sábado, 28 de fevereiro de 2009



01 de março de 2009
N° 15894 - MOACYR SCLIAR


Carro abandonado

Na frente do prédio onde moro há um carro abandonado, um velho Fiat preto. Está ali há muito tempo, coberto de poeira, os pneus vazios. Não olhei dentro, mas o rádio, se existia, provavelmente foi roubado.

Carros abandonados não são raros em Porto Alegre e nas cidades grandes em geral. A menos que estejam estacionados em local proibido, ou a menos que algum morador tome alguma providência a respeito, dificilmente chamarão a atenção, e assim continuarão por algum tempo, ou por muito tempo, no lugar em que foram deixados.

Há uma história atrás desses carros abandonados. Ou muitas histórias. Pode ser um veículo roubado que foi deixado ali, sem que ninguém avisasse o proprietário. Mais provavelmente, porém, foi este que renunciou ao seu carro. Por quê?

A gente pode imaginar um jovem que, com muito sacrifício, comprou um veículo usado, transformando o sonho em realidade. Ali está ele, ao volante, dirigindo feliz pelas ruas da cidade. Um dia, porém, o carro estraga. Numa rua, longe de onde ele mora, o motor apaga e não liga mais, o que, claro, não é de estranhar num veículo antigo, precário.

O rapaz chama o mecânico, que depois de um sumário exame, abana a cabeça: os problemas são vários, o conserto custará um dinheirão - que o rapaz não tem. Mas que espera conseguir, talvez arranjando um bico, talvez fazendo hora extra, talvez ganhando na loteria - afinal, um dia a sorte tem de lhe sorrir. Mas não sorri.

E enquanto isso, o carro fica ali, ao sol, à chuva, ao vento, ao sereno da noite, esperando pacientemente que o socorro um dia chegue. Mas não há jeito de o jovem proprietário conseguir a grana. Dia sim dia não ele vai até a rua em que o carro está estacionado; passa a mão sobre o teto do veículo, remove um pouco das folhas e da poeira, murmura baixinho: “Eu não te abandonei, amigo, eu não te abandonei, eu continuo fiel”.

Mas mesmo essa fidelidade um dia acaba. Acaba, ou porque o rapaz não suporta ver o seu adorado carro naquela situação lamentável, acaba porque a vida continua, a vida com suas inesperadas mudanças. Ele pode, por exemplo, ter mudado de cidade, uma coisa que acontece muito.

E, nesta mudança talvez sua sorte tenha melhorado, e melhorado bastante. Talvez ele agora ganhe um bom dinheiro; poderia pagar o conserto mencionado pelo agourento mecânico, mas não o fará: a esta altura já esqueceu do veículo abandonado, que já deve ter sido rebocado há muito tempo pela EPTC.

Além disso, a prosperidade (estamos falando numa época que precede a atual crise) permitiu-lhe comprar outro carro, novo e flamante. Troca inevitável, afinal as pessoas trocam de namorada, de cônjuge, de curso, de emprego, por que não trocariam de carro, uma coisa tão fácil de fazer, segundo os anúncios da tevê? Tem um novo carro, sim. Tem uma nova vida. O passado ficou para trás.

Um dia, agora em seu novo e confortável apartamento, ele abre uma gaveta cheia de coisas velhas, sem serventia – e lá encontra um molho de chaves. Por um momento olha aquilo sem entender, e então dá-se conta: são as chaves de seu antigo automóvel, aquele que um dia ele deixou numa rua qualquer.

Por um momento sente nostalgia, remorso, até; ele, que tinha jurado não abandonar o seu carro, agora nem reconhece as chaves que usou durante todo o tempo. Eu não valho nada, pensa, com um amargo sorriso.

Mas o seu mal-estar dura apenas um momento. Logo em seguida, com um suspiro, joga as chaves no cesto do lixo. O carro abandonado é capítulo encerrado. Como tantos outros capítulos de uma história que nem sempre faz sentido.

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