quinta-feira, 27 de agosto de 2026

OPINIÃO RBS

Nova oportunidade para o diálogo

Diante do recrudescimento das tensões entre EUA e Brasil nas últimas semanas, é bem-vinda a perspectiva de retomada do diálogo entre os dois governos sobre comércio. A oportunidade para uma nova rodada de negociações surgiu após a conversa por telefone, na sexta-feira, entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Em seguida, o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, contatou o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Eles terão uma reunião virtual na segunda-feira para avançar em temas técnicos relacionados às tarifas adicionais impostas pela Casa Branca sobre produtos industriais brasileiros no mês passado.

Um progresso efetivo em busca da superação do impasse depende da existência de disposição real de transigir de lado a lado e de reconhecimento pelos EUA, em alguma medida, de que a agressão tarifária contra o Brasil é descabida e contraproducente. Embora o histórico das tratativas entre os dois governos recomende certa cautela quanto a resultados, aguarda-se que desta vez a volta à mesa de negociações produza resultados concretos. Ao Brasil, cabe definir em quais pontos é possível maleabilidade e aqueles que não estão em questão.

Ainda assim, decisões imediatas não devem ser esperadas. Um objetivo plausível, adiante, é elevar a lista de exceções aos mais recentes tarifaços contra o Brasil, em julho. Primeiro, foi aplicada uma taxa de 25% sobre cerca de 4 mil produtos, após uma investigação comercial sobre supostas práticas desleais. Depois, o país recebeu uma nova oneração de 12,5% pela acusação de falhas na fiscalização da importação de bens produzidos sob trabalho forçado.

A hostilidade norte-americana atinge em cheio o Rio Grande do Sul, pouco contemplado com o rol de exceções. Itens relevantes da pauta de exportação, como fumo e calçados, sofrem punição dupla, de 37,5%. O Estado já perdeu um volume significativo de negócios desde a primeira ofensiva comercial da Casa Branca, no ano passado. De agosto de 2025 ao último mês, os embarques do Rio Grande do Sul para os EUA foram US$ 561,4 milhões menores em relação ao montante vendido nos 12 meses anteriores à adoção das primeiras sobretaxas. A queda de 29,1% corresponde a mais de R$ 2,8 bilhões.

A conversa entre Trump e Lula foi descrita pelo Planalto como cordial. A despeito das diferenças políticas dos dois governos, os presidentes conseguem manter uma relação pessoal respeitosa. A postura de maior agressividade contra o Brasil parte de figuras como o secretário de Estado, Marco Rubio, mais atento às questões ideológicas da América Latina.

Será preciso aguardar para verificar se a orientação de Trump para o diálogo se traduzirá em atitudes nesse sentido por parte de seus subordinados. Lula também terá de modular o tom no uso da retórica da soberania nos discursos eleitorais. Mas é inequívoco que negociar, desde que esse propósito seja sincero dos dois lados da mesa, pode produzir melhores resultados do que revidar ou recorrer à engessada Organização Mundial do Comércio (OMC). É provável, no entanto, que avanços concretos ocorram apenas após a eleição brasileira, seja qual for o resultado do pleito.  

Nenhum comentário: