terça-feira, 25 de novembro de 2025


25 de Novembro de 2025
CARPINEJAR

As vozes da tornozeleira

O Brasil é uma tornozeleira violada. Prevalece uma curiosidade da destruição, as desculpas não condizem com a realidade, a sensação de alucinação permanece, as versões se transformam de acordo com a esperança da defesa.

O Brasil é uma tornozeleira que fala. Confie nesse fato.

As vozes dentro do grilhão contemporâneo de vigilância são de um país que jamais se curou do regime militar, que viveu como se nada tivesse acontecido, com uma anistia do esquecimento que, da mesma forma que permitiu o retorno dos exilados políticos como Leonel Brizola, perdoou os responsáveis pela tortura e desaparecimentos nos porões do Dops. Nunca houve um tribunal, nunca houve um júri para os sumiços arbitrários e sanguinários da suspensão do Estado de direito.

Eu acredito honestamente que existem vozes na tornozeleira eletrônica. Vozes aprisionadas, vozes jogadas em covas anônimas. Não são efeitos de remédio, mas do veneno amargo da culpa. Quem não foi enterrado sempre voltará pedindo justiça.

O que sinto é que trocamos a tinta das paredes, porém nos faltou coragem para resolver as chagas cíclicas e empreender uma reforma estrutural como merecemos.

A infiltração sonora se espalhou por tudo.

Nossa história é torta desde a descoberta. E não pela dúvida de onde realmente desembarcou pela primeira vez Pedro Álvares Cabral, se foi em Porto Seguro ou Natal, mas pela dizimação dos povos originários. Se havia 5 milhões de indígenas na época da chegada dos colonizadores, no início do século 16, o contingente hoje orbita em torno de 450 mil. Acabaram reduzidos a 0,83% da população brasileira.

E não se trata de ecos de um elo remoto. Basta recordar o Massacre do Paralelo 11, em 1963. De tantos genocídios ocultados, tornou-se um dos raros abordados na imprensa, um marco do gradual extermínio, por parte de seringalistas, de milhares de indígenas cinta-larga que habitavam Rondônia.

Esse alarido de idiomas extintos está também na tornozeleira eletrônica.

Somos a sucessão de chacinas. Jamais fizemos sincera retratação - muito além das cotas - à deportação violenta da comunidade africana para trabalhos forçados na escravidão. Outras 5 milhões de pessoas foram arrancadas de seu lar pela eugenia europeia no período do tráfico transatlântico, que durou mais de 300 anos.

Os gemidos e os cânticos de sofrimento moram na tornozeleira eletrônica. É possível escutar com nitidez. Nem uma solda será capaz de soltar os gritos.

E, por indiferença ao passado, por pura alienação, por absoluta ausência de proteção do governo, por zombaria à saúde pública, por negacionismo diante das nossas feridas abertas, por uma arrogância da ignorância, 700 mil brasileiros morreram de covid-19. Era só correr com a vacina, mas escolhemos placebos como a cloroquina para combater a maior crise sanitária mundial. O que dizer para 1,3 milhão de crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos, que perderam um ou ambos os pais durante a pandemia?

Os órfãos entenderiam facilmente os murmúrios que emergem da tornozeleira eletrônica. É a saudade engasgada de seus cuidadores. Veio-me à mente essa ideia da polifonia silenciada, amordaçada, presente num dispositivo de segurança, enquanto eu definia a tinta para pintar meu apartamento. Optei por cetim oriental, um misto de bege com cinza.

Mas não é uma cor poética que mudará a nossa verdade. A impunidade salta aos olhos do mais profundo coração adormecido. _

CARPINEJAR

25 de Novembro de 2025
NÍLSON SOUZA

Sábado-feira

A vida presta, especialmente nas manhãs ensolaradas de sábado na feira de produtos orgânicos do bairro Bom Fim, em Porto Alegre. José Bonifácio, o personagem histórico que dá nome à avenida, ficaria orgulhoso de ver o que se passa por lá - naturalista que era o nosso Patrono da Independência. O melhor da natureza humana transita entre as barracas improvisadas, na via fechada ao tráfego de veículos: casais com seus bebês e seus pets, jovens, idosos, gente de todas as tribos pacíficas do planeta, apreciadores de mate e conversa amistosa, vendedores e compradores de frutas, hortaliças, flores, sucos, pães, geleias e uma infinidade de alimentos saudáveis, cultivados e preparados com o carinho característico da gauchada da lavoura.

Gosto de caminhar sem pressa por todos os cantos daquele paraíso de diversidade e ecologia. Borges, o grande escritor argentino, disse que sempre imaginou o paraíso como uma espécie de biblioteca. Quem ama livros adora essa metáfora. Concordo em gênero e letras: livrarias e bibliotecas abrigam o universo inteiro e são refúgios de paz, de conhecimento e das melhores produções literárias do espírito humano. É nelas que a alma se alimenta. Mas o corpo também precisa de combustível renovável.

Por isso frequento com regularidade essa feira de mil atrativos. Compartilho um exemplo do último final de semana: em meio ao burburinho, percebe-se a voz suave de um cantor solitário que arranha sua guitarra sem receber muita atenção. Até que, por uma dessas magias dos sábados de primavera, aproxima-se dele um garotinho de quatro ou cinco anos que passeava com os pais e carregava sua guitarra de brinquedo. Como se tivesse ensaiado, o menino passa a acompanhar o cantador, simulando inclusive a coreografia do artista. Todos param para olhar. A música termina com aplausos entusiasmados dos feirantes e de seus clientes, surpreendidos pelo show inesperado.

Minha cidade - como dizia Erico Verissimo - tem uma orquestra sinfônica. E tem também, no simbólico Campo da Redenção, um brique de antiguidades, uma feira de delícias e um menino que canta e encanta com sua guitarra de plástico. A vida presta. 

NÍLSON SOUZA

 
25 de Novembro de 2025
OPINIÃO RBS

Descompasso climático

Em meio aos acontecimentos políticos e judiciais que sacudiram o país no fim de semana, o desfecho da COP30, em Belém (PA), acabou ofuscado. O resultado da cúpula, no entanto, merece exame por tratar de tema essencial à humanidade. As mudanças climáticas e os eventos extremos não são uma hipótese para o futuro. São um dado do presente, como mostraram a enchente de 2024 no Estado, o tornado que devastou Rio Bonito do Iguaçu (PR) no dia 7 deste mês, às vésperas da conferência, e o granizo destruidor em Erechim, no norte gaúcho, no domingo, com uma força que moradores disseram nunca terem testemunhado.

Os sinais da emergência climática, porém, ainda não são capazes de sensibilizar todos os países para a ação efetiva, como demonstra o documento final da COP30, aprovado no sábado. Para chegar ao consenso possível, foi preciso excluir pontos nevrálgicos, diante de resistência tenaz de nações que são grandes produtoras de petróleo. Nem menções superficiais sobre a transição energética sobreviveram. O chamado "mapa do caminho" pretendido pelo Brasil, indicando um percurso minimamente plausível para um abandono paulatino e realista dos combustíveis fósseis, ficou de fora do texto. O termo "combustíveis fósseis", aliás, nem sequer é citado, indicativo inquestionável de um resultado muito aquém do esperado.

Frustrou também a ausência de qualquer roteiro para deter o desmatamento. Ainda mais para um evento na Amazônia, maior floresta tropical do mundo e ameaçada pela derrubada massiva de árvores, mesmo que agora em ritmo menor. Os combustíveis fósseis e o desflorestamento são duas das principais fontes de emissão de gases causadores de efeito estufa.

Sem passos efetivos na mitigação, os avanços na parte da adaptação climática foram celebrados. Foi adotado um conjunto de indicadores para medir o preparo dos países. É um tópico relevante, mas mostra maior facilidade de chegar a um acordo sobre preparação para a fúria do clima do que para evitar o agravamento do aquecimento global. Foi bem recebido, ainda, o compromisso de triplicar os recursos para adaptação até 2035, embora persista a fragilidade de apontar de onde sairá o dinheiro.

No balanço da COP30, o sentimento de desapontamento predomina. Mas o resultado não difere em grande medida das conferências anteriores, em que se discutiu muito, mas se tergiversou ou fugiu de pautas centrais e as medidas práticas permaneceram como promessas. É o reflexo dos interesses conflitantes, da relevância econômica dos combustíveis fósseis e da crise do multilateralismo. A expectativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que essa fosse a edição da implementação, pondo fim a negociações intermináveis, restou fracassada.

A presidência brasileira da COP30, no entanto, se comprometeu a elaborar planos para levar a discussão sobre combustíveis fósseis e desmatamento para a conferência de 2026, na Turquia. A despeito dos obstáculos, é compromisso histórico manter a mobilização para ainda tentar evitar que a temperatura do planeta se eleve acima do limite de 1,5ºC até o fim do século, como prevê o Acordo de Paris. Até aqui, há descompasso entre a urgência e os passos concretos. _


25 de Novembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Recuos de Trump exigem conta antes de ceder

Agora, sim, a retirada de tarifas nos Estados Unidos sobre produtos alimentícios brasileiros faz diferença, tanto para o Brasil quanto para o governo Trump, que enfrenta forte reprovação diante de alta de preços como café e carne. O que o governo americano fez até agora não são concessões ao Brasil no âmbito da negociação bilateral. São apenas novos recuos do atual ocupante da Casa Branca diante tiro no pé que foi o tarifaço.

Ao contrário do que Trump propagandeava, quem paga as altas alíquotas não são os países afetados. É o consumidor americano, porque o importador que banca o pagamento na prática repassa o custo extra para o preço final. O prejuízo para os sobretaxados vem da queda das exportações para os EUA.

A mera retirada do que o próprio Trump chamou de "tarifa recíproca" - 10% para quase todos os países - não resolvia o problema do Brasil, nem o dele. A importação americana de café e carne depende de produtos brasileiros, submetidos ao que ele chama de "tarifa punitiva" - tudo o que passa de 10%, no caso do Brasil, 40%.

Receita com tarifa cresceu 114%, mas...

Conforme dados do Tesouro dos EUA, no acumulado do ano até setembro, a receita com tarifas alcançou US$ 195 bilhões (R$ 1 trilhão, quase a metade do orçamento federal do Brasil, sem contar o juro da dívida). No mesmo período de nove meses de 2024, havia sido de US$ 77 bilhões. Mais do que dobrou, com alta de 114%.

Mas segue longe de resolver o problema orçamentário dos EUA. Lá, como aqui, o buraco é fundo: era de US$ 1,76 trilhão de janeiro a setembro do ano passado, declinou pouco, para US$ 1,63 trilhão em igual período de 2025.

Trocando trilhões em miúdos, o que Trump "conquistou" até agora com sua guerra comercial foi um aumento insuficiente da arrecadação, sem resolver o problema de fundo, o déficit fiscal dos EUA.

Até agora, não há favor ao Brasil, portanto não exige contrapartidas nacionais. Produtos industrializados não foram contemplados, mas também pesam na inflação americana. É bom calibrar os esforços quando enfim chegar a hora de fazer concessões: vai ser preciso fazer muita conta para saber se ceder de fato é interesse nacional. _

O dólar recuou apenas 0,11% ontem, mas foi o suficiente para fechar em R$ 5,395, abaixo do nível de R$ 5,40 ao qual havia voltado na sexta-feira, em pleno feriadão, sob efeito de sinais contrários ao corte de juro nos EUA.

Tênis da COP30 feito no RS vende 2 mil pares

Depois de vender 2 mil pares de tênis feitos de borracha natural e caroço de açaí na COP30, encerrada no sábado, a Seringô, empresa do Pará que tem parte de sua produção feita no RS, abrirá ponto físico em Belém no próximo dia 4. Os calçados da marca, feitos com látex de seringais do Pará, também foram usados pelos voluntários da conferência, mas o modelo oficial do evento não estava à venda.

A Seringô lançou sua loja virtual na COP30, e operou dois locais de venda em Belém, com o Banco do Brasil e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A parceria com o banco estatal será ampliada, e passará a oferecer seus produtos em ambiente digital para clientes da instituição. O novo estabelecimento físico ficará em uma agência bancária.

A empresa entrega para todo o Brasil, com calçados ecológicos a partir de R$ 520. O tênis da COP30 não está disponível para venda.

- Era um produto específico para os voluntários, mas teve uma busca enorme. Os dois produtos que temos hoje são o tênis feito de algodão orgânico e o produzido com tecido de juta (fibra natural) da Amazônia - diz o diretor da Seringô, Lauro Samonek.

Os calçados têm rastreabilidade certificada pela empresa suíça que fabrica a tinta para impressão de 90% das cédulas das moedas do mundo, incluindo dólar, euro e franco suíço, a Sicpa. Um selo com QR Code garante que o produto é original e permite que o consumidor acompanhe da extração do látex à confecção final. _

R$ 85,5 milhões do BNDES para ter

biometano no RS

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou ontem investimento de R$ 85,8 milhões na Bioo Investimentos e Participações, que tem unidade em Triunfo, na Região Carbonífera.

A companhia transforma resíduos orgânicos agroindustriais em biometano - um dos ativos mais atrativos em tempos de transição energética - e em outros produtos sustentáveis. O banco terá participação de 19,9% do capital social da Bioo. O aporte foi feito por meio do BNDES Participações (BNDESPar).

O investimento é realizado com o aporte adicional da Flying Rivers Capital, gestora especializada em investimentos climáticos. A operação apoia o desenvolvimento de duas novas centrais de tratamento integrado de resíduos em regiões com alta disponibilidade do insumo e demanda por energia renovável em alta.

A primeira unidade da Bioo, localizada em Triunfo, entrou em operação no segundo semestre de 2025 com o fornecimento de biometano para a Sulgás em contrato de longo prazo. A empresa também produz CO2 biogênico e biofertilizantes com base em resíduos agroindustriais. _

Risco de terceiro anúncio sem efeito prático de UE-Mercosul

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala na assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) no dia 20 de dezembro. Admite, porém, a hipótese de que pode ser o terceiro anúncio retumbante, mas sem efeito prático. É bom recuperar a frase completa:

- Possivelmente seja o maior acordo comercial do mundo. Depois que assinar, vai ter ainda muita tarefa para a gente poder começar a usufruir das benesses desse acordo, mas vai ser assinado. É um acordo que envolve quase 722 milhões de pessoas e US$ 22 trilhões de PIB.

Em bom português, pode significar apenas mais uma assinatura, como ocorreu em junho de 2019, no governo Bolsonaro, e em dezembro de 2024, no governo Lula. Seria o terceiro anúncio de acordo, com algum efeito político remanescente, mas a essa altura já um tanto desgastado pelo descrédito de sucessivas declarações formais sem efeitos reais.

É verdade que, desta vez, Donald Trump ajuda no maior interesse dos europeus em um avanço efetivo. O presidente dos EUA não só submeteu a UE a uma tarifa de 15% - alta para os cidadãos do bloco -, mas também a gastos extraordinários com defesa ao não travar a ofensiva expansionista do presidente da Rússia, Vladimir Putin.

A Comissão Europeia, espécie de Poder Executivo da UE, comandada por Ursula von der Leyen, estabeleceu prazo até 20 de dezembro para obter o aval dos Estados-membros.

A tentativa é contornar a histórica oposição da França pela aprovação apenas da parte comercial do acordo, que permitiria a votação dos chefes de Estado dos 27 países-membros do bloco, no âmbito do Conselho Europeu. Não teria a parte de investimentos e de parceria político-estratégica. Uma "maioria qualificada" poderia ser obtida antes da cúpula do Mercosul, em 20 de dezembro, no Brasil. _

GPS DA ECONOMIA

25 de Novembro de 2025
Rosane de Oliveira

TJ protagoniza eleição incrível

Que seria uma eleição apertada, todo mundo no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul sabia. Daí a um empate cravado - 80 a 80, que resultou na eleição do desembargador Eduardo Uhlein para a presidência por antiguidade - poucos se arriscavam a apostar. Foi a segunda vez na história recente que a eleição terminou empatada.

O resultado confirmou a avaliação corrente de que o Rio Grande do Sul tem um TJ partido ao meio, para usar a expressão consagrada por Ítalo Calvino. Nada a ver com a fábula do visconde que encarnava o bem e o mal em lados diferentes do corpo, mas à divisão entre os dois grupos políticos que nos últimos anos disputam o comando do tribunal.

Para o presidente eleito, nenhum desafio será maior do que "promover a unidade institucional":

- Precisamos desarmar os espíritos. Isso se faz com diálogo, com escuta, com a participação dos colegas nas decisões.

À coluna, Uhlein disse que a transição começa imediatamente e que os magistrados conhecem as propostas de sua chapa, debatidas exaustivamente na campanha. A divisão na eleição não deve significar ruptura com a administração de Alberto Delgado Neto, embora parte do grupo de Uhlein proponha um "freio de arrumação" em relação ao uso da inteligência artificial.

- Sem treinamento adequado e sem um olhar crítico em relação à IA, daqui a pouco não estaremos julgando, mas nos livrando de processos - diz um desembargador preocupado com as imprecisões dos robôs, capazes de inventar jurisprudência quando estão diante de um caso inusitado. _

Reunião decisiva sobre o Multipalco

Está prevista para hoje a reunião decisiva para discutir a ameaça de suspensão da programação do Multipalco, por falta de servidores.

O governador Eduardo Leite ficou incomodado com a ameaça do presidente da Fundação Theatro São Pedro, Antônio Hohlfeldt, e garantiu que a programação será mantida. Os secretários sustentam que cabe ao gestor encontrar soluções, mas Hohlfeldt já cansou de explicar que não tem mais coelhos para tirar da cartola.

A contratação emergencial está no radar. 

Pedágios enfrentarão resistência em audiências

Até a cobrança por trecho virou motivo de polêmica

Até o que deveria ser visto como vantagem, que é a cobrança por trecho utilizado, vira argumento contra a concessão. Para que o usuário que usa apenas um trecho da estrada não pague o valor total de quem trafega por toda a extensão é preciso instalar mais pórticos de cobrança, o que se torna impopular. 

TCE lança ferramentas sobre concessões, privatizações e PPPs

POLÍTICA E PODER

25 de Novembro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O que falta ao Brasil é uma terceira via

A prisão de Jair Bolsonaro não é apenas uma oportunidade para a direita se reposicionar. O que falta ao Brasil é uma terceira via.

As pesquisas Quaest vêm demonstrando, de forma seriada, uma fissura no cenário político brasileiro: há um espaço crescente para uma alternativa, de esquerda, centro ou direita, em 2026.

Segundo levantamento de 13 de novembro, 24% dos eleitores afirmam que o melhor resultado seria a vitória de um candidato que não estivesse ligado nem a Lula nem a Bolsonaro. É a maior fatia isolada entre todas as alternativas apresentadas, superando inclusive a preferência expressa por Lula (23%) e por um eventual retorno de Bolsonaro (15%).

Há uma fadiga profunda do eleitorado com a polarização que marca a política nacional desde 2018. Se somarmos os 24% que desejam uma alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo aos 17% que preferem alguém de fora da política tradicional, surge um bloco robusto, de mais de 40% dos brasileiros, que demonstra vontade de romper com o binarismo que domina o debate público há anos. É um contingente expressivo, capaz de redefinir a corrida presidencial - desde que exista um nome capaz de seduzi-lo.

Busca por uma alternativa

Aí entramos em outra seara. É muito difícil furar a bolha. A política brasileira parece organizada de tal modo que qualquer tentativa de se apresentar como alternativa é imediatamente tragada por um dos polos.

O governador Eduardo Leite, por exemplo, tenta se posicionar nesse campo desde 2021, mas enfrenta resistências tanto da base bolsonarista - que o associa ao "sistema" - quanto de setores da esquerda - que rejeitam sua agenda liberal. Sem falar das rivalidades internas de seu partido, o PSD.

Outros nomes que já tentaram ou tentam ocupar esse espaço encontram barreiras semelhantes: Simone Tebet, com forte apelo técnico, acabou absorvida pelo governo; Rodrigo Pacheco transita bem entre grupos, mas carece de densidade eleitoral; Marina Silva tem capital moral, mas enfrenta desgaste acumulado; o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, tenta se projetar nacionalmente, mas esbarra na limitação regional e na disputa com a direita bolsonarista. No fim, o sistema político empurra todos para um dos dois polos - e o eleitor fica sem alternativa clara.

A política brasileira continua prisioneira de Lula e Bolsonaro, mesmo que haja sinais de exaustão. Há um medo, no ar, de romper a lógica binária e arriscar um movimento independente - seja à direita, seja à esquerda. A direita tradicional não consegue se desconectar da figura de Bolsonaro, temendo a perda do apoio orgânico de suas bases. A esquerda não consegue se desvincular de Lula, receosa de desafiar a hegemonia. Assim, os dois polos seguem alimentando-se mutuamente: a existência de um reforça a necessidade política do outro.

Enquanto isso, perdem-se debates sobre economia, sustentabilidade, saúde, segurança, inovação, educação. _

Trump e os seus ventríloquos sauditas

Donald Trump e os EUA não estavam na COP30, em Belém, obviamente. Nem precisariam estar.

A Arábia Saudita atuou como ventríloquo americano. Obviamente, o país do Golfo tem seus interesses domésticos.

Os sauditas são os maiores exportadores de petróleo do mundo. Logo, já costumam boicotar qualquer acordo nas COPs que envolvam eliminação de combustíveis fósseis - o que voltou a ocorrer em Belém. Mas, cada vez mais, com apoio da Casa Branca.

Na semana que antecedeu o final da COP30, Donald Trump se encontrou com o príncipe carniceiro Mohamed bin Salman, recebido com carpete vermelho em Washington - para quem não lembra, a CIA informou, há sete anos, ao mundo que MBS, suas iniciais, fora responsável por ordenar o assassinato do jornalista saudita exilado Jamal Khashoggi.

O recado, entre outros, foi reforçado: "Drill, baby, drill!" ("Perfure, baby, perfure"). _

"O Brasil desafiou Trump e venceu", destaca o NYT

O The New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo, publicou uma análise do ex-correspondente do veículo no país intitulada "O Brasil desafiou Trump e venceu".

A reportagem de ontem, assinado por Jack Nicas, que atualmente é chefe da sucursal do NYT na Cidade do México, analisa os recentes desdobramentos envolvendo Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Logo no início, o texto recupera a resposta que Trump deu a jornalistas ao ser informado sobre a prisão preventiva no sábado:

- Que pena - disse, sem fazer qualquer outro comentário.

Segundo o correspondente, a tentativa de Trump de intervir no Brasil "foi uma manobra extraordinária para influenciar o caso jurídico mais importante de um aliado em décadas, usando algumas das ferramentas mais poderosas à sua disposição. Mas as instituições brasileiras o ignoraram completamente. A aparente capitulação do Sr. Trump demonstra que seus esforços foram basicamente em vão".

O material ainda ressaltou que, após a condenação de Bolsonaro, autoridades americanas chegaram a prometer retaliações, o que nunca se concretizou.

"Lula - um líder da esquerda latino-americana - saiu do conflito com Washington ainda mais forte politicamente do que quando entrou", afirmou o jornal. _

Estátua de Jango na Capital

Às vésperas do cinquentenário de sua morte, o ex-presidente João Goulart terá uma estátua em sua homenagem em Porto Alegre. A inauguração do monumento está marcada para 5 de dezembro, no Trecho 1 da Orla do Guaíba. A estátua será instalada na confluência das avenidas Edvaldo Pereira Paiva e Aureliano de Figueredo Pinto, em frente à Rótula das Cuias. A obra é de autoria do artista Otto Dumovich, mesmo escultor responsável pela estátua do ex-governador Leonel Brizola, ao lado do Palácio Piratini.

A iniciativa partiu da Fundação Caminho da Soberania (FCS), presidida pelo ex-deputado federal Vieira da Cunha. Os recursos para a estátua e para a terraplenagem do local foram arrecadados pela própria fundação. Representando a família, estará presente no evento o neto de Jango, Christopher Goulart, também da FCS. 

Parceria binacional

Uma parceria binacional entre Bagé e o departamento de Rivera, no lado uruguaio, vai promover serviços de saúde na comunidade de Serrilhada (ou "Cerrillada", para os uruguaios). A localidade rural se situa diretamente na fronteira entre os dois países.

A iniciativa prevê que, semanalmente durante um mês, sejam oferecidos atendimentos médicos, odontológicos e de orientação em saúde, com as duas cidades alternando a responsabilidade pelos procedimentos.

- Quem convive na fronteira sabe que no seu cotidiano não tem barreiras. Vivemos como se fosse um só território - afirmou o prefeito de Bagé, Luiz Fernando Mainardi. _

INFORME ESPECIAL

segunda-feira, 24 de novembro de 2025



24 de Novembro de 2025
CARPINEJAR

Mais de 40 mil no Beira-Rio

Há vitórias que não são bonitas, não são justas, não são edificantes, mas descarrego, exorcismo, catarse, livramento. Foi o que aconteceu com o Inter em cima do Ceará na Arena Castelão na quinta-feira. O time vem jogando o seu pior futebol na temporada, sem infiltração, sem solução, com pouquíssimos arremates. Venceu a equipe cearense nos minutos sorrateiros. No último gemido mais do que no último suspiro, mesmo com a superioridade numérica por quase toda a partida.

Ganhou no sufoco, na sorte, não por merecimento. Mas ganhou, é o que importa no estertor do Brasileiro. É como um centroavante em abstinência marcando gol de canela - só agradecerá que a bola bateu em sua perna e acabou indo para as redes.

Agora, com o Santos hoje, chegou a hora de não pensar em outro escore senão mais um triunfo e pôr a pá de cal na cova do Z-4. Não se deve buscar o luxo de um empate, pois os jogos seguintes serão fora de casa. Não dá para esperar e definir a permanência na Série A na derradeira rodada, com o Bragantino. Nunca se sabe o nervosismo.

É tudo ou nada. É aproveitar o embalo e lotar o Beira-Rio. Que o torcedor entenda a gravidade da situação, o tamanho do buraco, a falência que significaria um descenso para um clube completamente endividado. Não há mais espaço para pudores, pruridos, protestos ou mágoas domésticas. Resta esquecer os antecedentes negativos em Porto Alegre, esquecer o ranço acumulado: trata-se de atropelar o medo (sequer Neymar veio para a capital gaúcha). É uma decisão mais crucial do que o Gre-Nal que tolheu a possibilidade do octa do rival.

Não há como desperdiçar três pontos. Não há como adiar a redenção.

Se não contaremos com Carbonero e Tabata, expulsos, não entremos em paranoia, aceitemos o destino, vamos com os guris Gustavo Prado e Ricardo Mathias. Já que Ivan encontra-se lesionado, acolhamos Anthoni em generosidade amnésica, sem lembrar suas reincidências atrapalhadas. Quem se fardar será o nosso craque, o nosso ídolo, o nosso coro de urros e aplausos.

A meta é terminar o ano com dignidade. Depois lavaremos as camisetas sujas e encardidas em público. Depois insultaremos e criticaremos a direção.

Não se xinga doente. Aguardemos que o Inter se recupere do fundo do poço em que se meteu para retomar a saúde das cobranças.

A crise técnica se apresenta, antes de qualquer coisa, como uma catástrofe psicológica do vestiário. Algo saiu do lugar desde a lesão de Fernando e sua dispensa. Sem o capitão moral, o elenco virou um agrupamento. Até Alan Patrick desapareceu e, com o seu ocaso repentino e inexplicável, liquidou suas chances de ser convocado para a Copa.

Ele não desaprendeu sua arte, vive um bloqueio criativo provisório. Como os demais colegas. Um dia desencanta.

Tanto faz quem será o escudo e a bandeira sacrificados na 16ª posição do inferno. O cavalinho retardatário do Fantástico. No turfe da sobrevivência, sentimentos nobres como a piedade ou a compaixão tendem a desvanecer. Precisamos correr longe de sua ameaça. Ganhando do Santos, poderemos ultrapassar Ceará, Vasco e Grêmio, e galgar três postos na tabela.

O que dói é constatar que estamos a oito pontos de uma pré-Libertadores em potencial, tendo ainda confrontos com três adversários diretos para a vaga. Seria sonhar demais, não é o momento. Um passo de cada vez. Nosso foco é sair do pesadelo.

Se chover, lutaremos contra a fúria das águas, a velocidade dos ventos. Se o juiz falhar, lutaremos contra os seus desmandos. Não existe brecha para desculpas. O que é do povo ninguém tira. 

Que tenhamos mais de 40 mil apaixonados no Beira-Rio. Que tenhamos ruas de fogo. Que tenhamos explosão luminosa no céu, irrompendo perto do hotel santista. Que não deixemos a cidade dormir. Que o rugido seja de uma final faminta. Que a pressão seja escandalosa, febril, tóxica.

De acordo com pesquisa recente encomendada pela CBF e realizada pelo Instituto Nexus, o Internacional possui a sexta maior torcida do país, a maior do Sul e a primeira além do eixo Rio-São Paulo. Cabe-nos provar a estatística, justificar esses quatro por cento vermelhos do Brasil. 

CARPINEJAR

24 de Novembro de 2025
CLÁUDIA LAITANO

Cada um na sua

A liberdade religiosa foi uma das grandes conquistas do pensamento iluminista do século 18 - e não apenas porque se trata de uma ideia bonita. Nos dois séculos anteriores, a pancadaria entre fiéis comeu solta na Europa. Não havia sossego para ninguém. Precisou morrer muita gente antes que o pessoal entendesse que, para o bem de todos, era preciso criar algumas regras de boa convivência no condomínio da fé.

Basta olhar o noticiário para perceber que essa é uma lição que precisará ser reaprendida até o fim dos tempos. Volta e meia alguém decide apontar o dedo para quem não reza pela mesma cartilha, e lá estamos nós de novo, armando a fogueira para queimar o herege. É o pluralismo garantido por lei que nos protege da tendência que todas as religiões têm de escorregar para a intolerância dogmática - muitas vezes com apoio de correntes políticas que, sem qualquer motivação espiritual, tiram proveito dos ânimos exaltados para dividir e conquistar.

No Texas, onde estou morando, o governador republicano decidiu assinar uma lei obrigando as escolas públicas a colocarem um cartaz com os 10 Mandamentos em todas as salas de aula. Azar do pluralismo. A lei começou a valer no início do atual ano letivo, em setembro, e imediatamente provocou reações. 

Uma professora de Dallas colocou junto aos 10 Mandamentos cartazes com princípios fundamentais do budismo, do hinduísmo e do islã. Uma outra começou a distribuir botons em defesa da primeira emenda da Constituição americana - aquela que, inspirada pelos iluministas, garante a liberdade e a pluralidade religiosa. Na semana passada, um juiz federal emitiu uma liminar determinando a remoção dos cartazes, atendendo a uma ação movida por um grupo de famílias descontentes. A ver como a coisa anda.

E o que dizer sobre o que aconteceu em São Paulo na semana que passou? Policiais militares armados, um deles com uma metralhadora, invadiram uma escola depois que um pai, também policial militar, surtou quando viu que a filha, de quatro anos, havia desenhado um orixá durante uma aula. Não precisamos falar sobre o escândalo que é ver a Polícia Militar paulista tocando o terror em crianças e professoras por um motivo absurdo, nem lembrar que a Base Nacional Comum Curricular prevê o ensino de fenômenos religiosos, mitos e práticas culturais em escolas de todo o país.

Vamos abstrair tudo isso e pensar apenas no que esse homem, esse policial, esse pai, anda ouvindo falar sobre religião (a dele e a dos outros) na igreja, em casa ou no zap. Que a lei - dos homens - nos proteja. 

CLÁUDIA LAITANO

24 de Novembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Como vem o foco ambiental?

Faço parte de uma das famílias que controlam a usina. Era do meu avô, que teve três filhos. A sede é em Alagoas, e tinha 7,5 mil hectares de reserva de Mata Atlântica. Hoje, tem porte considerável, está profissionalizada, a família faz parte do conselho. Mas meu pai fazia corredores entre as grutas para os animais passarem, enquanto eu e meu primo só pensávamos em tirar e plantar cana, porque dava mais. Meu pai nos chamou e disse: ?Vocês podem fazer qualquer besteira e não serão demitidos, porque um é filho, o outro é sobrinho; agora, se arrancarem uma árvore dessas matas, serão demitidos sumariamente?. Ficamos meio sem entender, eu tinha 21 anos.

Entenderam, mais tarde?

Aprendemos que a usina só moía porque tinha mata protegendo todas as nascentes do Rio Coruripe e seus afluentes. A comunidade está envolvida. Antes, quando o pessoal da cidade precisava de madeira para casa, para consertar o telhado, entrava na mata para cortar árvore. Separamos alguns hectares que eram de cana e plantamos uma palmeirinha usada para artesanato, ouricuri. A comunidade não entra mais na mata. Em 1994, compramos uma usina no Triângulo Mineiro, em Iturama, porque no Nordeste não tinha como crescer. Hoje, temos quatro unidades na região. Em 2005, fomos desafiados a levar o projeto de preservação ao Cerrado. Montamos o Idese, que cuida de reservas e projetos sociais. Compramos quase 10 mil hectares de uma siderúrgica que ia arrancar o cerrado para fazer carvão na caixa d?água do Rio São Francisco.

Como sustentam a reserva?

Antes, dependia da usina. E se a usina tivesse dificuldade financeira, a primeira coisa a cortar seria a área ambiental. Transformamos o Idese em uma Ocip (organização da sociedade civil de interesse público). Trabalhamos para isso nos últimos cinco anos. Hoje, a reserva é autossustentável e ainda sobra um pouco de dinheiro para ampliar a área. Compramos mais 10 mil hectares. A gente gasta mais ou menos R$ 2 milhões por ano na manutenção, o que sobra vai para ampliação, porque a venda de créditos de carbono nos dá de R$ 5 milhões a R$ 6 milhões.

Como conseguiram esse retorno em créditos de carbono?

Montamos a operação com ajuda do Itaú. O cálculo do carbono hoje é feito acima e abaixo do solo. No Cerrado, as árvores são baixinhas e tortas, mas as raízes são fortes para aguentar a seca. A última venda de carbono teve contrato assinado na COP30. É uma simbologia, porque a gente já vende bem e está ampliando. Os clientes são empresas europeias e algumas americanas. O banco ganha um pedaço desse negócio, lógico, ninguém trabalha de graça, mas é um negócio que dá uma renda anual, por ao menos 30 anos.

A reserva tem outro lucro?

Quando a Coruripe exporta açúcar, ganha US$ 2 a mais por tonelada de açúcar por ter sustentabilidade ambiental certificada pela Vive (Vendor Information Verification Experts) em que se cadastram exportadoras e importadoras. Se não, é o preço da bolsa. E esses US$ 2 dólares vão direto para o Idese, que tem conta bancária separada da Coruripe. Eles pagam um prêmio para quem é sustentável, mesmo em outro país. Cerca de 40% do nosso açúcar é exportado para essas empresas que querem estar no Vive.

O que US$ 2 representam?

Uma tonelada de açúcar para exportação hoje está em torno de US$ 550. O prêmio é de US$ 2, é pouco. Mas para nós, dá quase US$ 1 milhão por ano. Para a reserva ambiental, é um colosso. Banca o custo de preservar e fazer nossos programas educacionais e ainda sobra, com os créditos de carbono, para comprar 1,5 mil hectares por ano. Lá, quando alguém desmata, tem gente que quer botar na cadeia. Eu digo ?minha gente, a briga aqui é diferente, a briga é econômica?. Se colocar meia dúzia na cadeia, 200 vão desmatar. Não adianta.

Como ganhar essa briga?

A gente tem de fazer com que preservar dê tanto dinheiro como plantar soja. Na hora que isso acontecer, ninguém em sã consciência vai tirar uma árvore para plantar soja, correndo o risco da safra, podendo deixar a árvore e ganhar quase igual. Dizem que o Estado é que tem obrigação de preservar, mas não tem dinheiro para educar o povo, fazer saúde. Aí quer que preserve porque é obrigação. No Brasil, acho que nos próximos 200 anos não vai acontecer. A gente tem de permitir que isso seja feito pela iniciativa privada. Esse é o charme da RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Nacional). É o governo não gastar imposto, só vai fiscalizar. É caro preservar. Mas com crédito de carbono, passa a ser lucrativo também. 

Respostas capitais - Vítor Wanderley Júnior

Engenheiro mecânico, sócio e integrante do conselho de administração da Usina Coruripe, uma referência em preservação autossustentável no Brasil

"A gente tem de fazer com que preservar dê tanto dinheiro como plantar soja"

Vítor Montenegro Wanderley Júnior ouviu do pai que seria demitido do negócio da família, uma usina de açúcar, se cortasse uma só árvore da reserva. Descobriu que a mata protegia as nascentes do rio que irrigava o plantio de cana. Décadas depois, multiplicou a área de preservação que dá lucros crescentes.

GPS DA ECONOMIA

24 de Novembro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Bolsonaro, os filhos e a prisão para evitar espetáculo

À sua maneira, cada um dos três filhos mais velhos contribuiu para o desfecho que levou Jair Bolsonaro para uma cela da Superintendência da Polícia Federal no sábado de feriadão. O deputado Alexandre Ramagem, que fugiu para Miami, colocou seu tijolinho na construção, alertando as autoridades para a falta de limite dos condenados pela trama golpista de 2022.

Foi o senador Flávio Bolsonaro, o mais velho e, em tese, o mais centrado, que deu o motivo para a decretação da prisão preventiva ao convocar uma vigília em frente ao condomínio onde mora o ex-presidente, em vídeo no qual usou a frase "vamos reagir".

Na decisão em que determinou a prisão preventiva, o ministro Alexandre de Moraes alegou que era para evitar desrespeito à ordem pública, numa referência clara à manifestação convocada por Flávio. Mas o mais grave foi a detecção do sinal de que pouco depois da meia-noite houve tentativa de romper a tornozeleira eletrônica, indicativo de um plano de fuga.

A família sabe que, nesta semana, esgotados os prazos para recursos contra a decisão que condenou Bolsonaro, ele seria preso - provavelmente na Papuda, onde estão os condenados pela desordem no 8 de Janeiro. Moraes se antecipou à tentativa de fuga ou à repetição da manifestação que os petistas fizeram quando Lula teve a prisão preventiva decretada, em 2018. Os apoiadores lotaram um ginásio e se sucederam no microfone, antes do discurso do próprio Lula.

Relembrando, Lula não estava em prisão domiciliar. Foi da liberdade para uma cela na Superintendência da PF em Curitiba - e aqui a história dos dois se cruza mais uma vez. A decisão de mandar Bolsonaro para a sede da corporação em Brasília, onde terá cuidados médicos 24 horas por dia, remete à isonomia com Lula.

Voltando ao papel dos filhos, o vereador Carlos Bolsonaro deu sua contribuição para apressar a prisão ao pintar um quadro mais grave do que já é o da saúde do pai, dizendo que ele não sobreviveria à prisão porque está em crise permanente de soluços e poderia se engasgar com o refluxo durante a noite, o que não foi confirmado pelos médicos.

Antes da condenação, Eduardo fez sua parte para complicar a vida do pai ao conspirar contra o Brasil direto dos Estados Unidos, para onde fugiu no início do ano. Eduardo imaginou que o Supremo iria se intimidar com as retaliações do governo de Donald Trump - do tarifaço à suspensão dos vistos de sete ministros e a imposição da Lei Magnitsky a Moraes -, mas se enganou redondamente. O resultado é que agora terá de responder por tentativa de obstrução da Justiça, o que o tira do jogo sucessório em 2026. _

A prisão preventiva de Bolsonaro será convertida em cumprimento de pena nesta semana. Resta saber se ficará na PF ou irá para a Papuda, onde aliados dizem que ele não tem condições de ficar por causa dos problemas de saúde.

Lula oficializa novos recursos para o RS nesta semana

Saindo do governo - Sufrágio na Corte - Transparência necessária

Nomeada há seis meses, a secretária de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Fernanda Barth (PL), deixará o governo Sebastião Melo. A saída está programada para a metade de dezembro. Melo já foi avisado, mas ainda não definiu o substituto.

Fernanda vai se dedicar à pré-candidatura a deputada federal. Ela tem estreita relação política com o deputado Ubiratan Sanderson, que deve concorrer a senador pelo PL.

Com o retorno de Fernanda à Câmara Municipal, quem perde a cadeira é o primeiro suplente do PL, Alexandre Bobadra. 

Será escolhida hoje a nova direção do Tribunal de Justiça. A votação para a presidência será aberta às 10h, e o resultado será proclamado às 15h.

Antonio Vinicius Amaro da Silveira e Eduardo Uhlein protagonizam uma disputa parelha, mas cordial. Estão aptos a votar 161 desembargadores. _

O tema dos voos do governador e do uso das aeronaves do Estado não surgiu por acaso: ele existe, está documentado e vem sendo acompanhado por diferentes frentes desde o início do ano. Em março, o deputado Felipe Camozzato (Novo) fez seu primeiro pedido formal ao governo do Estado, à época especificamente sobre a intenção de compra de uma aeronave destinada a operações aeromédicas. Em setembro, ampliou a solicitação para incluir também o uso das aeronaves em geral.

Em julho, Zero Hora apresentou seu próprio requerimento, pedindo informações detalhadas sobre os voos realizados pelo governador. A resposta inicial do governo foi decretar sigilo, sob a justificativa de questões de segurança. Depois, recuou e afirmou que os dados seriam disponibilizados.

Essa série de pedidos apenas reforça a importância de transparência plena, sobretudo quando o debate envolve recursos públicos, deslocamentos oficiais e justificativas de interesse do Estado. _

Múltipla escolha

Para Porto Alegre, estão previstos cerca de R$ 500 milhões do Firece, fundo criado para financiar obras de proteção contra enchentes. O prefeito Sebastião Melo foi convidado e pretende comparecer.

Quem também participa é o prefeito de Canoas, Airton Souza. Ele confirmou presença ontem, ao acompanhar (foto) o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff Barreiros, e o deputado federal Paulo Pimenta em vistoria às obras do dique do bairro Mathias Velho. Para Canoas, será assinada ordem de início da construção de 1,5 mil apartamentos a quem perdeu a moradia na enchente.

De acordo com Pimenta, o evento conjunto dos ministérios das Cidades e da Integração Nacional terá anúncios referentes a obras de prevenção, planos de trabalho apresentados à Defesa Civil e os programas Compra Assistida e Minha Casa, Minha Vida. _

De saída do PRD, o deputado estadual Elizandro Sabino está sendo cortejado por diferentes partidos. Estão na lista de possíveis destinos PSD, PP, Republicanos e MDB, onde está a esposa dele, Tanise Sabino, que é vereadora em Porto Alegre.

O PL já foi descartado. 

Recurso rejeitado

Por unanimidade, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou recurso apresentado pelo ex-vereador Valter Nagelstein (Republicanos) e manteve a condenação do político por racismo. O acórdão foi publicado na semana passada.

O processo teve origem em um áudio enviado por Nagelstein a apoiadores em 2020. A defesa já protocolou novo recurso e informou, em nota, que "vislumbra muitos meios para garantir o deslinde justo e certo do feito em questão". _

Saia-justa

A Mesa Diretora da Câmara de Porto Alegre vota na quarta-feira resolução que regra vestimentas no plenário. A primeira versão proíbe o uso de chinelo, bermuda e minissaia, além de "trajes sujos, rasgados ou visivelmente desalinhados".

A resolução é mais um ingrediente na tormentosa relação entre a presidente, Comandante Nádia (PL), e a oposição. 

Rede organizada- mirante

Na gravação, Zucco diz que os grupos, separados por municípios, são voltados à prestação de informações sobre seu mandato e a agenda no Estado, em menção à corrida ao Piratini. 

Ficou para sexta-feira a decisão sobre a candidatura do PT ao Senado, que está entre Paulo Paim e Paulo Pimenta.

POLÍTICA E PODER

24 de Novembro de 2025
INFORME ESPECIAL

Sucesso ou fracasso? O legado da COP30

A redução do uso de combustíveis fósseis nem estava no mandato da COP30, mas foi tão alardeada que o tema se tornou a régua do sucesso ou fracasso do fórum de Belém. Em 14 dias, financiamento climático e adaptação entraram em segundo plano na agenda. Aliás, as COP, já recheadas de vocabulário próprio, foram ganhando novas expressões ("mapa do caminho", "decisão de mutirão") e alcunhas ("a COP da verdade", a "COP da implementação"). Mas nenhum termo é mais imponente do que a "COP da Amazônia".

Em se tratando de um terreno tão fértil, o que ocorreu na Belém extramuros, fora dos salões acarpetados e refrigerados (parcialmente) da Blue Zone, tornou-se relevante: a desigualdade brasileira ganhou holofotes, mas também a diversidade cultural. Na primeira COP em um país democrático desde Glasgow (2021), a sociedade civil, finalmente, viveu a conferência: eram indígenas lado a lado com empresários na Green Zone; lideranças munduruku de mãos dadas com o presidente da COP, imersões na floresta, mergulhos no rio, almoços de tacacá, noites de aparelhagem e carimbó.

O Brasil se mostrou por inteiro naquilo que tem de melhor e... de pior. Os preços exorbitantes da hospedagem pré-COP migraram para dentro da conferência: água a R$ 25, café a R$ 20 e almoço a R$ 170. Houve tentativa de invasão da Blue Zone, seguranças feridos, ar-condicionado de menos, puxão de orelha da ONU e um incêndio inédito, que provocou correria, interrompeu por seis horas as negociações e causou constrangimento brasileiro mundo afora.

Além de diplomatas, a COP reúne ambientalistas, cientistas, empresários, governadores, prefeitos, deputados e senadores - e, como eu nunca havia visto antes, uma população fazendo fila para entrar na Green Zone, a área da sociedade civil.

Uma COP, claro, é também sobre dinheiro. A diminuição do PIB per capita global devido ao aumento de 1,5°C na temperatura média do planeta pode ser de 8% até o final do século, em comparação com um cenário sem aquecimento adicional. O mundo financeiro descobriu o risco. O mercado de carbono está aí, é oportunidade de transição. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), uma alternativa de transformar doação em investimento.

O agronegócio brasileiro, com sua Agrizone, inaugurou um modelo que veio para ficar e é capaz de ser exportado para Turquia, Etiópia (próximas sedes da COP) e além. Se tornou uma vitrine do setor e parte de uma solução maior. O Rio Grande do Sul, esquadrinhado com lupa pelo mundo por seus eventos extremos, começa a ser observado também pelo que fez desde as enchentes de 2023 e 2024.

O primeiro rascunho de texto final exibiu a ambição brasileira de excluir os fósseis, mas enfrentou a oposição dos produtores de petróleo, a ponto de, no segundo esboço, já não incluir menção ao tema - o que provocou revolta de União Europeia e Colômbia. A presidência brasileira, exercida pelo embaixador André Corrêa do Lago, gigante não só na altura, mas na altivez, herdeiro da melhor tradição da Casa de Rio Branco, precisou se dobrar ao realismo da geopolítica.

Como grandes expectativas foram geradas, a exclusão do tema significou derrota. E, como a quem mais é dado mais é cobrado, nada sobre desmatamento, em uma COP na Amazônia, é fracasso. Indicadores de adaptação caíram de cem para 60, e há menção a triplicar o financiamento climático, só não se diz como. Houve avanços em temas indígenas e de gênero.

Então, o que fica da conferência é só um texto frio de 58 páginas quase inteligível para não iniciados? Claro que não. Além de tudo o que listei aqui, houve a gentileza do povo belenense, que recebeu milhares de pessoas com sorriso no rosto. Exemplo ao mundo.

A COP30 uniu a Amazônia de 2025 ao Rio de 1992. Fechou-se um ciclo. Mas é hora de abrir-se outro. Urgentemente.

Rodrigo Lopes

sábado, 22 de novembro de 2025


22 de Novembro de 2025
DRAUZIO VARELLA

O STF e os aditivos saborizantes no cigarro

Misturar ao fumo produtos químicos com gosto de chocolate, sorvete de creme, framboesa e outros sabores ao gosto da criançada é perversidade inominável. Lidar com vendedores de drogas ilícitas é tarefa complexa, como demonstraram os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro. Enquanto houver dependentes químicos dispostos a qualquer sacrifício para comprá-las, existirão traficantes decididos a correr riscos para vendê-las.

O mesmo acontece no comércio das drogas lícitas. O caso dos vendedores de nicotina, droga causadora de uma das dependências mais avassaladoras, é semelhante. A diferença é que os primeiros ficam sujeitos à repressão policial e às masmorras que chamamos de presídios, em nosso país, enquanto os outros podem andar de terno e gravata e fazer propaganda com liberalidade, para viciar nossas crianças e adolescentes.

Quando fiz 17 anos, acendi o primeiro cigarro e cai nas garras dos fornecedores, dependência química que me subjugou por 19 anos, no ritmo de um maço por dia.

Por ridículo que possa parecer, naquele tempo começávamos a fumar sem saber sequer que fazia mal. Éramos estúpidos? Talvez, mas a indústria tabaqueira é quem dava as cartas nos meios de comunicação de massa. Pobre do jornal, da revista, da estação de rádio ou de TV que ousasse publicar ou levar ao ar uma notícia ou entrevista que explicasse a relação causal entre fumo, câncer, ataques cardíacos, AVCs e outras doenças graves. A insubordinação era punida com o corte imediato das verbas publicitárias.

A peso de ouro, as propagandas exibiam mulheres encantadoras em poses sensuais, jovens praticando esportes e homens na maturidade em iates ou cavalgando corcéis fogosos. As marcas eram associadas ao sucesso, à liberdade, à força física e à saúde. Graças a essa estratégia perversa, viciaram em nicotina milhões de crianças e adolescentes em nosso país. Cerca de 90% dos usuários tinham menos de 18 anos (proporção que se mantém até hoje). Não é à toa que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o tabagismo como doença pediátrica.

Em combinação com essas armadilhas, os fabricantes implantaram a estratégia de acrescentar aditivos ao fumo, para disfarçar o sabor aversivo da fumaça. Misturar ao fumo produtos químicos com gosto de chocolate, sorvete de creme, framboesa e outros sabores ao gosto da criançada - além do mentol para trazer sensação de frescor à garganta irritada pela fumaça - é perversidade inominável.

As quantidades desses aditivos em cada cigarro são altas. Faltam estudos para avaliar os subprodutos resultantes de sua combustão. Alguns deles têm atividade carcinogênica documentada em sistemas experimentais. Certamente, fumar cigarros com aditivos é ainda mais perigoso.

Em 2012, com base numa infinidade de evidências científicas, a Anvisa proibiu o uso de saborizantes nos produtos de tabaco. Desde então, a aplicação dessa norma da agência tem sido adiada por conta de ações judiciais movidas pela indústria do fumo e seus asseclas. Atualmente, mais de 40 delas tramitam na Justiça, numa demonstração clara da participação dos fabricantes. A consequência do esforço para impedir que a norma da Anvisa seja obedecida foi o registro de mais de 1,1 mil produtos de tabaco com aditivos para serem comercializados no mercado brasileiro.

Esse absurdo foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF), instância em que o ministro Cristiano Zanin pediu vistas do processo, há alguns meses. Como o prazo para a devolução está para se esgotar, o julgamento será retomado.

Duvido que haja uma só leitora ou leitor da coluna de hoje que aprove um crime desses, cometido contra nossas crianças e nossos adolescentes com a única finalidade de torná-los dependentes químicos de uma droga legalizada que lhes trará sofrimentos pelo resto da vida e morte precoce. Os estudos mostram que o cigarro encurta em média 10 anos a vida de uma mulher, e 12 anos a de um homem.

Em 37 anos de convívio com usuários de crack nas cadeias de São Paulo, aprendi que é mais difícil largar do cigarro do que do crack. Em 50 anos tratando de pacientes com câncer, cansei de ver gente esclarecida morrer sem conseguir se livrar dessa praga. Como ex-fumante, experimentei na pele o desespero que a abstinência de nicotina provoca no dependente.

A indústria do fumo comete crimes continuados contra a saúde pública há pelo menos um século. Caberá aos ministros do Supremo decidir se vão dar cobertura a mais este. 

DRAUZIO VARELLA

22 de Novembro de 2025
J.J. CAMARGO

A figura do cuidador

Um dos pilares no trabalho de um médico é o acolhimento explícito, que gera a certeza da permanência como derradeira retaguarda. "Às vezes, o maior ato médico é simplesmente não ir embora." (Luke Fildes)

A futilidade das relações pessoais pode se expressar de várias maneiras. Em nenhuma situação ela é tão danosa como quando um dos envolvidos está fragilizado. A Maria Amélia provou um modelo cruel porque, além do descaso, ainda viveu uma terrível reversão de expectativa. E a mim sobrou a má sorte de ter indicado o algoz do seu ingênuo entusiasmo.

- Na semana passada, com uma crise de dor que não passava, estive no consultório três vezes, e ele foi um amor. Até que chegou a sexta-feira! - disse ela. - Depois de uma pausa para recompor fôlego e ânimo, ela completou: - Insegura pela demora em superar a crise, e assustada pela proximidade do fim de semana, perguntei: o senhor poderia fazer o favor de me dar o número do seu celular para alguma emergência? Ele mudou o tom de voz e, irritado, me disse: "Crises fora de hora se tratam em emergências. Que aliás, existem para isso!".

Dei um tempo em silêncio e esperei que ela anunciasse que tinha terminado o desabafo. Não tinha. Ela ainda estava com a indignação a meio pescoço:

- Enquanto aparentemente escrevia o endereço da tal emergência, ele conseguiu ser mais cruel quando disse com ar de deboche: "Quem sabe a senhora trata de melhorar para não precisar mais de nenhuma consulta?". Levantei, girei nos calcanhares e fui embora, furiosa.

O comentário final mostrou que ao menos o senso de humor estava de volta, intacto: - Caminhando a passos largos a caminho de casa, descobri que a raiva aumenta muito a força das minhas pernas.

Não tendo justificativa possível, me limitei a ouvir, esta que é última atitude solidária diante do absurdo. Tudo mais que se dissesse perdera o sentido, porque aquele olhar afiado de "esse tipo nunca mais" estava sacramentado pela violação de um dos pilares do cuidado do outro, que só completa se for incondicional: o acolhimento explícito, que gera a certeza da permanência como derradeira retaguarda.

E o cotidiano está repleto desses exemplos didáticos, em que a presença do cuidador é essencial e inadiável. Com mais ou menos glamour, mas com o mesmo significado para os envolvidos, isso ocorreu no naufrágio do Titanic com o comandante priorizando a saída dos passageiros, ou no pouso do avião avariado no Rio Hudson em Nova York, ou, bem recentemente, no incêndio bizarro em Porto Alegre de um ônibus lotado de estudantes de Vacaria, em que todos sobreviveram ilesos, porque a fuga foi orientada por um dos meninos com treinamento de bombeiro mirim. E no final da fila estava ela, a guardiã natural dos nossos filhotes, e última a sair: a professora, anônima, indefectível e silenciosa.

Sem crachá, muitas vezes fica difícil identificar esses invisíveis que circulam por aí, sem alarde, saciados pelo fascínio de cuidar do outro. 

J.J. CAMARGO

Foco

Parece coreografia de piscina de resort. Todos para a direita, todos para a esquerda. Mãos para o alto, balança a cintura, dobra a perna. O Congresso tem vivido dias de dançar conforme a música tocada nas redes sociais. Na tentativa de responder a tudo, apressa debates e, muitas vezes, os abandona com a mesma rapidez com que um story desaparece do Instagram.

Quando o youtuber Felca escancarou o que muitos se recusavam a enxergar, o holofote ficou por semanas sobre a adultização de crianças e adolescentes. O tema, antes empurrado na fila, virou pauta urgente. Projeto votado, aprovado e transformado em lei para proteger menores no ambiente digital. É positivo tirar assuntos relevantes da gaveta, mas também revela que foi preciso um maestro externo para que a priorização acontecesse.

A operação da Polícia Federal que expôs a roubalheira comandada de dentro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) nos últimos anos exigiu que governo e Congresso corressem atrás de informações e até de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Neste mesmo ano, a fila do INSS chegou ao maior patamar. O esforço para conter a corrupção acabou travando ainda mais a razão de existir do órgão, que há tempos não atende a população como deveria.

O vento também soprou forte sobre outro assunto urgente. Só depois de uma megaoperação policial no Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, com mais de uma centena de mortos e outra de presos, o Congresso voltou a olhar para o endurecimento de penas contra facções criminosas. Foi preciso o choque das imagens e dos números para que o projeto, parado havia meses, voltasse a andar. Por outro lado, as fraudes do Banco Master e do BRB, mostradas nessa semana, ainda não geraram essa reação dos parlamentares brasileiros.

Mesmo assim, prefiro olhar o lado bom. Talvez Brasília esteja finalmente ouvindo e enxergando o que acontece fora do mundo mágico dos privilégios próprios. O Brasil precisa de uma agenda estratégica, que mire o que é prioridade agora e também o que será fundamental nos próximos anos. É necessário escutar o que a população quer e precisa, e não apenas o que viraliza no calor do momento. Não são debates de três minutos nem vídeos com milhões de visualizações que vão fazer o futuro do nosso país.

Sabemos que 2026 terá pauta única. A eleição para Câmara, Senado, Presidência, Assembleias e governos estaduais vai tomar conta de todo o debate nacional. Até lá, o desafio é que os passos dessa dança não sigam apenas o ritmo da internet, mas o ritmo real do país. _

ANDRESSA XAVIER 


22 de Novembro de 2025
EUGÊNIO ESBER

Washington, temos um problema

O relator do projeto de lei antifacção, aprovado nesta semana por ampla margem de votos na Câmara dos Deputados, não ousou enquadrar multinacionais do crime, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, como "organizações terroristas". Não foi por falta de convicção do deputado Guilherme Derrite (PP-SP), e sim porque o consórcio STF-PT é terminantemente contra, alegando - acredite se quiser - risco à soberania brasileira. A Argentina e o Paraguai, em exemplo que deve ser seguido por outras nações vizinhas, não tiveram esse receio. 

Logo que a polícia do Rio travou um confronto armado com o Comando Vermelho, que eliminou 117 e prendeu outros 121 bandidos que depuseram seus fuzis de guerra, os presidentes Santiago Peña e Javier Milei anunciaram medidas que consideram o PCC e o CV aquilo que de fato são - organizações terroristas. Com isso, reforçam medidas de controle na fronteira com o Brasil e dizem ao mundo livre que têm real interesse em contar com a cooperação internacional para não se tornarem narcoestados como a Venezuela, hoje cercada por uma impressionante força militar que recebeu de Donald Trump a missão de desalojar do poder "El Súper Bigote" Nicolás Maduro, presidente ilegítimo do país e apontado por Washington como chefe do Cartel de los Soles.

O projeto de Derrite traz avanços inegáveis para o combate aos faccionados e, principalmente, aos seus líderes, imputando-lhes um novo tipo de crime, o "domínio social estruturado". É quando a facção controla um território e impõe suas próprias regras à população local. Um quarto da população brasileira já vive sob a lei do crime e do seu bárbaro tribunal, e surpreende que só agora, meio século depois da tomada dos morros do Rio pelo tráfico e a expansão deste Estado paralelo para outros Estados e países, a lei brasileira trate objetivamente deste câncer. 

O projeto antifacção barra as saidinhas e a progressão para o regime semiaberto, isola os líderes, impõe penas de até 66 anos, monitora conversas dos presos com seus advogados, acaba com visitas íntimas e extingue o pagamento de auxílio-reclusão.

O texto deve ser desidratado no Senado, submisso a Lula. Ele próprio, no momento da sanção, poderá mutilar mais algumas partes do projeto; e, mesmo que o Congresso derrube seus vetos, restará o STF, hoje uma espécie de petismo de toga. Alguma esperança? Sim. Da Justiça dos EUA, que neste momento ouve a confissão de traficantes dos cartéis venezuelano e mexicano sobre suas conexões. Washington, que já registra a presença do CV e do PCC em boa parte do território norte-americano, virá atrás dos narcoterroristas e dos seus poderosos patrocinadores, onde quer que se abriguem.

Lá, o crime não compensa. _

EUGÊNIO ESBER