Bagre
Quando uma figura pública se consagra com seu apelido, é que alcançou uma adoração afetiva destinada a poucos, tornando-se, ao mesmo tempo, alguém absolutamente famoso e íntimo: Pelé, Cazuza, Xuxa, Garrincha, Zico, Cartola.
Significa que, além de ser conhecido por todos, é amado como parte da família. Bagre Fagundes cumpriu essa proeza. Conseguiu reverter a rejeição de uma nominação e transformá-la em uma virtude. A ofensa servia antes para descrever um perna de pau e, no caso dele, passou a traduzir o apogeu do tradicionalismo. Um craque da canção.
Hoje, no Rio Grande do Sul, Bagre é sinônimo de uma pessoa talentosa. A alcunha dada na infância se perpetuou em sua trajetória por desígnios insondáveis. Quem disse que ele não era realmente um peixe que buscou ritmos e letras na fundura da bacia de nossas almas?
Ninguém o chamava de Euclides. Reza a lenda que o batismo popular surgiu depois que ele pescou um enorme jundiá no Rio Ibirapuitã. Há relatos de que se parecia a um "bagre que roncava". Não importa a origem: aprendemos a admirá-lo assim.
Bagre Fagundes faleceu no domingo, aos 86 anos, enquanto seu time de coração, o Inter, ganhava do Corinthians.
Mas o piá de Uruguaiana não tem como morrer. Reunia tantos que nem a morte soube a quem procurar. Foi advogado formado pela Universidade de Cruz Alta, vereador em Alegrete, bancário, jogador e árbitro de futebol. Também presidiu o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) e atuou como colunista do jornal Diário Gaúcho.
Não existe jeito de embrulhar sua gaita enfeitiçada pelo som de sua gargalhada. Na música, brilhou para jamais voltar à sombra do nome próprio, para jamais se despedir de nós.
Ao lado de Nico Fagundes, compôs Canto Alegretense, capaz de expressar o apego ao pampa. Qualquer gaúcho o entoa de cor e salteado, quase como um hino rio-grandense alternativo. É o equivalente, para o sul do país, ao que Asa Branca, de Luiz Gonzaga, representa para o Nordeste.
"Não me perguntes onde fica o Alegrete, Segue o rumo do teu próprio coração. Cruzarás pela estrada algum ginete. E ouvirás toque de gaita e de violão."
Bagre se fez onipresente. Venceu nos nossos principais festivais: a Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, a Ronda da Canção Nativa de Alegrete.
Participou do grupo Os Angueras e, mais tarde, criou o Inhanduy com Neto, Ernesto e Paulinho, seus filhos. Esse projeto deu a base para Os Fagundes, que culminou com cinco álbuns e especiais.
Se, na roda de chimarrão, havia o costume de contar mentiras e causos para atrair a atenção, ele silenciava os presentes com as suas verdades. Viveu sem temer as consequências, com uma coragem de, vendado, encilhar o cavalo.
Talvez a sua autenticidade tenha sido o segredo do seu sucesso. Ele tocava e cantava como se estivesse em casa. Nunca pisou de fato no palco, porque nunca saiu espiritualmente do seu lar. Derrubou as fronteiras entre a plateia e o artista. Não mudava de postura quando se apresentava. Continuava simples, espontâneo, acessível, brincalhão, acreditando que o rincão é um sentimento.
Só imagino o bochincho ao se reencontrar com seu irmão Nico (1934 - 2015), após uma década de saudade. Vão armar um galpão crioulo no céu e reeditar o dueto de Canto Alegretense, em uníssono para sempre.
"Ouve o canto gauchesco e brasileiro. Desta terra que eu amei desde guri. Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí."
CARPINEJAR
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