Anjos de asas cortadas
Foi só um tapa, e crianças aparecem espancadas. Foi só um empurrão, e crianças são arremessadas nas paredes e nos móveis. Foi só uma queda de uma brincadeira, e crianças entram em coma.
O inferno deve estar vazio, porque as tragédias estão enchendo as nossas ruas. Em Porto Alegre, no domingo passado, presenciamos mais um episódio de inexplicável e sombrio assassinato na infância.
Samylle, de 4 anos, sob a tutela dos tios, apesar de a guarda judicial pertencer à mãe, não resistiu aos ferimentos advindos de um castigo. O responsável de 22 anos afirma que aplicou apenas palmadas em sua bunda, e numa única vez, porém Samylle morreu de politraumatismo.
A Justiça decretou a prisão preventiva do réu. A Polícia Civil trata o caso como homicídio doloso, por ele ter assumido o risco de causar a morte.
O casal de tios com o qual Samylle morou nos últimos meses, com o aval do Conselho Tutelar, buscou atendimento na UPA Bom Jesus porque a menina havia convulsionado, e alegou que os hematomas seriam decorrentes de um tombo numa recreação.
Não é correção, nunca será correção, mas brutalidade a um ser frágil. Não é que perdeu a medida, mas promoveu um ato de violência gratuita e insana. Não é que educava, mas intimidava. Não é que pretendia dar uma lição provisória, mas investia suas forças para calar uma inocência para sempre. Não é que pretendia que ela deixasse de fazer algo errado, mas que deixasse de viver e perturbar.
A boçalidade nunca tem freios. Nem a vulnerabilidade inibe o ataque. A raiva não pede licença nem motivos. Não era a criança que vinha precisando de limites, era o adulto que carecia de limites.
Novamente aquele que cuidava matou. Novamente o berço se tornou cemitério. Novamente ouvimos versões inverossímeis a partir dos depoimentos para as autoridades. A criação nas mãos erradas gera destruição.
A razão assassina, de acordo com testemunha, resumiu-se ao fato de a pequena ter feito necessidades na calça. É de se supor o quanto ela já vivia sob o jugo de ultimatos e pressão psicológica. Seu corpo se mostrava desregulado de tanto medo. Clamava por ajuda. Gritava por socorro.
Samylle não pôde se defender, não pôde dizer o que sofria, não pôde ser resgatada por um colo redentor.
Desejava ser amparada, traduzida, apoiada, orientada. Desejava que alguém preparasse as suas tranças, colocasse os enfeites coloridos nos seus cabelos, a incentivasse a rir, demonstrasse paciência para responder à sua curiosidade sobre o mundo. Embora tenha trocado de lar após denúncias que correm em sigilo, não encontrou o carinho de que precisava, e sim manchas roxas na cabeça, nas pernas e nas nádegas.
Como se sentiria protegida, migrando de casa em casa, de crise em crise, sem jamais encontrar uma rede realmente segura? Não vai passar. Dói monstruosamente, e não vai passar. Cortam-se as asas dos anjos. Não há escada para o céu.

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