06 de Agosto de 2026
ROGER LERINA
Viva a muvuca
A história da música no Brasil mudou a partir de 11 de janeiro de 1985. A data de surgimento da cultura dos grandes festivais no país é marcada pelo primeiro dos 10 dias do Rock in Rio, que reuniram no total quase 1,4 milhão de pessoas. Eu testemunhei esse nascimento, adolescente empolgado em meio a um mar de gente curtindo ao vivo as lendas do rock Iron Maiden e Queen. O primeiro show do Rock in Rio, entretanto, foi de Ney Matogrosso, artista que não era identificado com o gênero que batizou o evento carioca. (Aos 85 anos e em plena atividade, o cantor segue mais inquieto e libertário do que muitos roqueiros. Mas esse é outro assunto.)
Quatro décadas depois - e com uma longa lista de festivais no currículo -, voltei a encarar uma dessas maratonas musicais no sábado passado. Um dos maiores eventos nacionais do tipo, o João Rock reuniu cerca de 65 mil pessoas que assistiram a 34 atrações em um espaço aberto enorme em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. No palco, havia dois expoentes da música brasileira veteranos como eu do Rock in Rio inaugural: Os Paralamas do Sucesso e Alceu Valença. Aliás, uma das características mais bacanas desse festival paulista - que em breve ganhará edição também em Porto Alegre, provavelmente já no ano que vem - é escalar apenas artistas nacionais.
Outra semelhança com aquele megaevento que acompanhei aos 16 anos, fascinado e exausto, é que, além do estilo musical que leva no nome, o João Rock apresentou nos seus cinco palcos nomes da MPB, rap, hip hop, reggae e pop. Misturar os gêneros é um formato adotado cada vez mais por festivais aqui e lá fora - para contrariedade de puristas que prefeririam cada um no seu quadrado: roqueiros no Lollapalooza, jazzistas no Free Jazz, hip hop no Rap In Cena. Tá legal, eu aceito o argumento - penso, porém, que tanto os eventos puro-sangue quanto os mestiços são igualmente relevantes e podem coexistir de boas em suas singularidades.
Para além das predileções individuais, festivais como o Planeta Atlântida, por exemplo, promovem graças a suas programações artísticas ecléticas encontros entre públicos de diferentes tribos, comportamentos, perfis sociais e culturais, gerações. Neste mundo cada vez mais desagregado, em que o convívio presencial é relegado em favor da solitária virtualidade das telas, a saudável catarse de uma galera heterogênea que canta e dança assistindo junto ao show de um mesmo ídolo é uma afirmação de vitalidade do espírito coletivo. Confraternizar cansa, mas a energia única que em um festival imanta palco e plateia vale a muvuca.

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