quinta-feira, 20 de agosto de 2026

DO MURO

Autoria não identificada — transcrição de recorte jornalístico

 

Olha o muro.

 

Está assim de gente em cima dele. Gente que subiu às suas próprias custas, o que é que há, e gente, até, que subiu nos outros para chegar lá. De cima do muro a vista é melhor, embora grossa. Do alto do muro quarenta cegos vos contemplam. As pessoas equilibradas estão à vontade em cima do muro. O muro é confortável, o muro é estável, o muro é agradável.

 

Olha o muro.

 

Atrás do muro também tem gente. Gritando que “tem gente! ”. E gente assaltando gente. Matando gente. Ou fazendo gente. Atrás do muro estão todas as bolas de futebol de rua que a gurizada jamais recuperou. Atrás do muro há um mistério fazendo o capim crescer e secar.

 

Atrás do muro o medo e o lixo se amontoam. De trás do muro o verbo espreitar é conjugado por olhos de não sei quem. Atrás do muro a propriedade está cercada de garantias até o dono pular a cerca. Atrás do muro late o tempo.

 

Olha o muro.

 

À frente do muro: picharam o muro, depois calaram o muro. Calaram o muro. O muro entrou na moda: o muro era a mensagem. Agora o muro é mudo. Mudaram o muro. Agora o muro é um outdoor acomodado à paisagem. O muro mexeu com a massa, estava à frente do movimento. Mas o muro morreu, metido a painel. O muro consome toda a atenção comercial. O muro se apagou da memória.

 

Olha o muro.

 

Tem coisa embaixo do muro. Um pote de barro cheio de moedas de ouro do tempo da escravidão. Tem coisa embaixo do muro, senão ele não seria tão torto assim, ameaçando desabar para o terreno do vizinho. Tem coisa embaixo do muro, e não é metáfora.

 

Olha o muro.

 

Dentro do muro - quantos foram emparedados vivos? Como é a vida dentro do muro? Quem manda dentro do muro?

 

Olha o muro.

 

É proibido se encostar no muro. Mas podem pôr caco de vidro no alto do muro. Olha o muro, dividindo as armas, separando as almas, fronteira entre o cá e o lá, entre o meu e o teu. Olha o muro se erguendo e se esgueirando firme entre as casas e as coisas.

 

Mira o muro.

 

Nenhum comentário: