quinta-feira, 27 de agosto de 2026

27 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL

Cada vez menos podemos falar em tragédias "naturais"

A força de um terremoto, de uma enxurrada ou de um furacão não distingue ricos de pobres, mas a capacidade de resistir a eles, sim. Países mais desenvolvidos têm construções mais resistentes, sistemas de alerta, estradas melhores, hospitais preparados, equipes de resgate equipadas e recursos para reconstruir. Nos mais pobres, o fenômeno encontra uma sociedade muito mais vulnerável.

A segunda constatação: quando o número de desaparecidos é muito alto, a contagem inicial de mortos quase nunca conta toda a história. Nas primeiras horas, "desaparecido" é uma categoria que reúne pessoas isoladas e incomunicáveis, feridos ainda não identificados, sobreviventes que conseguiram fugir e vítimas que ainda não foram localizadas. À medida que estradas são reabertas, escombros removidos e áreas isoladas alcançadas, parte dos desaparecidos é encontrada com vida, mas outra parte acaba incorporada à lista de mortos.

A terceira questão: cada vez mais devemos ter em mente que não é a natureza que está no lugar errado, mas nós, seres humanos. Rios transbordam, encostas deslizam, placas tectônicas se movimentam, geleiras se rompem. O desastre acontece quando colocamos casas, estradas, hospitais, cidades e pessoas no caminho desses fenômenos sem proteção suficiente. E isso, no Rio Grande do Sul, é muito perceptível.

A própria ONU abandonou, conceitualmente, a ideia de que existam simplesmente "desastres naturais": existe o evento natural, mas a tragédia resulta do encontro entre ameaça, exposição e vulnerabilidade. _

Rodrigo Lopes

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