sábado, 1 de agosto de 2026

J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina

Existe alguém do lado de lá

Ao formular certa pergunta, o médico não está apenas interrogando o paciente: está auditando a própria consciência

"Quando o outro sofre, a última coisa de que ele precisa é uma explicação teórica para a sua dor. Ele precisa de uma presença que suporte o mistério do seu sofrimento."

(Viktor Frankl)

No consultório ou no hospital, sob o brilho frio do monitor e a exatidão dos exames, priorizamos com todo o rigor a técnica, porque disso dependerá o controle daquela doença que nos trouxe o paciente em busca de uma solução. Tudo o que for tecnicamente insuficiente implicará em perda para quem apostou na nossa competência. Ali, com toda precisão medimos a função pulmonar, reconstruímos imagens em 3D, calculamos volumes e nos socorremos da ajuda da tecnologia que nossos antecessores não dispuseram.

Talvez por isso tendemos a acreditar que somos os protagonistas absolutos daquele enredo. Uma pena que precisamos demorar um tempo para entender que há um outro lado, atento e angustiado, que será exposto com uma pergunta simples que desestabiliza essa pompa: "O que, dessa experiência sofrida, o senhor considerará inesquecível?".

Ao formulá-la, o médico não está apenas interrogando o paciente; está, no fundo, promovendo uma auditoria na própria consciência. E o choque que se segue, a descoberta de que o inesquecível para quem sofre habita uma sombra que a clínica não enxergou, é a prova cabal de que a medicina acontece em dois planos paralelos.

Para quem opera, o "inesquecível" é o sucesso da manobra ousada, o milagre da fisiologia restabelecida, a complexidade vencida na solidão do bloco cirúrgico. Para o paciente, o inesquecível é quase sempre algo ínfimo, invisível ao olhar puramente técnico: a mão que hesitou antes de tocar o ombro, aquela travada antes de responder uma pergunta, o tom com que uma notícia foi dada ou, dolorosamente, como ela foi omitida.

O paciente não habita o mesmo mapa que nós. Enquanto mapeamos a patologia, ele mapeia o medo, o desespero, a ameaça da morte tornada real. A autovigilância do cuidado médico é a expressão mais alta da Medicina da Pessoa: o reconhecimento de que, embora a técnica trate a doença, é a humanidade - essa coisa fugidia que só floresce no detalhe - que acolhe o espírito. O uso dessa estratégia manterá o médico alerta. Mas mesmo assim muitas vezes ele se surpreenderá ao descobrir que nem tinha percebido o que o paciente valorizou tanto a ponto de considerar inesquecível.

Impossível esquecer a lição de um paciente que, ao receber alta depois de um transplante fantástico que tinha sido contraindicado por alto risco, em outro centro, respondeu que inesquecível tinha sido o carinho da menina da portaria que, no meio da madrugada, foi capaz de perceber o seu medo e a sua solidão e que, depois de ajudá-lo com o carrinho do oxigênio até o elevador, lhe deu um beijo e prometeu rezar por ele.

Paradoxalmente, esse choque de percepção é a melhor notícia que um médico pode receber. Significa que ele não se tornou um autômato. Significa que, entre a tomografia e o bisturi, entre o protocolo e o transplante, existe um homem que entende que a competência técnica é apenas o palco; a peça real, aquela que ficará gravada na memória de quem sofre, é o encontro.

Se um dia formos esquecidos por tudo o que curamos, por todas as mortes que evitamos, seremos lembrados por aquilo que, sem notar, oferecemos sem medir: o olhar que viu, além do pulmão, a biografia de quem respira. Validar essa vivência é a maior lição de Medicina Narrativa que se pode dar a um médico jovem. É dizer ao paciente, sem palavras, que a dor dele tem o mesmo peso que a nossa ciência. 

J.J. CAMARGO 

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