segunda-feira, 24 de agosto de 2026

24 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

O que o clube não vê

É comum dizer que não se enxerga a realidade do elenco e da comissão técnica. O que não deixa de ser verdade. O técnico colorado, Paulo Pezzolano, perdeu recentemente sua mãe e nem teve tempo de enfrentar o luto, precisando reverter os resultados negativos. O esporte não demonstra piedade com as dores pessoais e impõe um calendário apertado.

Quem já velou seu tronco materno sabe o quanto o chão vai embora dos passos. Trata-se de um fim absoluto da infância, quando você é arremessado do enterro para o mundo, órfão daquela que mais o incentivava. É quando se envelhece irremediavelmente, na mais completa solidão, sem a retaguarda de outrora. Desaparece o referencial geográfico da confiança: do colo, do conforto da sua maior fã. Até a cidade em que você nasceu morre um pouco junto, sem pretexto para as visitas recorrentes.

Igualmente, a direção do clube não tem a dimensão da realidade do torcedor.

O Inter e o Grêmio são a base de estruturas familiares. De uma adoração que se passa de pais para filhos. Desde os sapatos de crochê e a tabuleta na porta do quarto do rebento.

São milhares de sócios que se esforçam para pagar as mensalidades. São milhões de pessoas que realizam sacrifícios inomináveis para participar dos jogos - seja no frio e na chuva, seja com o sol na cara -, que desmarcam compromissos, que se mostram ausentes nos finais de semana, que reservam as datas dos confrontos, que se mobilizam bem antes de a partida começar, que moram no interior e vêm para a capital em estafante viagem de ônibus. 

Que se reúnem numa concentração nas cercanias do estádio para esperar a escalação, que trocam a noite pelo dia e o dia pela noite, que gastam o seu fôlego comentando o antes e o depois em longos telefonemas com os conhecidos ou em discussões na roda dos bares, que só falam disso, que só pensam nisso, que ainda querem ver os melhores momentos e secar os adversários, que não conseguem dormir se a equipe é derrotada, que ficam remoendo gols não feitos ou dados, que almejam a classificação fazendo projeções e cálculos impossíveis.

Nunca são apenas 90 minutos, mas uma devoção permanente aos bastidores, cheia de nervosismo e ansiedade, girando entre os programas de rádio e televisão e as redes sociais.

Quem ama um manto orbita em função das notícias de treinos, de potenciais reforços. Não há plano B. Não há sossego. Não há jantares românticos. Não há férias. Não há festas. Não existe uma abstinência como essa.

É a busca por uma salvação, além de uma mera distração. O torcedor colecionará camisetas, casacos, gorros, bonés. Metade dos presentes que recebe envolve a cor da sua paixão: chimarão, caneca, faca, avental com o escudo. Parece que trabalha para obter algum alívio no campeonato, uma recompensa mínima para tanto investimento.

Mantém vários grupos de WhatsApp para versar sobre o assunto, como plantonista da revisão dos lances e dos erros de arbitragem, com um intercâmbio incessante de emojis e mensagens por 24 horas.

Se não puder acompanhar das arquibancadas, achará um jeito pelos canais exclusivos, pelo celular; inventará uma maneira de, mesmo no serviço, conferir minuto a minuto do escore. É fone de ouvido, é dissimulação, é coração na garganta.

Então, quando o time atravessa uma má fase ou é ameaçado de rebaixamento, tudo se torna cinza, insosso, extinto. Amigos se indispõem, casamentos entram numa espiral de incompreensão, reina um clima de animosidade e irritação, a paciência adoece com a falta da esperança, muitos se deprimem, ninguém mais sorri, ninguém mais sente vontade de acordar.

Gostaria que os jogadores entendessem o tamanho da sua influência. Não é futebol, estão jogando com as nossas vidas. 

CARPINEJAR

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