segunda-feira, 24 de agosto de 2026

24 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O RS e a medicina de desastre

Se a Defesa Civil foi uma área em que o Rio Grande do Sul avançou desde a tragédia das enchentes de 2023 e 2024, há outro setor, bastante específico, que merece atenção do poder público e da esfera privada: a medicina de desastres.

Em andanças, de tragédia em tragédia, como o furacão Katrina, testemunhei, como enviado especial da RBS, que a primeira resposta a um desastre costuma ser dada pelo sistema de saúde local. E quando a própria rede hospitalar sucumbe? É diferente atuar com recursos, equipamentos e insumos em ambientes a que os profissionais estão acostumados. 

Em uma tragédia de grandes proporções, equipes de emergência são testadas em ambientes de estresse contínuo, de adoecimento mental, de traumas, sem medicamentos, o que exige capacitação prévia e posterior, continuada. A covid-19 foi um teste, em que profissionais de saúde do RS atuaram sob pressão, no limite da exaustão, encarnando o mais nobre desígnio de seus juramentos.

Mas treinamento em grupo, ações coordenadas e logística serão cada vez mais necessários. Em meio a uma crise, cabe a esses profissionais classificar rapidamente feridos para priorizar quem tem chance de sobrevivência com recursos limitados, montar hospitais de campanha, gerenciar o fluxo de suprimentos e equipes e integrar médicos, bombeiros, Defesa Civil e órgãos de saúde pública.

Organizações como Médicos Sem Fronteiras têm essa expertise. São, normalmente, as primeiras a chegar e as últimas a sair. Mas, para além de organizações não governamentais, poder público, hospitais e universidades devem investir nessa especialização.

Desde 2011, a Força Nacional do SUS existe, inclusive com uma base no Estado. Segundo afirmou ao jornal Folha de S.Paulo o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Adriano Massuda, novos efetivos serão criados a partir de 2027 no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. O setor privado também precisa investir. 

No eixo Rio-São Paulo, a rede Einstein é referência, com um grupo de especialistas que atuou no Haiti, no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, e em Brumadinho (MG). Mas, no RS, quantos cursos de especialização em nível acadêmico existem nessa área? Quantos hospitais dispõem de grupos de medicina de desastres? E há quanto tempo Porto Alegre não realiza uma grande simulação de resposta a uma emergência? _

O que foi feito no RS recentemente

Em resposta à coluna, o Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (Sindihospa) informou ter organizado simulações sobre desastres. Em junho, foi simulada a chegada de um voo com passageiros com doença infecciosa desconhecida.

Na ocasião, o exercício reproduziu um cenário em que a tripulação pede apoio médico para passageiros com sintomas dessa infecção, recebendo apoio. Planos de contingência foram ativados. Os casos "mais graves" foram transferidos para o Hospital de Clínicas.

No ano passado, foi realizada ainda uma simulação de incêndio e desabamento do teto do plenário da Câmara de Vereadores, na Capital. A ação contou com a participação voluntária de 50 estudantes de Medicina, que foram as "vítimas" de um desabamento seguido de incêndio no Plenário Otávio Rocha.

Nove hospitais, 15 ambulâncias e três caminhões do Corpo de Bombeiros participaram da operação, além de equipes da Defesa Civil, EPTC e Instituto Geral de Perícias (IGP).

Em 2023, outra simulação ocorreu, dessa vez no Hospital Moinhos de Vento, com o cenário hipotético de um incêndio envolvendo o deslocamento de vítima em helicóptero do Batalhão de Aviação da Brigada Militar.

Pacientes foram deslocados para outras unidades de saúde, enquanto o combate às chamas envolveu uma operação do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, Defesa Civil, forças de segurança e sistema hospitalar. _

Entrevista - Jeffrey Urkevich - Diretor de Parcerias da Juvare

"O Katrina foi um ponto de inflexão para a preparação de emergências"

O Codex Experience reuniu, na semana passada, especialistas, gestores públicos e executivos para discutir como dados, inteligência artificial e novas tecnologias podem contribuir para a tomada de decisões em respostas à crise climática. Um dos painelistas foi Jeffrey Urkevich, diretor de parcerias da Juvare, empresa americana que busca operações no país. Ele conversou com a coluna.

A tecnologia baseada em IA é uma plataforma de gestão digital adotada nos 50 estados americanos e em mais de 25 países para coordenar respostas a desastres em tempo real. Como pode ser a operação no Brasil?

O WebEOC pode permitir que todos os Estados e municípios brasileiros protejam pessoas e ativos por meio de uma plataforma que oferece uma visão operacional comum antes, durante e após um evento. Tem potencial para se tornar o ponto de comunicação entre os órgãos de gestão de emergências de todo o Brasil, contribuindo para melhorar o tempo de resposta e reduzir o tempo para o restabelecimento da normalidade.

Haverá operação no Rio Grande do Sul?

Não podemos compartilhar esse tipo de informação, mas a primeira implementação está em andamento na CEPDEC-ES (Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil do Espírito Santo). Esperamos expandir a operação.

Como a IA se dá, na prática, na plataforma de gestão?

O produto é uma ferramenta de IA que permite aos usuários interagir com a base de dados para criar relatórios e gráficos e encontrar respostas rapidamente em um ambiente seguro. A ferramenta aplica regras rigorosas de privacidade, respeita as permissões dos usuários e nunca utiliza dados dos clientes para treinar modelos externos de IA. Estamos atualmente trabalhando no desenvolvimento para o mercado brasileiro.

Um dos desafios é a dificuldade de integração de dados?

Fontes distintas e desconectadas são sempre um desafio na resposta. De modo geral, a existência de múltiplas fontes gera confusão e aumenta o tempo de resposta. O WebEOC permite conexões entre sistemas que já estão em uso, possibilitando uma visão comum. Por meio de conectores padronizados, conseguimos reunir diversas fontes de dados em uma única interface. Além disso, integramos dados de mapas por meio da extensão ArcGIS. O modelo que utilizamos nos EUA, liderado pela FEMA, é centralizado e adota como padrão a estrutura que garante coordenação em tempo real e interoperabilidade.

Durante o furacão Katrina, em 2005, também houve problemas relacionados à descentralização de dados. Passados mais de 20 anos, essa situação melhorou?

O furacão Katrina foi um ponto de inflexão para a preparação e a resposta a emergências nos Estados Unidos. A situação melhorou significativamente graças às APIs abertas, ao compartilhamento de dados e a sistemas centralizados, como o WebEOC. Sempre há espaço para melhorias, e novas lições são aprendidas diariamente por meio de treinamentos, aperfeiçoamento de processos e situações reais. _

INFORME ESPECIAL

Nenhum comentário: