24 de Agosto de 2026
CLÁUDIA LAITANO
Glórias do passado
E então fez-se a cor. Não lá em casa, onde a primeira televisão colorida ainda demoraria alguns anos para chegar, mas na sala de estar de quem podia comprar o aparelho mais prafrentex da época. O especial Meu Primeiro Baile, exibido em março de 1972, entrou para a história da televisão brasileira como o primeiro programa todo gravado em cores (o desfile de carros alegóricos da Festa da Uva de Caxias do Sul, primeira transmissão colorida em caráter experimental, havia ido ao ar no mês anterior).
Para sorte dos telenostálgicos, Meu Primeiro Baile está disponível na íntegra no YouTube - e a morte de Glória Menezes me pareceu um bom pretexto para voltar a uma história que me impressionou muito quando eu era criança. Glória faz o papel de uma viúva rica que decide procurar cada um dos rapazes que dançaram com ela em seu baile de debutante.
Um tornou-se padre, outro é um costureiro famoso, um terceiro virou bandido, e assim as memórias de adolescência vão se contrapondo às surpresas do presente. Atribuída nos créditos ao poeta e roteirista Jacques Prévert, a trama é na verdade uma versão compacta do filmaço francês Un Carnet de Bal (1937).
Não sei se a lembrança forte que me ficou é já dessa primeira exibição ou de alguma das muitas reprises, mas uma cena em especial nunca saiu da minha cabeça: a gota de sangue que cai sobre as teclas de um piano, anunciando a morte iminente de alguém (anos depois, descobri que a cena que assombrou a minha infância tinha sido copiada de À Noite Sonhamos, cinebiografia do tuberculoso Frédéric Chopin).
Pelo investimento em elenco, autores e equipe técnica (Janete Clair no roteiro, Daniel Filho na direção), Meu Primeiro Baile anunciava o futuro de sucesso que aguardava a teledramaturgia brasileira nos anos seguintes. Ainda assim, o especial é cheio de conexões com o passado.
O formato é o dos teleteatros, populares nas décadas de 1950 e 1960, quando a programação era ao vivo. O elenco é egresso dos palcos: além de Glória e Tarcísio, Sérgio Cardoso, Francisco Cuoco, Paulo José, Felipe Carone e Zilka Salaberry, entre outros veteranos. A própria trama, adaptada de um filme antigo, já era um pouco anacrônica no início dos anos 1970.
Sabe o que parece ainda mais anacrônico em 2026? As novelinhas verticais. A mais recente adaptação da teledramaturgia aos novos hábitos de consumo digital também tem um pé no passado enquanto mira a audiência do futuro. Infelizmente, o modelo copiado não parece ser o do passado de glórias (Menezes, Pires, Perez?) das telenovelas brasileiras, mas o daqueles dramalhões mexicanos que já nos pareciam bobocas e ultrapassados quando Odorico ainda era prefeito de Sucupira. _
CLÁUDIA LAITANO

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