segunda-feira, 3 de agosto de 2026


03 de Agosto de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Nós e as máquinas

Parece que não se fala de outra coisa - mas o que se sabe, com certeza lavrada em cartório, não recheia uma empada. IA: duas letrinhas cercadas de dúvidas por todos os lados. Para que mares nunca dantes navegados estamos nos dirigindo? Vai ter lugar para todos nesse transatlântico mecatrônico ou vamos precisar disputar a tapa uma vaguinha nos botes infláveis da terceira classe?

Os entusiastas (ou "boomers") estão convencidos de que o futuro será tão espetacular que gostariam de estar nascendo agora, em agosto de 2026, para aproveitar todas as delícias desse Shangri-la sem doenças, sem miséria e sem trabalho chato que a nova revolução tecnológica promete. Já os fatalistas ("doomers") chegam a duvidar que as crianças de hoje vão ter tempo de chegar à idade adulta antes do cataclismo final.

Se você está com a sensação de que a tecnologia anda mais rápido do que a sua capacidade de assimilar novas angústias, bem-vindo ao clube. A boa notícia é que o gênero "IA para leigos" vai de vento em popa. Deixo aqui duas sugestões para quem quer mergulhar no assunto da maneira menos árida possível.

A primeira é o documentário The AI Doc: Or how I became an apocaloptimist, de Charlie Tyrell e Daniel Roher, que estreou este ano no Sundance. O mérito do filme é colocar um sujeito que entende pouco ou nada de tecnologia para conversar com "boomers", como Sam Altman (OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic), e "doomers", como o historiador Yuval Harari e Tristan Harris (ex-Google), entre outros, fazendo as mesmas perguntas tolas e urgentes que a gente faria, se pudesse.

A segunda sugestão é o livro A máquina e nós (Todavia), de Tatiana Roque. Professora titular do Instituto de Matemática da UFRJ, a autora começa explicando como a IA funciona e a situa na grande história da relação dos homens com as máquinas. O livro prossegue discutindo temas como o impacto da IA no ambiente e no mercado de trabalho e os desafios que o Brasil vai ter que enfrentar para não comer mosca. Tudo isso sem perder a graça e o estilo, com referências que vão de Machado de Assis e Clarice Lispector a Mad Men e Scooby-Doo.

Sobre a nossa inteligência em relação à das máquinas, olha o que ela nos diz: "Todas as palavras podem ser aprendidas pelas máquinas um dia, com treinamento adequado, desde que registradas, transformadas em números e incorporadas num espaço matemático. O que o aprendizado artificial não capta é a infinita capacidade humana de seguir inventando coisas novas, cujos nomes e significados remetem a experiências singulares".

Para os "apocaloptimistas", o jogo ainda não está perdido. _

CLÁUDIA LAITANO

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