DO MURO
Autoria
não identificada — transcrição de recorte jornalístico
Olha o muro.
Está assim de gente em cima dele. Gente que
subiu às suas próprias custas, o que é que há, e gente, até, que subiu nos
outros para chegar lá. De cima do muro a vista é melhor, embora grossa. Do alto
do muro quarenta cegos vos contemplam. As pessoas equilibradas estão à vontade
em cima do muro. O muro é confortável, o muro é estável, o muro é agradável.
Olha o muro.
Atrás do muro também tem gente. Gritando que
“tem gente! ”. E gente assaltando gente. Matando gente. Ou fazendo gente. Atrás
do muro estão todas as bolas de futebol de rua que a gurizada jamais recuperou.
Atrás do muro há um mistério fazendo o capim crescer e secar.
Atrás do muro o medo e o lixo se amontoam. De
trás do muro o verbo espreitar é conjugado por olhos de não sei quem. Atrás do
muro a propriedade está cercada de garantias até o dono pular a cerca. Atrás do
muro late o tempo.
Olha o muro.
À frente do muro: picharam o muro, depois
calaram o muro. Calaram o muro. O muro entrou na moda: o muro era a mensagem.
Agora o muro é mudo. Mudaram o muro. Agora o muro é um outdoor acomodado à
paisagem. O muro mexeu com a massa, estava à frente do movimento. Mas o muro
morreu, metido a painel. O muro consome toda a atenção comercial. O muro se
apagou da memória.
Olha o muro.
Tem coisa embaixo do muro. Um pote de barro
cheio de moedas de ouro do tempo da escravidão. Tem coisa embaixo do muro,
senão ele não seria tão torto assim, ameaçando desabar para o terreno do
vizinho. Tem coisa embaixo do muro, e não é metáfora.
Olha o muro.
Dentro do muro - quantos foram emparedados
vivos? Como é a vida dentro do muro? Quem manda dentro do muro?
Olha o muro.
É proibido se encostar no muro. Mas podem pôr
caco de vidro no alto do muro. Olha o muro, dividindo as armas, separando as
almas, fronteira entre o cá e o lá, entre o meu e o teu. Olha o muro se
erguendo e se esgueirando firme entre as casas e as coisas.
Mira o muro.

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