tanto que, quando vi, tchibum, caí nessa rotina movediça desgraçada, e o meu sonho de ser eu mesma, que seria facilmente alcançável com duas braçadas, ficou longe demais da minha realização. Estou imobilizada pela força sugadora das minhas escolhas covardes.

Ou. Sabe como é que foi, seu moço, eu conto: vinha correndo na direção oposta a um amor que me exigiria muita dedicação e entrega, corri evitando todos os desejos que tentavam tomar posse do meu corpo, assustada por achar que não daria conta de tanta intensidade, de tanto sentimento, e então corri, corri tanto que, quando vi, tchibum, caí nessa mesmice movediça desgraçada, e a minha grande paixão, que seria facilmente alcançável com duas braçadas, ficou longe demais da minha realidade. Estou imobilizada pela força sugadora dos convencionalismos.

Tudo o que a gente quer é agarrar em alguma coisa para sair de uma vida atolada. Um novo amor. Um novo projeto. Uma viagem. Religião. Astrologia. Terapia. Curso tântrico. Uma corda. Qualquer corda.

MARTHA MEDEIROS


24 DE MARÇO DE 2018
CARPINEJAR

A mesa sobrenatural dos meus avós


Na mesa de sala da avó havia gavetas. Só descobrimos quando ela começou a feder. Não reparávamos porque a toalha na hora de almoçar e jantar cobria os seus segredos.

Mas, um dia, durante as nossas férias, o vô tratou de investigar o que estava acontecendo. Passávamos o janeiro inteiro com os pais da mãe em Guaporé: eu e os três irmãos. Acredito que seja a época em que os pais ficavam sozinhos para namorar em Porto Alegre. Ou para discutir sem que aumentássemos o som da televisão para não ouvirmos os gritos. Nunca tínhamos certeza se o barulho do quarto deles era de amor ou de briga.

A avó brincava que existia um gambá morto no assoalho, suspeita descartada em longa varredura.

O cheiro impedia a recepção de visitas. Não se tratava de odor de madeira podre ou de fungos. Vinha um azedume que dificultava a permanência no espaço.

A mesa acabou mandada a um marceneiro, que decifrou o mistério da minha infância e da guerra suja no momento de comer.

Os irmãos, para ganhar a disputa comigo pelas polentas, frangos, bifes com queijo na chapa e bolinhos de chuva deliciosos da avó, escondiam a comida nas pequenas gavetas. O que explicava o sumiço meteórico da refeição das bandejas. Em 10 minutos, não havia mais nada. Eu não me servia de novo e perdia o campeonato de quem comia mais. Sempre padecia com o último lugar do pódio.

Eles debochavam da minha lentidão - e tampouco digeria mentalmente como conseguiam tamanha rapidez com os dentes.

Eu pedia para que eles abrissem a boca para conferir se não estavam me trapaceando e não enxergava coisa alguma.

As gavetas se transformaram em geladeiras de crianças, em um frigobar sem tomada. Eles se empanturravam com o que podiam e guardavam mantimentos para depois. Aproveitavam o guardanapo de pano no colo para disfarçar os furtos. Assim que ninguém olhava, abriam os esconderijos. Às vezes esqueciam lá as porções roubadas, que formavam, com o tempo, lixo orgânico irreconhecível.

Não alimento raiva de meus irmãos, não há como qualificar a ocorrência como trauma, não é assunto espinhoso de terapia. Restou admiração. Estranhamente, um sorriso de admiração. Às vezes, me pego rindo sozinho da lembrança. Eu apenas concluo que eles foram geniais: uma sacanagem de primeira grandeza. Como não pensei nisso antes?

CARPINEJAR

24 DE MARÇO DE 2018
PIANGERS

Isso foi ontem


E você me disse que me odeia e que preferia não ter nascido. Isso foi ontem, quando você fez 18 anos. E um pouco antes eu disse que não ia emprestar o carro, que apesar de estar com o papelzinho da autoescola aquilo ainda não era a sua carteira de motorista. E você disse que estava muito nervosa no teste e não sabia se tinha passado. E você disse que estava feliz com a nova escola, já tinha feito umas amigas. Isso foi ontem, quando a gente se mudou de cidade.

E você disse que tinha adorado a festa, mesmo que a gente tivesse pouco dinheiro pro vestido de 15 anos. Eu senti que você estava só sendo educada. E você disse que a prova tinha sido impossível e que a professora não ensinava nada e só jogava a matéria no quadro. Isso foi ontem, quando você me falou que pegou recuperação. E você disse que ia brincar um pouco mais lá embaixo e ia fazer a lição de casa amanhã de manhã. Isso foi ontem, e até agora nada.

E você me disse pelo telefone que estava com saudade, e eu me senti o pior pai do mundo porque não estava com você no seu aniversário de 11 anos. E você veio correndo me mostrar mais um dente que tinha caído, e eu peguei o dente e guardei no bolso da minha camisa e esqueci ele lá. E você odiou quando a gente passou seu aniversário em Recife, longe de todas as suas amigas, sem festa e sem presente. Isso foi ontem, quando você fez nove anos.

E você disse que agora não precisa mais sentar na cadeirinha do carro. E eu te dei um celular bem baratinho, porque não conseguia me imaginar longe de você sem poder me comunicar. Na escola tinha aquele menino que te chamava de "menina do celular", porque você era a única menina com pais tão neuróticos. Isso foi ontem, no primeiro dia de aula da primeira série.

E eu e a sua mãe choramos escondidos com uma pena de você, quando sua irmã nasceu e sentimos que você não seria mais nossa princesinha. Iria ter que dividir o reino com um novo bebê. Isso foi ontem à noite, depois que você dormiu. E você insistiu para dormir na minha cama porque estava com medo do escuro e me chutou a noite inteira. Isso foi ontem, e agora eu estou todo dolorido. E você me disse que me amava pela primeira vez, provavelmente só repetindo o que eu te digo todo dia. Isso foi ontem. E eu estava nervoso e atrapalhado. Sua mãe tranquila e feliz. Viramos a noite no hospital, ontem, quando você nasceu. Tentando entender como cuidar de você. Um dia, a gente aprende.

PIANGERS


24 DE MARÇO DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

O OPOSTO DO ÓDIO

Se fosse personagem de novela, a desembargadora Marília Castro Neves seria aquelas vilãs quase engraçadas de tão caricatas - do tipo que tortura a mocinha durante 200 capítulos e depois acaba louca, escabelada e falando sozinha. Em comentários recolhidos de postagens antigas, descobriu-se, nos últimos dias, que a desembargadora já havia ofendido negros, gays, mulheres, pessoas com Síndrome de Down - tudo isso antes de chamar atenção fazendo acusações falsas contra uma pessoa que ela não conhecia e que acabara de ser assassinada algumas horas antes.

Mas a desembargadora do Rio de Janeiro não é de mentirinha, muito menos louca ou excepcional - no sentido de rara. Ela é apenas uma pessoa comum que, por caso, ganhou notoriedade expressando-se de uma forma que não é estranha para ninguém que frequente a internet. De onde ela veio, há milhões de anônimos pensando e escrevendo da mesma forma. De todas as idades, classes sociais e perfis ideológicos. "Uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia", nas já clássicas palavras do ministro Luís Roberto Barroso. Gente que encontrou um canal de expressão, uma linguagem e uma ética própria: para os meus, tudo; para os outros, paredão.

Odeio, logo existo, é uma forma de estar no mundo e de se relacionar com as outras pessoas cada vez mais comum. Pode ser aplicada a embates de todos os tipos, dos mais graves aos mais inofensivos: política, religião, estilo de vida, gostos musicais, dieta. O ódio define, situa, agrupa.

Trata-se de um desdobramento de certa forma inesperado daquela que parecia ser a vocação original da internet: diminuir distâncias, aproximar estranhos em torno de interesses comuns, criar comunidades. Formaram-se agrupamentos, é verdade, mas não apenas em torno de afinidades positivas. O ódio mostrou-se um catalisador igualmente poderoso e sedutor. Diante de uma plateia de pessoas que odeiam as mesmas coisas - também conhecida como "bolha" - mostrar-se arrebatado e radical é uma forma de destacar-se no meio da multidão. Não importa o quão incompatível o discurso se mostre em relação aos valores que a pessoa pareça estar defendendo, porque coerência não é uma mercadoria muito valorizada nesse ambiente de extremos. Ódios extremos, irracionalidade extrema, necessidade extrema de atenção e reconhecimento.

A cultura do ódio é o tema de um livro que está saindo do forno nos EUA, The Opposite of Hate ("o oposto do ódio", em tradução literal), da comentarista política Sally Kohn. A autora se coloca entre os liberais americanos, a turma que se opõe a Donald Trump e a tudo que ele significa. Ainda assim, Kohn defende o resgate da capacidade de ouvir e de aceitar o outro, como caminho para interromper a escalada da intolerância e possibilitar o diálogo. A autora conversou com cientistas e pesquisadores, investigando as raízes evolucionárias e culturais do ódio, para mostrar como uma simples falta de civilidade pode abrir caminho para coisas muito piores.

CLÁUDIA LAITANO

24 DE MARÇO DE 2018
DAVID COIMBRA

Por que o Brasil é o melhor país do mundo


Ao morar tanto tempo no Exterior, descobri que gosto mais do Brasil do que pensava. O Brasil tem um jeito... É isso... É o jeito, algo indefinível, mas que se sente. E que distingue o país de todos os outros do planeta.

Você talvez diga que o afegão provavelmente sinta o mesmo a respeito do Afeganistão. Ele sai por aí dizendo que o Afeganistão é único e tal. Só que o afegão dirá isso por causa de seus afetos, que são não apenas as pessoas que ele ama, mas também os lugares e as coisas. A história do homem está gravada nas ruas, nas casas, em cada objeto que é referência de fatos da sua vida. É por isso que é preciso cuidado e critério ao se fazer intervenções na paisagem de uma cidade. Porque são intervenções também na história das pessoas que vivem naquela cidade. Ao derrubar um antigo casario, você derruba também pedaços de memória.

Então, o afegão tem liames emocionais com o Afeganistão. No caso do Brasil, não é só isso, porque mesmo estrangeiros percebem a diferença a que me refiro. O Brasil tem outro tempero. É o cheiro, é o clima, é a comida, é a geografia, mas, principalmente, é o brasileiro.

A forma que o brasileiro tem de se relacionar com as outras pessoas o destaca entre os povos do mundo. Com um brasileiro, você sente proximidade já no olhar. Mais, você vê alguém caminhando na rua, lá adiante, e diz: "Esse é brasileiro". E é. Até a linguagem corporal é singular.

É possível que esteja falando do que Sérgio Buarque de Holanda classificou como "cordialidade brasileira", em Raízes do Brasil. Você sabe da polêmica que essa definição produziu: as pessoas confundiram cordialidade com gentileza. Sérgio citava a cordialidade como algo que vem do coração, mais sentimental do que intelectual. Trata-se, às vezes, de um predicado. Nossa aversão às formalidades nos aproxima dos outros seres humanos. Mas também se trata de um profundo defeito, porque essa mesma aversão às formalidades se transforma em aversão às regras, e regras são indispensáveis para a convivência entre os seres humanos.

Essa nossa personalidade peculiar tem tanta força, que contamina até a instituição mais formal do Brasil, aquela que deveria, justamente, prezar pelo cumprimento das regras - o STF.

A triste enjambração que o STF fez no caso Lula é um disparate que só seria admissível em um tribunal brasileiro. Os ministros passaram a tarde inteira discutindo se poderiam votar. Resolveram que sim. Aí, na hora de votar, resolveram que não votariam, porque, se o fizessem, ficariam trabalhando até tarde, o que os deixaria cansados. E, então, improvisaram um puxadinho legal: para poderem aproveitar o feriado da Páscoa, tornaram Lula inimputável por 15 dias. Quando, enfim descansados, os ministros voltarem a trabalhar, é claro que salvarão Lula da cadeia. Ele e todos os outros políticos corruptos que temem a Lava-Jato. Assim, o Brasil continuará sendo o que sempre foi - a pátria da impunidade para quem tem poder e dinheiro.

O Tribunal, mais uma vez, se achicou para os políticos. Mais do que se apequenar, como temia a presidente Cármen Lúcia, o STF se pôs de joelhos diante de patifes notórios da vida pública brasileira, ladrões vulgares que, em qualquer outra nação, estariam presos há muito tempo. Nada que surpreenda - afinal, estamos falando de um tribunal do Brasil, onde questões como o cumprimento de regras não passam de formalidades. O brasileiro cordial odeia formalidades.

DAVID COIMBRA


24 DE MARÇO DE 2018
JJ CAMARGO

DO QUE SERÁ QUE SERÁ?

Todo mundo sabe que vai morrer, mesmo aqueles que, por juventude plena ou negação absoluta, nunca pensaram no assunto. Entre os jovens, entende-se que seja assim, porque, afinal, as ameaças verdadeiras estão tão distantes no imaginário fantasioso deles que é como se não existissem. Certamente por isso há tanto pânico no olhar de um garotão que descobriu, por um acidente ou doença incomum, que a possibilidade da morte é real.

À medida que os anos passam, o desgaste biológico minando o entusiasmo vital, a progressiva escassez de paixões violentas e a seguir de paixão nenhuma, as humilhações, as frustrações repetidas e, muito especialmente, as mortes sucessivas dos contemporâneos acabam induzindo à naturalidade da morte, que pode não parecer consciente, mas está lá revestida como preocupação pelo futuro dos filhos, a investigação dos melhores seguros de vida ou, mais contundente, a discreta colocação para débito em conta de um plano familiar para a cremação.

Um colega meu, para quem liguei depois de um amigo comum ter morrido, ouviu a notícia, tão lamentada por ele como tinha sido por mim, suspirou e resumiu: "Pois é, meu amigo, o mais triste é admitir que a morte, depois dos 60 anos, continua sendo lamentável, mas deixou de ser espetacular".

De qualquer maneira, essas pessoas, para as quais a idade lhes roubou a chance de morte com manchete, seguem vivendo com a mesma naturalidade de sempre, organizando festas, comemorando aniversários com algum espalhafato, inicialmente em datas redondas e depois a cada ano, viajando para lugares distantes sem seguro de vida, gastando mais do que a aposentadoria recomenda, trocando de carro antes que o seu desvalorize pelo uso e fantasiando o que fariam se ganhassem na Mega da Virada. Ou seja, vivendo como se fosse para sempre, plenas de alegria e de projetos, que só serão suportáveis para quem acredita, minimamente, que será possível realizá-los.

Entre esses otimistas, maravilhosamente incuráveis, circulam, disfarçados, os que sofreram um choque de realidade ao tomarem conhecimento de uma doença grave que, barulhenta como um câncer, ou silenciosa como uma cardiopatia progressiva, chegou não apenas para reiterar o que todos já sabiam, ou deviam saber, mas para, impiedosamente, comunicar do que será que um dia desses será.

Esses tipos podem participar das mesmas festas dos otimistas saudáveis, gargalhar por cortesia ou negação e até dissimular em extravagâncias, mas quem mirar no fundo dos olhos deles descobrirá onde mora a tristeza. Silenciosa e impassível. Como uma sentença.

JJ CAMARGO


24 DE MARÇO DE 2018
VARIANDO

Somos mais tolos do que nos damos conta 

Um dia, um psiquiatra perguntou a Amos Tversky se os experimentos psicológicos que ele e seu colega Daniel Kahneman estavam fazendo poderiam ajudar a pensar a inteligência artificial. Amos foi taxativo: "A gente estuda a estupidez natural, não a inteligência artificial".

A resposta é boa, pois essa dupla de psicólogos israelenses passou a vida demonstrando como a intuição e o bom senso podem nos levar a erros. Nos denominamos de Homo sapiens sapiens, mas nem sempre somos assim. Boa parte do tempo, repetimos erros tolos. Depois que botamos algo na cabeça, aquilo organiza os dados externos para justificar a tese preliminar. Se a realidade não corroborar nossas teses, pior para a realidade.

Seus estudos servem para muitos campos, talvez o mais fácil de exemplificar seja no esporte. Paradoxalmente, os jogadores mais cotados não são os que mais contribuem para o time, e sim os que mais aparecem. Basta-lhes ter uma postura agressiva, fala articulada, ser bem apessoado, que serão mais valorizados do que os desengonçados, mesmo que sejam esses os que mais pontuem. Não apenas os torcedores caem nessa, os comentaristas e os técnicos também. Só a frieza dos números de aproveitamento desfazem a ilusão.

Nossa espécie se vê um degrau acima do que realmente é no quesito inteligência. Talvez seja insuportável existir sem essa ilusão cognitiva que nos superestima. Portanto, a sabedoria é conhecer nossa tolice. Seremos tanto melhores quanto mais admitirmos nossa autoindulgência com a limitação das nossas capacidades de entendimento. E, mais, não importa a formação: os equívocos são democraticamente distribuídos. Se você fez ou não faculdade, não interfere na capacidade de se autoenganar.

Traduzindo em exemplos palpáveis: já notaram como a estatística é algo que só se aplica aos outros? Dirigir bêbado, transar sem camisinha com desconhecidos, fazer racha em via pública, usar psicotrópicos feitos em laboratórios clandestinos, por que não, se o desastre atinge apenas as outras pessoas? É extraordinária nossa incapacidade para avaliar riscos, mesmo que isso possa vir a nos matar.

Pena que esses autores estejam tão distantes da psicanálise, pois nós também temos teses sobre a paixão pela ignorância. De qualquer forma, se há algo que todos precisamos pensar, é como nos livrar da parte da herança iluminista que nos legou a crença de sermos dotados de uma curiosidade insaciável e amigos do saber. Segundo ela, só seríamos ignorantes caso não tivéssemos acesso a educação. Ou seja, não existiria aquilo que mais vemos a cada dia: uma vocação para reagir negativamente frente a tudo o que desestabiliza nossos parcos e preciosos conceitos.

Na minha opinião, poderíamos começar pelo nosso nome de espécie. Por que não: Homo sapiens ma non troppo?

MÁRIO CORSO


24 DE MARÇO DE 2018
POLÍTICA 

REAÇÕES PRIMITIVAS PARA A CARAVANA INOPORTUNA DE LULA

As cenas registradas nas cidades do Rio Grande do Sul por onde passou a caravana do ex-presidente Lula durante a semana são reveladoras de uma forma primitiva de fazer oposição. Já na estreia, em Bagé, produtores rurais munidos de relhos agrediram simpatizantes de Lula e cercaram o ex-presidente, que teve de sair de helicóptero do local onde fez a primeira manifestação. Há farto material fotográfico comprovando agressões que deveriam envergonhar os gaúchos, mas são mostradas como sinal de valentia nas redes sociais dos protagonistas.

Não faltam imagens de militantes identificados com os símbolos do MST com pedras nas mãos, mas a maioria mostra que, desta vez, as agressões partiram do outro lado. Ônibus da caravana foram apedrejados por uma turba ensandecida, como comprovam vídeos feitos por profissionais que cobriram a passagem do ex-presidente pelo Estado. No último dia, Lula foi impedido de entrar em Passo Fundo por manifestantes que afrontaram a Constituição, impedindo a passagem da caravana e de pessoas que nada tinham a ver com o PT. Radicais puseram fogo em pneus para bloquear a ERS-324, um ato de vandalismo que precisa ser repudiado por quem entende que a violência não pode ser aceita como método de ação política.

A caravana em si foi um equívoco de Lula e dos organizadores, que não avaliaram o tamanho da rejeição ao ex-presidente e ignoraram os alertas de que o ambiente era hostil. Imaginaram que os moradores dos municípios escolhidos sairiam às ruas para agradecer pelas obras dos governos petistas. Fantasiaram com um mundo semelhante ao da bolha em que vivem. Nessa bolha, Lula foi o melhor presidente da história do Brasil, a Lava-Jato nasceu e cresceu para tirá-lo da corrida eleitoral e a corrupção comprovada nas investigações não passa de invenção da mídia golpista em conluio com o Ministério Público.

A realidade foi dura para um líder acostumado ao afago. Embora tenha conseguido reunir milhares de pessoas, em quase todas as cidades visitadas encontrou resistências. A miniatura de gaiola com o boneco inflável do ex-presidente circulou em meio a cartazes agressivos, com expressões do tipo "Lula ladrão, aqui não", "Lularápio" e outras com palavrões impublicáveis.

A caravana é inoportuna porque Lula está fazendo campanha eleitoral antecipada, o que é proibido por lei. Condenado em segunda instância, está legalmente impedido de concorrer, mas seus discípulos dizem que levarão a candidatura até o fim. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, acirra os ânimos dizendo que, para prendê-lo, "vai ter de matar gente". Em meio à caravana, o ex-presidente ganhou um salvo conduto para não ser preso até 4 de abril, mas nem pode comemorar: o repúdio que encontrou pelo caminho roubou-lhe parte das ilusões sobre o tamanho de sua popularidade e mostrou que não é intocável.

ROSANE DE OLIVEIRA

quinta-feira, 22 de março de 2018



22 DE MARÇO DE 2018
DAVID COIMBRA

Macacos, rinocerontes e ministros do Supremo


A imprensa brasileira noticiou com grande comoção, nesta semana, a morte de Twelves, o macaco de estimação do cantor Latino. Segundo as matérias, o artista estava com o coração despedaçado. Publicou, nas redes sociais, uma foto do corpo peludo de Twelves já dentro de um saco plástico preto de lixo, provavelmente de 50 litros. A mãozinha do macaco saía pela abertura do saco e segurava a mão humana de Latino acima da breve e compassiva legenda: "Hoje é o dia mais infeliz da minha vida. Orem por mim. Sem chão". Foi tão intensa a dor de Latino, que a mãe dele reclamou:

- Dá mais bola para o macaco do que para mim.

Ao mesmo tempo, os jornais noticiaram também a morte de Sudan, o último rinoceronte-branco-do-norte do mundo. Agora, só restaram duas rinocerontas-brancas-do-norte, se é assim que se chamam as fêmeas dos rinocerontes-brancos-do-norte. Elas são a filha e a neta de Sudan, que teve de ser submetido à eutanásia pelos veterinários, porque estava sofrendo muito de doença e velhice. Ou seja: não teremos mais a companhia dos rinocerontes-brancos-do-norte em nossa aventura terráquea. Não gostei disso, embora nunca tenha tido relacionamento íntimo com rinocerontes-brancos-do-norte.

Foram notícias tristes do mundo animal, mas preferi me ocupar delas, uma vez que as do mundo humano eram bem piores, sobretudo as do lado brasileiro do mundo humano. Porque tudo indica que o STF vai mesmo acochambrar com os políticos e impedir que condenados em segunda instância sejam presos, e isso deve acontecer ainda hoje.

Olhando de relance, você diria que esse verdadeiro golpe na Justiça brasileira será dado para livrar Lula da cadeia. Se você dissesse isso, estaria certo. Mas não totalmente. Lula não tem esse poder. Não mais. Pode-se dizer, até, que ele está sendo usado por outros políticos. Usam Lula como escudo. Colocam-no na frente e se beneficiam por trás.

Porque, ao impedir a prisão depois da segunda instância, o STF acabará de vez com a Lava-Jato e com qualquer possibilidade de combate à corrupção no Brasil. Todos esses que hoje temem a ação da Justiça depois da perda do foro, entre eles o próprio Temer, ficarão a salvo, uma vez que poderão recorrer quase que infinitamente para escapar à punição.

Só a Justiça brasileira permite esse número de recursos, um bálsamo para advogados de defesa e seus clientes ricos. Havendo dinheiro, os criminosos podem estender julgamentos, embargos e apelações até serem salvos pela prescrição ou pela morte. Os pobres, é claro, continuarão sendo presos, alguns inclusive sem julgamento, mas quem se importa com pobres?

Se fizer isso, o STF irá liquidar definitivamente com a esperança de um futuro melhor para os brasileiros e dará salvo-conduto a todos os patifes que hoje se refocilam no poder.

Não é muito melhor se concentrar nas notícias do mundo animal? Aliás, li que cientistas chineses começaram a clonar macacos, num processo parecido com o da velha ovelha Dolly. Quem sabe o Latino não clona o querido Twelves? Tomara que ele ainda não tenha posto fora aquele saco de lixo.

DAVID COIMBRA