sexta-feira, 28 de agosto de 2026

28 de Agosto de 2026
MARCO MATOS

O entrevistado fui eu

Vim aqui contar uma história que aconteceu comigo nas últimas semanas e como um bate-papo despretensioso se transformou em algo surpreendente, capaz de ajudar a curar algumas feridas profundas da percepção que tenho de mim mesmo.

Sou acostumado a olhar para o outro. Fui treinado para entrevistar, para encontrar na história alheia pontos que possam interessar ao grande público. Faço isso todos os dias há quase 15 anos, desde que me formei em Jornalismo. Aprendi a escutar, a observar e, muitas vezes, a fazer as perguntas. Raramente sou eu quem precisa respondê-las.

O causo que quero compartilhar hoje com vocês é sobre a minha participação no podcast do Luciano Potter, o Potter Entrevista (que, aliás, está disponível no YouTube. Vai lá assistir!).

Primeiro, deixa eu explicar quem é o Potter para mim. É o cara que eu escuto desde a adolescência, nos tempos da Rádio Atlântida, do início do Pretinho Básico e de programas de TV como o Patrola. Uma referência para qualquer guri da minha idade. Eu tenho 35 anos; ele, 47. Embora eu trabalhe na TV há bastante tempo, poucas vezes encontrei o Potter na empresa.

Durante muito tempo associei o Potter ao bom humor, aos papos leves e descontraídos. Por isso, quando cheguei para a gravação, imaginei uma conversa nessa linha. Bastaram os primeiros minutos para perceber que seria diferente. Ele tinha estudado sobre a minha vida e parecia genuinamente interessado em conhecer partes da minha personalidade que costumo guardar para mim.

Me senti confortável para falar. Falei, inclusive, coisas que até então só tinham aparecido na terapia. Dei opinião sobre como percebo o preconceito hoje em dia, contei sobre escolhas que mudaram o rumo da minha vida e também toquei no ponto mais delicado da minha memória: o bullying que sofri na escola por ser gay.

Ao sair dali, fiquei pensando em como a gente carrega determinadas dores por anos, às vezes décadas, sem perceber o peso que elas ainda exercem sobre nós. A conversa me lembrou da importância de verbalizar aquilo que nos incomoda e de como, muitas vezes, processamos melhor os sentimentos quando ouvimos a nós mesmos dizendo as coisas em voz alta.

Em certo momento, até corrigi uma colocação dele sobre "opção" sexual e tive a oportunidade de explicar que sexualidade não é uma escolha. Potter ouviu, reconheceu o ponto e fez o que um grande comunicador deve fazer: me deixou confortável.

Talvez essa tenha sido a grande surpresa daquela tarde. Não a entrevista em si, mas a sensação de ter sido escutado de verdade.

Ainda ganhei uma carona pra voltar pra casa e uma chuva de comentários positivos e mensagens de apoio nas minhas redes.

Como é bom conversar. 

MARCO MATOS

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