domingo, 3 de setembro de 2017



02 DE SETEMBRO DE 2017
DAVID COIMBRA

A triste vida sem gordura

O detetive Philip Marlowe estava sozinho em seu apartamento, quando ouviu batidas na porta. Foi abrir e deparou com uma loira que, só de olhar, dava vontade de uivar para a Lua. Ele a encarou. Ela o encarou. Ela perguntou:

- Tem alguma coisa gelada aí?

Ele respondeu: - Só o meu coração.

Ah! Que cena! Que resposta do bom e velho Marlowe! Desde que li esse trecho de um dos romances de Raymond Chandler, fiquei esperando que uma loira de fazer uivar para a Lua batesse à minha porta e me jogasse essa pergunta no peito. Podia ser morena também. Ou negra. Ou ruiva. Tanto fazia, mas eu precisava dizer, com um toque de cinismo amargo:

- Só o meu coração. Tristemente, nunca tive a mesma sorte do personagem de Chandler. Mais uma frase genial que não digo.

O meu amigo Ivan Pinheiro Machado gosta de usar outra frase que Chandler colocou entre os dentes de Marlowe. É quando alguém lhe conta algo e pede discrição. Então, ele invariavelmente cita:

- Jogue um segredo dentro de mim e não ouvirá bater no fundo.

Um homem que diz algo assim é um homem de princípios. Tenho cá também os meus. Repito sempre:

"Nenhuma mulher paga com David Coimbra".

Que tal?

Mas algo em que realmente acredito é o seguinte:

"A vida sem um pouco de gordura não vale a pena ser vivida".

É sobre essa profunda filosofia que queria discorrer. Ocorre que médicos descobriram que a gordura animal não faz mal à saúde.

Você sabe o que isso significa? Significa que a banha de porco, enfim, irá se redimir.

Minha avó, dona Dina, só fazia feijão com banha de porco. Se você nunca comeu feijão feito com banha de porco, você não é feliz.

A banha era fartamente utilizada na cozinha da minha avó. Devido ao preço proibitivo da manteiga, ela às vezes nos servia pão com banha e sal. Nós adorávamos.

Hoje, o regime alimentar na casa da minha avó seria considerado pouco ortodoxo. Como refrigerante, por exemplo, volta e meia ela nos dava vinho com água e açúcar. Coca-Cola, jamais.

Mas o que importa aqui é que a redenção da gordura animal tirará do ostracismo também o bacon. Nos Estados Unidos, come-se bacon sem medo, porém com culpa. No Brasil, dizem que há tolerância, mas a verdade é que existe preconceito dissimulado contra o bacon. O Brasil é assim.

Pois bem, é hora de mudar. Abra sua cabeça. Pense que o bacon é nosso amiguinho. Tanto, que vou lhe dizer o que fazer neste final de semana: você irá adquirir bacon em finíssimas tiras da espessura de uma folha de papel almaço. Feito isso, irá estirá-las gentilmente na frigideira, que estará sobre fogo baixo, bem baixo. Tape a frigideira. E espere. Espere.

Adrede preparados estarão uma cebola de bom tamanho e três dentes de alho, e preparados que digo é que eles estarão picados em pedacinhos minúsculos. Preste atenção: a gordura deve estar escorrendo do bacon, como a verdade escorre das bocas dos delatores da Lava-Jato. É com essa gordura fervente que você fará o refogado da mistura do alho com a cebola. Assim que o refogado estiver pronto, deite sobre ele uma xícara de arroz. Mexa, mexa rapidamente, mas nunca com pressa. Derrame água na panela. Acrescente sal. Mexa mais uma vez e não toque mais na panela, até que a água tenha evaporado.

Ainda há um pouco de gordura na frigideira. Deixe que fique por lá, porque você a usará no futuro próximo. Mas retire as fatias de bacon e triture-as como se elas fossem políticos de Brasília.

Veja! O arroz já está pronto. Agora é hora de usar o resto de gordura que está na frigideira. É com ele que você fritará dois ovos. Lembre-se: gema mole, clara dura, com bordas douradas e crocantes. Este é o ponto divino.

No frigir dos ovos, revolva o arroz com o bacon triturado. Faça com que os dois ovos aterrissem suavemente no monte. O acompanhamento pode ser feito com uma cerveja de trigo da cor das pernas longas de Gisele Bündchen. Coma assistindo a um antigo filme noir na TV. E repita para você mesmo minha frase imortal:

- A vida sem um pouco de gordura não vale a pena ser vivida.

DAVID COIMBRA


02 DE SETEMBRO DE 2017
GDI

QUANDO A FÉ PÚBLICA VIRA MÁ-FÉ MP APONTA FRAUDE DE IMPOSTOS EM TABELIONATO DA CAPITAL

27 CARTÓRIOS SÃO INVESTIGADOS por irregularidades no Estado que vão desde despesas inexistentes até desvio de dinheiro dos clientes

Cartórios existem para dar autenticidade e segurança a atos jurídicos. Têm fé pública: a palavra do poder público de que um documento é válido. Só que nem eles permanecem imunes à desconfiança. No Rio Grande do Sul, 27 tabelionatos e registros de imóveis (3,6% do total) estão sob investigação da Justiça Estadual. A maior parte por supostas irregularidades como desorganização dos livros e documentos, inobservância de prazos ou taxas cobradas acima do permitido. Mas em alguns casos há suspeita de crimes graves. Entre os quais, desvio de dinheiro dos clientes e sonegação de tributos, verificados pela reportagem do Grupo de Investigação da RBS (GDI).

Na última segunda-feira, a 1ª Vara Federal de Santa Rosa condenou a dois anos e quatro meses de prisão um tabelião do noroeste do Estado por prestar informações falsas à Receita Federal para sonegar o Imposto de Renda (leia mais na página ao lado).

Na Região Metropolitana, três cartórios estão sob intervenção - os tabeliães foram afastados e substituídos por interinos. Em um tabelionato de Canoas, o prejuízo seria ao serviço público: as suspeitas são de invenção de despesas, salários exorbitantes pagos a familiares do tabelião, funcionários sem qualificação exigida e aluguéis indevidos. A Justiça bloqueou R$ 4,1 milhões do notário e seus parentes, para garantir possível ressarcimento de valores desviados.

Na Capital, o bolso lesado seria o dos clientes. Em um dos cartórios sob intervenção, foram apurados excessos na cobrança de taxas. No outro, a situação é mais grave: dois tabeliães foram denunciados criminalmente por embolsar dinheiro de clientes e não fazer serviços ou entregar escrituras sem valor legal. A dupla ainda teria desviado impostos (leia ao lado).

SERVIÇO ENTRE OS MAIS LUCRATIVOS DO BRASIL

Os 27 cartórios sob investigação representam parcela pequena dos 747 existentes no Estado. Inspeções costumam ser esporádicas, em grande parte movidas por denúncias de cidadãos.

Para coibir ilegalidades, dois setores do Tribunal de Justiça (TJ) têm feito vistorias sistemáticas. A Corregedoria-Geral apura relatos da população, e uma juíza, ligada à presidência da Corte, analisa prestações de contas dos cartórios. Em muitos casos, tem sido possível corrigir o problema antes que gere maiores danos.

Serviços de tabelionatos e registros notariais estão entre os mais lucrativos do Brasil. Os 10 cartórios que mais faturam no Rio Grande do Sul recebem, por ano, entre R$ 10 milhões e R$ 25 milhões, mesmo descontadas despesas como o pagamento de funcionários.

- Não há desculpa possível para um tabelião cometer crimes - resume o promotor Flávio Duarte.

Em um dos mais antigos e tradicionais cartórios do Rio Grande do Sul, o 2º Tabelionato de Notas de Porto Alegre, teria sido identificada a maior fraude registrada até hoje no serviço notarial do Estado. Conforme apuração do Ministério Público (MP) e da Corregedoria-Geral de Justiça, tabeliães que comandavam essa unidade teriam se envolvido em desvio de dinheiro de clientes e de impostos. Até o momento, o cálculo é de que o golpe tenha resultado em prejuízo de R$ 1 milhão.

Já foram identificadas 39 vítimas, mas o total de pessoas lesadas pode passar de cem. Os crimes teriam acontecido entre 2011 e 2015. Na época, esse cartório faturava cerca de R$ 1 milhão mensal. Os principais prejudicados seriam clientes que pagaram por contratos ou escrituras falsos, sem qualquer valor legal. A fraude aconteceria de três formas:

1) Documento inválido - o cartório chancelava contratos de particulares (compra de imóveis e carros, em geral), carimbava os papéis, mas não informava o poder público da existência desse negócio. Tabeliães deixariam de fazer registro no livro-tombo. Com isso, legalmente, o negócio ficava sem valor.

2) Registro inexistente: outra forma, um pouco mais sofisticada, consistiria em recolher dinheiro para registrar a venda de um imóvel (não um simples contrato, mas o registro definitivo, com matrícula). Sem que os envolvidos no negócio suspeitassem, esse registro seria falsificado, e o dinheiro, desviado.

3) Sonegação de imposto: o cartório deixaria de repassar ao poder público valores do recolhimento de taxas e impostos pagos pelos clientes, como o Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI).

- Eles simplesmente ficavam com o dinheiro do imposto e o município não recebia nada. Nos contratos, não davam para as partes nenhum tipo de documento ou, quando davam, era falso - resume o promotor Flávio Duarte, que liderou a investigação.

O principal envolvido era o tabelião substituto Dirceu Campos do Amaral, que morreu recentemente. Ele foi denunciado por 39 crimes, de peculato (servidor que se apropria de recursos públicos), estelionato e lavagem de dinheiro. Conforme o MP, ele teria recebido valores de pagamento de ITBI sem fazer a quitação na prefeitura, embolsando o dinheiro. Em decorrência da morte, o réu não chegou a ser julgado.

DEZENAS DE VÍTIMAS PEDEM INDENIZAÇÃO

O outro acusado é Luiz Carlos Weizenmann, que na época dos desvios era titular do 2º tabelionato. Ele assegura que não tomou parte nas ilegalidades e que afastou Amaral. Mas o MP achou assinaturas de Weizenmann em papéis invalidados e, por isso, ele foi denunciado por falsidade ideológica. Com a morte do interino, caberá a ele responder ainda a dezenas de processos com pedidos de indenização das vítimas.

O 2º Tabelionato de Notas está sob intervenção do Tribunal de Justiça (TJ). Em alguns casos, o próprio cartório está devolvendo dinheiro aos lesados e providenciando documentos autênticos. Em outros, o prejudicado teve de recorrer à Justiça.

humberto.trezzi@zerohora.com.br eduardo.matos@rdgaucha.com.br

sábado, 2 de setembro de 2017


Das 3 atividades mais afetadas pela crise, só construção segue em queda

POR DINHEIRO PÚBLICO & CIA

Das três atividades econômicas mais afetadas pela recessão, apenas a construção civil se manteve em queda no segundo trimestre deste ano.
As outras duas -a indústria de transformação e o comércio- já apresentam crescimento da renda em 2017, segundo os dados recém-divulgados pelo IBGE.
Se considerado o início do ciclo recessivo no segundo trimestre de 2014, conforme os critérios da Fundação Getulio Vargas, a construção amarga encolhimento de 21% em três anos.
O desempenho, digno de uma depressão econômica, está diretamente relacionado ao colapso das contas do governo, que derrubaram as obras públicas, e aos escândalos de corrupção que atingiram as grandes empreiteiras.
A indústria de transformação, que acumulou queda de 18,7% até 2016 (moderada agora para 17,7%), já vinha em crise antes de 2014, com dificuldades para competir com a produção estrangeira.
O comércio teve melhora expressiva no segundo trimestre, mas sua renda ainda é 15,6% menor que a do primeiro trimestre de 2014.
Sua recuperação é a mais promissora, devido à queda da inflação e dos juros, além do avanço gradual do emprego.
Juntas, as três atividades representam 29,8% do Produto Interno Bruto, a medida da produção e da renda total do país.

Estupradores despertam em mim ímpetos de violência, a custo contidos

Líbero/Editoria de Arte/Folhapress
Líbero de 02 de Set. 2017
Estupradores despertam em mim ímpetos de violência, a custo contidos.
Tive o desprazer de entrar em contato com muitos deles nos presídios. No antigo Carandiru, cumpriam pena isolados nas celas do último andar do Pavilhão Cinco, única maneira de mantê-los a salvo do furor assassino da massa carcerária.

Ao menor descuido da segurança interna, entretanto, eram trucidados com requintes de crueldade. As imagens dos corpos mutilados trazidos à enfermaria para o atestado de óbito até hoje me perseguem.
Para livrá-los da sanha dos companheiros de prisão, a Secretaria da Administração Penitenciária foi obrigada a confiná-los num único presídio, no interior do Estado.

Nas áreas das cidades em que a Justiça caiu nas mãos dos tribunais do crime organizado, o estuprador em liberdade não goza da mesma benevolência.
Assinada pela jornalista Cláudia Collucci, com a análise de Fernanda Mena, a Folha publicou uma reportagem sobre o aumento do número de estupros coletivos no país.

Os números são assustadores: dos 22.804 casos de estupros que chegaram aos hospitais no ano passado, 3.526 foram coletivos, a forma mais vil de violência de gênero que uma mente perversa pode conceber. Segundo o Ipea, 64% das vítimas eram crianças e adolescentes.

O estupro coletivo é a expressão mais odiosa do desprezo pela condição feminina. É um modo de demonstrar o poder do macho brutal que exibe sua bestialidade, ao subjugar pela violência. Não é por outra razão que esses crimes são filmados e jogados na internet.

Oficialmente, no Brasil, ocorrem 50 mil registros de estupros por ano, dado que o Ipea estima corresponder a apenas 10% do número real, já que pelo menos 450 mil meninas e mulheres violentadas não dão queixa à polícia, por razões que todos conhecemos.

Em 11 anos atendendo na Penitenciária Feminina da Capital, perdi a conta das histórias que ouvi de mulheres estupradas. Difícil eleger a mais revoltante.

Se você, leitora, imagina que as vítimas são atacadas na calada da noite em becos escuros e ruas desertas, está equivocada. Há estimativas de que até 80% desses crimes sejam cometidos no recesso do lar. Os autores não são psicopatas que fugiram do hospício, mas homens comuns, vizinhos ou amigos que abusam da confiança da família, padrastos, tios, avós e até o próprio pai.
A vítima típica é a criança indefesa, insegura emocionalmente, que chega a ser ameaçada de morte caso denuncie o algoz. O predador tira partido de sua ingenuidade, das falsas demonstrações de carinho que confundem a menina carente, do medo, da impunidade e do acobertamento silencioso das pessoas ao redor.

Embora esse tipo de crime aconteça em todas as classes sociais, é na periferia das cidades que adquire caráter epidêmico, sem que a sociedade se digne a reconhecer-lhe existência.

A fama do convívio liberal do homem brasileiro com as mulheres é indevida. A liberdade de andarem com biquínis mínimos nas praias ou seminuas nos desfiles de Carnaval fortalece esse mito. A realidade é outra, no entanto: somos um povo machista que trata as mulheres como seres inferiores. Consideramos que o homem tem o direito de dominá-las, ditar-lhes obrigações, comportamentos e regras sociais e puni-las quando ousarem decidir por conta própria.

Há demonstração mais contundente da cultura do estupro em nosso país do que os números divulgados pelo Ipea: 24% dos homens acham que "merecem ser atacadas as mulheres que mostram o corpo". Ou, na pesquisa Datafolha: 42% dos homens consideram que "mulheres que se dão ao respeito não são atacadas".

Não se trata de simples insensibilidade diante do sofrimento alheio, mas um deboche descarado desses boçais para ridicularizar as tragédias vividas por milhares de crianças, adolescentes e mulheres adultas violentadas todos os dias, pelos quatro cantos do país.


O impacto do estupro sofrido em casa ou fora dela tem consequências físicas e psicológicas terríveis e duradouras. O estuprador pratica um crime hediondo que não merece condescendência e exige punição exemplar. Uma sociedade que cala diante de tamanha violência é negligente e covarde. 



Livrai-nos de todo o mal

Zanone Fraissat/Folhapress
Longas filas se formam no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no primeiro dia das novas regras da ANAC
O aeroporto de Congonhas, em São Paulo, que será privatizado
SÃO PAULO - Sem capital político para aprovar a reforma da Previdência, o governo Temer busca comprar a confiança do mercado com uma agenda ambiciosa de privatizações.

Para os entusiastas do mercado, privatizações são uma espécie de pílula mágica, que resolve todos os problemas. Elas não apenas serviriam para tornar a economia mais eficiente (melhores produtos e serviços a preços mais baixos) e reduzir o tamanho do Estado como ainda permitem ao país fazer caixa para reduzir dívida e juros.

Já para a esquerda, privatizações são tóxicas. Seriam uma forma ardilosa de transferir patrimônio público para as mãos de particulares e ainda reduzir o poder do Estado de promover o bem comum. Mesmo quando recorrem a elas, governos que se dizem de esquerda se desdobram para nunca chamá-las pelo nome. Dilma, por exemplo, recorreu ao eufemismo "concessões", que nada mais são que privatizações por prazo fixo.

Obviamente, nenhuma dessas posições, que retratei de forma caricata, admito, para em pé. Há exemplos históricos de privatizações que deram certo, revertendo em maior eficiência e justa remuneração pela alienação patrimonial, e de transferências que são mais bem descritas como roubalheira descarada. O modo como o processo é conduzido importa mais do que os conceitos teóricos.

No caso do Brasil de hoje, vejo as privatizações como algo interessante. Não tanto por acreditar que obteremos grandes ganhos de eficiência ou atingiremos preços fantásticos, mas simplesmente porque reduziríamos a influência de políticos sobre setores importantes da economia.

No nosso presidencialismo de cooptação, a distribuição de cargos de empresas públicas segundo interesses políticos não só abre avenidas para a corrupção (como vimos com as diretorias da Petrobras) como ainda tende a resultar em chefias menos competentes que o possível. Só nos livrar disso já seria um bom negócio. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017


Perda de renda causada pela violência doméstica chega a quase R$ 1 bi

Eduardo Anizelli/Folhapress
SAO PAULO, SP, 08-03-2016, A Marcha das Mulheres na av. Paulista, em protesto contra Eduardo Cunha, a Reforma da Previdencia e o impeachment de Dilma, alem das pautas feministas (liberaçao do aborto, igualdade de genero, contra a violencia etc.). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress, COTIDIANO)
Marcha das Mulheres em São Paulo
Nas últimas semanas, o tema violência contra a mulher saiu da costumeira invisibilidade e ganhou destaque nos principais veículos de comunicação do país. Na semana passada, a Folha trouxe, por exemplo, dois levantamentos inéditos, um sobre estupro coletivo e outro sobre feminicídio.

Um novo olhar sobre as agressões contra as mulheres, agora com foco no mercado de trabalho, foi lançado por uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará, realizada em 2016 em parceria com o Instituto Maria da Penha e com o Instituto de Estudos Avançados de Toulouse, na França. Foram entrevistadas 10 mil mulheres nas capitais do Nordeste. Dessas, 27% delas já sofreram algum tipo de violência doméstica emocional, física ou sexual.

Ao cruzar os dados da vida laboral dessas mulheres e compará-los com os de mulheres que não foram vítimas de violência, as conclusões são impactantes: mulheres vitimadas ficam 22% menos tempo no emprego do que as que não sofreram violência (em Salvador, o tempo é 48% menor), têm salários 10% menores (em Fortaleza, a diferença é de 34%) e chegam a faltar 18 dias por ano por incapacidade física ou psicológica ou para realizar tratamentos.

No estudo, os pesquisadores José Raimundo Carvalho e Victor Hugo de Oliveira extrapolaram o dado para o Brasil e concluíram que a perda anual de renda em razão do absenteísmo causado pela violência doméstica chega a quase R$ 1 bilhão.

A pesquisa me fez lembrar de uma mulher que um dia encontrei em uma viagem de ônibus para Ribeirão Preto. Ao sentar ao seu lado, percebi um grande hematoma no rosto que ela tentava manter colado na janela. Em um certo momento, ela começou a chorar e eu, instintivamente, segurei na sua mão.

Casada há dois anos, Juliana vinha sendo agredida com frequência pelo marido alcoólatra. Ela tinha muita vergonha daquela situação. Na empresa de telemarketing em que trabalhava em São Paulo, inventava desculpas para justificar os hematomas. Foi um tombo, foi uma bolada. Quando a encontrei, havia um mês que tinha sido demitida. Após mais um espancamento, ela tinha fugido pela janela do quarto e partido para a casa dos pais.

Conversamos muito nas horas restantes da viagem, especialmente sobre as amarras invisíveis que às vezes nos atam a pessoas problemáticas. Dias antes, tinha escrito uma coluna sobre codependência por conta do suicídio do músico Chorão e das críticas que sua mulher Graziela vinha recebendo.

Na despedida, Juliana me abraçou e agradeceu, disse que tomaria um novo rumo na vida. Deixei os meus contatos, mas nunca mais tive notícias dela. Espero que tenha conseguido se livrar do marido abusivo e voltado para o mercado de trabalho.

Ao ler sobre a pesquisa cearense, voltei a me lembrar da Juliana e das mulheres vítimas de violência que entrevistei ou que já convivi. Elas nunca receberam apoio institucional em seus locais de trabalho. Em geral, os empregadores fecham os olhos para essa questão da violência doméstica.

O que me deu um pouco de esperança foi ler uma reportagem na revista "Exame" que, além de trazer dados da pesquisa cearense, revelou iniciativas de empresas como o a rede de varejistas Magazine Luiza e a fabricante de cosméticos Avon que criaram disque-denúncias, com apoio jurídico e psicológico às funcionárias vítimas de violência. No Magazine Luiza, o canal foi criado após o assassinato de uma das gerentes em julho último. Depois de matá-la, o marido se suicidou, deixando órfão o filho de nove anos.


Já passou da hora de empregadores e da sociedade em geral fecharem os olhos para o problema da violência contra a mulher. Em briga de marido e mulher, é preciso, sim, meter a colher. 


Jaime Cimenti

7 de setembro 
Sete de setembro, 

Dia da Independência, há uns 50 e tantos anos, aos sete ou oito de idade, coração de estudante, eu marchava garboso pela rua Marechal Deodoro, hoje a simpática e universal Via del Vino, na minha gloriosa Bento Gonçalves. De tênis Conga bem limpinho, calça azul, camisa branca e gravatinha também bem limpinhos, cantava com os colegas: a vida é feita para mim / que sou estudante /o meu grande amor não tem fim/ meu lema é seguir avante...

Os militares ainda não tinham tomado conta. Em 1964, tinha 10 anos, e a professora adentrou na sala dizendo, com boa intenção e aliviada, que tínhamos nos livrado do terrível comunismo, que seríamos livres para estudar e trabalhar na profissão que escolheríamos livremente. Os anos de chumbo se iniciavam. Em Porto Alegre, lá por 1967, estudava no politizado Julinho.

Aos 13 anos, participava de passeatas que saiam da Filosofia da Ufrgs em direção ao Centro, para protestar contra o acordo Mec-Usaid, a ditadura e as leis que amordaçavam nossa geração. Brasil, ame-o ou deixe-o, ninguém segura o Brasil, diziam os comandantes, ufanistas como versos de Olavo Bilac. Entre os protestos, as esperanças, os rolos da adolescência e a censura, amávamos essa terra tropical, abençoada por Deus e bonita por natureza. Em 1983-1984, o general Figueiredo arrumava as gavetas, pedia o boné e, nas ruas, a gente pedia Diretas Já e tinha esperança na redemocratização.

Tancredo se livrou do pepinão indo para o céu. Enfrentamos o jaquetão e o bigodão do Sarney, os planos econômicos, a chegada e a saída do Collor, o caçador de marajás que acabou caçado por eles. Itamar nos deu o Plano Real, Fusca e mandato honesto. Na livraria do aeroporto de Brasília, é o único presidente que não está mal falado em livros, jornais e revistas. Merece mais luz e espaço nosso presidente provinciano, mas correto. FHC ajustou a política e a economia, criou o hoje bolsa-família e deixou para Lula uma política econômica que este, inteligente, manteve. A era FHC teve seus percalços e falatórios, como quase todas nossas eras e presidentes.

O primeiro mandato de Lula, como quase todos os primeiros mandatos de todos, foi melhor que o segundo. Os problemas apareceram, Dilma foi escolhida para dar seguimento ao governo. O desemprego, os problemas econômicos e os problemas com contas públicas desaguaram no impeachment e em Temer, que se mantém em meio à crise, tentando salvar a pátria com empresários, banqueiros, equipe econômica e diálogo com o congresso e setores da sociedade.

Deus, Nossa Senhora Aparecida e os santos nos ajudem a criar uma nação neste território imenso, cheio de recursos naturais e necessitado de políticas sociais, de educação e de uma economia com empregos para os 13 milhões de irmãos que estão no desvio. "O menino é o pai do homem", disse o poeta. O menino acreditava no Brasil, tinha orgulho dele, marchava garboso pela Pátria, e agora seu filho, já calejado pelos anos e pela História, trabalha e torce por passar a limpo o Brasil na página branca do caderno novo do primeiro dia de aula.

a propósito...

Já fomos brasileiros ufanistas. O mundo era um grande campo de futebol - nós, os maiores campeões. Amargamos complexo de vira-lata perdendo para o Uruguai no Maraca novo. Jeitosos, achávamos que conseguiríamos resolver tudo, inclusive o convívio com a inflação. Isto até resolvemos, com o Plano Real, nossa maior conquista.

Agora é hora de fazer as contas, cair na real, dar um jeito de pensar mais no coletivo do que no individual, o que seria melhor para todos. Hora de juntar os cacos e ir construindo algo novo, com as ferramentas e os tijolos que temos.

Nossa velha casa está meio desmoronada, mas outra, diferente, quem sabe com novos donos ou com todos nós donos, será construída.   - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/08/colunas/livros/582792-a-saga-dos-menda-e-dos-castiel.html)

Jaime Cimenti

Notícia da edição impressa de 01/09/2017. 
Alterada em 31/08 às 17h04min 

A saga dos Menda e dos Castiel 

Detalhes da capa do livro REPRODUÇÃO/JC Caminhos de leite e mel (Editora Movimento, 384 páginas, R$ 50,00), do advogado e escritor Isaac Menda, é um caudaloso romance que homenageia e narra as sagas das famílias Menda e Castiel, origens paterna e materna do autor, respectivamente. 

Há quem diga que a história dos judeus no mundo poderia se resumir a uma frase: "tentaram acabar conosco. Não conseguirão!". Na contracapa do livro de Menda está escrito: "Os judeus sobreviveram a tragédias e aniquilações que, de acordo com as leis naturais, não poderiam suportar. Sobreviveram porque mantiveram seus princípios, sua tradição e sua história." O romance narra acontecimentos de 1492, na Espanha, até chegar ao ano de 2010, em Porto Alegre. 

O ano de 1492 marca a ação da Inquisição, que expulsou os judeus da Espanha, sob a liderança dos reis católicos Fernando e Isabel. Menda parte da edição de uma Torá ficcional em 1492, obra que será levada numa das esquadras de Cristóvão Colombo e tomará direções e intrincadas, sendo algumas vezes perdidas e outras roubada e constrói uma narrativa imensa e por vezes bem-humorada, contando sobre a saga da linhagem Castile, desde o século XVI até nossos dias. 

A descoberta da América por Colombo e outros fatos históricos, bem como relatos sobre a vida e cultura judaicas do período, constituem um capítulo especial do romance, que tem prefácio do jornalista e escritor Walter Galvani, o qual registra: "Está tudo ali, no livro de Isaac Menda, fruto de um profundo conhecimento histórico e uma rica pesquisa e uma dose de compreensão, cultura e humanismo, por parte de quem conhece e estuda o Brasil, a comunidade brasileira e, de modo particular, Porto Alegre e o Rio Grande do Sul". 

O livro mostra a vida na Espanha de 1492 e na Turquia no início do século XVI, revelando como viviam os judeus sefaradis na Turquia nos primórdios do século passado e descreve como era nossa Porto Alegre a partir de 1900, com a chegada das primeiras famílias sefaraditas. Elas se estabeleceram com lojas de tecidos na Rua dos Andradas, no Centro da cidade. Por coincidência, as lojas eram no lado ímpar. 

Portanto o leitor tem nas mãos um belo romance, elaborado com envolvente ficção e dados históricos, retratando povos e locais fundamentais de nosso mundo e prestando comovente homenagem às famílias Castiel e Menda. 

lançamentos 

Cartas de amor a uma princesa e outras peças curtas (É Realizações Editora, 128 páginas) traz sete peças curtas, extravagantes e melancólicas, do romeno Matéi Visniec, que vive e trabalha na França desde 1987, onde é refugiado político. Suas peças são editadas e montadas em mais de 20 países, especialmente França e Romênia, e tratam de amor, família e capitalismo. 

Fascismo e antifascismo italianos (Educs, 216 páginas), do professor e escritor João Fábio Bertonha, autor de mais de 20 obras sobre fascismo e antifascismo, traz ensaios que falam dessa problemática e dos seus desdobramentos pelo mundo, com ênfase no continente latino-americano e, mais especialmente, no Brasil. 

A primeira parte da obra fala de aspectos teóricos; a segunda, de projetos de expansão; e a terceira, do transnacionalismo fascista. 

Leão, o africano (Ateliê Editorial, 206 páginas), de Murilo Sebe Bom Meihy, professor, mestre em História pela PUC-Rio e doutor em Estudos Árabes pela USP, trata da vida do exilado granadino chamado Leão, o Africano, que mostra o outro lado da modernidade: a arte de enganar para sobreviver, de traduzir culturas para negociar e de se fazer o comércio par dominar o conhecimento sobre certos povos. - Jornal do Comércio 

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/08/colunas/livros/582792-a-saga-dos-menda-e-dos-castiel.html)


01 DE SETEMBRO DE 2017
MÚSICA

Elegância pop roqueira feita para tocar no Theatro São Pedro

Um show classudézimo que tem cara de chorinho e bolero. É assim que Filipe Catto resume Over, turnê que o artista gaúcho apresenta neste final de semana em Porto Alegre. Acompanhado dos violões de Pedro Sá e de Luís Lima, o músico irá mostrar um set intimista, com canções de seus discos e covers de artistas como Chico Buarque, Billie Holiday e Portishead. O cantor, que completa 30 anos neste mês, explica:

- Foi fácil escolher o repertório. Quis cantar um monte de música bafo. O show se chama Over porque é um bafo. Só que não é um bafo da high society. Ele finge que é chique, mas não é chique, mas é chiquérimo porque é cafonérrimo. Essa é a viagem. Quis apresentar o que realmente amo.

A turnê, explica Filipe, encerra um ciclo que se inciou em 2015, com o álbum Tomada.

- Over é uma homenagem a mim por ter vivido tudo o que eu vivi. Estou tocando com os músicos que mais admiro num formato que acho clássico, imponente, majestoso para a música, cantando o que gosto de cantar no chuveiro.

Para chegar ao formato dos shows que serão realizados no Theatro São Pedro amanhã e no domingo, o músico buscou fazer algo que fosse "extremamente elegante".

- Só que, para isso, tenho que misturar coisas não óbvias. Elegante é você colocar uma música importante para a cultura popular hoje junto de músicas que são importantes para o inconsciente coletivo, como Medo de Amar, de Vinicius de Moraes, e Flor da Idade, de Chico Buarque. E o meu filtro para escolher essas músicas é a questão autobiográfica.

Entre as canções elencadas, chama a atenção a presença do hit Infiel, da cantora sertaneja Marília Mendonça, "o Lupicínio Rodrigues de 2017", nas palavras do músico.

- Hoje as pessoas bebem e choram ao som de Marília Mendonça. E isso está ótimo, não estou dizendo que é melhor ou pior que o Lupicínio. Ela é única, autêntica. E Infiel é um grande bolero. Se isso tivesse sido gravado há 40 anos ia estar todo mundo de terno e gravata cantando, aplaudindo e chorando no Theatro Municipal do Rio de Janeiro - acredita Felipe, que completa: - Mas, como foi composta em 2017, parece subcultura. É mentira. E daqui a cem anos todo mundo vai lembrar dessa música. E é porque ela é um clássico que estou cantando, não porque é engraçada.

Outro ingrediente importante dos shows é o retorno do músico a Porto Alegre - a última apresentação de Filipe na Capital rolou em março do ano passado, no Opinião.

- Nunca estive tão próximo de Porto Alegre quanto neste último ano. A impressão das pessoas é que estou ausente, mas vivi a cidade de uma forma muito natural, muito boêmia, com meus amigos. Ao mesmo tempo, sinto muita falta de cantar em Porto Alegre - explica Filipe, para quem música é sinônimo de saudade, um sentimento que remete para o que o cantor viveu na Capital.

- Essa beleza eu vivi intensamente nesta cidade. Tudo o que canto tem um pouco daquela pessoa que pegava ônibus pós-Beco (casa noturna no bairro Independência) às 5h da manhã para ir para o Sarandi, que andava a cidade inteira a pé. Essa pessoa é a que estará cantando ali no Theatro São Pedro, que é um palácio para a minha música. Ao mesmo tempo, estarei com meus amigos. E isso é muito foda. Sou muito grato por isso - afirma o músico, que deixou Porto Alegre para viver em São Paulo em 2010.

- No fim das contas, é só um show em que vou cantar um monte de músicas que adoro, pra gente se divertir, chorar juntos, se abraçar e se amar. Mas é mais do que isso.

rafael.balsemao@zerohora.com.br

01 DE SETEMBRO DE 2017
ARTIGOS

VIVA NOSSO CENTRO HISTÓRICO!


Na minha concepção, a única maneira de recuperarmos seria a implantação de serviços e comércio 24 horas, cuja tendência é mundial em grandes cidades.

Vemos nosso Centro Histórico com teatros, centros culturais, museus, mercado público e uma gama de opções de comércio, como supermercados, shopping centers, lojas de departamentos, restaurantes, cantinas, casas noturnas, padarias, confeitarias, cafeterias, meio de transporte para todas as regiões, estacionamentos etc. 

E, por outro lado, o abandono, o descaso, a proliferação de moradores de rua, prédios ocupados e a insegurança. Fica a pergunta: por que não fazer como as grandes cidades, a criação de comércio e serviços 24 horas, que contrapõem a dinâmica contemporânea da velocidade, fluidez e da rapidez que são nos dias atuais emblemáticos à competitividade, a lucratividade e ao social.

Temos exemplo em São Paulo, onde regiões centrais, antes abandonadas, hoje são referência para quem sai à noite, e após a festa há várias opções de lazer e alimentação na madrugada.

Isto me lembra do projeto da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Smam) na gestão do secretário Professor Garcia, Povo na Praça, a qual o gestor dizia: "Praça desocupada é ocupada por desocupados".

Espero que nossos vereadores e nosso prefeito nos presenteiem com a ocupação do Centro Histórico 24 horas por dia, senão continuará um território sem lei e totalmente abandonado.

Viva nosso Centro Histórico!

Promotora de Justiça angeladalpos@mp.rs.gov.br

01 DE SETEMBRO DE 2017
JUDICIÁRIO

Fachin nega recurso por aumento de salários


O ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou pedido das três principais associações de juízes para que fosse concedido aumento salarial aos ministros da Corte. As entidades alegam omissão do Congresso e da presidência do STF por não ter sido cumprida a revisão anual dos salários, que serve de parâmetro para as remunerações de todo o Poder Judiciário.

Fachin afirmou que não existe nenhuma violação ou omissão do Legislativo ou do Supremo, ao indeferir a solicitação de liminar feita pelas associações dos Magistrados Brasileiros (AMB), Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) e dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe).

No início de agosto, o STF não incluiu o reajuste na proposta orçamentária de 2018, frustrando as entidades de juízes, que resolveram entrar com a ação no tribunal. Na quarta-feira, a Corte aprovou o orçamento sem a previsão de elevação de 16,38% do salário dos ministros. Em sua decisão, Fachin concluiu que não é possível identificar "qual seria a exata violação do dever constitucional de legislar".

As organizações de magistrados podem, a partir de agora, apresentar recurso, na expectativa de que o caso seja levado para decisão colegiada. No mérito, o requerimento das associações é para que seja reconhecida a lacuna do parlamento e declarado o direito à revisão geral anual nos termos dos projetos encaminhados, promovendo-se a integração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) previsto nas propostas de revisões gerais já realizadas, com incidência sempre em 1º de janeiro de cada ano.

01 DE SETEMBRO DE 2017
CAUE FONSECA

E então, Dilma ou Aécio?


Imagine que você se confundiu no estacionamento. Errou de carro, entrou no Delorean de De Volta para o Futuro e foi parar às 8h do nem tão distante 26 de outubro de 2014, dia de votar no segundo turno para presidente da República. Suas opções são, evidentemente, as mesmas: Dilma Rousseff ou Aécio Neves, cada qual representando nove partidos, alguns que você nem sabia que existiam. Na boa, em quem você votaria?

Por mais que você simpatize com Dilma, você viu o futuro. Reelegê-la, hoje sabemos, seria escolher uma coligação cuja pátina eleitoral milionária bancada pela JBS escondia rachaduras irreparáveis. Em vez de A Força do Povo, a coligação poderia se chamar Primeiro a Gente Ganha, Depois a Gente Vê. O que de fato aconteceu, mas não como o PT previa. Terminou com o anfitrião expulso da festa. E, com o PMDB nas picapes, o baile é esse aí: Michel Temer, um governante popular como o Miller Bolaños, falando em "retomada" enquanto a economia segue próxima do coma, a gasolina chega a quatro pilas, universidades federais escolhem quais boletos poderão pagar, a Amazônia é assediada e deputados recebem benesses para impedir que o presidente seja investigado.

Ok, ninguém (do lado de fora do Congresso, ao menos) está feliz com o presente. Então, quem sabe mudamos o passado. Obedecemos àquela camiseta popular em 2016: "A culpa não é minha, eu votei no Aécio". Apertamos lá os botões para eleger o neto do Tancredo. Só que também assistimos, estarrecidos, ao futuro de Aécio Neves: escutas em que o parlamentar pede à mesma JBS dinheiro para bancar até a sua defesa no processo da Lava-Jato. Só mesmo em um país à parte como Brasília um político gravado envolvendo irmã e primo em recebimento de grana fria sequer perde o mandato.

Então, qual era a alternativa correta? Pois é... Problema é que isso não é obra do acaso, mas um mecanismo de defesa do sistema político. Ele é pródigo em dar ao eleitor apenas alternativas que, no final das contas, deem na mesma. Goste ou não dela, observe o que aconteceu com a candidata Marina Silva, catapultada pesquisas acima com a morte de Eduardo Campos. Contra nove partidos de um lado e nove do outro, demorou dias para que comerciais de TV e programas eleitorais a pulverizassem. Em vez de partidos em volta de um projeto de governo, coligações se transformaram em uniões do status quo contra alternativas de poder.

Talvez jamais tenhamos um caso tão bizarro quanto esse, em que o vice de uma chapa terminou presidente e convidou o vice da outra (Aloysio Nunes) para o seu ministério. Mas não é preciso viajar para o futuro para saber que o sistema continuará se protegendo. Agora mesmo, caminha pela Câmara um projeto de reforma política cujo objetivo é assegurar dinheiro público e mecanismos para que os mesmos deputados se eternizem no Congresso. E, quanto mais políticos se esforçam para se manter os mesmos, mais evidente fica que precisamos mudá-los.