domingo, 27 de março de 2016



25 de março de 2016 | N° 18482 
NÍLSON SOUZA

AMOR ANTIGO

Amo minha cidade muito antes de conhecê-la.


Trabalhei durante 14 anos no Beco do Fanha, tive uma namorada na Rua da Figueira, andei de bonde pela Rua do Paraíso, estacionei meu Fusca muitas vezes na Rua do Arvoredo e percorri, por incontáveis dias e noites, a Rua Formosa, o Beco do Império, a Rua da Varzinha, a Rua do Cotovelo e tantas outras localizadas nas proximidades.

Falo, como já perceberam os mais antigos e os estudiosos da geografia porto-alegrense, desta Capital aniversariante, onde nasci e onde – a exemplo de Quintana – serei provavelmente poeira ou folha levada no vento da madrugada.

A Porto Alegre dos meus andares já era outra quando realmente a conheci. Meu primeiro emprego no jornalismo foi na Rua Caldas Júnior, onde um dia morou um taberneiro fanhoso, segundo o historiador Sérgio da Costa Franco. Minha namorada, hoje minha mulher, morava na Rua Coronel Genuíno quando a conheci, mas lá já não estava mais a figueira que lhe deu o nome romântico. A Rua do Paraíso já tinha virado José Montauri quando me pendurei no bonde-gaiola, que se inclinava pelas cercanias da Praça XV. E os arvoredos da Fernando Machado, testemunhas do célebre episódio do açougueiro que fazia linguiça com carne humana, já eram escassos quando passei a estacionar por lá.

Frequentador compulsório do Centro Histórico, onde trabalhava, perambulei pela Duque de Caxias, que um dia foi mais formosa, pela Espírito Santo, que substituiu o beco imperial, pela Demétrio Ribeiro, que já não tinha mais várzeas, e pela Riachuelo, que ainda rima com cotovelo. Há tantas mais, inclusive a inspiradora Rua dos Pecados Mortais, rebatizada para homenagear um dos nossos generais – o cachoeirense Bento Martins.

Porto Alegre, que completa 244 anos neste sábado, ainda tem ruas encantadas que nem em sonhos sonhei, mas basta uma consulta ao mapa do passado para se perceber que a vida nesta cidade já foi mais tranquila, criativa, pacífica e deliciosa.

Tenho saudade da Porto Alegre que conheci e também daquela que não conheci, mas amo esta que me abriga e me desafia. Feliz aniversário, meu chão!


25 de março de 2016 | N° 18482 
DAVID COIMBRA

O mal da liberdade

Outro dia, eu falava de liberdade. A liberdade é uma desgraça. Os homens acham que ser livre é ser feliz. Ao contrário: ao buscar a liberdade, o homem encontra a aflição.

O Eclesiástico recomenda o seguinte, acerca do que denomina “jugo suave” da sabedoria:

“Bota teu pé nos seus grilhões

E o teu pescoço na sua coleira.

Sujeita teu ombro e carrega-a,

E não te impacientes com suas correntes.

No fim, encontrarás nela teu descanso

E ela se transformará em teu contentamento.”

Esse Eclesiástico não é o Eclesiastes. O Eclesiastes era o rei Salomão, que viveu com fausto, inteligência e 600 concubinas 10 séculos antes de Cristo. O Eclesiástico respirou o ar da Palestina 800 anos depois de Salomão. Como Cristo, também se chamava Jesus. Jesus ben Sirac.

Gosto dessa passagem que citei acima: o homem encontrando remanso na submissão. E, se a submissão é à sabedoria, tanto melhor. Feliz do homem que pode escolher de quem será escravo.

Mas até essa forma de liberdade, a liberdade de fazer escolhas, faz mal. Você acha que poder tomar decisões é ser livre? Nada: ser livre é não ter opção. Você tem de ir por ali e pronto, está resolvido, não é preciso mais pensar no assunto.

Olhe para uma criança. Se você é pai e lhe dá opções, você lhe causa sofrimento e revolta. Bom pai é aquele que decide tudo pela criança. Você vai vestir isso aqui. Você vai comer o que está na mesa. Está na hora de dormir, vá para a cama.

A criança reclama, mas, no centro da sua alma, está se sentindo protegida.

E esta é a palavra, este é o ponto: proteção. A segurança é o contrário da liberdade.

É uma fórmula matemática: quanto mais segurança, menos liberdade; quanto mais liberdade, menos segurança.

Era do que havia falado, dias atrás.

Às vezes, porém, esses dois conceitos não se opõem: fundem-se. Vou tomar como exemplo estes dois grandes países da América que conheço bem: o Brasil e os Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, a lei é mais dura do que no Brasil. Os juízes, em geral, são Moros. Havendo crime, procuram o culpado; identificando o culpado, procuram condená-lo exemplarmente. A população carcerária é cinco vezes maior do que a do Brasil. São 2,5 milhões de pessoas “behind bars”, como eles dizem. Um roubo trivial às vezes custa 10 anos de cadeia.

Se você desobedece ou simplesmente discute com um policial americano, ele o imobiliza, algema e arrasta para uma cela de cadeia. Já vi policiais censurando cidadãos aos gritos por coisas sem importância, como atravessar fora da faixa de segurança. Meu Deus, que constrangimento. Dá medo dessa polícia daqui.

No Brasil, levar uma descompostura dessas dimensões de um policial é algo impensável, mesmo quando o cidadão erra flagrantemente. E um roubo comum não dá cadeia. O sujeito vai para a delegacia e, em poucas horas, está nas ruas de novo, para de novo roubar. É o tal prende e solta. Se contasse para um americano que no Brasil alguns tipos são detidos mais de 60 vezes, ele não conseguiria entender. Mas não conto. Tenho vergonha.

No Brasil, portanto, parece haver mais liberdade do que nos Estados Unidos. Parece.

Na realidade, sinto-me mais livre nos Estados Unidos, porque aqui posso caminhar pelas ruas sem medo daquela turma que vem da outra calçada, vejo casas sem cerca, bancos sem vigilância, prédios sem porteiro. Aqui, não preciso tomar cuidado quando paro o carro debaixo do semáforo, nem tenho que dar dois reais para o flanelinha, porque não há flanelinha.

Essa questão é a seiva do nosso drama atual. Falarei mais disso amanhã.


25 de março de 2016 | N° 18482 
CLÁUDIA LAITANO

Silêncio


Para a maioria das pessoas, tradições familiares costumam estar associadas a festas religiosas – Natal e Páscoa em especial, para os cristãos. Como o Natal compete com a enorme carga de compromissos de fim de ano, a Páscoa acaba oferecendo mais oportunidades para uma celebração familiar, religiosa ou não, mais plena. Vejo amigos de hábitos solidamente seculares pintando ovinhos, decorando a casa e preparando brincadeiras para as crianças no domingo de manhã. Não apenas porque “todo mundo faz” ou “todo mundo sempre fez”, mas pela sensação de aconchego que esses rituais que fogem à lógica prática do dia a dia proporcionam para adultos e crianças.

É curioso o caminho que rituais e tradições percorrem ao longo do tempo dentro de uma família. Alguns atravessam gerações, sobrevivendo praticamente inalterados à passagem do tempo e à miscigenação com outras famílias. Outros são recriados, adaptados aos novos tempos, reinventados pelos mais jovens, recombinados com outros hábitos. 

E há os que se perdem – de uma vez só, por decisão consciente de quem decide cortar laços com tradições que já não fazem sentido, ou aos poucos, por falta de energia para retransmitir experiências significativas da infância para as gerações mais novas. Muita gente, porém, tem percorrido o caminho inverso, retomando contato com o passado em busca das raízes e da sensação de pertencimento que fazem falta para além da vivência propriamente religiosa.

Não venho de uma família muito ligada a rituais, mas na Sexta-feira Santa pelo menos uma coisa era sagrada lá em casa: ninguém podia brigar. Sabíamos, eu e meus dois irmãos mais velhos, que falar alto e ouvir música não era muito santo perto da Páscoa, mas a única regra da qual nossa mãe não abria mão mesmo era a da trégua nas disputas mais acaloradas por algum brinquedo ou programa de TV. 

Como filha caçula e única menina, em geral servia apenas de plateia para as brigas dos mais velhos e portanto era fácil guardar o silêncio e a compenetração exigidos pelos adultos. Mesmo um pouco forçada, a paz da Sexta-feira Santa me caía bem. Como se aquele dia mundial da paz artificial fosse realmente especial e diferente de todos os outros.

Ainda assim, nunca me ocorreu, na vida adulta, que essa tradição já meio esquecida me fizesse falta. Até este ano. Em meio a tanto ruído e confusão, a ideia de uma sexta-feira reservada para o silêncio e a contrição nunca me pareceu tão apropriada – e sagrada.


24 de março de 2016 | N° 18481 
DAVID COIMBRA

Os perigos da lista

Calma! Nada de ansiedade nesta hora de peles eriçadas e respirações suspensas.

A decisão do ministro Teori, de resguardar o sigilo da gravação envolvendo Dilma, não é ruim para a Lava-Jato, esse evento que, todos sabemos, é o mais importante para o país, depois do Plano Real.

Ao contrário. É ótima.

Em primeiro lugar porque, mesmo que a divulgação da gravação seja de relevância pública, Moro errou ao não consultar o STF antes de liberá-la.

Em segundo porque, com sua decisão, Teori acaba com as teorias persecutórias dos governistas. Teori demonstrou que a democracia brasileira não corre nenhum risco devido às investigações da Lava-Jato, que a soberania nacional não está em perigo e que as instâncias superiores da Justiça não se sentem acovardadas pela República de Curitiba.

Ou seja: está tudo correndo normalmente. Não existe essa história de golpe, e o tão citado Estado democrático de direito não sofre a menor ameaça. Se Dilma cair, será por meios constitucionais. Se continuar no cargo, idem.

Moro é ótimo juiz e está fazendo ótimo trabalho, mas é jovem e, como todo jovem, às vezes se torna afoito. Foi afoito no caso da ligação envolvendo a presidente da República.

O método de Moro, porém, tem sido o mesmo desde o começo. Há dois anos que ele autoriza conduções coercitivas, prisões preventivas e publicação do conteúdo das investigações. Para ele, tudo que é de interesse público tem de ser publicado. É uma escola do Direito.

Você pode concordar ou não com ele, mas o fato é que seu critério não mudou: ele está agindo com políticos da mesma forma que agiu com empresários, doleiros e assalariados comuns, como eu e você.

Acontece que agora a investigação chegou ao seu ponto nevrálgico: a política. E a política, como qualquer ponto nevrálgico, dói.

Um político é diferente de qualquer um de nós. Um político ganha votos. Ou seja: as pessoas estão depositando confiança nele. Um político lida com dinheiro público, com interesses públicos, e por isso sua conduta é também de interesse público.

Mas um político não tem só eleitores a cobrá-lo. Cada político é um líder, inclusive aquele verdureiro que se elegeu vereador no seu bairro. Cada político tem apoiadores, seguidores, às vezes devotos. Nos diálogos gravados de Lula, esses devotos despejam-se às catadupas. O ministro Jaques Wagner se oferece para carregar a pasta de seu amado chefe, e Lindbergh Farias chegou a dizer:

– Nós adoramos o senhor!

Ao lado do arfante Lindbergh estava Jandira Feghali, aquela deputada com cara de cartomante que protagonizou uma das cenas mais hilárias de toda essa história – depois de Lula ter sido levado a depor, ela foi fazer um vídeo bajulando-o e começou:

– O presidente está calmo, está sereno...

E, atrás, Lula esbravejava ao telefone, dizendo para Dilma que queria que a Justiça enfiasse o processo contra ele por entre um dos nove orifícios do corpo humano.

Que momento da República.

Mas o que interessa, por ora, é que qualquer político sempre contará com defensores ardorosos, gente que acredita mesmo nele ou quer ou precisa acreditar. Logo, esta etapa das investigações é muitíssimo mais sensível.

Ontem, 200 nomes de políticos de 18 partidos explodiram em público, na divulgação da lista de contribuições da Odebrecht. Sabe-se que vários receberam do caixa 2, mas outros tantos não. Por esses, pelos honestos, é preciso ter cuidado. Saber do comportamento público dos homens públicos é importante, é direito do cidadão. Mas saber o que fazer com essa informação é mais importante ainda.




24 de março de 2016 | N° 18481 
L. F. VERISSIMO

Em Cuba

Obama in Habana, quem diria? De acordo com o Fox News, o programa de TV preferido da direita americana, o encontro de Obama e Castro foi a primeira vez em que um ditador comunista e sanguinário esteve com um líder cubano. Até a visita do Obama, a relação mais próxima de um presidente americano com Cuba tinha sido o que, alegadamente, Clinton fazia com a estagiária e charutos Montecristo. Kennedy não pôde ir a Cuba, mas mandou uma delegação, a força-tarefa que invadiu a ilha mas não passou da Baía dos Porcos. 

Muitos outros americanos visitaram Cuba depois disso, a maioria infiltrada pela CIA – às vezes, dizem, com a ajuda da Máfia – para matar o Fidel, que continua vivo. Contam que na entrevista à imprensa dada por Obama e Castro houve um momento de confusão quando tocaram no assunto dos presos políticos em Cuba e não ficou claro se incluíam os presos sem julgamento na base americana em Guantánamo. Mas tudo acabou bem, e o Baraca foi, mais uma vez, histórico.-

ACABAMENTO

Vi uma foto da última manifestação gigante contra a Dilma, em que aparece um cartaz com a frase “Cadeia é pouco, fuzilamento já”. Não eram necessárias mais do que duas pessoas para carregar o cartaz, que talvez só expressasse o sentimento ou o desejo delas, em meio a uma maioria que protestava em paz e não pedia sangue. Mas era notável o bom acabamento do cartaz. Seu conteúdo não era uma frase raivosa pichada numa faixa de pano para levar na passeata. Era um cartaz bem pensado, executado com esmero, em duas cores, coisa de profis.

Me lembrei da época da eleição do Collor, quando eu recebia cartas anônimas de pessoas descontentes com minha opinião sobre o candidato. E o que mais me impressionava não era a ameaça do que fariam comigo e com meus filhos, era a qualidade das cartas. Bem escritas, em bom papel, sem um erro gramatical que denunciasse um autor energúmeno, até inspiradas na descrição da variedade do que fariam conosco. E, mais assustador do que os castigos anunciados, para mim, era aquele acabamento caprichado das cartas. 

Uma pessoa letrada, com uma noção de estilo literário e layout gráfico, pensara no que iria escrever, escolhera as barbaridades que nos intimidariam, selecionara criteriosamente um envelope fino – e dentro do envelope vinha puro ódio. Ingenuidade minha, a de pensar que o bom gosto previne o instinto assassino, ou que pessoas civilizadas são imunes ao ódio.

Mais assustador do que o bom acabamento, claro, é pensar que o que dizia no cartaz era a vontade de mais do que as duas pessoas que o carregavam.



23 de março de 2016 | N° 18480 
MARTHA MEDEIROS

Nós, o povo


Ninguém tem bola de cristal pra saber como terminará este inquietante 2016, mas acredito que o momento é perfeito para deixar de lado a disputa entre coxinhas e petralhas e pensarmos juntos no país que desejamos para o futuro. Nunca participei de nenhuma manifestação, pois não concordava com o espírito partidário das mesmas e não tinha vontade de caminhar lado a lado com alguns reaças notórios, mas, a partir de 16 de março, aderi ao constrangimento e à vergonha nacionais. 

Ficou confirmado tudo o que intuíamos: nossa classe política é um desastre. Todos os governos fizeram algo de bom durante suas gestões, mas a volúpia pelo poder e pelo dinheiro sempre estraga tudo. Admito que me incomodam os grampos telefônicos realizados recentemente, considero violência qualquer invasão de privacidade, mas a situação é de guerra e estão todos usando as armas que têm – de ambos os lados. Não é uma coisa bonita de se ver, mas é o que temos pra hoje.

Qual o nosso papel nisso tudo? É preciso ter consciência de que a corrupção não começa no governo: termina ali. Começa dentro de nossas casas, no trânsito, no nosso cotidiano civil. Somos um povo que passa trote em telefones de emergência, que falsifica carteiras de estudante, que faz gato para roubar energia elétrica e telefonia a cabo, que atravessa a rua fora da faixa de pedestre, que alerta os carros velozes na estrada para o radar que está logo em frente, que estaciona em vaga para deficientes e idosos, que forja atestados médicos para faltar ao trabalho, que molha a mão do policial para evitar multas, que pula catracas, que guarda lugar em auditórios para os amigos atrasados, que leva para casa cabides de hotéis, que joga lixo nas calçadas, que acha normal não cumprir o horário combinado, que falsifica a assinatura dos pais, que adultera o odômetro do carro antes de vendê-lo e mais um longo etcetera. 

Não estou falando dos outros, e sim de nós. Sem isenção. Os políticos não vêm de Marte, eles são frutos desta mesma sociedade. Nunca teremos representantes éticos se não formos uma sociedade ética.

Então, tudo bem ocupar as avenidas e protestar, mas sem hipocrisia: ou a gente muda, ou nada muda. Que essa catarse coletiva leve em consideração a nossa responsabilidade nisso tudo. Que aproveitemos para amadurecer e reconstruir essa nossa mentalidade viciada em jeitinhos. E que, finalmente, venham novos dias.



23 de março de 2016 | N° 18480
ARTIGOS -PAULO TORELLY*

O IMPEACHMENT E A OAB


Ainda não estão claros para a advocacia os motivos do açodamento da decisão do Conselho Federal da OAB para aderir ao impeachment contra a presidenta da República. Para nós, que lideramos a única oposição no recente processo eleitoral da OAB/RS, ressalta a falta de participação do conjunto da profissão em mais essa decisão.

Sem entrar no mérito do impeachment, pois aguardamos a peça processual que tentará dar substrato jurídico à iniciativa, é significativa a inconformidade de vários ex-presidentes da OAB nacional diante do inusitado anúncio. E com ela o próprio “racha” de segmentos que há muito apoiam o atual presidente do Conselho Federal. É verdade que o moralismo da velha UDN e a perspectiva de bons negócios embalaram a aventura da OAB em 1964, mas os tempos são outros. O contraste diante do pálido posicionamento da entidade com relação à violação das prerrogativas da advocacia é flagrante em meio à luta política que divide o país em face da crise econômica e dos equívocos do próprio governo e de seu partido.

O lado positivo está na anunciada discordância de lideranças nacionais da advocacia com qualquer solução autoritária, o que pode ser o começo da superação de uma entidade autocrática e pouco transparente em sua gestão. Dentre outros, toma relevo a discordância pública dos ex-presidentes nacionais da OAB Roberto Batochio, Cezar Britto e do líder do impeachment de Collor, Marcello Lavenère, no sentido de reverter tal decisão e trazer a OAB de volta para o leito da serenidade. Mais do que isto, pode ser o começo de uma reforma institucional que assegure proporcionalidade nos conselhos e eleições diretas para presidente nacional da entidade.

Muito mais do que fazer o necessário barulho de protesto contra soluções autoritárias, é hora de reunir amplos segmentos da profissão comprometidos com a democracia e que sempre foram céticos diante da herança de 1964, ainda hoje ativa em detrimento de uma sociedade aberta. O Brasil precisa da OAB e a advocacia precisa de uma entidade democrática para bem servir ao país.

*Advogado e doutor pela Faculdade de Direito da USP


22 de março de 2016 | N° 18479 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

PARA OUVIR


Quando você chegou a tudo transformou. Chegou tranquilamente – quase levitei, como se fosse leve tudo ao meu redor, como se fosse algo que nunca perdi, como se tivéssemos nos escondido. Hoje você está aqui, para sempre está.

Este é o Carlos Badia, trecho da letra da Filho, uma linda canção, doce, um acalanto em forma de balada, uma saudação a quem chega neste mundo estranho. É uma faixa de um dos dois discos publicados juntos no projeto Zeros – um de músicas sem letra, outro de canções. Tudo elegante, muita variedade de estilos, sempre agradável ao ouvido, uma companhia de qualidade que nunca subestima o ouvinte.

A lei é cega, cega que tão bem enxerga quando lhe convém. A lei não quer ver, serve a quem melhor lhe paga, para o mal e o bem, e sobe o seu altar para ser só letra morta que se apaga com tum tiro à queima-roupa.

Agora é o Nei Lisboa, cantando A Lei, que não se refere ao juiz Moro ou a qualquer outro, porque se dirige ao ar geral que respiramos, de vez em quando sufocante, logo ali, espero, agradável. O disco tem nome longo e faz tropeçar um pouco, Telas, Tramas & Trapaças do Novo Mundo. Gravado ao vivo, com energia e aquele violão baladeiro que a gente acostumou a ouvir ao fundo da voz e das sempre inteligentes letras do Nei.

A paz não é uma pomba. A paz não está no esquife, nem na tumba, nem no além, nem no credo, nem no amém, na aposta ou no cacife: a paz não é uma grife ou um logotipo eficiente. Paz será paz plenamente quando for a paz comum de todos e cada um.

E este é o Richard Serraria, numa das canções performáticas do eletrizante cd/projeto Bataclã FC & Mastigadores de Poesia. Tem música e tem mastigação – um conceito novo, ou uma imagem nova, para a tarefa estranha de dizer poesia.

Três projetos musicais e poéticos com capacidade de ajudar a atravessar esse trechinho estranho da vida brasileira. E tenho dito.



22 de março de 2016 | N° 18479 
DAVID COIMBRA

O Brasil na encruzilhada


Os governistas têm gritado que o juiz Moro, por suas decisões “arbitrárias”, estaria pondo em risco a democracia brasileira. Vejo até gente de boa cabeça gerando textos dramáticos em defesa do “Estado democrático de direito”. Dramáticos e ilógicos.

Basta pensar: Moro é juiz de primeira instância. Há outros juízes acima dele. Suas decisões podem ser modificadas. Quando são feitas apelações, o TRF da 4ª Região, de Porto Alegre, analisa-as. Depois, cabe ao STJ e ao STF.

Mais de 400 recursos foram apresentados desde o começo da Lava-Jato. Só 3,8% foram aceitos. Lula alegaria que isso se deu porque o STF e o STJ estão “acovardados” diante de Moro. Mas e quando a Lava-Jato começou e Moro nem era conhecido? Por que suas decisões foram referendadas quase que por unanimidade?

Se você não está desesperado para salvar seu ídolo Lula, vai admitir que é porque as decisões de Moro são bem fundamentadas tecnicamente.

Isso quer dizer que Moro é infalível? Claro que não.

Olhe para o STF: Dias Toffoli é obviamente a favor do governo, Gilmar Mendes é obviamente contra. Se tomarem decisões opostas no mesmo tema, quem estará correto?

O direito não é exato. Depende da interpretação. Depende do juiz. Igual a uma partida de futebol.

Também no STF há outro juiz, Marco Aurélio Mello, que não me parece a favor nem contra o governo, mas emprega um estilo jurídico diferente do de Moro. Mello é representante da justiça com a qual os brasileiros estão mais acostumados: tolerante, centrada nos direitos do indivíduo.

Moro é juiz rigoroso, estilo norte-americano, que busca a defesa da sociedade e a punição dos crimes como medida profilática, além de corretiva.

Moro, como o velho Joaquim Barbosa, faz um tipo de justiça que vem sendo reclamado pela sociedade brasileira faz tempo. Os brasileiros não estão sempre repetindo que o problema do país é a impunidade? E é mesmo. Só que, para se resolver o problema da impunidade, é preciso punir.

Esse estilo de justiça, de fato, é eficiente. Nos Estados Unidos, um país muito maior, mais populoso e de população mais variada do que o Brasil, existe elevado nível de segurança, algo que nós jamais experimentamos.

A segurança, no entanto, tem seu custo.

A vida do homem é a eterna busca por dois bens intangíveis: segurança e liberdade. Queremos ambas. O problema é que, quanto mais se tem de uma, menos se tem de outra.

Mesmo nos Estados Unidos essa justiça dura sofre críticas. Obama é um dos que pregam mais tolerância.

Moro, portanto, não é infalível, não é herói, nem é a salvação da pátria. Também não é justiceiro sanguinário, inimigo das liberdades individuais. É apenas um juiz, um ótimo juiz, que, fazendo o seu trabalho com dedicação, está ajudando a mudar o país.

Não existe nenhum risco para a democracia brasileira. Nenhum. O que existe é uma encruzilhada: a partir do sucesso ou não da Lava-Jato, o Brasil continuará sendo esse país cheio de liberdades que é hoje ou se transformará num país com mais segurança.



22 de março de 2016 | N° 18479 
CARPINEJAR

A touca

A minha mãe não queria que lavássemos os cabelos todo dia. Não havia jeito de argumentar que era homem. Ela alegava que o cabelo iria cair (caiu do mesmo jeito, mãe!).

Sempre fui adepto, desde pequeno, de sair de banho tomado. Não gostava da sensação de ir para a aula com cheiro de cobertor. A água lavava os sonhos, acordava a pele, o perfume terminava sendo outro, mais inédito e duradouro.

Sem banho de manhã, as remelas venciam a guerra dos olhos, o suor azedava ao meio-dia e vestia o uniforme como uma incômoda fronha, com gosto de dormido.

Tinha que ser dia sim, dia não. E a mãe vinha oferecer uma touca transparente para pôr na cabeça. – Assim não molha o cabelo!

Não sei o que a touca pode influenciar na sexualidade dos meninos, mas boa coisa não traz. Para um guri em formação, com os pelos surgindo e a voz mudando, a touca significa a coroa de uma drag queen. O apogeu do ridículo.

Acredito que uma mulher até salve o adereço com o seu charme, porém a touca no tronco masculino é uma aberração de plástico. É uma camisinha de Golias. É uma fantasia de Carnaval mais do que uma proteção. É servir a carapuça da extravagância, o capacete da afeminação.

A touca é o equivalente a experimentar um sutiã e uma calcinha. É despentear uma peruca. Tem uma assinatura excessivamente teatral.

Nada contra botar a prevenção em cozinha ou hospital, mas daí estaria vestido e descontaria a sua afetação. O problema é a nudez com a touca. Não tem como ser levado a sério. Seremos alienígenas, a comicidade esvazia a seriedade do corpo nu.

Lembrei da touca quando um amigo me confessou que usa com a sua mulher na banheira. Como pode ainda se desejarem depois dessa visão suicida?


21 de março de 2016 | N° 18478
ARTIGOS - NELSON JOBIM*

O AMANHÃ DE HOJE 


Dizer que há uma aguda crise política, que alimenta e é alimentada por uma crise econômica, é um “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues.

Discutem-se as interceptações telefônicas em que estão, de um lado, o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff, além de outros.

No aspecto jurídico, duas indagações se apresentam. A primeira, sobre a legalidade das interceptações. Não só quanto ao seu deferimento e início, mas também quanto à suspensão.

Em relação a esta última, a questão circunscreve-se à modificação da competência judicial para o processo em que as interceptações foram autorizadas. O ex-presidente, como ministro de Estado, passou a ter foro privilegiado.

De outra parte, também no aspecto jurídico, tem-se a legalidade, ou não, do ato do juiz de liberar para a imprensa as fitas respectivas.

Isso propiciou toda a convulsão do dia 16 e os seus desdobramentos. A legalidade é matéria a ser examinada, discutida e decidida no Poder Judiciário e restrita à sua esfera de ação.

A segunda indagação diz com a consequência política do fato.

As consequências políticas independem do juízo jurídico que venha, eventualmente, a ser emitido pelo Poder Judiciário.

O reconhecimento da legalidade ou da ilegalidade das intercepções telefônicas e/ou da divulgação de seu conteúdo é irrelevante para a questão política.

Dr. Ulysses Guimarães, em situações análogas, após ouvir discussões sobre a legalidade ou ilegalidade de alguma conduta ou fato divulgado, dizia:

Senhores, estão vendo aquela cadeira?

Vejam, está nela sentado Sua Excelência O FATO.

Ele ocorreu e ponto.

O passado, agora, pede a resposta ao presente.

Vamos em frente.

É exatamente o que temos agora.

Legais ou ilegais as interceptações e/ou a divulgação, nada irá impedir suas consequências políticas.

Agravou-se a crise política.

O governo apela à experiência, à capacidade e à sensibilidade intuitiva do ex-presidente Lula para enfrentá-la.

A decisão do STF, do mesmo dia 16, encerrou a discussão sobre o rito do impeachment.

O presidente da Câmara dos Deputados decidiu instalar, desde logo, a Comissão Especial do Impeachment e marcou prazo para os líderes indicarem os nomes para sua composição.

O impeachment volta à ordem dia.

As posições políticas radicalizam-se.

O ódio recíproco permeia tudo. A economia oscila.

A recessão e o desemprego aumentam.

A superação impõe lucidez e racionalidade.

Há ou haverá espaço para tanto?

Jurista, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal*


19 de março de 2016 | N° 18477 
MARTHA MEDEIROS

A verdadeira virilidade

Que todos nós temos um lado masculino e um lado feminino, acho que não há o que discutir, mesmo que a ideia não agrade a alguns. Alguns homens, claro.


Outro dia, conversava com duas amigas sobre essa questão. Nós três somos mulheres eloquentes, determinadas, independentes e nem por isto desprovidas de doçura e feminilidade. O fato de termos algumas virtudes associadas ao padrão masculino de comportamento não gera em nós qualquer espécie de desconforto, ao contrário: só nos faz sentir mais interessantes. A tranquilidade é tamanha que, se alguém associasse nosso lado racional a alguma inclinação homossexual, receberíamos essa hipótese descabida com um sorriso absolutamente relaxado. 

Mulher não se preocupa com o que os outros pensam sobre sua sexualidade. Ela sabe quem é e do que gosta. Não precisa evitar os abraços calorosos nas amigas, nem as declarações de amor mútuas que costumamos fazer umas às outras. Manifestamos naturalmente nosso afeto sem nenhum motivo para autocontrole. Temos coisas bem mais importantes com o que nos preocupar.

Bem diferente do que acontece entre alguns homens. Nós três, durante o jantar, lembramos com um carinho quase maternal de alguns exemplares XY que fazem questão de afirmar sua macheza constantemente, como se alguém estivesse desconfiando de alguma coisa. Eles nem cogitam conviver amistosamente com a ideia de ter um lado feminino – que obviamente todo homem tem, em maior ou menor grau. 

Para muitos deles, essa dualidade é algo bem assustador. Uma pena, porque a homofobia está bastante associada ao medo latente de que os outros confundam quem eles são. Se não ficassem obcecados em demonstrar que têm uma identidade sexual acima de qualquer suspeita, não precisariam ficar agredindo quem é diferente deles.

Eu ainda era uma adolescente quando Pepeu Gomes compôs: “Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino”, enquanto Gilberto Gil corroborava: “Vivi a ilusão de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria”. Claro que os brucutus se apressaram em rotulá-los de bichas para liquidar o assunto, mas os homens antenados e inteligentes não se estressaram, captaram a mensagem e hoje estão unidos a nós na defesa de uma sociedade menos homofóbica, menos careta, menos provinciana. É justamente a porção feminina que eles têm (e que em nada ameaça sua virilidade) que faz com que não fiquem irritadinhos à toa e que também tenham mais com o que se preocupar.


19 de março de 2016 | N° 18477 
CARPINEJAR

O fim de um livro ou de um amor

Já perdi todo um livro de poemas, na época em que ele era datilografado e não existia ainda computador. Esqueci na mesa do bar do Antonio na UFRGS e jamais recuperei. Deve ter ido para alguma lixeira ou servido de rascunho para um escritório. Guardei o título: Minha Pequena.

Lembro que tentei reescrever e fracassei, pois tinha a sensação de tê-lo escrito, não havia mais aquela emoção que me movimentava a desabafar.

O fim de uma relação é igual. É como um livro feito durante meses, verso a verso, que acaba extraviado. Um livro que não existe mais, que tampouco será lido. Só você conhece o valor que estava ali, mais ninguém, a outra pessoa jamais receberá a mensagem por inteiro, jamais compreenderá o quanto você amou, o quanto mantinha fotografias mentais em sua saudade, o quanto se esforçou para dar certo e encontrar o ritmo da felicidade a dois.

Você disse e não disse, você explicou, mas não foi entendido. Sua voz se misturou ao vento, é chuva e não faz sentido gritar pela autoria com o estrondo dos relâmpagos. Não será ouvido, não convencerá de seu talento de amar, não inspirará remorsos com as rimas, não assegurará a longevidade das suas palavras.

Não disporá de chance de revisão dos acontecimentos, da releitura e do lápis sublinhando as passagens prediletas. Não experimentará o purgatório de uma biblioteca. Perdurará o ruído externo, cada um com a sua versão, e não virá à tona o testamento íntimo.

Não tem a prova de que os dias foram reais, de que o romance foi verdadeiro, de que valia a pena insistir pelas brechas dos risos e da cumplicidade em meio ao caos das dúvidas e das brigas. Contará apenas com a solidão de sua palavra contra a dela. De que modo comprovar a hemorragia de um coração que sangrou fora do tecido?

Até você duvida de sua sanidade, até você desconfia que não exagerou, inventou e distorceu as lembranças. Pois o desejo corrompe a memória e modifica os fatos de acordo com as vontades imediatas, que mudam com o sim ou com o não. O que poderia reconfortar é o preto no branco, a letra impressa, o papel juramentado que desapareceu no anonimato.

Não desfrutou de backup e da salvação dos arquivos temporários. É um cansaço sem recompensa. Uma exaustão sem finalidade.

O final de um amor traz a injustiça de um livro extraviado. Morreu escrevendo o que não virou vida e esperança. Talvez tenha sido a sua obra-prima, nunca descobrirá.



19 de março de 2016 | N° 18477 
PAULO GERMANO

É sempre a classe média

Essa conversa de que a classe média tenta derrubar o governo, de que há poucos negros e pobres nos protestos, de que a maioria dos manifestantes tem curso superior, de que o verdadeiro povo continua em casa, tudo isso nada mais é do que, atenção, agora direi algo importante, nada mais é do que... a verdade, ora bolas. Nua e crua. Não há como contestar nenhum desses pontos.

O que impressiona é a forma como intelectuais e jornalistas usaram essa informação ao longo da semana. Como se fosse inédito o fato de a classe média liderar manifestações populares e levantes contra o governo. Por favor! Se eles não sabem, lhes direi eu: faz 400 anos que isso acontece.

Pode-se discordar das razões para protestar, pode-se até considerar Dilma Rousseff uma excepcional estadista, tudo bem, questão de opinião, mas, ao diminuir a legitimidade dos atos com base na exígua presença de pobres, deprecia-se também algumas das maiores conquistas democráticas do país. Porque, vamos combinar: a esquerda universitária que lutou contra a ditadura era o quê? Proletariado, por acaso?

Eram militantes de classe média, e toda a guerrilha armada veio da classe média, e a Passeata dos Cem Mil estava entupida de classe média!

De tempos em tempos, ela troca de lado, revisa seus líderes, se joga nos braços de movimentos liberais, populistas, de esquerda ou de direita – depende de quem está no poder e, por consequência, na oposição. Ela pode nortear a vanguarda ou a retaguarda do processo político, pode agir para o bem ou para o mal, e foi assim na Inconfidência Mineira, na Conjuração Baiana, na Revolução Farroupilha, no Movimento Getulista, na Campanha da Legalidade, na Marcha da Família, nas Diretas Já, no Fora Collor e, se formos mais longe, dá para citar até a Revolução Francesa, a Inglesa e a Americana.

É claro que a classe operária se fez presente em alguns desses movimentos – e também se faria presente nas mobilizações contra Dilma, não fosse boa parte dos sindicatos e movimentos sociais um famigerado braço de atuação petista. Ainda assim, me chamou a atenção que no histórico dia 13, em Porto Alegre, tanto na manifestação pró-governo, na Redenção, quanto na passeata anti-Dilma, no Parcão, os moradores da periferia eram aqueles que vendiam bandeirolas e água mineral.

Não que os pobres sejam alienados, apenas têm prioridades mais urgentes e menos epopeicas do que sair de casa, a 20 quilômetros de distância, pegar dois ônibus e passar quatro horas pedindo a queda ou a permanência de um governo. Preferem, por exemplo, ganhar dinheiro. Como a babá do Rio de Janeiro, que estremeceu as redes sociais por empurrar o carrinho das crianças enquanto os patrões protestavam de verde-amarelo. Ao responder para o jornal Extra se teria comparecido à manifestação caso estivesse de folga, Angélica disse o óbvio:

– Eu iria se morasse lá embaixo (na Capital). Ir daqui (Nova Iguaçu, na região metropolitana) até lá é bem difícil.

Quer dizer: ainda que sintam mais do que ninguém as agruras de um mau governo, raramente são os pobres que lideram as grandes insurgências. A missão recai sobre aqueles que, se por um lado estão longe da plena fruição do luxo, por outro estão próximos dos centros urbanos e do acesso à informação e à cultura.

Ao desvalorizar uma justa indignação porque ela emana da classe média, intelectuais e jornalistas passaram a semana mostrando quem ainda luta para manter o governo em pé: a mesma classe média. É sempre ela.

Como assim, Paulo Paim?
Senador do PT pelo Rio Grande do Sul

Houve uma época em que governos costumavam demitir ministros investigados por corrupção. A nomeação de Lula para a Casa Civil não é uma incrível inversão de lógica?

É uma jogada de alto risco. No caos em que está o país – com recessão, desemprego, juro alto e renda caindo –, se a estratégia der errado, Lula afunda junto com Dilma. Agora, se a presidente e os partidos aliados entendem que ele pode ajudar, creio que neste momento toda ajuda é bem-vinda. Porque o governo vai muito mal. Isso não quer dizer que as investigações devam parar, pelo contrário: espero que continuem com a mesma intensidade, seja em torno do Lula, do Mercadante ou de qualquer outro acusado.



19 de março de 2016 | N° 18477 
DIANA CORSO

FIU, FIU!

Por que é tão difícil para alguns homens acreditar que as mulheres não querem ser assediadas? A rua não é uma floresta onde haveria o predador e a presa na caçada do sexo. Quase sempre elas caminham alheias a tudo, tendo outras tantas coisas em que pensar, e com eles costuma ocorrer o mesmo. Mulheres e homens só são despertados eroticamente em circunstâncias particulares e pelo tipo de pessoa que corresponde a seu desejo.

Ao contrário do que se acredita, o desejo sexual masculino não é tão imperioso. Seria até um repouso para sua virilidade exausta se eles não precisassem sentir e demonstrar-se onívoros e eretos o tempo todo. O assédio é frequentemente um comportamento grupal, o que leva a pensar que eles não dedicam essa performance exatamente para as mulheres, mas sim uns aos outros. Os homens tornam-se mais admirados e, portanto, com mais valor entre si, quando se mostram desejantes na presença de um corpo feminino.

Todas nós já tivemos experiências de assédio, inclusive quando pequenas. Se avaliamos que não é preciso sair correndo, apenas fitamos o chão e andamos mais rápido. Sabemos bem marcar o ritmo dos passos de qualquer homem que divida uma calçada conosco a qualquer hora do dia, e isso muito antes de nossa cidade ter virado o velho oeste.

Paradoxalmente, o machismo é filho da existência da figura supervalorizada da mãe, uma mulher onipresente, totalmente dedicada ao filho. Na infância ela é uma giganta de cujas vontades e benesses os meninos, principalmente, dependem trêmulos e amorosos. Homens têm sido criados, há séculos, pelas próprias mães, acreditando ser a encarnação de uma dádiva e tendo suas vontades atendidas com devoção. O destino das meninas é diferente. Embora a relação com a mãe também seja imensa, é marcada por conflitos que estremecem esse amor.

Creio que o patriarcado, além de uma tradicional forma de poder, é também uma defesa contra o amor e a submissão a essa mãe poderosa. Para livrar-se da fragilidade resultante dos restos desse vínculo, os homens adultos habituaram-se a separar as fêmeas em duas categorias desvalorizadas: as virginais, destinadas a ser mães e esposas subjugadas, e as prostitutas, a serem tratadas como mercadoria.

Porém, felizmente está difícil encaixá-las nesses papéis. Quem lê os romances da escritora inglesa Jane Austen percebe que já no século 19 elas se ensaiavam em interessar-se por relações mais igualitárias e homens mais complexos e sensíveis. O orgasmo feminino, outrora dispensável e até indesejável, passou a ser uma meta para ambos os parceiros amorosos. Aos homens, outrora bastava ser eretos, agora eles têm de ser virtuosos e duradouros na cama. O prazer do casal passou fazer parte intrínseca da relação sexual. Para elas, sexo significa o engajamento erótico do corpo todo, assim como mais tempo, considerando a disposição para os orgasmos múltiplos. O prazer agora envolve pessoas livres que se permitem mais intimidade, longe do orifício inanimado e complacente a que se havia reduzido o corpo das mulheres ditas de bem.

Para os homens emocionalmente mais limitados e presos a uma subjetividade infantil, o sexo tornou-se perigoso e incompreensível, e as mulheres, ainda mais assustadoras. Daí provém a sobrevivência do machismo, pois é mais difícil crescer, amadurecer e enfrentar o fato de que todas as mulheres do mundo não são uma extensão permissiva da mamãe amorosa que imaginavam ter. Os assediadores reduzem as mulheres àquelas prostitutas com quem se relacionam sem medo nem respeito, por isso afirmam que suas agressões são resultado de que elas agem de modo provocante.

Para nossa sorte, há muitos homens interessantes, os quais provavelmente sejam filhos de mulheres que não os criaram como se fossem seu troféu e de casais que souberam mostrar-se capazes de dividir prazeres e desafios. Quanto aos outros: “Eles crescerão, esses homens, para fora do homem-criança que definiu a masculinidade até então”, foram os votos da feminista Betty Friedan, que aqui torno meus.



18 de março de 2016 | N° 18476 
NÍLSON SOUZA

O PAÍS DOS AMIGOS DA ONÇA


Aprendi a ler na falecida revista O Cruzeiro, quando tinha seis anos de idade. Naquela época, não havia escola para crianças dessa idade, mas era tão grande a minha vontade de ler os gibis manuseados por meus irmãos mais velhos, que acabei juntando as letrinhas por conta própria. Pois naquela publicação histórica, que chegou a alcançar a estratosférica tiragem de 750 mil exemplares na cobertura do suicídio de Getúlio Vargas, nasceu o Amigo da Onça, personagem do cartunista pernambucano Péricles, mais tarde redesenhado por Carlos Estevão e agora ressuscitado no tumultuado ambiente político de Brasília e do Brasil. O senador delator chamou o ministro desafeto de “amigo da onça”.

Quem era o Amigo da Onça? Era uma figura simpática, de olhos arregalados e nariz vermelho, sempre de gravatinha borboleta e sempre disposto a fazer uma sacanagem com alguém. O nome vem de uma anedota da época, em que dois caçadores desenvolvem o seguinte diálogo:

– Se você estivesse na selva e aparecesse uma onça?

– Eu dava um tiro nela.

– Mas se você estivesse sem arma de fogo?

– Eu usava o meu facão.

– E se estivesse sem facão?

– Pegava um pedaço de pau.

– Se não tivesse um pedaço de pau por perto?

– Eu subia numa árvore.

– E se não existisse árvore?

– Eu correria.

– E se você estivesse paralisado pelo medo?

Aí, o outro, irritado, questionou:

– Afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?


Saudosos tempos aqueles das anedotas ingênuas e das brincadeiras inconsequentes do Amigo da Onça, que ganhou vida própria no folclore popular e se transformou em sinônimo de pequenas traições. Hoje, os amigos da onça se tornaram extremamente danosos, utilizam gravadores escondidos e não hesitam em lançar seus interlocutores à execração pública.

A própria onça talvez seja menos perigosa.



18 de março de 2016 | N° 18476 
CLÁUDIA LAITANO

Pílulas de ilusão


Em meio a tantas aflições rocambolescas na política e na economia do país, passou quase despercebida a aprovação na Câmara dos Deputados, na semana passada, do projeto de lei que libera o uso da “pílula do câncer” (fosfoetanolamina).

Apesar de aparentemente não ter nada a ver com direita ou esquerda, governo ou oposição, o uso político de um remédio que não conta com a chancela de médicos e pesquisadores e que na melhor das hipóteses não faz bem nem mal (há um estudo que associa o medicamento ao crescimento de tumores de mama em ratos) ajuda a explicar por que estamos estacionados em uma espiral de malfeitos e desinteligências. 

Está tudo ali na pílula mágica do dr. Pangloss: desprezo generalizado pela ciência de ponta, leigos tomando decisões graves sem consultar os especialistas (tanto no STF quanto no Congresso), mau uso do parco dinheiro público (preciosos R$ 10 milhões que poderiam ser destinados a cientistas sérios despejados em uma pesquisa que atravessou o samba por pressão popular), ignorância, autoengano e, claro, populismo em doses asininas.

Perdi minha mãe e alguns amigos queridos para o câncer. Vi outros serem curados, alguns de maneira espetacular e contra todos os prognósticos, graças a procedimentos muito recentemente desenvolvidos pela medicina mais avançada. Sei que, diante da dor e da perspectiva bastante concreta da finitude, até o mais racional dos pacientes pode tomar decisões desesperadas. Minha mãe chegou a ir até uma igreja que alguém recomendou como um local “infalível” de cura. 

Mesmo assustada com a doença, o ritual lhe pareceu humilhante e assustador, e ela saiu correndo do templo poucos minutos depois de entrar – talvez mais abatida ainda do que antes. Morreria poucos meses depois. Steve Jobs, que não tinha nada em comum com minha mãe além da doença, acreditou que poderia vencer o câncer com a mesma determinação com que reergueu a Apple. Recorreu ao melhor que a ciência havia produzido até então, mas também não adiantou.

Todas as famílias têm histórias tristes como essas para contar. Mas, se hoje podemos comemorar casos de curas que seriam impossíveis há cinco anos, é porque muita gente está trabalhando em conjunto, em várias partes do mundo – e isso só é possível quando procedimentos científicos permitem que o conhecimento seja testado, compartilhado, aperfeiçoado.

Doentes e suas famílias nem sempre têm condições de decidir o que é melhor para eles sem a ajuda de um profissional de confiança. Por isso, é tão importante que o Estado garanta que eles sejam protegidos da ilusão e do charlatanismo. A ciência, como a democracia, não é perfeita, mas é o melhor que temos – e sem ela ainda estaríamos morrendo aos 30 anos à luz de lampiões. No Brasil, muitos cientistas têm sido heróis, conduzindo pesquisas que salvam vidas às vezes em condições precárias e com pouco ou nenhum apoio do governo. Investir na fosfoetanolamina é um escárnio contra eles – e uma vergonha para todos nós.



17 de março de 2016 | N° 18475 
DAVID COIMBRA

Impeachment já

Até o final da tarde de ontem, jamais havia considerado justos os pedidos de impeachment de Dilma.

O governo Dilma é péssimo, suas campanhas se beneficiaram de dinheiro da corrupção e é claro que ela sabia de muito do tanto que foi cometido de errado nesses 14 anos, mas, pessoalmente, não havia nada que a implicasse.

Agora é diferente.

Como Delcídio, Dilma tentou obstruir a Justiça.

Mas fez ainda pior do que Delcídio.

Dilma usou o seu cargo, o governo, a administração pública, Dilma usou o Estado brasileiro para acobertar um homem investigado pela Polícia Federal.

Quando Dilma ligou para Lula a fim de avisar que lhe mandava o termo de posse como ministro para ser usado “se necessário”, confessou que o nomeava para que ele escapasse de um eventual mandado de prisão.

O ministério artificialmente inchado do PT sempre foi usado como objeto de barganha política, disso todos sabíamos. Agora descobrimos que pode ser usado, também, para ludibriar a polícia e a Justiça.

Ou seja: está provado que Dilma, Lula e o PT valem-se do Estado para fins pessoais.

Dilma traiu o seu eleitor, mas não apenas o seu eleitor. Dilma traiu todos os cidadãos brasileiros. Dilma conspurcou o cargo que ocupa. Conspurcou a própria democracia.

Durante 21 anos, os brasileiros penaram com a ditadura militar. Durante 21 anos, os brasileiros sonharam em eleger seus presidentes da República, como ocorre em todos os países civilizados do mundo. Ulysses bradou da tribuna nosso ódio e nosso nojo à ditadura, o Brasil inteiro chorou a morte de Tancredo às vésperas da posse, Brizola implorou para que seus irmãos brasileiros dessem um não rotundo às escolhas erradas na eleição, Collor foi ungido e defenestrado pelo povo, tudo isso passamos, para chegar a isto. Para que a democracia brasileira seja manuseada como troco de ônibus.

Dilma devia renunciar.

E Lula... Esse demonstra, nas gravações da Polícia Federal, exatamente quem é. Lula escarnece das instituições brasileiras e do próprio povo brasileiro.

Lula é tido como grande orador. Nunca ouvi um único discurso dele que não fosse banal e eivado de lugares-comuns. Dizem que o povo gosta disso, como diziam que o povo gostava das caspas nos ombros de Jânio Quadros.

Balela. Lula não é popular porque fala palavrão. Lula é popular porque se valeu do Estado brasileiro para distribuir bondades e, assim, se eternizar no poder.

Idêntica lógica ele empregou, junto com Dilma e seus bajuladores do PT, para tomar um ministério a fim de fugir da Justiça. Não é novidade. Lula, Dilma e os petistas confundem o público com o privado. Como o Rei Sol, Lula acha que ele é o Estado. Que o Brasil está a seu serviço.

Não está. Acabou, Lula. Acabou, Dilma. Acabou, PT.



17 de março de 2016 | N° 18475 
L. F. VERISSIMO

Uma solução


Discute-se uma saída constitucional para a crise política brasileira e já foi proposto um semipresidencialismo, ou até um semiparlamentarismo com a atual presidente promovida a rainha, para fins puramente protocolares e ornamentais. Me lembrei da notícia que li, há alguns anos, sobre a descoberta, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, de um pelo pubiano de Dom Pedro I. Não sei se era brincadeira ou verdade, o fato é que não se falou mais no assunto. Na época, escrevi uma crônica a respeito da descoberta com uma sugestão sobre o que fazer com ela. Repito a crônica como minha contribuição para a reforma do regime de governo sendo discutida, e para acalmar os ânimos.

Presumivelmente, o pelo pubiano tinha sido usado para marcar o lugar num livro, não se sabe se por ele ou por alguma admiradora. De qualquer maneira, era um pentelho imperial. Pesquisas com reconstituição genética indicam que já é possível remontar um organismo inteiro a partir de uma única célula. Alguma célula do púbis de Dom Pedro deveria se encontrar na raiz do pelo providencial – contanto, claro, que a relíquia tivesse sido bem preservada.

Monarquistas poderiam muito bem acenar com a possibilidade de restituição não apenas da monarquia, mas do nosso primeiro monarca, o que – junto com alguns votos comprados, como manda a tradição brasileira – inspiraria o Congresso a aprovar uma mudança do regime. Quem resistiria ao apelo publicitário da volta ao poder do proclamador da nossa Independência, um currículo que nenhum outro pretendente poderia igualar, ou criticar?

A infância, a educação e a preparação de Dom Pedro – ou do Pentelho Primeiro, como ele fatalmente seria conhecido – para o cargo seriam acompanhadas pela nação enternecida, e depois, se o clone tivesse metade da personalidade fogosa da matriz, suas aventuras seriam o assunto da corte e o divertimento do país. E não estaria afastada a hipótese de um eventual casamento dele com uma plebeia ou uma moça da nossa aristocracia, na catedral de Brasília, ou numa cerimônia privada em Petrópolis.

Dom Pedro de volta seria a solução para o Brasil. Não seria preciso me recompensar por ter tido a ideia, salvo, talvez, com a embaixada em Paris.

Mas acabo de me dar conta de que, como o clone necessitaria de tempo para ser gerado e crescer, precisaríamos de uma regência provisória até ele atingir a maioridade, com 18 anos e já com suas costeletas. O PMDB, claro, reivindicaria o cargo, o Aécio Neves não se conformaria em não ser o escolhido e a guerra política reiniciaria.

Esquece, esquece.

quarta-feira, 16 de março de 2016



16 de março de 2016 | N° 18474 
MARTHA MEDEIROS

Mascando cana

Outro dia puxei um Trident da bolsa e ofereci para minha mãe: quer? Ela negou pela milionésima vez. Nunca vi minha mãe mascando chiclete. Jamais alguém viu. Simplesmente porque ela nunca, nunquinha na vida, mascou um chiclete.

Nunca, mãe? Não teve infância? Sempre achei meio nojento, é a resposta dela.

Eu adorava mascar chiclete quando pirralha – indolência sabor tutti frutti. Gostava muito de Ping Pong, de Ploc e um pouco menos daqueles que vinham em caixinhas. Mas curtia mesmo era os chicletes Mini, que se amontoavam dentro de uma embalagem plástica que simulava um sorriso vazado. Os chicletinhos minúsculos ficavam aparentes, feito dezenas de dentinhos estraçalhados. 

Ninguém achava que era antipropaganda, já houve uma época em que havia mais humor. Eu pegava um punhado na mão e mascava todos de uma vez só. Era uma falcatrua, porque o sabor durava um minuto e meio, nada além disso, e logo a gente tinha que se empanturrar com mais e mais para atiçar de novo o gosto. Ah, você certamente lembra, era um clássico e acho até que essa marca ainda existe.

Hoje eu só masco Trident, chiclete pra adultos que, por terem uma agenda cheia, ficam fora de casa por muitas horas e sentem falta de sua escova de dentes. A indolência ficou lá atrás, coisa de criança.

Mas não para Monica Moura, que foi presa ao lado do marido, o marqueteiro João Santana. A cena em que ela sai do camburão e entra na sede da Polícia Federal foi reprisada exaustivamente pelos telejornais. E, a cada reprise, eu não conseguia tirar os olhos do chiclete da mulher. Ela não estava no recreio do colégio. Tampouco parecia ser um caso de substituição da escova de dentes – não acredito que um hálito fresco ajudaria alguma coisa na hora de prestar depoimento. Aquilo era pura indolência juvenil. Sua descompostura mandava um recado: “Olhem como estou preocupada com este circo”.

Vi até um sorrisinho sarcástico no canto da boca. Conheço aquele sorriso. James Dean sorria do mesmo jeito a bordo de sua moto e de sua jaqueta de couro.

Pode ser que o casal seja inocente como uma criança no dia da primeira comunhão. O julgamento aqui não é político, mas social. Uma questão de etiqueta (na ausência da coluna da Celia Ribeiro, que provavelmente concordaria comigo). Não fica bem uma senhora ficar abrindo e fechando a boca com displicência enquanto joga um pedaço de goma para um lado e para o outro, como um ruminante qualquer. No mínimo, pode soar como arrogância. Como se quisesse demonstrar que o dinheiro fala mais alto do que a lei.

Minha mãe tem razão, é meio nojento. A gente deveria manter a elegância até mesmo quando está indo em cana.