22 de Agosto de 2026
J.J. CAMARGO
A memória, sobrecarregada de lembranças úteis ou fúteis, pode ter sido displicente na seleção dos escaninhos confiáveis para arquivar as reminiscências mais preciosas. O coração, porém, sabe bem onde e como despertá-las, porque tem a senha-mestra de acesso às emoções definitivas - essas que, pela intensidade, estão muito além da tristeza do esquecimento e aguardam, serenas, a sacudida da ressurreição.
Pode ser a visita a uma linda capela em Viena, num final de tarde, quando o cheiro de velas me trouxe de volta para a dor que me impedia de engolir a saliva no velório do meu avô.
Ou na calmaria de uma velha barbearia no centro da cidade, quando o barbeiro mais antigo, orgulhoso do seu trabalho, resolveu refrescar as bochechas rosadas do seu cliente com a loção Bozzano Pós-Barba. Feito! Lá estava eu, outra vez, na Estação Rodoviária de Vacaria, envolto no abraço demorado do meu pai, que terminou por dizer o que eu mais precisava ouvir a caminho do vestibular:
- Vai lá, meu filho, e mostra pra aqueles caras que nesta família também tem pedigree!
Ou andando pelo French Quarter, em New Orleans - uma cidade que exala música -, quando um grupo enorme de turistas começou a dançar na calçada antes mesmo que eu alcançasse a música mais dançável que conheço. Como por encanto, vi-me dançando New York, New York em todos os Réveillons da minha vida.
Mas é claro que esta crônica, que nasce despretensiosa, também terá seu lugar neste maravilhoso arquivo. Um arquivo que, depois de um certo tempo (está bem, bastante tempo), de vez em quando - na verdade, muito de vez em quando - pode ratear, mas que por ora serviu para evocar uma espécie de mantra do primeiro relicário da minha vida.
No bar do aeroporto, um casal lanchava. A mãe, de olhos fixos no laptop; o pai, vigiando um sapeca lindo que, com a energia de seus cinco anos, não sossegava, correndo entre as mesas. De repente, o pai levantou-se e bradou, com aquela voz enérgica que a gente aprende logo que não significa nada:
- José, que eu não tenha que te chamar outra vez! Pronto! Lá estava a dona Zely, de mãos na cintura, ostentando uma fúria que nunca me convenceu. Saudades da baixinha, dona da minha infância.

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