quinta-feira, 6 de agosto de 2026

06 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Diplomacia enfrenta crises em frentes diversas

Este é um dos momentos mais desafiadores da diplomacia brasileira desde a redemocratização. O país enfrenta, simultaneamente, a pressão do governo Donald Trump na disputa tarifária, a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e o rebaixamento das relações diplomáticas com a Argentina em razão dos sucessivos ataques de Javier Milei ao presidente Lula e a outras autoridades.

O Brasil já atravessou crises importantes com Washington - como a provocada pelas revelações de espionagem feitas por Edward Snowden, em 2013, durante o governo Dilma Rousseff. Também enfrentou momentos de tensão com a Argentina e disputas comerciais. O que torna a conjuntura atual singular é a coincidência temporal desses episódios, agravada por uma campanha eleitoral que internacionalizou a política brasileira.

O problema é que o Itamaraty foi erigido de forma a administrar crises pontuais, não para lidar com incêndios em várias frentes simultâneas. Desde o Barão do Rio Branco, a diplomacia brasileira construiu sua reputação sobre dois pilares: diversificação de parceiros e solução negociada de controvérsias. Hoje, porém, esses princípios são testados simultaneamente em diferentes direções.

A política doméstica passou a contaminar a política externa. Não por acaso, as declarações de Milei ocorreram justamente na convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência e foram interpretadas pelo Itamaraty como extrapolação dos limites aceitáveis da relação entre Estados.

No caso dos Estados Unidos, a crise vai muito além do protocolo diplomático. Os americanos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil e o aliado histórico mais antigo do país. Foram, afinal, a primeira nação a reconhecer a independência brasileira, em 1824, apenas oito meses após a proclamação. Esse gesto inaugurou a relação bilateral que atravessou impérios, repúblicas, guerras mundiais e a Guerra Fria.

A história com a Argentina foi diferente. Ela começou sob o signo da rivalidade, em meio à Guerra da Cisplatina e às disputas pela liderança da Bacia do Prata. No século 19, brasileiros e argentinos foram os principais concorrentes geopolíticos da América do Sul. A desconfiança persistiu durante boa parte do século 20. Na década de 1970 e no início dos anos 1980, embora nunca tenha havido corrida armamentista declarada, os dois países observavam com cautela seus programas nucleares, temendo que o vizinho pudesse desenvolver capacidade para fabricar a bomba atômica.

Embates simultâneos

A transformação dessa rivalidade em parceria estratégica só começou com a redemocratização, culminando na criação do Mercosul e da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), um dos mais bem-sucedidos mecanismos de confiança mútua do mundo.

O Brasil, portanto, enfrenta atritos simultâneos com seu maior parceiro no hemisfério, os Estados Unidos, com seu principal vizinho, a Argentina, e em meio a uma campanha presidencial fortemente internacionalizada. Política externa raramente decide eleições, mas frequentemente é utilizada para mobilizar militâncias e alimentar narrativas domésticas. Caberá ao Itamaraty impedir que divergências entre governos contaminem interesses permanentes do Estado brasileiro.

Como já defendido por esta coluna: presidentes passam, relações entre países precisam permanecer. _

Papa virá à América do Sul

O Vaticano confirmou a viagem do papa Leão XIV à América do Sul. O Pontífice deve passar, entre 6 e 17 de novembro, por Uruguai, Argentina e Peru.

Era esperado que ele passasse pelo Brasil, principalmente pela região da fronteira do RS, porém o país ficou de fora da viagem apostólica.

Conforme comunicado do Vaticano, Leão XIV passará primeiro pelo Uruguai, entre os dias 6 e 8 de novembro, nas cidades de Montevidéu, Paysandú e Florida. Entre 8 e 11 de novembro, visitará a Argentina, passando por Buenos Aires, Córdoba e Luján. Por fim, estará no Peru entre os dias 11 e 17, visitando Lima, Chiclayo, Cusco e Pucallpa.

De acordo com a nota, "o programa da viagem será divulgado mais adiante".

Países visitados

O roteiro pela Argentina era esperado ainda durante o pontificado de Francisco. Desde a eleição de Jorge Mario Bergoglio, em 2013, o Pontífice não retornou ao seu país natal.

O Uruguai foi incluído no roteiro devido à proximidade geográfica. Até o anúncio de ontem, as cidades uruguaias que vão receber o Pontífice estavam indefinidas e tanto Paysandú quanto Rivera - esta última na fronteira com Santana do Livramento, no RS - estavam cotadas. Por causa disso, especulava-se uma possibilidade de visita do papa ao Brasil - o que não se confirmou, já que Paysandú foi escolhida.

A ida ao Peru também tem relação direta com o atual Líder da Igreja Católica. Depois de deixar os EUA, Robert Prevost viveu e trabalhou por cerca de 25 anos no país da América do Sul como missionário agostiniano. _

Questionada sobre por que o Brasil não foi incluído no roteiro do papa Leão XIV pela América Latina, uma fonte da coluna no Vaticano respondeu com uma frase sugestiva: "Chegará o momento".

Imprensa argentina repercute atritos

Os principais jornais da Argentina repercutiram, ontem, a escalada da crise diplomática entre o Brasil e o país vizinho.

O jornal Clarín trazia como manchete principal: "Por insultos de Milei a Lula, Brasil não vai repor o seu embaixador". Com a decisão de rebaixamento diplomático, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, permanecerá em Brasília. O também portenho La Nación destacou: "Brasil endurece posição: embaixador não retornará devido aos insultos de Milei a Lula".

Um dos jornais mais antigos da Argentina, o La Capital, fundado em 1867, trazia a manchete: "Decisão inédita: Brasil retira o seu embaixador da Argentina". O Página/12, jornal alinhado a posicionamentos de esquerda, trouxe o título no topo da página: "Escalou a crise: Brasil retira seu embaixador". _

Jurista gaúcho eternizado

A trajetória do gaúcho Paulo Brossard de Souza Pinto, jurista e ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF), será eternizada no livro O Avesso do Arbítrio: Estudos em Homenagem a Paulo Brossard de Souza Pinto, obra que será lançada hoje na Biblioteca do STF, em Brasília.

Coordenada pelos juristas Guilherme Barcelos, Gustavo Bohrer Paim e Miguel Tedesco Wedy, a publicação reúne personalidades para revisitar a trajetória de Brossard. O prefácio é assinado pelo ex-presidente da República José Sarney; a apresentação, pelo ministro Gilmar Mendes; o artigo principal, pelo ministro André Mendonça; e o posfácio, pela ministra Maria Cristina Peduzzi.

Natural de Bagé, Paulo Brossard construiu trajetória marcante na advocacia, no Parlamento, no Ministério da Justiça, na academia e no STF. _

INFORME ESPECIAL

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