sexta-feira, 6 de abril de 2018



06 DE ABRIL DE 2018
FORMAÇÃO DE MÉDICOS

formação de médicos

Governo congela criação de vagas nos cursos de Medicina

O Ministério da Educação (MEC) anunciou ontem o congelamento de vagas de Medicina no país. Na terça-feira, a suspensão da abertura de novos cursos já havia sido informada pelo MEC. Graduações que já estão em andamento também estão proibidos de aumentar o número de vagas. A medida vale tanto para escolas públicas quanto particulares. Mesmo instituições estaduais, que, pela regra atual, têm autonomia para a criação de vagas, ficarão sujeitas às regras de suspensão. De saída da pasta (leia abaixo), o ministro da Educação, Mendonça Filho, afirmou que duas portarias serão publicadas hoje sobre o assunto. Numa delas, há regras específicas para vincular as instituições estaduais à proibição de abertura de vagas.

O ministro classificou a medida como um "freio de arrumação" do setor. Repetindo um discurso feito por associações médicas, que desde a Lei dos Mais Médicos lutam contra a ampliação de vagas na área, Mendonça afirmou que, em 15 anos, o número de escolas de Medicina dobrou no país.

- Essa é uma parada necessária para assegurar que todos os cursos tenham qualidade - disse.

A medida, no entanto, vale para todos os cursos, mesmo aqueles que estão muito bem avaliados. Pesquisas sobre a distribuição de médicos indicam haver no país bolsões onde a oferta de profissionais é muito precária. Questionado se a suspensão de abertura de vagas não dificultaria ainda mais o provimento de médicos nesses locais, Mendonça afirmou:

- A demanda será atendida com os cursos já criados. A abertura de postos já superou a demanda.

Mendonça já havia anunciado a decisão de fazer uma moratória para abertura de cursos de Medicina no fim do ano passado (atualmente, há 302 cursos superiores de formação de médicos no Brasil). Como ele havia dito na ocasião, a suspensão de vagas tem duas exceções: cursos de Medicina já autorizados para funcionar em dois editais formulados pelo MEC (no total de 67) vão poder expandir as vagas e cursos federais que já estão em processo de implantação.

Além da moratória, Mendonça anunciou a criação de um grupo de trabalho encarregado de fazer a avaliação de escolas que atualmente estão em funcionamento. A comissão será integrada por representantes do ministério, entidades médicas e professores.

- Nosso zelo é com a formação do médico. Um profissional malformado compromete vidas humanas - afirmou.

Desde a Lei dos Mais Médicos, a abertura cursos de Medicina por instituições particulares é regulada de forma rígida pelo MEC. As propostas têm de obedecer critérios estabelecidos pelo ministério e apresentadas em locais considerados com maior demanda. Quando foi perguntado se a moratória era um sinal de que o sistema proposto pelo próprio MEC não havia funcionado de forma adequada, Mendonça foi evasivo.

O acompanhamento dos cursos por esse comitê de avaliação será feito por meio de visitas nos centros e análise das condições de infraestrutura e de hospitais e centros de apoio.

06 DE ABRIL DE 2018
SUSTENTABILIDADE


O que a Virada Sustentável propõe para melhorar a cidade

PRESENÇAS DE GABEIRA e Ana Trajano e dezenas de eventos compõem a grade de atividades desta edição, que vai de hoje a domingo

Uma programação intensa vai promover apresentações, debates e oficinas voltadas a melhorar a vida na cidade neste fim de semana. De sexta-feira a domingo, a Virada Sustentável terá mais de 200 atividades em diferentes pontos de Porto Alegre para tratar de um desafio cada vez mais urgente: como agir agora, mas sem comprometer a herança para futuras gerações.

O pontapé inicial será dado por velho conhecido pelo envolvimento com a temática central do evento. A conferência de abertura, hoje, na Unisinos, será realizada pelo jornalista Fernando Gabeira. A pauta, porém, não será sua trajetória política, vinculada ao Partido Verde, mas seu programa de entrevistas e reportagens na Globo News, além da importância da educação para o desenvolvimento da sustentabilidade, tema desta edição da Virada.

- Escolhemos o Gabeira por causa do programa que vem fazendo, que mostra a questão da diversidade cultural brasileira e promove discussões sobre impactos ambientais nas comunidades - justifica o produtor executivo do evento, Vitor Ortiz.

O conceito de sustentabilidade está relacionado a atitudes que favoreçam a manutenção da existência e da permanência dos seres vivos e do planeta ao longo do tempo. Ou seja, é sustentável toda ação que atenda a uma demanda atual sem prejudicar a capacidade de as gerações futuras buscarem suas necessidades e aspirações. Iniciada em 2011, em São Paulo, a Virada Sustentável é um movimento de mobilização que envolve organizações da sociedade civil, órgãos públicos, empresas, escolas e universidades.

DE RODAS DE CONVERSAS A FEIRAS GASTRONÔMICAS

Nesta edição, a terceira na Capital, os esforços estão voltados à promoção dos 17 objetivos estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) a serem adotados por países do mundo inteiro até 2030 para que o planeta se torne mais sustentável. A gama é abrangente: vai desde acabar com a pobreza e a fome até a igualdade de gênero e o empoderamento feminino, passando pelo acesso à energia elétrica e o crescimento econômico sustentado. Essas metas inspiraram a programação do evento que, pela primeira vez, será dividida em 14 áreas de interesse - as chamadas "trilhas" - relacionadas a esses temas.

Tem de tudo: desde rodas de conversa e discussões até shows musicais, feiras diversas e eventos gastronômicos. Alimentação saudável e consumo de produtos locais, inclusive, serão o principal tema dos eventos que ocorrerão no Parque Farroupilha, onde a chef Ana Trajano, especializada em cozinha regional brasileira, irá cozinhar ao vivo no sábado, às 15h, e outros chefs irão trabalhar o aproveitamento de alimentos da xepa da Ceasa em pratos elaborados, que serão distribuídos ao público. Já no Vila Flores, o viés cultural da gastronomia será o foco de uma atividade com refugiados e imigrantes capitaneada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

- Quando a gente convida refugiados para participar desse tipo de coisa, eles se sentem valorizados, porque podem dar visibilidade à cultura deles. E também é uma forma de inserção social importante. Eles ficam honrados em fazer parte da cidade - diz Karin Wapechowski, coordenadora do programa de reassentamento de refugiados em Porto Alegre.

BRUNA VARGAS

06 DE ABRIL DE 2018
+ ECONOMIA

Mercado vê Lula "fora do baralho"



O mandado de prisão emitido ontem pelo juiz Sergio Moro ocorreu logo depois do fechamento da bolsa de valores, portanto não impactou no humor de investidores. Para o mercado, era uma decorrência ao menos parcialmente precificada, ou seja, incluída na alta ou baixa de ações e outros ativos.

- Para o mercado, Lula é carta fora do baralho. Essa foi a avaliação da decisão de ontem (quarta-feira) - disse à coluna Newton Rosa, economista-chefe da Sul America Seguros, pouco antes da emissão da ordem.

A decisão à que se referiu foi a tomada no dia anterior pelo Supremo Tribunal Federal (STF), abrindo caminho para a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A bolsa fechou com alta de 1,1%, depois de ter registrado pico de quase 2% durante o dia. Outro olho estava em Nova York, cuja recuperação também ajudou no melhor desempenho.

Ao mesmo tempo, havia cautela diante da previsão de que hoje será divulgada a situação do mercado de trabalho nos Estados Unidos, essencial para a definição do ritmo da alta do juro americano. A reação de hoje nas ações e no câmbio vai depender da combinação do alívio com a inviabilização da candidatura de Lula com a perspectiva nos EUA.

No Brasil, apesar da ordem de prisão, ainda há incerteza sobre o cenário eleitoral, dúvidas sobre a situação jurídica e política do presidente Michel Temer, sob risco de uma terceira denúncia, além da nova postura das Forças Armadas.

Como se tornou característico em reações a questões políticas, ações de estatais ficaram entre as mais valorizadas. Banco do Brasil subiu 3,73%, Petrobras, 2,73% e Eletrobras, 1,93%. Papéis ligados a commodities também avançaram, beneficiados pela percepção de que EUA e China entrarão em negociações antes de partir para a guerra comercial.

reuniões antes da posse na ceee

Com a mudança no comando da CEEE oficializada pelo Palácio Piratini, o indicado, Urbano Schmitt, ainda precisa ser aprovado pelo conselho de administração da empresa. Antes, foi nomeado secretário-adjunto de Minas e Energia para poder viajar a Brasília, com a secretária Susana Kakuta e participar de uma reunião na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Depende da avaliação da agência a manutenção do maior ativo do braço de distribuição da estatal, a concessão. Para isso, não pode voltar a ter resultados financeiros negativos.

Além disso, a empresa precisa melhorar drasticamente seus indicadores de qualidade. Schmitt chega à CEEE, uma estatal com privatização proposta pelo Piratini e em delicada situação financeira, com as credenciais de ter sido secretário de Gestão e Acompanhamento Estratégico e Extraordinário da Copa - e diretor da Procempa, em Porto Alegre.

Além do barulho político que a indicação - atribuída a uma escolha pessoal do governador José Ivo Sartori - já causou, sua capacidade de gestão será posta à prova, caso venha a ser aprovado no conselho.

em dia positivo, uma nota de alerta. uma das três maiores agências de classificação de risco do mundo, a fitch, avaliou que o Brasil não vai conseguir cumprir a regra de ouro em 2019. A norma é a que impede o governo de recorrer a empréstimos para bancar despesas correntes.

O Índice de Desempenho Industrial (IDI-RS) voltou a avançar

0,6%

em fevereiro, após queda de 1,7% em janeiro, conforme a Fiergs. Alta nas compras e na capacidade instalada são dados promissores.

CONSUMO CONECTADO


Os dados da Global Consumer Insights 2018, pesquisa da PwC que ouviu 22 mil pessoas em 27 países, dentre as quais mil no Brasil, dão um alento: 71% dos entrevistados esperam aumentar ou manter o volume de compras. A pesquisa mostra, também, aceleração na mudança de comportamento do consumidor: o uso de smartphones saltou 10 pontos percentuais, de 31% para 41%. Em seis anos, essa fatia quase triplicou.

Em equipamentos eletrônicos, as compras online cresceram de 12% para 27% do total nos últimos cinco anos. O peso só é superado pelas ligadas ao entretenimento (livros, músicas, filmes e videogames) que saltaram de 18% para 34% no período. Em alguns segmentos, o Brasil mostra maior potencial online do que a média global. Em alimentação, mais da metade (58%) dos brasileiros tem disposição de comprar comida com alguns toques. No mundo, 48%.

Serão entregues hoje três licenças ambientais para pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Duas fazem parte do complexo da Havan no RS. A outra é da Ceriluz, de Ijuí. A previsão era liberar até março as quatro, com potência de 63 MW e investimento de R$ 400 milhões.

espaço para gaúchas

A primeira contratada pelo consórcio HTBM (HTB, Tedesco e Barbosa Mello), a Pöyry, não é gaúcha. Vai fazer os projetos executivos de arquitetura, civil, paisagismo e identidade visual, entre outros, e o acompanhamento técnico da obra de ampliação do Aeroporto Salgado Filho. Pedro Tedesco Silber, presidente da Tedesco, explica que essa é uma pequena parte dos subcontratos e reitera que empresas gaúchas terão prioridade no fornecimento de materiais e serviços para a obra. Depois do encontro na Fiergs, há várias negociações em andamento.

- A ideia é priorizar ao máximo o conteúdo local - afirmou Tedesco.

MARTA SFREDO


Por que a prisão de Lula é triste 
Era para ser a consagração e foi o fracasso
05/04/2018 - 17h54min
DAVID COIMBRA

Não. A prisão de Lula não me faz feliz. Ao contrário. Sei que é necessária, sei, inclusive, que representa um avanço para o Brasil, mas não deixa de ser, também, um fracasso. Lula, quando foi eleito, deveria ter se tornado o símbolo de uma espécie de consolidação da nascente democracia brasileira. Um presidente operário, líder de um partido realmente orgânico. Era uma aragem de renovação.

O Brasil vinha bem, havia derrotado seu maior inimigo, a inflação, e a conjuntura econômica parecia bastante favorável. Lula não tinha sequer a obrigação de fazer um governo competente, desde que fosse um governo decente. E, nos primeiros anos, ele superou as expectativas. Fez uma gestão sóbria e soube se beneficiar do momento positivo no mercado internacional.

Então, o mensalão mostrou que havia alguma coisa errada. Na verdade, muita coisa estava errada. O PT não criou o sistema corrupto, está certo quem diz isso, mas apropriou-se dele com volúpia e o fermentou. Montou uma rede de influências políticas e de irrigação de recursos escusos que tomou a sociedade brasileira e desbordou das fronteiras para países da América Latina e da África onde havia governos amigos.

Ao mesmo tempo, o PT cometeu dois terríveis erros filosóficos: em primeiro lugar, subverteu sua própria natureza ao praticar o que criticava, por exemplo, no PDT: o culto à personalidade. Lula virou o messias, o chefe, o caudilho. Talvez fosse inevitável que ocorresse tal desvio – o PT é um partido de intelectuais, e a figura de um líder operário defensor dos pobres é irresistível para os intelectuais de esquerda.

Assim, Lula tornou-se uma espécie de santo malandro. Mesmo seus erros mais graves eram vistos com bonomia e seus defeitos se transformavam em virtudes. A vulgaridade de um homem que se refere a uma deputada como Maria do Rosário como um dos "grelos duros" do partido não era vulgaridade: era "linguagem popular". Quando ele confessava que não lia livros "por preguiça", os intelectuais sorriam: "Ele é assim mesmo, ele é autêntico...". Seguindo esse raciocínio, nenhum fiel via maldade no relacionamento promíscuo do Grande Líder com empreiteiros corruptores ou com políticos corruptos. Era só o jeitão dado dele.

O segundo erro grave do PT foi a estratégia de nunca responder às críticas e sempre demonizar os críticos. Quem por acaso não concordasse com o PT não o fazia por compreender as coisas de forma diferente: fazia-o por má intenção. Para um petista, ninguém que critica o PT é equivocado; quem critica o PT é do mal. Só pode criticar um partido defensor dos pobres quem se repoltreia com os ricos. 

O PT, desta forma, dividiu a sociedade entre os bonzinhos protetores de negros e pobres e os malvados da elite branca e pérfida. Um maniqueísmo tão óbvio quanto nocivo. Só que os petistas, ao classificarem a classe média como elite econômica, classificaram-se como elite moral. Eles se apartaram do resto da sociedade e apartados estão. Difícil consertar esse rompimento.

O resultado desse acúmulo de erros é um país nervoso, inseguro, que não sabe para onde vai. Certamente acabará descobrindo. Mas, como mostra todo esse longo processo de condenação de Lula, não será sem dor.

quinta-feira, 5 de abril de 2018


05 DE ABRIL DE 2018
RBS BRASÍLIA

O Supremo não se apequenou


Ao final do prolixo voto da ministra Rosa Weber, os aliados do ex-presidente Lula estavam atônitos. Todos contavam como certo o acordão que se costurava nos bastidores, em que interessava aos poderosos enrolados com a Lava-Jato que o Supremo Tribunal Federal (STF) revisasse o entendimento da prisão após condenação em segunda instância. Lula seria o beneficiado direto e imediato, mas, no PMDB, no PSDB, no PP e em partidos-satélites, caciques estariam batendo palmas. Não deu certo. 

Na última hora, diante de pressão interna e externa, a ministra Rosa Weber resolveu fechar um voto em sintonia com o relator, deixando o mérito da prisão em segunda instância para mais tarde. Irritado, o ministro Marco Aurélio Mello - relator das ações diretas de constitucionalidade sobre o tema, que não foram analisadas - atacou publicamente a presidente da Corte, a ministra Cármen Lúcia:

- Venceu a estratégia.

Cármen Lúcia já havia dito que revisar o início da execução penal após condenação em segunda instância por causa do ex-presidente seria "apequenar o Supremo". Por isso, ela não levou as ações para julgamento e optou por fulanizar o caso, colocando os ministros contra a parede. Ao mesmo tempo, no entanto, ela também potencializou a crise no plenário, assanhou os militares e mobilizou as ruas. Foi uma jogada arriscada. O brilhante voto do ministro Luís Roberto Barroso, a favor da execução antecipada da pena, justificou a preocupação da presidente:

- Criamos um país de ricos delinquentes. Não prendemos os verdadeiros bandidos do Brasil - resumiu, esfregando na cara do plenário um resumo da nossa Justiça.

Lula foi julgado e condenado em segunda instância no caso do triplex do Guarujá e ainda há inquéritos pendentes, um deles sobre o famoso sítio de Atibaia. Para o PT, a prisão de seu único grande líder é um golpe mortal. Preso, não poderá concorrer, muito menos ser um cabo eleitoral de luxo. Claro que, daqui por diante, o partido vai lançar mão da vitimização, vendendo a imagem do Lula mártir. Ninguém sabe quanto tempo essa estratégia resistirá.

Neste histórico julgamento, o STF não se apequenou e a Lava-Jato segue seu rumo no combate à corrupção. Mas, um alerta: se parar neste caso, STF, MP e PF perderão a credibilidade. Há uma lista de inquéritos envolvendo poderosos, de Aécio Neves (PSDB-MG) a Romero Jucá (PMDB-RR), aguardando que a Justiça continue a cumprir o seu papel.

CAROLINA BAHIA


05 DE ABRIL DE 2018
CAMPO ABERTO


Retaliação da china mexe com mercado


O mercado internacional de soja foi sacudido pela notícia de que a China pretende aplicar taxa de 25% sobre o produto vindo dos Estados Unidos. Em novo capítulo da guerra comercial que vem sendo travada entre os dois países, os chineses apresentaram a relação de itens que devem ser tarifados. O que se viu logo depois foi um efeito negativo para os produtores americanos. A cotação da commodity na Bolsa de Chicago ficou em queda livre - os valores chegaram a ficar abaixo de US$ 10. No final do dia, o valor para os contratos de maio ficou em US$ 10,15, recuo de 2,21% em relação ao dia anterior.

- Esse rolo com a China tem viés extremamente baixista em Chicago - reforça Carlos Cogo, consultor em agronegócio.

Cenário diferente se desenhou em território brasileiro, onde os prêmios para exportação do grão subiram, fazendo compensação ao recuo em Chicago. Em uma primeira análise, o Brasil, que já é o maior exportador mundial de soja para a China, poderia ampliar ainda mais sua participação naquele mercado diante da taxação ao produto americano.

Mas o fato de as medidas do presidente dos EUA, Donald Trump - e as consequentes retaliações de Xi Jinping -, terem conotação mais política do que econômica exige cautela. Boa parte dos analistas avalia que a aplicação das tarifas à soja pode não sair do papel por pressões existentes nos dois países.

Eleitores e apoiadores de Trump, os produtores do chamado cinturão de grãos, serão diretamente impactados em caso de confirmação das tarifas e devem trabalhar para evitar que isso aconteça.

- Há uma pressão também por parte das indústrias esmagadoras e de carne chinesas, que perderão dinheiro com isso. Acho difícil que essa taxação se concretize - observa Luiz Fernando Gutierrez Roque, analista da Safras & Mercado.

Neste primeiro momento, criou-se uma grande especulação sobre o que poderá acontecer. E o anúncio da ameaça chinesa foi o suficiente para bagunçar o mercado.

PROPOSTA COLOCADA À MESA

A negociação de produtores de arroz para o pagamento das parcelas de custeio está próxima de um desfecho. Ontem, em reunião com o Banco do Brasil, foi apresentada proposta, que passará agora por análise da diretoria da instituição - a principal financiadora do crédito agrícola no país. A sugestão é de que os agricultores paguem 20% de entrada e prorroguem por três anos o saldo. Eles também teriam de quitar valores referentes à safra 2016/2017. Nas linhas de investimento, a prorrogação poderá ser para o fim do contrato.

- É uma solução emergencial. Continuaremos com as tratativas para achar uma de longo prazo - avalia Alexandre Velho, vicepresidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz-RS).

As dificuldades enfrentadas são resultado de uma conta que não fecha. Os custos de produção estão acima de R$ 40 a saca, enquanto o preço mínimo é de R$ 36,01.

Entre as medidas consideradas essenciais para resolver a crise no longo prazo estão menor tributação de ICMS e solução para os problemas apontados na relação com o Mercosul.

no radar

ALVO DA Operação Trapaça e com unidades suspensas para a exportação à Europa, a BRF anunciou férias coletivas para trabalhadores de duas unidades: Rio Verde (GO) e Carambeí (PR). A medida busca ajustar a produção à demanda. Já foram feitas readequações em quatro frigoríficos da marca.

37,07 mil

toneladas foi o volume de arroz negociado no leilão de Prêmio de Escoamento da Produção (PEP) realizado ontem, de um total de 90 mil toneladas. No Prêmio Equalizador Pago ao Produtor, sobraram todas as 17 mil toneladas ofertadas.

cartão amarelo à Monsanto

Uma cooperativa do Estado resolveu suspender o contrato firmado com a multinacional Monsanto para a soja transgênica. A medida foi tomada pela Cotripal, de Panambi, no Noroeste, na tarde de terça-feira. Com isso, não estão sendo recolhidos, no momento, os royalties sobre a produção entregue.

A cooperativa diz não poder dar maiores detalhes sobre a razão para a ação por cláusulas de confidencialidade. A suspensão, segundo a Cotripal, será mantida enquanto a multinacional não fizer ajustes em sua postura referente ao cumprimento do contrato.

A Monsanto diz que tenta marcar reunião com dirigentes da cooperativa para entender os questionamentos feitos.

Vicente Barbiero, presidente da Associação das Empresas Cerealistas do Estado, por sua vez, busca contato com a multinacional para entender a situação. É que nos demais estabelecimentos do setor os auditores da empresa continuam atuando e fazendo a cobrança dos royalties.

GISELE LOEBLEIN

05 DE ABRIL DE 2018
REPORTAGEM ESPECIAL

Vinte e seis palavras que devem levar à prisão



Reunidas numa única frase, vinte e seis palavras respondem por toda a controvérsia em torno da possibilidade de prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Encerrada a jurisdição criminal de segundo grau, deve ter início a execução da pena imposta ao réu, independentemente da eventual interposição de recurso especial ou extraordinário", diz o texto da súmula 122, pela qual o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) normatizou a prisão de réus condenados em segunda instância.

A normativa foi publicada em 15 de dezembro de 2016 no Diário Eletrônico da Justiça Federal da 4ª Região. Na ocasião, o objetivo da Corte era seguir o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que permitiu a execução provisória da pena mesmo que os processos criminais não tenham transitado em julgado.

Apesar da súmula 122, eventual execução provisória da pena de Lula não começaria imediatamente após o julgamento. Antes, o TRF4 precisa concluir a análise dos recursos na própria Corte. Lula tem até a próxima semana para ingressar com os chamados "embargos dos embargos", em geral negados pelo tribunal com sede em Porto Alegre.

O texto da súmula foi construído pelo atual presidente do TRF4, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz. Na ocasião, o desembargador era vice-presidente do tribunal e presidia a comissão de jurisprudência. A redação proposta foi submetida à 4ª Seção, colegiado que reúne as duas turmas criminais da Corte. A súmula foi aprovada por unanimidade pelos sete membros da seção e acabou virando regra no tribunal.

Ao exercer a defesa de Lula no STF em 22 de março, quando os ministros concederam liminar impedindo a expedição de mandado de prisão do petista até o julgamento em definitivo do habeas corpus, o advogado José Roberto Batochio pediu que a súmula 122 fosse declarada inconstitucional. O pedido não foi analisado.

ZH procurou os cinco tribunais regionais federais para saber se há normativa semelhante. O TRF3, o TRF5 e o TRF2 informaram não ter regra geral, cabendo às turmas decidir em cada processo. O TRF1 não respondeu. No TRF2, o desembargador Abel Gomes, relator dos processos da Lava-Jato, vem se pronunciando monocraticamente pela execução provisória.

FÁBIO SCHAFFNER

05 DE ABRIL DE 2018
L.F. VERISSIMO

Capacetada


A cidade de Nova Hartz fica no interior do Rio Grande do Sul, não muito longe de Porto Alegre. Todos os anos, na Páscoa, a cidade faz uma encenação da Paixão de Cristo que termina com sua crucificação no monte Gólgota. A parte final é a mais impressionante do espetáculo, com a música, a iluminação e os efeitos de cena contribuindo para a dramaticidade do seu desenlace. Que inclui o detalhe mais cruel do drama: o do centurião romano que espeta o lado do agonizante Jesus com sua lança.

Neste ano, a cena final teve uma participação inesperada. Um espectador não aguentou tanta maldade, pulou no palco e atacou o centurião com um capacete de motoqueiro, interrompendo o martírio de Cristo e o espetáculo e espalhando confusão e perplexidade no monte Gólgota que não estavam no script. Até o momento em que escrevo, a invasão do palco já tinha saído na imprensa de todo o mundo, mas aqui não se sabia muita coisa sobre o homem que atacou o centurião, se estava bêbado ou apenas indignado, ou as duas coisas.

Pensando bem, sabia-se tão pouco sobre o invasor quanto sobre o ator que fazia o centurião em Nova Hartz e menos ainda sobre o próprio centurião romano da Bíblia, um daqueles ajudantes que têm seus cinco minutos na História e desaparecem para sempre. Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João não se contradizem muito no relato do martírio e da crucificação de Jesus, mas só São João menciona o centurião com sua lança covarde, que ficou como protótipo de sadismo gratuito, além do dever militar. Se há algum personagem histórico, fictício ou não, que merece uma capacetada retroativa, é esse centurião. Né não?

Resta comentar a força do teatro, que consegue impelir um homem para cima de um palco e enfrentar uma guarnição de soldados romanos armados com lanças para vingar Jesus Cristo. E há no ato do nosso herói uma reprimenda implícita. Onde estávamos que não pulamos no palco para enfrentar todas as injustiças que nos revoltam, desde Gólgota?

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 4 de abril de 2018



04 DE ABRIL DE 2018
DAVID COIMBRA

Você confia no STF?

Hoje, no Brasil, somos 205 milhões de ministros do Supremo. Qualquer um sabe o nome dos 11 que, nesta tarde, vão entrar em campo debaixo de suas togas vetustas, do goleiro ao ponta-esquerda, mas garanto que, se você perguntar a escalação do time do Tite, poucos conseguirão recitá-la sem errar. Quem são os mais famosos: Marquinhos e Miranda ou Fachin e Cármen Lúcia?

Marque a resposta B. Seria isso uma evolução?

Tenho cá minhas dúvidas. O ideal talvez fosse não precisar saber qual é a formação do STF. Em uma democracia consolidada, a população confia nas leis e nos tribunais.

Mas como confiar naquelas empinadas Excelências? Você assistiu à parte da sessão em que o Barroso desanca o Gilmar Mendes, não? A descompostura do Barroso se tornou poema decorado:

"Você é uma pessoa horrível Mistura do mal com o atraso

E pitadas de psicopatia".

A resposta de Gilmar foi fel destilado: aconselhou Barroso a fechar seu escritório de advocacia.

Um dos dois deve estar certo. Logo, decisões importantíssimas para os brasileiros são tomadas ou por um ministro que age por interesse do seu escritório de advocacia, ou por um que é quase um psicopata.

Meu Deus. Esses contenciosos são comuns. O Marco Aurélio Mello, inclusive, disse no Timeline Gaúcha que se recusa a falar com Gilmar Mendes. E, antes disso, no mensalão, todos acompanhamos o duelo verbal, às vezes verborrágico, entre Joaquim Barbosa e Lewandowski.

Entre eles, há mais do que discordância: há discrepância. São todos juízes de notório saber, não deveria haver divergências tão grandes a respeito da letra fria da lei. Mas há. Não raro, eles se colocam em polos diametralmente opostos. Sendo assim, como ter certeza de que a decisão tomada é a mais correta? Como ter certeza de que não há segundas intenções movendo cada deliberação?

Agora mesmo, neste caso da prisão depois da segunda instância, eles a autorizavam até 2008. Em 2009, mudaram de posição. Em 2016, voltaram atrás. E, hoje, podem mudar de novo. Como assim? A lei depende do humor do juiz? Se o time dele perdeu, ele manda prender?

Um dos ministros, o sempre polêmico Gilmar Mendes, manifestava-se com veemência a favor da prisão depois da segunda instância. Passados menos de dois anos, manifesta-se com veemência contra.

Por que ele mudou de opinião?

Ontem mesmo, o promotor Deltan Dallagnol lembrou que os críticos de Gilmar dizem que ele está se comportando desta forma porque a Lava-Jato chegou aos grandes partidos políticos. Será verdade? Se for, é grave. Será verdade que Toffoli e Lewandowski nutrem simpatia pelo PT? Isso influencia em seus votos? Como confiar neles?

Não há como confiar.

O Supremo não é supremo. Interesses políticos parecem pairar acima dele. E também acima do Congresso e do Executivo. Ao cidadão brasileiro, só resta, mesmo, saber quem eles são e vigiá-los de perto. E, é claro, cobrar. Eles têm de saber: o cidadão vai cobrar.

Se você quiser espairecer um pouco, depois de assistir à falação dos ministros do Supremo, vá hoje à Galeria Gestual, na Lucas de Oliveira, 21, para ver a exposição de pinturas hiper-realistas do meu amigo Ivan Pinheiro Machado. Volta ao Mundo em 80 Quadros é o nome da exposição, que vai até o dia 25. Eu não perderia. Porque o Ivan, sim, é de confiança.

DAVID COIMBRA


04 DE ABRIL DE 2018
HABEAS CORPUS DE LULA

PRINCÍPIO ABSOLUTO?

Odenominado princípio da presunção da inocência, garantia constitucional de que o acusado só será considerado "culpado após o trânsito em julgado da sentença penal condenatória", está apoiado no artigo 8º da Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos: "Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se comprove legalmente sua culpa".

Acontece que sendo a sentença penal condenatória confirmada no segundo grau (provada a culpa), a execução da pena não viola a Constituição, pois o juízo de culpabilidade já se esgotou em todas as instâncias ordinárias, onde foram observados todos os direitos e garantias, e respeitadas as regras probatórias, como elucidou o então ministro Teori Zavascki.

Não é necessário ser jurista para entender que a Constituição Federal não compreende a presunção de inocência ultrapassando a comprovação da culpa, tampouco parece razoável que um condenado em primeira instância, com a condenação confirmada por unanimidade em segunda instância, possa ser ainda considerado presumidamente inocente.

Ao contrário, fere o bom senso de qualquer cidadão que alguém condenado por um juiz de Direito e com sentença confirmada por três desembargadores, possa estar em liberdade alardeando a sua inocência, quando o exame da culpa já se encerrou.

A presunção de inocência vai até o momento em que o acusado é declarado culpado, e isto ocorre com a confirmação da sentença condenatória em segundo grau.

Desde a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, na mesma linha, a Declaração Universal dos Direitos Humanos: "Todo homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa".

Ocorrendo a prova da culpabilidade, confirmada em segundo grau, a execução da condenação deve ocorrer de imediato, não podendo ficar suspensa pela interposição de recursos especial e extraordinário.

Procurador de Justiça duran@mprs.mp.br - JUAN CARLOS DURÁN


04 DE ABRIL DE 2018
+ ECONOMIA

PORTO ALEGRE TERÁ ALIANÇA PARA INOVAÇÃO

Um movimento no contrafluxo habitual da capital gaúcha será consolidado na próxima segunda-feira. Três grandes universidades - UFRGS, PUCRS e Unisinos - lançam a Aliança para Inovação de Porto Alegre. O objetivo da união entre as instituições é articular ações de alto impacto para o ecossistema de inovação e desenvolvimento da cidade. 

Um dos eixos da estratégia é a contratação, como consultor do projeto, de Josep Piquè, presidente da Associação Internacional de Parques Científicos e Tecnológicos (Iasp) e um dos idealizadores do Projeto Barcelona @22, que transformou a cidade catalã em referência de cidade inteligentes e distritos de inovação no mundo.

Jorge Audy, um dos idealizadores do movimento, explica que um grupo de empresários vai contribuir para financiar o avanço de cada etapa do projeto, até que a iniciativa se torne autossustentável:

- Estamos há décadas tentando essa parceria, a primeira com essas características em Porto Alegre. Não é integração só de universidades, mas dos reitores, que estão pessoalmente comprometidos. Temos muita esperança de construir algo que permita ter uma autoimagem mais positiva.

A ambição da aliança não é pequena: entre seus objetivos, está transformar a cidade em polo gerador de startups e empreendimentos de base tecnológica e reter talentos no ecossistema de inovação, evitando a "fuga de cérebros".

MARTA SFREDO

04 DE ABRIL DE 2018
NÍLSON SOUZA

O homem que salvou Cristo


A encenação da crucificação de Jesus na cidade gaúcha de Nova Hartz, na última sexta-feira, gerou uma cena inédita na história milenar do cristianismo: um homem invadiu o palco e agrediu com um capacete de motociclista o soldado romano que se preparava para espetar a lança no crucificado. Posteriormente, ficou-se sabendo que o agressor tem histórico de distúrbios mentais, e o incidente acabou sendo considerado mais uma curiosidade engraçada do que propriamente um caso policial. Também achei graça do vídeo, mas, depois, fiquei pensando que o episódio merece uma reflexão mais aprofundada, tanto por evidenciar a confusão entre realidade e fantasia em tempos de fake news quanto pela simbologia em relação ao momento político do país.

E se aquele homem transtornado estivesse com uma arma? Dessa tragédia, mesmo imobilizado pelos cravos que o prendiam à cruz, parece que o Nazareno nos livrou. Nem sempre nos livra, porém, dos surtos psicoemocionais que transformam pessoas normais em feras do cotidiano, nas ruas, no trânsito, nas redes sociais e até no ambiente familiar. Basta um mal-entendido, uma divergência ideológica, e já se apresentam os justiceiros valentões, prontos para abater quem deles discorda.

O mais preocupante é que gente aparentemente centrada também mistura realidade e ficção. Não fosse assim, não nos emocionaríamos nem choraríamos em dramas televisivos e cinematográficos. Sabemos que não é real, mas a emoção supera a razão. O ator Werner Schünemann conta que, em determinada telenovela, ele interpretava um personagem tão crápula, que o próprio elenco passou a rejeitá-lo nas gravações. Nos intervalos para o almoço, ele se aproximava da mesa coletiva com a sua bandeja e abria-se um clarão entre os comensais. Ninguém queria sentar perto do vilão.

Se os próprios artistas se deixam influenciar por uma interpretação convincente, imaginem o homem do capacete, com o cérebro povoado de delírios, vendo Jesus açoitado covardemente e prestes a ser ferido. Claro que o sujeito precisa de tratamento e de acompanhamento, pois pode causar danos a outras pessoas. Mas não é o primeiro nem o único caso. Atores e atrizes que interpretam tipos maus em novelas são alvos frequentes de agressões verbais e até físicas por parte de espectadores indignados.

É fácil atribuir tais comportamentos à esquizofrenia alheia, mas os crimes passionais, as brigas de vizinhos e os conflitos políticos, só para ficarmos com alguns exemplos, mostram o quanto somos vulneráveis à emoção que cega e transtorna. Com um agravante: mesmo sem o poder de prender e soltar, de conceder ou negar habeas corpus - e sem auxílio-moradia -, somos todos juízes. Dos outros.

Assim como o homem que tentou salvar Cristo com 2 mil anos de atraso, talvez estejamos refletindo pouco antes de atirar a primeira pedra (ou bater com o capacete). E as aparências, como as encenações e as notícias falsas, enganam muito.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 3 de abril de 2018



03 DE ABRIL DE 2018
ARTIGOS

POR QUE PERSEGUIMOS A VIDA PERFEITAMENTE IDEALIZADA?

Somos a geração que toma remédios para dormir e café para ficar acordada. Vivemos as primeiras gerações que fazem terapia desde a infância. Somos os primeiros filhos da grande geração de pais divorciados. O emprego fixo virou acomodação, na crença de que seremos melhores se experimentarmos o maior número de trabalhos. Nós acabamos reféns dos salários, pois nos tornamos consumistas muito além do necessário.

As farmácias das esquinas vendem a paz, a felicidade, a sabedoria.

Mas a vida idealizada é diferente da vida possível. Menos nas redes sociais. Lá, a maioria das pessoas exibe aquele pedaço quase perfeito das suas próprias vidas. Os casamentos não têm brigas, os filhos são obedientes, ninguém está apertado de dinheiro, os negócios não passam por crises e ninguém tem dias de profunda tristeza, angústia ou decepção.

O problema da vida perfeitamente idealizada é que nutrimos uma constante frustração toda vez que comparamos quem somos com quem nós idealizamos ser. É um lugar nunca alcançado. Estamos cansados de tanto correr atrás da vida que dizem ser alcançável. Tornou-se mais importante "parecer ser" do que ser. Todos querem aparentar que a vida perfeita é possível. É difícil ver pessoas se expondo nas redes sociais compartilhando seus medos, angústias, erros, fracassos, arrependimentos, desistências?

E a busca pela comprovação de que atingimos a vida perfeita ocorre através da comparação. Comparamos a nossa vida com a dos outros, cometendo o erro de apenas estar comparando o destino. Não há uma avaliação sobre o caminho. Afinal, a vida real é tão completa, que também tem o dia da preguiça, da vergonha, da dúvida, da perda, da renúncia.

Até onde a busca pela vida perfeitamente idealizada está sendo saudável para nós? A geração que mais sofre de crise de ansiedade não estaria mais em paz se pudesse assumir que a vida perfeita é apenas uma utopia que nos move a seguir em frente?

GABRIEL CARNEIRO COSTA

  03 DE ABRIL DE 2018
OPINIÃO DA RBS

A REFORMA INACABADA



O mínimo que as mudanças trabalhistas deveriam merecer do Congresso é um pouco mais de atenção por parte dos legisladores, para evitar que o texto final dê margem a contestações

Por mais que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), minimize os efeitos, é lamentável que o Legislativo não reúna condições sequer para votar com facilidade a medida provisória com ajustes à reforma trabalhista aprovada no ano passado. 

Editada pelo Executivo como parte do compromisso assumido com o Senado para que o texto pudesse ser aprovado sem alterações, a medida provisória precisa ser votada até o próximo dia 23. Se a indisposição dos legisladores para examinar a matéria continuar, seguirá valendo o texto aprovado inicialmente. A questão é que, em consequência, serão abertas brechas para judicialização, as quais o Congresso teria o dever de evitar, se cumprisse pelo menos com os seus deveres.

Na prática, o que a Medida Provisória 808 tentou fazer foi corrigir alguns aspectos vistos como excessos da Lei 13.467, que em julho do ano passado alterou uma série de itens da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Entre os pontos de divergência, estão o trabalho intermitente e as condições de atua- ção de grávidas e lactantes. Como a comissão mista de deputados e senadores encarregada de analisar o tema não se organizou para aprovar um relatório e o prazo termina hoje, o risco de a votação das adequações não ocorrer é alto.

O mínimo que as mudanças trabalhistas deveriam merecer do Congresso é um pouco mais de atenção por parte dos legisladores, para evitar que o texto final dê margem a contestações. É o que pode ocorrer, por exemplo, em relação à aplicação ou não da lei para contratos vigentes. Um dos méritos das inovações foi o de adequar normas que nos anos 1940 faziam sentido, mas se tornaram anacrônicas diante das alterações registradas no mercado de trabalho desde então. O outro era justamente a possibilidade de reduzir as margens para intermináveis debates jurídicos, que agora podem se manter por omissão do Congresso.

O país precisa de uma normatização adequada à realidade de seu mercado de trabalho e de segurança jurídica para enfrentar de forma mais eficaz seu maior desafio social, que é o desemprego. Mais uma vez, quem perde são os trabalhadores. Sem um cenário de estabilidade nessa área, hoje na dependência de maior empenho por parte dos legisladores, o mais provável é que a geração de oportunidades de trabalho nos níveis exigidos pelo país acabe levando um tempo muito superior ao esperado.

OPINIÃO DA RBS

03 DE ABRIL DE 2018
ECONOMIA

China contra-ataca e anuncia tarifas a produtos americanos

LISTA DE 128 ITENS é resposta a sobretaxas impostas por Washington


A China cumpriu a ameaça e anunciou ontem novas tarifas sobre 128 produtos americanos no valor de US$ 3 bilhões, em resposta às taxas estabelecidas pelo presidente americano, Donald Trump, sobre as importações de aço e alumínio. A decisão chinesa, adotada pela comissão governamental responsável pelos direitos alfandegários, afeta produtos como frutas, carne suína e resíduos de alumínio.

As medidas foram apresentadas após dias de tensões bilaterais, que alimentam os temores de um conflito comercial aberto entre os dois gigantes mundiais. Trump anunciou em 22 de março que adotaria novas taxas sobre produtos chineses no valor de US$ 60 bilhões. As tarifas para a importação de aço (25%) e alumínio (10%) foram decididas em nome da "segurança nacional", argumento que o ministério chinês do Comércio chamou de "abuso" das normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Diante das críticas internacionais à medida de Trump, vários países da União Europeia, México e Brasil, entre outros, ficaram isentos da nova medida, mas não a China. Pequim respondeu de modo imediato e anunciou a intenção de aplicar tarifas de 15% e 25% sobre lista de 128 produtos dos Estados Unidos, caso um acordo com Washington não fosse alcançado.

- Esperamos que os Estados Unidos abandonem o mais rápido possível as medidas que violam as normas da OMC para a retomada normal do comércio sino-americano. A cooperação entre China e Estados Unidos, as duas maiores economias mundiais, é a única opção possível - afirmaram os chineses.

SOJA E GRANDES EMPRESAS FICAM FORA DE RETALIAÇÃO

Trump sempre menciona o colossal déficit comercial dos Estados Unidos com a China, de US$ 375,2 bilhões em 2017, para justificar as medidas protecionistas. O presidente americano também acusa Pequim de beneficiar- se do sistema fiscal exigido das empresas estrangeiras que se instalam na China para roubar as inovações tecnológicas americanas.

A China afirma que os Estados Unidos devem acabar com a "intimidação econômica", mas até o momento evitara atacar produtos agrícolas importantes, como soja, ou empresas industriais de grande peso, como Boeing, setores que podem ser afetados agora pelas novas tarifas, afirma o jornal chinês Global Times.

Para Edward Alden, especialista em comércio internacional para o Conselho de Relações Exteriores, as medidas anunciadas "enviam mensagem clara de que a China responderá rapidamente a qualquer ação americana". Monica de Bolle, especialista do Instituto Peterson sobre Economia Internacional, diz que impor tarifas às frutas, à carne suína ou ao vinho americanos é simbólico:

- Os chineses não tomaram medidas contra o sorgo ou a soja.



03 DE ABRIL DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

Se o inferno acabasse agora


Parece que não pegou bem a iniciativa do Papa de despachar o inferno para o porão das ideias religiosas em desuso. "O inferno não existe, o que existe é o desaparecimento de almas pecaminosas", disse o papa Francisco em uma entrevista concedida ao jornalista Eugenio Scalfari, do jornal italiano La Repubblica.

O Vaticano se apressou a jogar água na fervura teológica, insinuando que o velho jornalista, prestes a completar 94 anos, havia interpretado mal as palavras do Pontífice. Na entrevista, o Papa teria dito que as almas perdidas simplesmente desaparecem, enquanto aqueles que se arrependem ficariam para sempre na companhia divina - o que combina mais com a teologia católica moderna, que evita a ideia de suplícios eternos.

Se o inferno acabasse agora, deixaria para trás um enorme legado de sofrimento psicológico desnecessário, mas também um precioso acervo de criações inspiradas pelas trevas abissais. Foram os artistas que emprestaram enredo e iconografia ao cenário de choro e ranger de dentes apenas mencionado rapidamente na Bíblia, ornando suas criações com demônios e sofrimentos customizados conforme a época e a mensagem a ser transmitida. 

O mais importante de todos, o poeta italiano Dante Alighieri, imaginou o Inferno como um espaço não apenas de punições e sofrimentos, mas também de debates políticos, romances e picuinhas provincianas - trancando lá dentro, para o resto da eternidade, todos aqueles que haviam sido desleais a ele. Nada mau como vingança.

Por aqui, Guimarães Rosa mostrou que nem mesmo o sertão e suas veredas são remotos demais para um capeta em busca de uma alma para comprar. O escritor mineiro colocou a dúvida de Riobaldo sobre um possível pacto com o demônio - e o sentido existencial de acreditar-se (ou não) na ideia de que o mal está além do humano - no centro da magnífica narrativa de Grande Sertão: Veredas. 

A certa altura, o jagunço metafísico reflete: "O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo".

* O colunista Carpinejar está em férias. - CLÁUDIA LAITANO

segunda-feira, 2 de abril de 2018



02 DE ABRIL DE 2018

CINEMA

Um filme belo, irredutível e árido

OBRA-PRIMA neorrealista do diretor Roberto Rossellini volta a cartaz em cópia restaurada.

Ingrid Bergman (1915 1982) deixou Hollywood perplexa quando, no auge da carreira, decidiu deixar a América e ir até a Itália para filmar com Roberto Rossellini (1906 1977). O neorrealismo italiano era, afinal, o assunto do momento desde o sucesso de Roma, Cidade Aberta (1945).

Qualquer um ficaria um tanto espantado com essa decisão: Bergman podia fazer o papel que quisesse, ganhava milhões e era paparicada por meio mundo. Em vez disso foi fazer em Stromboli (1950) uma refugiada lituana que, depois de passar por meia Europa escapando dos nazistas, chega à Itália.

No fim da guerra, como quase todo mundo ignora, pouca gente estava em seu lugar na arruinada Europa. Por toda parte havia refugiados. E é lá que Karin (Ingrid) vai parar depois de ter seu visto de entrada recusado pela Argentina.

Campo de refugiados não era campo de concentração, mas não era tão melhor assim. Karin vive com outras refugiadas e não vê futuro para si, uma apátrida, até que um ex-soldado italiano, do outro lado do arame farpado, começa a fazer-lhe a corte.

Antonio é seu nome, e ele se impressiona com Karin. Propõe-lhe casamento. Karin não vê aquilo com bons olhos: como casar com alguém a quem nem conhece?

Logo ela mudará de ideia: melhor Antonio, pensa, do que ficar sabe Deus até quando morgando naquele campo. Ledo engano.

Uma das sequências mais impressionantes do filme, aliás, consiste na chegada a Stromboli. É quando Karin se dá conta de que seu destino está ligado a uma ilha vulcânica, uma espécie de deserto de pedra, quase inabilitado. E seus poucos habitantes são pessoas tão simples quanto o marido, um pescador.

A partir daí Karin viverá uma experiência espiritual difícil de descrever, por dois motivos. Sempre haverá quem veja nisso uma espécie de estraga-prazer - essa é a razão superficial. A outra, mais profunda, diz respeito à natureza da transformação pela qual Karin passará - e onde se encontrará a beleza mais fundamental deste filme.

Pode-se dar, no entanto, uma pista: Rossellini era profundamente católico. E, ao mesmo tempo, fazer uma advertência: tinha uma fé imensa no cinema e em sua convicção central; cinema não é entretenimento, muito menos espetáculo. É um instrumento de transformação do homem.

Talvez sua atitude explique melhor o que é Stromboli do que um longo arrazoado a respeito. Pouco tempo depois da filmagem, já tendo casado com Ingrid Bergman, Hollywood ofereceu milhões para que se mudasse para os EUA (queriam Ingrid de volta, na verdade, não ele). Rossellini foi.

Leu o contrato. Bateu os olhos na cláusula em que, segundo a tradição dos estúdios, não teria direito à montagem do filme. Não teve dúvidas: comprou passagem no primeiro avião de volta para a Itália e nunca mais voltou a falar com esses produtores.

Essa pequena história ilustra bem o que tem Stromboli de belo, de irredutível, mas também de árido. Um filme enorme.

Folhapress - INÁCIO ARAUJO

02 DE ABRIL DE 2018
CELSO LOUREIRO CHAVES

ARQUEOLOGIA


O centenário da morte de Claude Debussy, há pouco em março, foi uma desculpa para ouvir a música desse francês que deu o pontapé inicial na música de concerto moderna, lá no século 19. Datas redondas servem para isso e não para muito mais. Aí dá para ouvir Debussy de tudo que é jeito. Mais sentimental ou menos sentimental. Cheio de vapores ou em dia claro de verão. Como se a música estivesse cheia de teias de aranha ou bem espanadinha.

Dá até para ouvir Debussy tocado pelo próprio Debussy, uns registros de bem mais do que cem anos atrás, duvidosos como essas coisas que chegam de longe. Debussy registrou os seus greatest hits na alta tecnologia da época, rolos de papelão perfurados registrando fielmente o sabor da sua interpretação. Depois, acoplados a algum piano especialmente preparado para isso, os rolos se transformam num pianista quase ao vivo, fantasma movendo teclas, apertando pedais, construindo sons de lá do outro lado da vida.

Como há milhares de maneiras de tocar uma música, é bem possível que algum desavisado, ao ouvir esses registros e sem saber da procedência do pianista, possa dizer: "Mas não é assim que se toca Debussy!". Essa é a surpresa de ouvir um compositor tocar sua própria música, à distância de um século, e se dar conta de que nem sempre as ideias dele coincidem com as nossas. Bem coisa da música moderna do final do século 19 - se pode ouvir como ela era no seu próprio tempo e não nos tempos dos nossos preconceitos, mesmo filtrada por uma técnica rudimentar.

E lá se vai para a lata do lixo aquele mito das interpretações "historicamente informadas", performances que pretendem recuperar as músicas como elas eram no seu tempo, como se história não houvesse. A essa altura, ouvir João Gilberto cantando o Corcovado original talvez dê a mesma impressão de incorreção: "Ah, mas não é assim que se canta bossa-nova!". O João clássico é de 60 anos atrás. O Debussy pianista é de 50 anos antes. Música vai virando arqueologia do passado recente e nem sempre as colcheias e semicolcheias que se encontra são as que se esperava encontrar.

CELSO LOUREIRO CHAVES

02 DE ABRIL DE 2018
TEATRO

Espetáculo em Curitiba debate a liberdade de expressão


DOMÍNIO PÚBLICO reúne no palco quatro artistas que foram alvo de polêmica

O sorriso enigmático de Mona Lisa serve de metáfora para quatro artistas, alvos de polêmicas no ano passado, debaterem a liberdade de expressão. Domínio Público, espetáculo criado a convite do Festival de Teatro de Curitiba, onde estreou na última quinta-feira, é um trabalho conjunto entre o performer Maikon K, a atriz travesti Renata Carvalho e os coreógrafos Wagner Schwartz e Elisabete Finger. Busca responder às agressões sofridas pelos quatro em 2017.

Maikon foi preso por atentado ao pudor numa apresentação em Brasília de DNA de Dan. No trabalho, ele tem a pele coberta por uma película que descama, revelando seu corpo nu. O cenário, uma bolha de plástico, foi rasgado na abordagem da polícia. Renata, que interpreta um Cristo transexual em O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, teve sessões da peça vetadas pela Justiça depois de o trabalho ser acusado de desrespeitar religiões. 

Wagner foi chamado de pedófilo após uma sessão no MAM de La Bête, performance na qual o artista tem seu corpo nu manipulado pelo público, alusão à obra Bicho, de Lygia Clark. Na ocasião, viralizou na internet um vídeo com a imagem de uma criança tocando a perna e a mão do coreógrafo. Elisabete, que assistia ao espetáculo, é a mãe da criança. Os quatro artistas foram alvos de linchamentos virtuais e fake news.

Já o título de Domínio Público remete à forma como seus trabalhos e suas vidas foram apropriados por outros e tirados de contexto.

- Debatemos muito o que a gente iria falar depois que tanta coisa já foi dita - conta Elisabete.

- As pessoas que nos criticavam geralmente não conheciam a gente - comenta Wagner.

Mas a virulência vista na internet não se repete em cena. Pelo contrário. É num tom sereno e com toques de ironia que o quarteto conduz o espetáculo. Como numa palestra, sobem ao palco cada um a sua vez. Têm ao fundo uma reprodução de Mona Lisa e discorrem sobre a história do quadro, suas interpretações e polêmicas, traçando alusões sutis aos seus casos particulares.

Domínio Público joga muitas questões para a plateia.

- Debatemos como se criam as ficções e como as pessoas aderem a elas - afirma Maikon. - Qual a sua responsabilidade quando lança a versão de uma história na internet?

O quadro de Da Vinci surgiu ao acaso, na busca por um ícone de domínio público. Acabaram vendo na obra uma forma de debater o processo histórico de perseguição e intolerância.

Segundo Elisabete, que desde a polêmica no MAM, em setembro, não falou publicamente sobre o caso, a peça é sua forma de se expressar.

- O teatro é o meu lugar de fala. Para mim, que estava lá (na sessão de La Bête) como público, é muito difícil aceitar que eu precise me justificar sobre isso.

Durante o processo de criação, conta Renata, estavam todos ainda "adoecidos, com medo de se expor".

- Tínhamos uma questão: resolver um problema que criaram para a gente - afirma Wagner.

O artista diz ter recebido cerca de 150 ameaças de morte após a polêmica e que, por meses, quis ser envolto por uma redoma de vidro como a de Mona Lisa.

- Mas hoje eu não preciso mais dessa parede.

Folhapress - MARIA LUÍSA BARSANELLI

02 DE ABRIL DE 2018
DAVID COIMBRA

Dilma e Lula deveriam agradecer por "O Mecanismo"


Tem um vinho argentino pelo qual me afeiçoei. É um malbec chamado Proêmio. Aqui, sai baratinho, US$ 7. Aí, não sei o preço. Claro, não é um néctar que possa frequentar a mesa de um conhecedor, como o Verissimo, mas, para um ponta-direita recuado do IAPI está mais do que bom.

Pois, nesta Páscoa, busquei um Proêmio ali no Trader Joe?s, abri e me pus a ver a série O Mecanismo, do Zé Padilha. Estava curioso, depois de toda a gritaria dos petistas.

Tentei assistir à série apenas pela trama em si, como se fosse um americano ou um dinamarquês, alguém que não soubesse de nada do que acontece no Brasil, mas, confesso, não consegui. A História da Lava-Jato, com agá maiúsculo, é forte demais e está presente demais para que pudesse fazer um distanciamento crítico.

Em todo caso, a urdidura da história tem seus predicados. Padilha soube manter a tensão em todos os episódios e desenvolveu alguns bons personagens. O melhor deles é o doleiro Alberto Youssef, interpretado pelo ator Enrique Díaz. Ele faz um vilão cínico e inteligente, quase manemolente e quase melancólico. Cheguei a torcer pelo seu bom sucesso, em alguns momentos.

Selton Mello interpreta um delegado perturbado, cheio de problemas, alguém que eu não sabia existir na chamada vida real. Selton vai bem, é ótimo ator, mas por que tem de falar tão baixinho? Tive de ler as legendas em inglês para entender o que ele falava.

Mas o melhor, mesmo, são as relações com a realidade. Os trocadilhos com os nomes são engraçadíssimos, parece coisa dos gibis do Asterix. E, agora, entro na parte política: na boa, não há motivo para a fúria dos petistas.

A Dilma "de verdade" ficou brabíssima, sei, mas o Padilha a poupou. Não usou os famosos discursos dela, por exemplo. Eu não perderia essa chance. Os discursos da Dilma são deliciosos para dar uma quebrada na tensão da narrativa, estão prontos para cenas de comédia, mas não há sequer insinuação disso. A série também não aborda a gestão trágica de Dilma, a violenta crise econômica, o desemprego, os ministros acusados de corrupção, nada.

Dilma fica mal por causa do cabelo da atriz que a interpretou, um troço espetado que serviria para um filme da Madame Min. Dilma, perto da caracterização que fizeram dela, é uma Gisele Bündchen. Será que toda aquela brabeza é vaidade?

Já o Lula da série é muito mais suave do que o original. Reclamaram que o Lula do Mecanismo falou a frase do Jucá sobre "estancar a sangria" da Lava-Jato. Tudo bem, foi uma citação desnecessária. Só que as falas do Lula real são muito mais pesadas. Eu, se fosse o Padilha, não desperdiçaria o que ele disse sobre o Supremo acovardado ou aquela do grelo duro, entre tantas efervescentes.

Dilma e Lula são ótimos personagens na vida real. São exóticos, folclóricos, exagerados, engraçados. Na ficção, tornaram-se anódinos. Deveriam agradecer a Padilha.

Quem é realmente ridicularizado é o Aécio Neves. De longe, é o personagem mais vil da série, surge tomando umas boletas como um viciado, bebendo uísque como um gângster, cercado de mulheres como um playboy. E mais: o narrador diz que, se ele fosse eleito, acabaria com a Lava-Jato. Nenhum apoiador de Aécio reclamou. Sei por que: ele não tem apoiadores.

Nem Moro sai ileso da história. É apresentado como um juiz sério, mas vaidoso. Há uma cena divertidíssima em que está deitado na cama lendo um gibi de um certo "Vigilante Sombrio"! E, quando os brasileiros saem às janelas para fazer panelaço contra Dilma, ele sorri de lado, como se aquilo fosse uma vitória pessoal sua.

Há defeitos e virtudes em O Mecanismo. Mais virtudes. Não sei o que um americano ou um dinamarquês acharão da série, mas um brasileiro tem de assistir. Nem que seja só para achar graça de suas desgraças.

DAVID COIMBRA