terça-feira, 29 de agosto de 2017



29 DE AGOSTO DE 2017
REPORTAGEM ESPECIAL

EM REAÇÃO À VIOLÊNCIA PREFEITURA PROPÕE PACTO DE PAZ

DIANTE DE EXPLOSÃO de roubos e homicídios, Pelotas elaborou plano municipal de segurança. Quer premiar policiais por armas apreendidas e restringir o consumo de álcool nas ruas

A festa a céu aberto, com direito a bebidas e som alto nos carros com capôs erguidos já havia se tornado um incômodo para quem mora nas proximidades do campus central da Universidade Católica de Pelotas. Recentemente, uma operação conjunta entre a Guarda Municipal, Brigada Militar e Polícia Civil saiu de lá com os carros guinchados e oito armas apreendidas. 

Plantões de fiscalização da perturbação do sossego começaram a fazer rondas nos finais de semana resultando até agora em, pelo menos, 11 armas apreendidas, estabelecimentos notificados e uma média de 10 carros guinchados a cada final de semana. É a parte mais visível de um ousado plano municipal de segurança pública, denominado Pelotas pela Paz, que começa a sair do papel neste mês como forma de atacar a explosão da violência na cidade.

Em um intervalo de 14 anos - entre 2002 e 2015 -, os homicídios aumentaram 488% e a perspectiva é nebulosa. O primeiro semestre deste ano, com 52 assassinatos, foi o pior em três anos. Quando se fala em roubos, a alta chega a 76% desde 2002. Uma pesquisa sobre a criminalidade na cidade, que baseou o plano proposto pelo governo local, mostra que metade das vítimas de assaltos nos últimos 12 meses sequer registrou ocorrência policial.

- A alta nos índices de violência na nossa cidade é assustadora. Não poderíamos ficar de braços cruzados, por isso estamos oferecendo a nossa parcela de participação, para buscar soluções. Todos estão preocupados com a segurança pública. É um projeto da sociedade, construído com a população de Pelotas, não de um governo - afirma a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB).

Entre os pontos que prometem novidades e polêmicas ainda a serem discutidas na Câmara de Vereadores, o plano propõe a criação de um Código de Convivência em Pelotas, tendo como principal item a restrição ao consumo de álcool nos espaços públicos entre 22h e 4h, mas também com previsões de multas para os pais de crianças e adolescentes flagrados sozinhos nas ruas, para quem for flagrado fumando maconha ou pego com armas de brinquedo. Foi protocolado projeto de lei prevendo a premiação de policiais que apreenderem armas.

- Será um estímulo aos agentes da segurança. Diante da crise do Estado, penso que é uma contribuição. Espero que o governo estadual reaja positivamente - diz a prefeita.

CONSULTORIA CONTRATADA FEZ DIAGNÓSTICO E PLANO DE AÇÃO

Conforme o diretor-presidente do Instituto Cidade Segura, Alberto Kopittke, a alta na violência segue a lógica do avanço de grupos criminosos locais, mas também está diretamente relacionada aos jovens, ao consumo de drogas e álcool e à circulação de armas na cidade.

- Estes precisariam ser, necessariamente, os focos para o plano de segurança - explica o especialista.

O instituto assumiu a consultoria para a formulação do plano há três meses. Começou estudos da percepção da violência pela população.

O levantamento mostrou que 69,4% dos pelotenses têm medo de ser assaltados ou ficar sob a mira de uma arma. E 27,9% evitam circular nas ruas quando anoitece. O início da resposta já foi percebido.

- Quando iniciamos as ações nos pontos de perturbação, a receptividade foi impressionante. Os chamados reclamando de barulho diminuíram 90%. E, enquanto as ações ocorrem, justamente nos horários em que mais se registravam crimes, não acontecem homicídios. É um bom começo e uma demonstração de que não se faz segurança pública no "achômetro" - aponta o secretário, Aldo Bruno Ferreira.

Conforme a pesquisa de vitimização, um quarto da população de Pelotas relatou já ter se incomodado com perturbações como som alto, brigas de rua ou depredações à noite.

eduardo.torres@diariogaucho.com.br

segunda-feira, 28 de agosto de 2017



28 DE AGOSTO DE 2017
EXPOINTER

Favorito eliminado por sangramento


Na dianteira da competição, e nas graças do público, o cavalo Esteio JB de Palermo foi eliminado na penúltima prova, a de Bayard/Sarmento, a tradicional esbarrada. Após o ginete Claudio Correia, 54 anos, concluir com êxito a etapa, os jurados identificaram um sangramento em uma das patas. Pelo regulamento da competição, seguindo práticas de bem-estar, o animal que tiver qualquer ferimento não pode continuar competindo. A regra é aplicada pelo segundo ano:

- Ninguém gosta de eliminar um competidor. Sentimos muito, como todos, mas o regulamento é claro e precisamos segui-lo - disse o jurado Luiz Alberto Martins.

Quando a eliminação foi anunciada, o ginete veterano não conteve as lágrimas, levando o chapéu ao rosto antes de deixar a pista. Muito aplaudido pelo público visivelmente decepcionado, o cavalo teve de abandonar a competição. Esse foi o terceiro ano em que o cavalo chegou a uma final da disputa. Em 2015, ficou em nono lugar e, no ano passado, em oitavo lugar. Ao final da prova, os competidores dedicaram a vitória ao ginete Claudio Correia, que prometeu voltar a competir em 2018.


28 DE AGOSTO DE 2017
CÍNTIA MOSCOVICH

OS BURROS

Alguém muito próximo comentou, não sem susto, que as pessoas, algumas que ele tinha em alta conta, estavam emburrecendo. E dava como exemplo uma polêmica que acusava Chico Buarque de machismo, por causa de Tua Cantiga, canção lançada previamente ao álbum Caravanas, que chegou ao mercado na sexta-feira passada.

De fato, graças às mídias sociais, a gente acompanha bem de perto o cotidiano de pessoas que, em outros tempos, se veria lá muito de vez em quando. A proximidade vai revelando que algumas criaturas que pareciam ter um nível aparentemente sofisticado de exigência são na verdade umas coisas embrutecidas e sem graça, incapazes de dar ou de receber exceto umas obviedades rasteiras, umas desonestidades mentirosas ou umas certezas fabricadas com o mais absurdo dos absurdos - como é, aliás, o improvável machismo atribuído ao Chico.

E dá-lhe a achar que a miss Brasil 2017, a piauiense Monalysa Alcântara, não podia ser negra. E dá-lhe a achar normal expressões como "justiça fiscal" para nomear aumento de impostos. E dá-lhe a achar possível sacrificar animais para conter epidemias de tuberculose. E dá-lhe a subir no palanque com o pior dos inimigos. 

E dá-lhe a mentir para clientes, a julgar em bases falsas, a trabalhar sem autorização. E dá-lhe a ser antiquado, ressentido, recalcado. E dá-lhe a ser egoísta, desinformado, acomodado. E dá-lhe a macaquear banda de rock, músico famoso, chefe de cozinha, publicitário descolado. E dá-lhe a imitar gente honesta sem ter índole para tanto.

Confesso que preferia não tomar conhecimento das pessoas tão de perto.

Confesso que preferia não saber que nossos homens da Justiça gostam de mentiras.

Caravanas é nosso Chico em sua melhor forma. Na música que dá título ao álbum, ele finalmente usa a preceito o Jardim de Alá (em Copacabana), que é invadido por "jovens muçulmanos" (os negros suburbanos), e se vale das palavras "pica" e "saco" da maneira mais bela que alguém jamais usou. Enfim, uma coisa bonita para servir de farol. Luz.

CÍNTIA MOSCOVICH


28 DE AGOSTO DE 2017
CAPA

Kikito com brilho renovado

COMO NOSSOS PAIS, de Laís Bodanzky, foi o grande vencedor do Festival de Gramado, com seis prêmios

No ano em que completou 45 edições, o Festival de Cinema de Gramado mostrou maturidade, segurança e consistência artística que apontam para uma promissora continuidade. O alto nível em média dos filmes exibidos, a presença numerosa de jornalistas e representantes da produção audiovisual do país e do Exterior e a organização de um fórum de debates e negócios do setor qualificaram essa edição comemorativa do evento serrano. No sábado à noite, a premiação dos melhores curtas-metragens nacionais e longas estrangeiros e brasileiros encerrou a maratona de 10 dias do certame com uma bela festa que, no entanto, começou com uma hora de atraso.

O grande vencedor de Gramado 2017 foi o brasileiro Como Nossos Pais, dirigido por Laís Bodanzky. O ótimo longa-metragem que entra em cartaz nos cinemas do país na próxima quinta-feira levou seis Kikitos: direção, atriz (Maria Ribeiro), ator (Paulo Vilhena), atriz coadjuvante (Clarisse Abujamra) e montagem. A produção As Duas Irenes, longa de estreia de Fábio Meira, também destacou-se ganhando os prêmios de melhor filme do Júri da Crítica, ator coadjuvante (Marco Ricca), roteiro e direção de arte.

Ainda na competição de longas brasileiros, Bio, curioso e narrativamente ousado documentário falso de Carlos Gerbase, foi escolhido o melhor pelo Júri Popular e ainda rendeu um Prêmio Especial do Júri para o cineasta gaúcho - que dirigiu 39 atores e atrizes nessa história de um personagem que viveu 111 anos e morreu em 2070. Os atores Paulo Betti e Eliane Giardini, que protagonizam e dirigem Fera na Selva, também receberam um Prêmio Especial do Júri por sua contribuição à arte dramática no teatro, televisão e cinema brasileiros. 

O faroeste nordestino O Matador, de Marcelo Galvão - primeiro filme produzido pela Netflix no Brasil - levou duas estatuetas para casa: melhor fotografia e trilha musical. Dos sete títulos em competição na categoria, apenas dois voltaram de Gramado de mãos abanando: Vergel, coprodução entre Brasil e Argentina, e o excelente Pela Janela - deixar de fora dos premiados esse sensível e delicadamente bem construído longa da estreante Caroline Leone foi um equívoco indesculpável do júri oficial.

PRÊMIOS DE CURTAS DESTACARAM QUESTÕES DE IDENTIDADE SEXUAL

Já os jurados da mostra estrangeira também fizeram seu deslize ao escolher o irregular e pretensioso Sinfonía para Ana como o melhor filme - o longa argentino dirigido por Virna Molina e Ernesto Ardito foi contemplado ainda no quesito fotografia. Federico Godfrid foi eleito o melhor diretor por Pinamar - película também argentina que recebeu ainda os prêmios de ator, dividido entre os protagonistas Juan Grandinetti e Agustín Pardella, e melhor filme pelo Júri da Crítica. O Júri Popular, por outro lado, preferiu o documentário uruguaio Mirando al Cielo, de Guzmán García.

Quem se mostrou mais atento ao que havia de frescor cinematográfico e estético na seleção deste ano em Gramado foi o júri de curtas, que escolheu como melhor filme A Gis, de Thiago Carvalhaes, e premiou Calí dos Anjos como melhor diretor por Tailor - ambos abordam de forma inteligente e contundente os desafios, demandas e preconceitos relacionados ao universo das pessoas trans. A identidade sexual fora da norma socialmente aceita esteve presente ainda em O Quebra-Cabeça de Sara, de Allan Ribeiro, eleito o melhor pelo Júri da Crítica e vencedor do Prêmio Canal Brasil de Curtas.

A noite de premiação foi animada pela presença da cantora, compositora e atriz Soledad Villamil: a estrela argentina de filmes como O Segredo dos Seus Olhos (2009), homenageada pelo evento com o troféu Kikito de Cristal, encantou o público que lotou o Palácio dos Festivais com sua simpatia e musicalidade, interpretando no palco quatro músicas. 

O repertório de Soledad - que lançou na última sexta-feira um novo disco, chamado Ni Antes Ni Después - incluiu uma saborosa versão do clássico O Samba e o Tango, traduzindo em requebrado portenho a disposição de Gramado em ser reconhecido cada vez mais como um festival de alcance internacional e que neste ano elegeu pela primeira vez um país convidado: o Canadá.

roger.lerina@zerohora.com.br

28 DE AGOSTO DE 2017
DAVID COIMBRA

Chico Buarque


Chico Buarque de Holanda e Roberto Rivellino foram os personagens que mais se aproximaram do que se poderia chamar de ídolos, para mim. Se bem que "ídolo" é uma palavra forte demais. Não havia incondicionalidade na minha admiração, eu apenas me encantava com o talento que eles tinham no que faziam.

Ocupo-me mais, aqui, do Chico, porque ele lançou novo disco, dias atrás. Mas, antes, vou falar um pouco do Riva, porque finalmente recebi do meu amigo Maurício Noriega o seu livro Rivellino.

Noriega, se você não sabe, é um dos melhores comentaristas de futebol da TV brasileira. Ele faz com o Milton Leite uma dupla harmônica como faziam Zico e Rivellino na Seleção.

Pois Noriega, homem do vídeo e da fala, pôs-se a escrever, e o fez bem.

Em geral, livros sobre o mundo do futebol, no Brasil, não passam de rematada picaretagem. Não há preocupação com o texto ou com a pesquisa, a intenção dos autores é faturar com a popularidade do tema. No caso do Noriega, não. O leitor percebe que houve trabalho e critério. Quem gosta de futebol vai gostar de ler.

Uma das tantas histórias que Noriega conta sobre o Riva se passou às vésperas da Copa de 1970. Rivellino ainda não era titular daquele que foi considerado o maior time de futebol de todos os tempos. Outros dois legítimos craques candidatavam-se a jogar naquela posição: Edu, ponta-esquerda clássico, de drible irresistível, mas que não voltava para marcar, e Paulo César Caju, meia de habilidade incomum e jogo cadenciado, que seria campeão do mundo pelo Grêmio na década seguinte.

Rivellino teria sua chance de mostrar que era melhor do que os concorrentes em uma partida preparatória contra a Áustria, em que foi escalado para sair jogando. Ele, de fato, era melhor, mas às vezes um grande jogador desanda quando sofre a pressão de ter de provar sua capacidade em um único jogo.

Por isso, no dia da partida, Rivellino sentia-se apreensivo em meio ao ambiente da concentração. Só relaxava no momento em que se reunia com jornalistas e outros jogadores para comentar a respeito de uma morena sinuosa que circulava pelo hotel naqueles dias. Mais do que o adversário, ela era o assunto das conversas. Todos olhavam para a morena, e a cobiçavam.

Rivellino, no entanto, estava mais preocupado com a partida. Depois do almoço, ele se recolheu ao quarto, deitou-se e ficou pensando como deveria jogar. Estava estendido na cama, quando ouviu baterem à porta. Foi atender e, ué?, não havia ninguém no corredor. Deitou-se outra vez. Mal cruzou as mãos atrás do pescoço e, maldição!, novas batidas. Agora, já irritado, gritou, enquanto se erguia:

- Tem jogo daqui a pouco! Vão descansar!

Abriu a porta.

E, com mil lançamentos em profundidade, não havia ninguém.

Deitou-se novamente, intrigado, e novamente soaram as batidas na madeira. Então, Rivellino percebeu que o som não vinha da porta da frente e sim de uma lateral, que se comunicava com o quarto contíguo. Foi até lá. Abriu-a e... sim, sim, mil vezes sim! Era ela. A morena. Sorria um sorriso de promessas.

Cumpridas.

Após algumas horas de prazer carnal, Rivellino entrou em campo flutuando. Procure as cenas de sua atuação no YouTube. Você verá um conjunto de lances que nenhum jogador acumula num único jogo nos dias de hoje. E, para arrematar uma apresentação perfeita, aos 12 minutos do segundo tempo ele recebeu a bola de Gérson, driblou um adversário, enquadrou o corpo e chutou com o lado de dentro do pé. A bola fez uma negaça para se esquivar do goleiro e entrou no canto: 1 a 0 para o Brasil. Rivellino seria titularíssimo da Seleção das Seleções, na Copa das Copas.

Aconteceu algo, porém, com Rivellino e também com Chico, de quem nem falei ainda. Já falo.

david.coimbra@zerohora.com.br

domingo, 27 de agosto de 2017

   Veja as mentiras mais bizarras que candidatos já contaram a recrutadores

DE SÃO PAULO


Currículos com informações falsas ou exageradas são comuns em processos seletivos. As mentiras mais comuns estão relacionadas a experiência de trabalho (56%), formação (46%), habilidades técnicas (44%) e idiomas (39%), segundo pesquisa da consultoria de RH Robert Half, realizada em julho.

Dos 303 diretores gerais entrevistados no país para o levantamento, 75% já dispensaram um candidato depois de descobrir que ele havia maquiado seus dados para entrar na empresa.
"Hoje, é bem difícil uma mentira passar. Temos muitos recursos para checar", afirma Thammy Arnaud, diretora de RH da GE do Brasil. "Assim que recebemos o nome de quem está concorrendo à vaga, já o procuramos na internet, nas redes sociais."

Os recrutadores também costumam ir atrás de referências dos candidatos nas empresas por onde já passaram. Além disso, eles são treinados para buscar inconsistências durante a entrevista e até mesmo sinais que denunciem que a pessoa está escondendo a verdade, como desviar o olhar ou ficar com a voz trêmula, por exemplo.

A mentira mais fácil de ser detectada é a proficiência no idioma. Se ela for essencial para a vaga, vai ser testada em alguma etapa da seleção.

Forçar a barra e dizer que o inglês é avançado quando, na verdade, é intermediário, pode desclassificar o candidato, mas nem sempre vai queimá-lo. "Pode ser também uma falha de autoavaliação", pondera Caroline Cadorin, diretora da recrutadora Hays.
Ilustração Galvão Bertazzi
Mas nada salva aqueles que aumentam a importância de cargos já ocupados ou transformam um curso de duas semanas em MBA. "Se a pessoa mente por coisa tão pequena, quem garante que não vai agir assim quando for contratada?", afirma Arnaud.

Outra situação recorrente é o candidato esconder o real motivo de saída do emprego anterior. "A pessoa acha lindo falar que 'está em busca de novos desafios', mas não há vergonha em contar que foi desligada", diz Larissa Meiglin, supervisora de assessoria de carreira da Catho.

Mas não é preciso exagerar na sinceridade e entrar em detalhes que possam ser mal interpretados. "Por isso é importante se preparar para a entrevista. Se há um ponto frágil, o candidato já deve esquematizar a resposta de forma a levar o foco para suas qualidades, mas sem faltar com a verdade", diz Meiglin.

INVESTIGAÇÃO


Para garantir a contratação de pessoas idôneas, em especial para posições de confiança, empresas buscam o serviço de "background check", uma verificação de histórico profissional e de reputação.

Além de checar as instituições onde o candidato já trabalhou e estudou, as investigações buscam atividades irregulares, ligações partidárias, conflitos de interesse e menções problemáticas na imprensa, explica Carlos Lopes, diretor da Kroll, consultoria em gestão de riscos e investigações corporativas.

Segundo ele, as investigações duram até duas semanas. "Recebemos as informações dos candidatos e confirmamos sua veracidade."
Colaborou ANNA RANGEL

Perna curta
Histórias bizarras de candidatos que tentaram driblar recrutadores

QUASE IGUAL
Em uma dinâmica de grupo, um candidato, de uma hora para a outra, mudou de personalidade. No início da atividade, suas respostas batiam exatamente com o que ele havia preenchido na ficha de inscrição pela internet. Da metade em diante, nenhuma informação coincidia.

No fim do processo, os recrutadores o chamaram para uma conversa, para entender o que estava acontecendo. Pressionado, ele revelou que compareceu no lugar do irmão gêmeo, que havia ficado em casa por causa do nervosismo.
Por sorte, a empresa gostou do seu perfil e valorizou a iniciativa de ter ajudado o irmão. Acabou contratado e o outro gêmeo, eliminado.

GATO DEDO-DURO
Em uma entrevista por vídeo, de um lado, estava um candidato a uma vaga de engenharia e, do outro, um recrutador de uma multinacional. A conversa fluía bem até o entrevistador fazer uma pergunta bastante técnica, que exigia uma resposta muito específica.

O candidato ficou parado, sem mexer um músculo. Ele achou que conseguiria fugir da questão se fizesse parecer que o vídeo havia travado. Mas, bem na hora, um gato passou por trás dele. O recrutador percebeu e, para evitar o constrangimento, seguiu para a próxima pergunta. Por coincidência, o vídeo destravou.

PAI DE FAMÍLIA
Para concorrer a uma posição de gerência em uma indústria química, um candidato afirmou que era casado e tinha dois filhos pequenos. Foi aprovado.

Por sete meses, trabalhou na empresa como se tivesse uma família o aguardando em casa. No fim, descobriu-se que ele nunca havia sido casado e muito menos tido filhos. Segundo o recrutador, a vaga não fazia qualquer exigência quanto a isso, mas o profissional acreditou que passaria mais confiança aos superiores se fosse um pai de família. Acabou demitido, não por ser solteiro, mas por ser mentiroso.

MESTRE DA WEB
Por e-mail, o recrutador recebeu um currículo que lhe chamou muito a atenção. Nele, um senhor dizia ser o grande responsável por trazer a internet para o Brasil. O recrutador, então, acreditou que não poderia perder a oportunidade de entrar em contato com alguém tão relevante para a história do país.

Por telefone, pediu para que ele contasse mais sobre a empreitada. Do outro lado da linha, o candidato disparou a falar, sem explicar nada. Ainda por cima, começou a mostrar sua "fluência" em um idioma inexistente. Bem loucão.

DIPLOMA FRIO
Por um ano, um profissional trabalhou em um cargo operacional em uma fábrica, no qual precisava ter concluído uma graduação para atuar. A empresa passou por uma auditoria externa, que descobriu que o profissional nunca havia passado por uma faculdade.

O diploma que ele havia apresentado no momento da contração era falso. A empresa, então, demitiu o impostor, mas não quis alegar justa causa.

BEM A TEMPO
Numa plataforma on-line, usada na primeira fase de um processo seletivo para uma vaga de estágio em uma multinacional, o candidato tinha que responder às perguntas de um questionário gravando vídeos, com duração determinada.

Na questão sobre o nível de inglês, foi pedido que ele falasse na língua estrangeira. Em português, ele contou que havia se formado numa conhecida escola de idiomas e que se comunicava muito bem em inglês. "Inclusive, vou dar uma palinha agora para vocês", disse. Respirou fundo, se concentrou e, então, o tempo do vídeo se esgotou.

LÍDER NATO
Ter experiência em gestão de pessoas era requisito básico para uma vaga de gerente. Por telefone, o candidato garantiu ao recrutador que tinha prática no assunto. Foi chamado, então, para uma conversa presencial.

O entrevistador pediu que ele discorresse sobre a sua experiência como gestor em cada empresa pela qual havia passado. Mas o profissional não tinha nada o que contar sobre nenhuma delas. "Onde você fez gestão de pessoas, então?", indagou o recrutador, já perdendo a paciência. "Na minha casa. Você não tem noção o trabalho que minha mulher e meus filhos me dão", respondeu.

FUGIDINHA
A vaga era para um cargo gerencial. Um das principais exigências: inglês fluente. Para a fase de entrevistas, só foram chamados os profissionais que haviam declarado no currículo que atendiam a esse requisito. Durante a primeira parte da conversa, a candidata discorreu bem sobre sua experiência em multinacionais.

Em um dado momento, o recrutador pediu para que continuassem a entrevista em inglês. "Claro, você me daria só alguns minutinhos para eu ir ao banheiro?", pediu a executiva. Ele esperou cinco, dez, vinte minutos. A candidata nunca mais apareceu.
Fontes: Fernanda Mello, especialista em atração de talentos da 99 Jobs; Sócrates Melo, gerente regional da Randstad Professionals; Felipe Brunieri, gerente de divisão da Talenses; Thammy Arnaud, diretora de RH da GE do Brasil; e Miriam Rodrigues, especialista em gestão de pessoas do Mackenzie

Jornalista, assina coluna com informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999. Escreve diariamente.


Xuxa, 54, que em 1988 estrelou o filme "Super Xuxa contra o Baixo Astral", visto por 2,8 milhões de pessoas, luta agora para manter a alegria que sempre foi a sua característica principal.
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Há um ano, a filha, Sasha, 19, se mudou para Nova York. Em março, Xuxa perdeu o pai, Luiz Floriano Meneghel. A mãe, dona Alda Meneghel, 80, sofre de Parkinson. Se alimenta por sonda, "não anda, não fala", diz Xuxa, que sempre declarou o enorme amor que sente por ela.
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No campo profissional, trocou a TV Globo, onde estava fora do ar, pela TV Record. Na última terça (22), anunciou o fechamento da fundação que leva seu nome e que, por 29 anos, atendeu crianças carentes. "A situação do país não colaborou", disse ela ao repórter João Carneiro, a quem concedeu a seguinte entrevista:
A CARREIRA
Eu saí [da Globo] repetindo uma frase que teve muita repercussão. Não devia ter feito isso. Falei: "Agora vou ser mais eu". É porque eu passei um momento na Globo onde eu podia fazer tudo. Depois veio um momento em que nem tudo eu podia fazer. Depois, outro em que era assim: "Olha, agora a televisão mudou e vocês só vão fazer o que a gente achar que vocês têm que fazer".
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As pessoas entenderam mal, achando que eu tava desdenhando da Globo. De maneira nenhuma. Nunca. Aliás, eu não gosto que as pessoas falem mal da Globo. Sabe quando, tipo assim, você pode até falar alguma coisa mas não admite que ninguém fale? Eu sou meio assim com a Globo.
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Agora, verdade seja dita: eu tô na Record e a única pergunta que eles fazem pra mim é: "Cê tá feliz?". E a coisa que eu mais quero é ver eles felizes. Tô [feliz], 'pá carácoles'! Só que eu queria estar um pouco mais, quando eu conseguir dar um pouco mais pra eles, entendeu?
A MÃE
[Minha mãe] não tá muito bem não, infelizmente. Ela tá no último estágio do Parkinson. Ela não se comunica mais com a gente, não mexe mais nem um dedo. Ela tá presa no corpo. [O Parkinson] vai fazendo com que alguns órgãos parem de funcionar. Então parou o estômago, ela se alimenta por sonda, não anda, não fala. Vai diminuindo tudo e ela vai ficando presa dentro desse corpo, como num casulo.
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Eu e quase todos os médicos acreditamos que minha mãe ainda tá ali porque ela viu o meu sofrimento e não quer me deixar. Então ela meio que briga pra não ir embora.
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Eu já tô pedindo pra que ela Sofrer, obviamente, ela sofre com essa porcaria de doença, mas eu não quero vê-la sentindo dor. E eu não conseguia verbalizar isso.
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Se você me entrevistasse seis anos atrás, eu ia dizer: "Eu não quero a minha mãe longe de mim. Eu preciso dela. Nem que ela vire uma casquinha, eu quero a casquinha ali do lado". Hoje eu não quero essa casquinha sofrendo do meu lado. Do jeito que eu amo ela, eu não posso vê-la desse jeito, entendeu?
A FILHA
Faz um ano [desde que a filha, Sasha, se mudou pra Nova York para estudar]. Um ano já... [Abaixando a voz]. É horrível [sussurrando]. Não, mas graças a Deus a gente tá se vendo bastante.
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Eu achei que ia ser bem pior, mas eu reencontrei o Ju [o namorado, Junno Andrade]. Ele veio no momento em que minha mãe piorou e a Sasha tava já com essa ideia de "vou viajar, vou viajar". Ele deu um alento pro meu coração.
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Eu sempre achei que não precisava de nada nem de ninguém, que eu me bastava. Se estivesse sozinha, eu estaria aí pelos cantos, sofrendo. Sem a minha filha, naquela casa, com a minha mãe do jeito que tá ia ser barra, viu?
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E eu me vejo bem. Me vejo entendendo que o momento da minha mãe tá chegando, que minha filha tá melhor lá. Eu não teria esse olhar e essa maneira de ver a vida se não tivesse a força do Ju.
PARTIDA
[Junno toca um áudio de Sasha no viva voz do celular: "Mãe, só pra avisar que tô no cinema, tá? Te amo, beijo!"] To-do dia [falo com Sasha]. É de manhã, à tarde e à noite, por Facetime, Skype. E ela manda recado: "Mãe, bom dia, acordei. Um beijo, te amo."
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Ela não se vê agora longe de "Manhattan" [exagerando no sotaque americano nasalado]. E eu a vejo feliz por poder vir [para o Brasil] também, como ela curte. Mas não vejo a minha filha mais morando aqui.
*
Eu não penso de maneira nenhuma em deixar a minha mãe. Mas penso [em mudar do Brasil]. Num futuro próximo, se Deus quiser. Ficar onde ela [Sasha] for. De repente em uma cidadezinha perto, em um bairro perto dela.
O PAI
[Meu pai morreu] duas semanas antes do meu aniversário [em março deste ano]. Quando ele se separou da minha mãe, foi de uma maneira meio esquisita, porque houve uma traição. Eu fiquei sete anos sem falar com ele.
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Depois eu voltei a falar com ele, mas foi difícil voltar. Também era longe da relação que eu tenho com a minha mãe. Minha mãe sempre foi pai, mãe, irmã, amiga. Tudo eu tinha nela.
OS ABUSOS
[A pedofilia] é uma praga, uma doença. Isso não vai acabar. A primeira vez que aconteceu comigo eu era muito, muito nova. Devia ter entre quatro e cinco anos. E eu acordei falando que alguém tinha feito xixi na minha boca. E a minha mãe, todo mundo: "Você sonhou, imagina!".
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Eu não sei quem era [o abusador], o que aconteceu, como aconteceu. Queria muito descobrir, fazer hipnose, regressão. Não vai adiantar nada, seria só pra saber.
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Me vem uma coisa de cheiro, a pessoa tinha cheiro de bebida. E me lembro de alguma coisa com barba. O resto eu não me lembro.
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Quando eu era pequena, eu imaginava que a culpada era sempre eu. Porque eu acabava chamando essas coisas pra perto de mim.
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E hoje eu tenho alguns costumes. Tomo dois, três banhos por dia. Tenho coisas truncadas aí, mal resolvidas.
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As pessoas não querem ouvir as crianças [vítimas de abuso]. Elas não têm voz. Já é difícil e, quando falam, perguntam: "Tem certeza disso? Realmente aconteceu? O que você fez pra isso acontecer?"
DEUS
Não sou daquelas católicas de ir todo domingo na igreja. Eu falo com Deus nos lugares mais absurdos. Tipo banheiro, até. Pra mim não tem essa coisa de "vou falar com Deus só na igreja". Eu bato um papo legal com Ele.
*
Sempre agradeço. Sempre, sempre, sempre, sempre, sempre. Sempre, sempre. Isso eu faço assim re-li-gi-o-sa-men-te, sabe?
AS CRIANÇAS
Comecei a trabalhar pra criança sem saber absolutamente nada. Comecei a descobrir esse mundinho e hoje posso bater um papo com você sobre idade, sobre o que as crianças gostam, o que elas não gostam. Aprendi muito.
*
Tenho tanto respeito por essas cabecinhas! E eu vejo como as pessoas não valorizam. Não entendem. Não respeitam. Não aceitam. E não tão nem aí.
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Crianças e velhos. O futuro e o passado tá tudo truncado, entendeu? As pessoas não vêem, não ouvem e não querem saber. 

Vai pro Haiti!

Adams Carvalho/Folhapress

Chico Buarque está lançando um disco e o primeiro comentário que leio a respeito, no Facebook, é um elaboradíssimo e original "Vai pra Cuba!". Curioso. Quando um governo de direta dá errado, a culpa recai sobre o governante. Quando um governo de esquerda dá errado, a esquerda como um todo leva na moleira. (Não interessa aqui se a Dilma fez ou não um governo de esquerda, é assim que o PT se apresenta e assim que é visto por seus detratores).

Posso estar enganado, mas não lembro de, após as presidências do Sarney ou do Collor, pessoas provocarem seus apoiadores com "Vai pro Haiti!", "Vai pra Guatemala!", "Vai pra República Dominicana!" –só pra ficarmos em alguns pesadelos promovidos pela direita centro-americana. Na cabeça dos que gritam "Vai pra Cuba!", a América Central parece ser um oásis de liberdade e bem estar, manchado exclusivamente pela ditadura cubana.

No discurso de parte da direita brasileira, o Brasil também parece ter sido um oásis de liberdade e bem estar até a chegada do PT ao poder. "Quero o meu Brasil de volta!", exigiam faixas nas manifestações de 2016. Qual Brasil, cara pálida? O da ditadura? O do analfabetismo? O da escravidão?

Impossível fechar os olhos para os erros atrozes e a corrupção vergonhosa que, entre inegáveis acertos, houve durante os governos do PT. É preciso, contudo, separar os males decorrentes das vicissitudes petistas (a crise econômica atual é, sem dúvida, um deles) dos males que nos acompanham desde sempre. Ao se ouvir o que dizem os Bolsonaros, os Felicianos, os Olavos, olavetes e companhia limitada (bem limitada), parece que estamos na Rússia dos anos 1990, comemorando o fim da União Soviética e lutando para reconquistar as liberdades solapadas durante um século de stalinismo.

Na paranoia delirante da "Alt-right" brasileira, a esquerda é hegemônica no país e trama para nos transformar numa Cuba ou numa Venezuela. Está nas escolas, doutrinando nossos filhos, no cinema (bancada pela Lei Rouanet), fazendo a cabeça dos nossos jovens, nas rádios, pela voz de cantores como Chico Buarque, lançando seu veneno ideológico sobre todas as idades.

Se o discurso ficasse circunscrito aos loucos da extrema direita, seria apenas patético, mas ele os extravasa. Atualmente, qualquer pauta minimamente progressista liga a chavinha "Vai pra Cuba!". Se você é contra liberar para mineração um pedaço da Amazônia do tamanho do Espírito Santo: "Vai pra Cuba!". (Dois meses atrás a Noruega –que não é comunista–, indignada com a maneira como o governo vem tratando a Amazônia, cortou pela metade a ajuda financeira que dava no combate ao desmatamento).

Se você é a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo: "Vai pra Cuba!" (Casamento entre pessoas do mesmo sexo é permitido nos países capitalistas mais avançados. Gays, aliás, iam para a cadeia em Cuba). Se você é contra a reforma trabalhista da maneira como ela foi proposta: "Vai pra Cuba!". (A Organização Mundial do Trabalho, agência da ONU –que não vem a ser um órgão comunista–, condenou a reforma).

Espalhando a loucura de que há o risco de nos transformarmos em Cuba, a direita hidrófoba nos ajuda a caminhar, cada vez mais rápido, rumo ao Haiti.

O monstro de Mato Grosso

Reprodução
Reprodução de vídeo que mostra o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (PMDB),guardando maços de dinheiro no paletó
Reprodução de vídeo que mostra o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (PMDB),guardando maços de dinheiro no paletó

O ministro Luiz Fux avisou: uma delação "monstruosa" estava prestes a vir à tona. O monstro deixou o fundo do lago na sexta-feira. Tem quatro volumes, 15 apensos e alguns gigabytes de vídeos com cenas de corrupção explícita.

As imagens foram gravadas na sede do governo de Mato Grosso. Os personagens mudam, mas a ação é sempre a mesma: políticos recebendo propina em dinheiro vivo.

Um deputado armazena as cédulas numa caixa de papelão. Outro usa uma mochila. O atual prefeito de Cuiabá, o peemedebista Emanuel Pinheiro, prefere encher os bolsos do paletó. É tanta grana que um maço de notas chega a cair no chão.

O principal delator do esquema é o ex-governador Silval Barbosa, também do PMDB. Ele contou que deputados, prefeitos e conselheiros do Tribunal de Contas recebiam um mensalinho para não atrapalhar a roubalheira no Estado.

A Procuradoria afirma que a organização criminosa era chefiada por Blairo Maggi, ex-governador de Mato Grosso e atual ministro da Agricultura. Ele já havia aparecido na delação da Odebrecht, acusado de receber R$ 12 milhões. Seu apelido nas planilhas da empreiteira não está entre os mais criativos: "Caldo".

O mensalinho pantaneiro também foi delatado pelo ex-deputado José Riva, conhecido pelo título de "maior ficha-suja do Brasil". Alvo de dezenas de processos, ele já foi preso três vezes. Em abril, voltou às ruas graças a um habeas corpus concedido por Gilmar Mendes, seu conterrâneo.

Quando a Polícia Federal começou a cercar a quadrilha mato-grossense, em 2015, o supremo ministro ligou para Silval. A conversa foi interceptada legalmente e revela um juiz compreensivo com o investigado.

"Que absurdo!", "Meu Deus do céu!", exclama Gilmar, ao ser informado sobre as buscas na casa do então governador. O ministro promete falar com o colega que relatava o caso no tribunal e se despede com afeto: "Um abraço aí de solidariedade". 

Desvendando o comportamento

Cardiff University Brain Research Imaging Center (Reino Unido)
Modelo tridimensional do cérebro mostrando detalhes das conexões nervosas
Modelo tridimensional do cérebro mostrando detalhes das conexões nervosas

"Behave" (comporte-se), do primatologista e neurocientista Robert Sapolsky (Stanford), é um livro importante. E ambicioso também. O autor não pretende nada menos do que explicar o comportamento humano em todos os níveis. O mais incrível é que ele chega bem perto dessa meta. Como o assunto é complicado, o livro acabou ficando com mais de 700 páginas.

O próprio princípio organizacional da obra é um achado. Sapolsky começa mostrando o que acontece no cérebro no segundo anterior a uma ação, como abraçar uma pessoa querida ou puxar o gatilho de uma arma, e vai recuando para causas cada vez mais distais, passando pelos minutos, horas, dias, anos e até gerações que antecedem o ato. 

Assim, tem oportunidade de falar dos impulsos nervosos e estímulos inconscientes (segundos), hormônios (dias), neuroplasticidade (meses) recuar para a os problemas de autocontrole típicos da adolescência, os decisivos anos de formação na infância, o desenvolvimento fetal, os genes e os milênios de experiência coletiva acumulados em nossas culturas. Acho que nada ficou de fora.

Nos capítulos finais, Sapolsky explora temas que se tornaram centrais para a modernidade como o "nós contra eles", moralidade, empatia, livre-arbítrio (que ele rejeita), guerras.

Outra virtude do livro -e que ajuda a explicar sua extensão- é que Sapolsky é minuciosamente didático. Antes de desfilar os intricados nomes de estruturas cerebrais como córtex anterior cingulado, amídala, ínsula etc., ele oferece ao leitor um curso rápido de neurociência. E, só para garantir, enfiou na obra alguns apêndices nos quais se aprofunda nos mistérios das sinapses.

Sapolsky faz tudo isso com boas pitadas de humor e, principalmente, sem perder de vista as nuances e a complexidade. Se você tem alguma ideia muito firme de como o cérebro funciona, o autor vai estragá-la, mostrando que nada é tão simples. 

O espelho sobre a mesa de jantar

Desde quando me lembro, família tinha para mim uma importância extraordinária. Meu pai a considerava muito. Era a árvore, com raiz e galharia, com sombra, com tempestade, ramos caindo, raios atingindo, mas estava ali, a velha árvore. Eu, menina intrometida, de orelhas em pé ouvindo conversas adultas, pois durante alguns anos fui a única criança na casa, absorvia aquelas tramas, dramas, comédias, e coisas ternas e alegres que passavam como fios de teia de aranha entre tantas pessoas.

Eu adorava os almoços: avôs, avós, tios, tias, primos, primas. Aquilo me dava uma extraordinária sensação de proteção e pertença. E tudo se refletia num grande espelho diante da mesa de jantar. Também me fascinavam - não foi por nada que décadas depois comecei a escrever sobre laços familiares, embora nada a ver com aquela minha família - as conversas e posturas, que em qualquer grupo podem passar da inocência à bizarrice. Sentada à mesa, tendo de me esticar para manejar os talheres, embora posta sobre almofadas, com as perninhas balançando no ar, mais do que comer ou beber meu suco, eu espiava as pessoas.

Tomava um distanciamento involuntário, que me divertia e assustava: as pessoas pareciam salsichas enormes, com tufos de cabelo em cima, buraquinhos com olhos dentro, que giravam, outro buraquinho que se abria e fechava para receber comida ou soltar palavras. Ali aprendi que palavras podem ser plumas ou punhais - e que significam muito mais do que aquilo que expressam. Que uma inflexão muda o sentido, de amoroso para crítico; e que as mãos complementam tudo, com arabescos bailarinos por cima dos pratos.

Talvez tenha nascido assim meu encanto pelas palavras, pelo que dizem nos sons ou letras, e mais ainda nos espaços brancos ou silêncios. Ou isso simplesmente veio comigo como a cor dos olhos e dos cabelos, um sinal qualquer. Para mim, foram sempre motivo de felicidade, palavras como balas de tantos sabores e cores, ou pedrinhas coloridas que eu revirava na boca como se fossem pitangas ou uvas.

Sou uma mulher das palavras, e família tem entre elas um lugar especial: mais do que dissidências, importam as semelhanças; mais do que contradições, reinam os encontros; mais do que as ausências, predominam os gestos, as vozes, ou os sinais num WhatsApp. Uma dor por mal-entendidos pode ser curada com a palavra certa; uma ilusão alegrinha pode virar ferida, mas a gente nunca tem certeza...

Esse berço, esse colo ou esse peso chamado família pode magoar, irritar e salvar se tivermos a sorte de nascer num grupo amoroso. Nas horas mais escuras, essa rede pode nos impedir de cairmos no alçapão embaixo do poço. Nada como lembrar brincadeiras infantis entre irmãos, carinho de pais abrindo a porta com braçadas de orquídeas, dessas pequenas meio silvestres que florescem presas aos troncos das árvores no jardim. Nada como jogar conversa fora com quem se recorda, e nada como semear recordações futuras para os que, tão jovens, ainda nem têm passado.

Não sei onde foi parar aquele grande espelho, com um raro tom rosa-antigo. Quem sabe ainda estamos lá, presos: imortalizados os momentos felizes, os risos, brindes, lágrimas - e todos nós, como éramos um dia.

LYA LUFT



26 DE AGOSTO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Na calada da noite

Na calada da noite, quando o silêncio é tão denso que não se escuta nem o espirro de um guarda noturno, meus pensamentos delirantes despertam, e meu cérebro começa a azucrinar.

Eu ordeno a ele: quieto! Estamos na calada da noite, essa expressão não te sugere nada?

Ele não me dá trela e passa a listar as preocupações que me aguardam no dia seguinte. Amanhã, você precisa trocar o horário da aula de inglês com a Karin, será que ela estará livre na quarta? Amanhã, você precisa acrescentar batata-doce na lista de compras do supermercado. Amanhã, você precisa checar que barulho é aquele que seu carro está fazendo quando dá ré. 

Amanhã, você precisa adicionar mais 10 minutos de cenas no roteiro do filme que está escrevendo e dar uma sacudida na personagem principal, ela ainda está meio desmaiada. Amanhã, você precisa escrever mais duas crônicas inéditas de qualquer jeito, ou não conseguirá viajar tranquila pro Rio. Amanhã, você precisa checar se a camisa branca está limpa para a palestra.

São 3h30min da manhã, e a noite segue calada, mas meu cérebro não fecha a matraca. E o pior está por vir: ele logo entrará em sessão de terapia. Adora fazer isso no meio da madrugada.

Tenho a impressão de que aquele texto que você publicou duas semanas atrás foi um recado para uma amiga sua. E não ter respondido aquele WhatsApp de anteontem foi uma provocação estúpida. Se você tem vontade de largar tudo, por que não larga? Aliás, comece largando o pé da sua filha, deixe que ela viva do jeito que quiser. Não acredito que você vai falar de novo sobre aquela vez em que perdeu o avião porque ficou trancada no banheiro. Óbvio que você não queria embarcar.

São 4h30min da manhã, nunca fiquei presa em banheiro de aeroporto, então é sinal de que a terapia desandou e agora estou entrando naquele período dramático em que recebo a visita dos meus demônios, sempre pontuais.

Essa mancha no seu braço. Está com a maior pinta de ser um melanoma. Você precisava ter tomado três cálices de vinho? Marque uma hora no gastro se não quiser morrer de cirrose até a próxima sexta-feira. Você não vai viver muito, sabe disso. A dor no joelho é da idade, mas o aperto no peito é problema cardíaco grave, você tem um mês de vida, você tem duas semanas de vida, você tem que deixar um bilhete de despedida para seus entes queridos, tchau querida, acho que você não vai nem acordar.

São 6h da manhã, o guarda noturno espirra, e eu acordo. Fim de mais uma tagarelice cerebral numa noite calada coisa nenhuma.

MARTHA MEDEIROS


26 DE AGOSTO DE 2017
PIANGERS

Amor à moda antiga


Um amigo disse pro filho, dia desses, antes de dormirem, que o amava daqui até o céu. O garoto ouviu, levantou as sobrancelhas, calculando a distância impressionante. Olhou pro pai e, na tentativa de expressar amor de volta, falou: Eu te amo tipo daqui até o ventilador.

Somos uma geração de pais carinhosos. Dizemos "eu te amo" como quem diz "bom dia". É tanto "eu te amo, filho" que tenho medo que não valorizem. Às vezes, inventamos novas formas de comparação. "Amo você daqui até a lua." "Amo você mais que tudo." "Amo você 10 vezes infinito." Já ouvi tantas vezes de minhas filhas e valorizo cada uma delas. Todas me dão água nos olhos. Abracei-as mais do que abracei minha mãe, acredito. Tenho mais fotos delas, guardadas em HDs e com backup na nuvem, do que as câmeras de 24 poses jamais conseguiriam tirar.

Em geral, tivemos pais mais distantes. Queriam que fôssemos durões. Meu avô trabalhava na roça, cortou cabelo e dirigiu caminhão pra dar estudo pra minha mãe. Esta, por sua vez, criou sozinha o filho e sustentou a casa com salário minguado. A vida, realmente, era mais séria pra eles. Nada de delicadezas. Nada de desperdício de comida. 

Nada de tablet e iogurte. Nada de "eu te amo" terça à tarde. Abraços eram ocasiões especiais, Natal e olhe lá, que a vida não é fácil e você tem que estar preparado. Mas, quando vinha um carinho na cabeça, rapaz, a gente ficava bobo. Um pouquinho de colo, quando a gente já era grande demais, era o céu. Beijo de boa noite, paraíso.

Uma amiga contou que o pai nunca lhe disse "eu te amo". Ela procurava carinho, ele não era muito de papo. A conversa era toda com a mãe. O pai era comunicado e comunicava, não havia diálogo.

De vez em quando, ele botava as crianças pra dormir. Era assim: os três filhos de banho tomado deitavam, cada um em sua cama. O pai entrava no quarto, o silêncio respeitoso tomava conta do lugar, e o senhor começava a desenrolar os mosquiteiros que ficavam em cima da cama deles. Estendia a proteção cuidadosamente sobre os filhos, sem dizer uma palavra. 

Olhava com atenção pra ver se nenhum mosquito tinha ficado do lado de dentro. Verificava se não havia frestas para outros mosquitos entrarem. Fazia isso para cada um dos três filhos, sem trocar uma palavra. Depois de tudo pronto, ia até a porta e dizia: "boa noite". As crianças respondiam: "boa noite". O pai se ia. E as crianças sentiam como se tivessem ouvido "amo vocês".

26 DE AGOSTO DE 2017
CARPINEJAR

O caráter que se revela na confissão
Contar um segredo é a triagem do caráter. Ou o segredo liberta ou aprisiona. É confessando algo de que nos envergonhamos que saberemos se a pessoa é a nossa amiga ou não. Não tem teste tão veemente, com efeitos mais imediatos.

O confessionário prova se o outro é leal. Expor uma lembrança triste a quem não é de confiança logo vira chantagem, logo vira moeda de troca, logo vira favor. Pode não espalhar para os demais, mas usará a informação para obter vantagens e transformar a culpa em superioridade.

Aquele que não é amigo se aproveita da fragilidade para garantir benefícios. Fortalece a vítima para desmerecê-la. Levanta para cima, diz que o segredo é nada, dissuade o medo, para rir depois da queda.

Não é um amigo, porém um inimigo em potencial, um adversário disfarçado de bons modos. No fundo, não tem escrúpulos. Aproxima-se para impor os seus interesses. Está jogando sujo para ganhar recompensas fáceis.

Ele se faz de compreensivo e compassivo com o objetivo de manipular a relação. Há como prever o Judas antes da confissão. Pois Judas trai com um beijo. Será alguém que se mostra muito carinhoso de uma hora para outra. Tem pressa de saber tudo a seu respeito, sem nenhuma razão aparente. Aparece forçando a intimidade, com convites generosos e apoios nababescos.

Cuide com o que fala. Porque aquilo que falar mostrará a natureza de suas companhias.

A decepção virá rapidamente na forma de um insulto e de uma ironia. No primeiro desentendimento, o túmulo de cimento das palavras não resiste às marteladas da profanação. A traição será sempre a violação de uma confidência. Os suspeitos não mudam com o tempo. É um colega de trabalho concorrendo com você. É um antigo afeto querendo vingança. É um familiar ressentido com o passado.

Amigo que é amigo escuta e esquece, e jamais volta para o assunto. Ouve e apaga. Escreve na água, para a onda levar. Escreve na areia, para o vento cobrir. Cumplicidade é como bebedeira, nunca lembrar o que aconteceu durante a vulnerabilidade da conversa.

Amigo que é amigo mantém a decência de uma gaveta, de um cofre, de uma chave. Demonstra a sobriedade educada e gentil de ajudar e desaparecer. Já cumpriu o papel de dividir as dores e frustrações. Não alimenta a ambição de ser maior do que o silêncio.

CARPINEJAR


26 DE AGOSTO DE 2017
J.J. CAMARGO

O QUE SÓ O POETA VÊ

Nas últimas décadas, ficou claro que o Brasil tem se esforçado em andar na contramão do mundo civilizado, mas com a proposta de modificação dos conteúdos de Ensino Médio, determinando que História e Filosofia não sejam mais matérias obrigatórias, nos excedemos. No tempo em que todas as áreas, especialmente as ciências humanas, acordaram para o efeito brutalizante da tecnologia dissociada de afeto, privar os estudantes do acesso à sensibilidade é, no mínimo, uma estupidez, com purpurinas de crueldade.

Quando se fecham as portas de acesso ao pensamento qualificado dos literatos e filósofos, as pessoas, como pombas famintas, alimentam-se das sobras da pobreza espiritual e, na falta de ideias para debater, falam de outras pessoas, essa prática comum entre os infelizes de alma atrofiada. O surgimento concomitante da internet, de tantas funções úteis para a sociedade, trouxe como paraefeito danoso esse canal imenso e escancarado aos que necessitam opinar sobre o que não entendem e a julgar atitudes e comportamentos sem nenhum compromisso que não seja nutrir uma autoestima massacrada pela inapetência cultural. 

A vacuidade dos diálogos nas redes sociais e os dolorosos atropelamentos do idioma expressam apenas as limitações de quem não lê e que, só praticando cultura oral ou usando uma linguagem capenga, nem reconhece os horrores ortográficos esparramados na tela do pobre computador que, se tivesse voz, gritaria.

No outro extremo, alheios ao burburinho da ignorância descuidada e pobre, situam-se os insaciáveis catadores das pérolas do espírito humano, que se encantam com as artes, deslumbram com a literatura e enternecem com a poesia. E isso para desespero dos materialistas que trabalham enlouquecidos para enriquecer e, quando conseguem, descobrem desolados que suas proezas podem até provocar algum tipo de inveja, mas de nenhuma maneira contribuíram para fazê-los mais interessantes.

Há muitos anos, os estudos de neurociência têm demonstrado a importância da preservação da atividade cerebral, estimulada no seu limite, como a maneira mais eficiente de prolongar uma vida produtiva e feliz. Nesse sentido, as evidências mais recentes apontam para a importância da literatura que liberta a mente para as aventuras ilimitadas da imaginação e condenam a fixação na TV que entrega uma matéria pronta, adequada a quem abdicou da ousadia prazerosa de pensar por conta própria.

A poesia é, muito provavelmente, o braço mais sofisticado da literatura, porque impõe ao autor que consiga expressar sentimentos com delicadeza, sonoridade e harmonia, dando ao leitor a sensação de cumplicidade de quem captou uma emoção tão forte e única que, dali por diante, será guardada como se fosse um segredo entre o poeta e seu deslumbrado leitor. 

O verdadeiro artista convence, antes mesmo que o verso termine, de que foi capaz de perceber a sutileza do novo e o encanto do insuspeitado. Os viciados em poesia acreditam piamente que a única razão para que um poeta não veja alguma coisa é que ela não exista. E que, outras tantas vezes, o que ele viu, só ele viu.

J.J. CAMARGO


26 DE AGOSTO DE 2017
DAVID COIMBRA

O que você aprende quase morrendo

A pergunta que as pessoas mais fazem a quem um dia teve câncer é:

"O que você aprendeu com isso?".

Compreensível. Sendo o câncer uma espécie de quase morte, as pessoas esperam que haja algo de aproveitável nessa experiência radical. O sujeito descobre um câncer, sofre, sofre e, de repente, é como se tivesse uma epifania: ele desvela o sentido da vida e se torna alguém muito mais sábio.

Então, na ânsia de beber daquele conhecimento sem sentir dor, as pessoas insistem:

"O que você aprendeu? No que você mudou? O que ficou diferente?".

E, de fato, tenho ouvido gente que teve câncer ou outras doenças graves dizer que passou a valorizar mais a vida e as pessoas que ama, que agora vê o mundo com outros olhos, que tudo ficou mais belo e que decidiu fazer coisas que nunca fez antes. Elas se transformaram em pessoas melhores, depois de ver de perto os olhos amarelos da morte.

Para mim, isso é tremendamente frustrante. Porque sempre valorizei a vida e as pessoas que amo, sempre achei graça no mundo e tentei fazer o que gosto. Ou seja: não me transformei em uma pessoa melhor por causa da doença. De que adianta ter câncer assim? Francamente. Maldito câncer inútil.

Mas, dias atrás, alguém disse algo que me fez pensar que talvez tenha aprendido um pouco com toda essa encrenca, afinal. Foi uma frase comum, uma sentença corriqueira do tipo "é importante se preocupar com o futuro", ou "precisamos construir o futuro", ou coisa que o valha.

Então me dei conta: ao sentir o futuro ameaçado, vi que o importante não é construir o futuro: é construir o passado.

Na verdade, é só o que o homem faz. A cada hora do seu dia, você está construindo o seu passado. Até porque o futuro não existe, o futuro nunca chega. Assim, se você alcança o fim do dia e conclui "tive um dia bom, fiz boas coisas", significa que você depositou um naco de tempo positivo no seu passado. Mais tarde, você poderá lançar mão dessa poupança, você olhará para o saldo do passado e verá cenas e fatos interessantes, que lhe darão satisfação e, talvez, até orgulho. Você se sentirá leve, você contará aos outros sobre tudo aquilo que aconteceu e abrirá um sorriso de contentamento.

Um dia vivido com dignidade e alegria é o melhor que você pode fazer a você mesmo. Porque a dignidade e a alegria estarão depositadas na sua conta.

Foi o que me ensinou a experiência de quase morte. Foi saber que qualquer um de nós pode morrer daqui a dezenas de anos, ou amanhã, ou, puf!, já. E que isso, na verdade, não importa. Só o que importa é que, quando esse futuro chegar, me encontre de posse de um belo passado. É o que tenho feito. Tenho tentado melhorar o meu passado. Nem sempre é fácil.

david.coimbra@zerohora.com.br

26 DE AGOSTO DE 2017
DUAS VISÕES

UNIVERSIDADE PÚBLICA E PAGA

Existem determinados temas que, quando defendidos em voz alta, impõem ao defensor alguma cautela. A defesa de privatizações, a diminuição do tamanho do Estado, que a CEEE não possui valor econômico algum e deve ser vendida (ou entregue para quem a quiser), que a Petrobras deveria passar para a iniciativa privada ou que a universidade pública deveria ser paga. Você, certamente, será vítima de tomatadas, agressões verbais, exclusão de grupos de WhatsApp, perda de amigos no Facebook? (e, espero, fique somente nisso.)

Pois é, eu defendo tudo isso. Felizmente, não estou sozinho e, cada vez mais, melhor acompanhado. E o principal argumento não está somente no fato de que a obesidade do Estado seja, lastimavelmente, um ambiente fértil para que espertinhos se locupletem ilicitamente. Isto é uma infeliz obviedade sobre a qual somos todos os dias lembrados quando assistimos ao Jornal Nacional. Mas o discurso da presença estatal não é bradado somente por esses que se beneficiam ilicitamente da incompetência típica do Estado. 

Existem aqueles que, ideologicamente, defendem a interferência estatal na economia (normalmente, estão geograficamente localizados no espectro político mais à esquerda - por que será?). Além de não entenderem nada de economia, acreditam que o almoço é grátis e sofrem de síndrome de Poliana. Por fim, existem ainda aqueles que se beneficiam (ainda que licitamente) dessa situação e que repetem, roboticamente, bordões como: "O petróleo é nosso", "O Correio é a instituição mais respeitada deste país", "Ah, que saudades da CRT", "Queremos menos bancos e mais Estado".

Nessa gritaria esquizofrênica, esquecem que nada disso é função do Estado e que segurança, saúde e ensino básico, sim, dependem de um Estado forte. Peraí: ensino básico? Sim. E as universidades públicas? A bem da verdade, o Ensino Superior também não deveria ser considerada função precipuamente estatal. Muito menos, a sua gratuidade. Aí está o "X" da questão. 

Observem: a massa carente estuda em escolas primárias e secundárias de baixíssima qualidade; famílias com melhores condições colocam os seus filhos em escolas privadas; os egressos das escolas públicas são despejados em universidades privadas e pagam por seus estudos, muitas vezes com baixa qualidade; aqueles que estudaram nas melhores escolas prestam vestibular para as universidades públicas e gratuitas e não pagam por seus estudos. 

É este o paradoxo do ensino brasileiro. E mais. A grande verdade é que os cursos de Medicina, Direito e Engenharia são habitados essencialmente por alunos que tiveram os melhores canais de ensino primário e secundário. Aqueles que pegaram ônibus, não tinham professores, enfrentaram greves, nunca viram um laboratório de física ou química, quando prestam vestibular para universidades públicas, passam longe dos pontos de corte para ingresso nesses cursos.

É verdade, existem honrosas exceções. Mas essas exceções não devem ser alçadas à condição de denominador comum, são exceções. O que é lastimável. Mas é mais lastimável que existam pessoas que defendam esse paradoxo e busquem argumentos ideológicos para sustentá-lo. Convido a estes para que visitemos o estacionamento das principais escolas de Medicina, Direito e Engenharia das universidades públicas. Vamos levar guarda-chuvas, pois os tomates serão lançados.

THOMAS DULAC MÜLLER Advogado, professor universitário thomas@dulacmuller.com.br