quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Investindo no passado

Raquel Cunha/Folhapres
Alunos do 6º ano experimental da escola municipal Doutor Antoine Margarinos Torres Filho, no morro do Borel (zona norte do Rio), jogam vôlei
Alunos da escola municipal no morro do Borel (zona norte do Rio), jogam vôlei
SÃO PAULO - Sou confiante em relação ao futuro da humanidade, mas acho cada vez mais difícil estender esse otimismo para o Brasil.

A crise econômica em que nos metemos, e da qual levaremos alguns anos para sair, coincide com a porção final de nosso bônus demográfico, o período em que a proporção de pessoas em idade de trabalhar é maior que a de dependentes (crianças e idosos). Se não aproveitarmos essa janela mais favorável para nos tornarmos um país rico, fazê-lo depois fica bem mais difícil. Nosso bônus vai mais ou menos até 2030. 

Como, devido à crise, o PIB "per capita" brasileiro registrado em 2013 só deverá ser retomado lá por 2023, desperdiçamos uma década. A essa altura, parece improvável que o Brasil consiga deixar de ser um país de renda média para entrar no clube dos ricos.

Se essas considerações já me punham num estado de ânimo derrotista, o quadro piorou substancialmente após ler na Folha reportagem de Ana Estela de Sousa Pinto e Gustavo Patu sobre a situação orçamentária de Estados brasileiros, a maioria dos quais já gasta mais com aposentados do que com educação. Das 27 unidades federativas, 16 comprometem maior fatia do orçamento com servidores inativos do que com a educação. Os campeões são RS, RJ, AL, MG e RN, onde os aposentados ficam com mais que o dobro do que é destinado aos estudantes.

Isso significa que nós estamos investindo no passado, não no futuro. Se existe alguma chance de o Brasil escapar à chamada armadilha da renda média, ela está em nos tornarmos uma usina de inovações relevantes. Riqueza é, em última análise, boas ideias. 


E é muito mais provável que soluções criativas surjam nas mentes de jovens bem educados do que da massa ignara ou de aposentados. É claro que o poder público não pode romper contratos e abandonar os inativos, mas precisamos pelo menos ter um sistema que mire nas prioridades certas. 

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