quinta-feira, 6 de agosto de 2026

06 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Tensões diplomáticas são sinal dos tempos

O final da terça-feira foi trepidante para as relações internacionais brasileiras, com a lamentável escalada das tensões diplomáticas com os Estados Unidos e a Argentina, nações com as quais o país cultiva vínculos seculares de amizade e parceria comercial. A Casa Branca anunciou a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Seria uma resposta à demora do Brasil em conceder o aval para que Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA em Brasília. Poucas horas depois, o Itamaraty, em meio à elaboração da resposta à decisão do governo Trump, informou que estava rebaixando o nível das relações diplomáticas com a Argentina. A decisão implica manter no Brasil o embaixador Julio Bitelli, que atua em Buenos Aires, enquanto o mandatário do país vizinho, Javier Milei, continuar a insultar autoridades brasileiras, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O momento de tensionamento, talvez sem precedentes, demonstra a extrapolação para o cenário internacional da polarização política doméstica que se acirra, sem sinais de arrefecimento, nos países democráticos desde meados da década passada. Trata-se de algo bastante semelhante à radicalização ideológica interna observada em países como o próprio Brasil e os EUA e a Argentina, entre inúmeros outros.

Nos contextos nacionais, a exacerbação dos ânimos pelas diferenças de visão de mundo e de valores esgarça o tecido social, corrói a confiança entre os cidadãos e nas instituições, abala relações pessoais e familiares e torna as disputas eleitorais mais virulentas. Não raro, as desconfianças mútuas, a incapacidade de dialogar e a intolerância em relação a quem pensa de maneira distinta descambam para a violência política.

Torna-se também mais evidente que, da mesma forma que grupos de um país com posições semelhantes se aglutinam, buscam alianças no Exterior por afinidade. A intromissão em assuntos internos, como eleições, torna-se mais frequente e ousada. Instituições multilaterais são enfraquecidas. Quem não é alinhado é visto como potencial inimigo.

A gravidade da situação sobe alguns degraus quando as posições mais extremadas passam a contaminar inclusive a diplomacia, que deveria servir de anteparo para eventuais ruídos derivados da retórica mais contundente dos chefes de Estado, em nome da preservação das relações duradouras entre os países. Esquece-se que governos e presidentes são transitórios, enquanto as nações ficam.

A postura histórica da política exterior do Brasil não é de alinhamento automático a potências, mas de busca por equidistância, em nome de seus próprios interesses, com autonomia e pragmatismo, independentemente da coloração política do presidente de turno. Apesar da época desafiadora, é preciso manter esse legado que procura flexibilidade para extrair vantagens dos diferentes polos.

Espera-se que não tarde muito para que fique no passado essa quadra soturna da História, marcada por divisões geopolíticas exacerbadas, conflitos e prevalência da lei do mais forte. Deixar para trás essa fase depende de os próprios países, notadamente as sociedades democráticas, encontrarem caminhos para a reconciliação interna. _

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