quarta-feira, 6 de abril de 2016



06 de abril de 2016 | N° 18492 
FÁBIO PRIKLADNICKI

AMOR MODERNO


Quem não gosta de uma história de amor? A de Romeu e Julieta, a mais célebre delas, nunca me tocou realmente, se bem me lembro. Acho que faltava um certo senso de empatia da minha parte. Sei lá, soava meio forçada essa coisa de se matar por um amor proibido (não é spoiler se a história tem 419 anos, né?). É lindo, mas quem realmente faz isso hoje em dia? Felizmente, temos soluções menos drásticas. Por outro lado, não vemos mais poetas como Shakespeare. Não se pode ter tudo.

A história de amor que realmente fez a minha cabeça na infância – e acho que isso diz muito sobre a minha geração – foi a de Angélica e Supla no filme Uma Escola Atrapalhada (1990). Se você estiver na faixa dos 30 e poucos anos, é possível que concorde comigo. Mesmo que, assim como eu, fique um pouco constrangido de confessar. Fazendo as contas agora, calculo que eu devia ter apenas nove anos. Pensando bem... é constrangedor de qualquer forma, não tem desculpa.

Durante muito tempo, a literatura e o cinema ajudaram a criar uma visão idealizada do amor. Ou era um amor muito sofrido ou era bom demais para ser verdade. E, assim, fico aqui supondo que isso deve ter causado certa angústia nos amantes de verdade, esses de carne e osso. Por isso, tenho gostado de duas séries que vão na contramão de tudo isso: Master of None e Love, ambas da Netflix. Sei que elas não inventaram a roda, mas são um contraponto à enxurrada de comédias românticas que já vimos por aí.

Nessas novas produções, ninguém está predestinado a ficar com alguém, e os amantes têm a incrível habilidade de estragar tudo – e depois tentar consertar. Mais não direi porque sei que os espectadores de séries são sensíveis a spoilers. De qualquer forma, parece que há uma sede de histórias de amor modernas, com as quais a gente consiga se relacionar. Afinal, os romances são feitos de encontros e desencontros, e nunca sabemos qual é a temporada final. Mas, como diria David Bowie, nós tentamos.

terça-feira, 5 de abril de 2016



05 de abril de 2016 | N° 18491 
CARPINEJAR

Final de semana perfeito


Meu filho nunca pisou numa locadora de filmes. Ele baixa todas as séries e jogos em seu computador ou acompanha as obras de sua preferência nos canais de assinatura da web.

Já eu vivi o império das locadoras. Meu sonho por ordem era abrir uma locadora, uma livraria e um café. E, com certeza, não era só meu, antes da revolução de Steve Jobs.

O cinema em casa fez a cabeça de toda uma geração, que alugava fitas, experimentando uma extensão do empréstimo dos livros da biblioteca na escola.

Lembro da alegria ansiosa de sair do trabalho na sexta para buscar os lançamentos e garimpar clássicos. Horas a fio revistando as prateleiras, com pilhas de capas nas mãos e a séria dificuldade de escolher o que realmente desfrutava de tempo para ver.

Não controlava a gula. Havia uma fórmula secreta no desperdício. Quando eu locava cinco filmes, assistia a três. Quando locava quatro filmes, assistia a dois. Quando locava três filmes, assistia a um. Quando locava dois, não assistia a nenhum. Jamais locava um, pois era impossível ceder às promoções para permanecer uma semana dependendo do número de locações. Tenho dúvidas do que vi, a sensação é de que conclui um filme, mas na verdade apenas o retirei.

Apesar do prazo dilatado, atravessava uma maldição. Não conseguia entregar no dia. Acho que paguei mais em multa do que em aluguel. Eu não registrava a data da devolução e entrava em pânico quando reconhecia os títulos esquecidos em cima do aparelho de VHS.

As locadoras foram um termômetro da felicidade. A saudade de pegar uma montanha de filmes com amigos e virar a madrugada comendo pizza e emendando roteiros e dramas até o amanhecer. Ou, quando me apaixonava, curtir o sábado e domingo com a namorada na cama, só apertando o play e o pause. Se eu retirasse oito filmes, certamente me encontrava amando, disposto a sumir no quarto e esquecer o mundo.

O deslocamento físico e o manuseio balbuciante dos estojos intensificavam o prazer. Definir pela sinopse malredigida o que valeria a pena e ganhar a discussão com a mulher sobre qual título levar formavam um ritual de final de semana perfeito que não existe como antes.

Lamento a ausência galopante das locadoras em nossos hábitos. Não cumpri as minhas fantasias. Faltou coragem de entrar na salinha de filmes pornôs, um espaço à parte, carregado de preconceito e com câmeras nos cantos. Hoje estaria preparado, sem nenhuma vergonha da minha sexualidade. Pena que é tarde demais.


05 de abril de 2016 | N° 18491
EDITORIAIS

SOLUÇÃO CONSTITUCIONAL


O país ingressa no quarto mês do ano sem uma perspectiva de solução para a crise política que entrava a economia e a retomada do desenvolvimento. Há uma enorme pressão sobre a presidente da República, que não faz outra coisa a não ser se defender do processo de impeachment na Câmara e a garantir que não vai ceder às pressões para renunciar. 

Ora, o país precisa voltar a andar. Seja pelo impeachment, seja pela continuidade do atual governo, o importante é que a Constituição seja respeitada e que se busque logo uma definição para o impasse, transformado em motivo de aflição permanente para os brasileiros.

Num processo dessa importância, é óbvio que todos os prazos legais precisam ser rigidamente observados. Ainda assim, a solução constitucional tem que ser apontada logo. O país precisa dispor de uma alternativa pacífica e democrática, que permita ao setor produtivo voltar a se programar com um mínimo de segurança, retomando os investimentos nos níveis necessários para reduzir a recessão e o desemprego.

No cenário atual, marcado por um antagonismo radicalizado, a própria sociedade não consegue mais preservar o diálogo necessário para encontrar saídas – tampouco os políticos, que são treinados para o debate. Menos mal que as instituições tentam se manter distantes desse clima passional, mas nem isso é suficiente.

O país precisa restabelecer de imediato as condições de governabilidade, capazes de permitir-lhe sair de uma crise que tem razões éticas e corrói a economia. Os brasileiros não podem continuar pagando o preço dessa paralisia decisória.



05 de abril de 2016 | N° 18491 
DAVID COIMBRA

Peça ajuda, governador!


Chega, governador Sartori! Chega! As pessoas não aguentam mais. Os porto-alegrenses estão em pânico.

Assaltos, sequestros, tiroteios, roubos, arrombamentos, a violência tornou-se mais do que comum; tornou-se uma peculiaridade de Porto Alegre e de várias outras cidades do Estado.

Estou dizendo o óbvio, governador. Estou sendo banal.

Mas o fato de ser banal e óbvio não torna o que ocorre menos desesperador. E as pessoas estão desesperadas.

Vou agora, além de ser banal e óbvio, tornar-me repetitivo: todos sabemos da gravidade da crise econômica do Estado e sabemos que o senhor não é culpado pelo problema. Sabemos, também, que a solução do problema é complexa e que só será alcançada a longo prazo.

Mas algumas das consequências do problema o senhor terá de combater agora e com muito mais firmeza, governador. Duas em particular, que, inclusive, estão inter-relacionadas:

1. Os salários dos servidores não podem mais ser parcelados. Salário em dia é obrigação número 1 do empregador.

2. É preciso haver um ataque frontal e decisivo à crise da Segurança Pública. Como resolver essas questões?

Não sei qual é a resposta a essa pergunta, mas sei o que fazer quando dilema grave: procurar as outras pessoas. Nós precisamos das outras pessoas.

Peça ajuda, governador. Peça agora. Não espere mais.

Vá à TV e ao rádio e fale com os gaúchos. Reúna-se com lideranças da sociedade, convoque a Força Nacional de Segurança, chame o Exército, valorize os policiais e os juízes do Rio Grande do Sul.

A soberba não está entre os seus defeitos. O senhor tem grandeza suficiente para ser humilde, para dizer às pessoas:

“Ajudem-me a encontrar uma saída”.

Será um movimento histórico. Um líder político que se aproxima das pessoas não apenas antes da eleição, para reivindicar voto, mas durante o governo, para reivindicar participação.

Isso já aconteceu, e exatamente no Palácio Piratini. Em 1961, o governador Leonel Brizola convocou os gaúchos para assegurar a posse do vice João Goulart, depois da renúncia intempestiva do presidente Jânio Quadros.

Num tempo em que a TV tinha pouca penetração, Brizola valeu-se dos conhecimentos do técnico de som Hamilton Chaves, pai do grande Kadão, para instalar nos porões do palácio o estúdio da chamada Rádio da Legalidade. Ao mesmo tempo, ele se reunia com líderes da comunidade: conversava, falava e, importante, ouvia.

O Rio Grande do Sul uniu-se e evitou o golpe. E, naquele caso, era golpe de verdade, com ação direta das Forças Armadas, ameaças de prisões e sufocamento do Poder Legislativo.

Mobilizado pela liderança do seu governador, o Rio Grande do Sul levantou-se e enfrentou as armas de pelo menos parte do Exército. Brizola se consagrou. Seria sua maior façanha.

Repita seu antecessor, governador Sartori. Peça ajuda. Peça já. E lhe será dada.



05 de abril de 2016 | N° 18491 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

URGÂNCIAS E IMPORTÂNCIAS

Chovendo no molhado: que tempinho ruim este, hein? Ódios à flor da pele, inimizades súbitas, aquela pediatra – pediatra, meu, aquela em cujas mãos a mãe entrega a saúde do filho! – de atitude indesculpável... (Já estou eu a negar perdão, que por sinal nem foi pedido.) Tá difícil.

Fico tentando encontrar um ponto, um aleph a partir do qual tudo voltasse a fazer sentido, para além das dissensões, e não encontro, salvo platitudes.

Platitudes? Como quais, por exemplo?

A Lava Jato, mesmo com essa escrita tão mal apanhada (por que não escolheram Lava-a-jato? Por economia de hífen? De “a”?), é um marco da história brasileira e deve continuar. Todos de acordo?

Mas o juiz Moro se excedeu, não apenas naquilo de que pediu perdão ao STF (esqueceu de pedir aos ofendidos, não é?). E o juiz Moro – o senhor concorda, espero – mais de uma vez deixou de lado as possibilidades de atacar, com sua sede de justiça, outros alvos, especialmente os não ligados ao PT.

O STF, tomado como instituição, vai bem, certo? O senhor aceita que não se deve fazer o que fizeram na casa do ministro Teori aqui em Porto Alegre, imagino. Sim? Dilma tem muitos defeitos, mas foi eleita e até aqui nada se provou formalmente contra ela, certo? O presidente da Câmara não dá para apoiar, concorda? O do Senado idem, confere? E o Temer?

O que mais me assusta, quando paro pra pensar nisso, nem é a cara de perplexidade das crianças, que gostariam de ter mais clareza do que estão tendo, e precisariam dela para formar sua visão das coisas, é que tudo isso que acima mencionei é de prazo imediato. Não estamos conseguindo falar de horizontes acima de uns dias, uma semana, o fim de abril.

Lembro de uma palestra a que assisti, começo dos anos 1990, em que um experiente administrador público relatou ser comum, para quem começava a lidar com o mundo da política pelo lado do executivo, o sujeito não conseguir distinguir entre urgências e importâncias. E, disse ele, era muito fácil o sujeito viver apenas lidando com as urgências, deixando as importâncias se empilharem numa ponta da mesa, na gaveta, em qualquer parte.

Platitudes, enfim.

segunda-feira, 4 de abril de 2016


04 de abril de 2016 | N° 18490 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

O OUTRO LADO


The Passing Bells é uma série sobre guerra, e não qualquer guerra, mas a Grande Guerra, a maior e pior coisa que os humanos já produziram nesse mundo tão cheio de guerras. O que a série tem que a torna algo para você ver é que ela mostra os dois lados, o de lá e o de cá. Filmes de guerra costumam se especializar em um dos lados. Eles costumam ser patrióticos ou críticos, apoiando ou denunciando o que um país fez em uma determinada guerra. The Passing Bells abre mão da crítica unilateral para criticar todos. Loucura é a guerra, não importando de que lado ela esteja.

A história não é de um, mas de dois jovens: um alemão e um inglês, que vão cumprir com o seu dever para com Deus e a pátria, com os mesmos motivos, as mesmas crenças, os mesmos ódios, as mesmas armas. O que eles descobrem, e a gente vê assistindo à série, é que mesmo quer dizer mesmo. Eles são tão iguais que não deveriam estar ali atirando um no outro. Deveriam estar jogando futebol, o que, aliás, os soldados dos dois lados fizeram, no Natal de 1915. Pararam de se matar e foram jogar bola, o que, aliás, deveriam continuar fazendo para sempre.

Isso assustou tanto os generais dos dois lados que os futebolistas foram enviados para algum outro lado da guerra, como castigo por terem ousado se comportar como humanos. Assim são as guerras e os generais.

A I Guerra Mundial começou em agosto de 1914 meio que por acaso. Todo mundo estava curtindo o verão numa boa em julho e, subitamente, acordou em guerra no mês seguinte. Foram quatro anos de horror, até a Alemanha ter que desistir, temporariamente, como sabemos.

Talvez o maior aprendizado que The Passing Bells tenha para nos dar, nesses momentos em que andamos um tanto guerreiros aqui no nosso querido Brasil, é que sempre existe um outro lado, e melhor do que atirar nele é compreender o que o move. Paz a gente faz com os outros, não conosco. Compreensão é parar para ouvir, dialogar, convencer, ou simplesmente respeitar. The Passing Bells está na Netflix e promove a paz. Vá e veja.

Fica a dica, como sempre, só que um pouco mais.



04 de abril de 2016 | N° 18490 
DAVID COIMBRA

A neve é bonita


Nevou em abril. Não é comum, especialmente depois de um inverno pouco agressivo, como foi o deste ano.

Sabia que ia nevar, a previsão do tempo não erra, mas, ainda assim, a primeira visão que tive da rua, ao abrir a cortina do quarto logo de manhã, arrancou-me do peito um ah de surpresa. A neve branca cobrindo o solo, o céu muito azul e o amarelo do sol se derramando por tudo. Bonito.

Schopenhauer dizia que o que um homem sente ou deixa de sentir não depende do mundo exterior: depende do que lhe vai na alma.

E é verdade. Duas pessoas passando por situações absolutamente idênticas podem ter reações totalmente distintas. Então, o que importa não é o que está fora; é o que está dentro. Mas o que está fora bem pode ajudar o que está dentro.

Lembro-me de uma vez em que me reuni com um cronista político de Santa Catarina num restaurante da Beira-Mar Norte, na Ilha. Era um homem grave, que pouco ria. Jamais o vi fazendo alguma gracinha. Durante o almoço, em meio à conversa, ele de repente olhou para fora, para o mar que rosnava do outro lado da rua, e murmurou, mais para si mesmo do que para mim:

– É um privilégio...

O inesperado do comentário deixou-me levemente atônito. Seguimos com o assunto. Minutos depois, entre uma garfada e outra na tainha, ele mais uma vez ergueu o olhar para o horizonte e repetiu:

– É um privilégio... Isso aconteceu umas quatro vezes.

Aquele deslumbramento com uma paisagem que ele provavelmente via todos os dias era algo de certa forma enternecedor. Um homem tão sério deixava-se comover pelo mar que ia e vinha sem parar, por uma manifestação comum da natureza. Foi um depoimento a favor dele.

Essas grandes empresas, aqui dos Estados Unidos, em geral mantêm suas sedes em imensos arranha-céus. A hierarquia do funcionário da empresa é medida pelo andar que ele ocupa. Quanto mais alto o andar, mais alto o cargo do funcionário. O presidente fica lá em cima, no topo, na chamada penthouse.

Por que isso? 

Porque, em tese, quem está no andar superior tem o “privilégio”, como diria o cronista catarinense, de contemplar, quando quiser, a mais bela vista. Só que, não raro, as mesas dos chefões estão viradas de costas para a janela. Ou seja: ele olha para a porta e quem se encanta com a vista é seu visitante.

A vista, portanto, serve mais para impressionar quem chega do que para embevecer quem está.

Um homem de costas para a janela, vigiando a porta. Eis um homem de espírito armado.

No domingo, admirando essa neve que provavelmente será a última, até que o ano termine, cogitei se ainda é possível contar aos meus compatriotas sobre as amenidades de um belo dia cheio de luz, cheio de cores e suavemente frio. Será que os brasileiros, tão ocupados com suas próprias dores, tão atentos à porta e não à paisagem, não acharão banal se eu disser que a neve é bonita?

Decerto que sim. E talvez seja mesmo banal. Mas hoje achei importante dizer isso para você: estou olhando para a neve. E a neve é bonita.



04 de abril de 2016 | N° 18490
EDITORIAL

A POLÍTICA ENFERMA


A situação só atingiu níveis de deterioração tão elevados porque o sistema eleitoral no país é um desastre, como definiu o ministro do STF.

Numa manifestação sem meias-palavras, por imaginar que estava se dirigindo a um público restrito, o sempre ponderado ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), acabou fazendo uma síntese dura, mas realista, da situação política no país. Ao se dirigir a um grupo de alunos, e sem se dar conta de que o encontro estava sendo transmitido pelo sistema interno do STF, o ministro despertou mais atenção pelas críticas ao PMDB como alternativa de governo, pouco depois do anúncio da saída do partido da base de apoio da presidente Dilma Rousseff. Ainda assim, o magistrado acertou mesmo quando definiu a política brasileira como gravemente enferma, advertindo que, por isso, precisa mudar.

Como argumentou o ministro, numa sociedade democrática, a política é um gênero de primeira necessidade. Quando olham em volta, porém, os brasileiros têm razões de sobra para se sentirem indignados e contaminados por essa enfermidade, que nos últimos meses parece ter transformado o jogo do poder numa novela policial.

A presidente da República, pressionada por um processo de impeachment que dificulta qualquer ação por parte dela para tirar o país da crise, não consegue sequer fazer um ex- presidente assumir a Casa Civil, devido a denúncias de toda ordem no âmbito da Lava-Jato. Ao mesmo tempo, seu vice e os presidentes das duas Casas legislativas mostram-se a cada dia mais desgastados por suspeitas de irregularidades, que também não poupam nomes de peso da oposição, à qual caberia o papel de apontar alternativas.

A situação só atingiu níveis de deterioração tão elevados porque o sistema eleitoral no país é um desastre, como definiu o ministro do STF. Dispendiosas – o que transformou durante muito tempo políticos em verdadeiras marionetes de grandes corporações –, campanhas nos moldes atuais fazem com que os brasileiros não tenham como cobrar dos eleitos. E, o que também é grave, contribuem para que os eleitos não saibam a quem prestar contas.

Independentemente dos rumos que o país está para definir agora, haverá poucas mudanças sem uma reforma capaz de curar a política. É urgente a definição de propostas que enfrentem de vez essas e outras questões essenciais para a sociedade.



04 de abril de 2016 | N° 18490 
NÍLSON SOUZA

A era do grampo


A polêmica divulgação dos grampos de Lula me fez lembrar de uma vizinha que se escandalizava com as cenas de nudez e agarração dos bailes de Carnaval transmitidos diretamente pela televisão.

– Que vergonha! Que baixaria! Fiquei vendo até as cinco da manhã! – contava, no dia seguinte.

Foi ilegal, foi quebra de sigilo, o juiz Sergio Moro levou uma carraspana do Supremo Tribunal Federal, mas o país adorou ouvir aquela conversalhada indiscreta, recheada de palavrões e bajulações. Os diálogos tiveram mais audiência do que capítulo final de novela. E foram repetidos à exaustão pelos meus coleguinhas de ofício, compreensivelmente os mais entusiasmados com os flagrantes. Claro que não me refiro às consequências políticas, isso cada um viu com os olhos que quis ver.

Para a imprensa, não pode mesmo haver sigilo em casos como esse, até mesmo porque a responsabilidade pelo resguardo de informações confidenciais é dos servidores públicos encarregados de protegê-las. Deixar de divulgar diálogos explosivos como aqueles é que seria absurdo, além de desrespeito ao público, inquestionavelmente interessado em conhecer os conteúdos. Notícia, já disse o repórter do Watergate Bob Woodward, é aquilo que alguém quer esconder.

O que realmente causou perplexidade foi a constatação de que pessoas experientes na política, como o próprio ex-presidente, deixaram-se apanhar daquela maneira, sabendo que a Polícia Federal e os investigadores da Lava-Jato estavam nos seus cangotes. Mais do que isso: deveriam saber que, no atual ambiente de comunicação plena e instantânea, tudo o que se faz e fala está sujeito a registro público. Veja-se, por exemplo, o recente comentário do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal, sobre a foto de peemedebistas celebrando a saída do governo.

– Meu Deus do céu, essa é a nossa alternativa de poder! – disse, pensando que estava numa conversa reservada com estudantes.

Não estava nos autos, mas foi para o mundo. Quem ainda não entendeu que estamos vivendo na era do grampo corre sérios riscos.

domingo, 3 de abril de 2016



03/04/2016 às 13:43 \ Feira Livre
Uma crônica da Valentina de Botas: Ainda a caminho de Budapeste

VALENTINA DE BOTAS

Como todos os pais, o meu sabia o que é bom para as crias: tu vai fazer um curso de datilografia. Já tinha feito o terceiro curso e nada. O alagoano de amor pedregoso e pedagógico não me autorizava a desistir. Na atração do que não se vê, mas se adivinha num arrepio, eu já tramava uma rota de liberdade para fora de casa, então expliquei audaciosa que continuaria a procurar emprego, só não queria aprender de novo o que eu já sabia. 

Os cursos mantêm tu treinada, ele encerrou o assunto. Logo depois do quarto curso, com um professor que falava “vamos aprendermos a batermos à máquina de escrevermos”, a perseverança produziu o milagre. 

 “Meu Deus do céu! Essa é a nossa alternativa de poder?”: o ministro, mentor da sabotagem da comissão especial da Câmara para o processo de impeachment do governo que generalizou a corrupção, acha que “o sistema político se tornou um espaço de corrupção generalizada” e desesperou-se com o fato de a alternativa constitucional ser o PMDB.

Barroso, descansa teu coração, homem, porque, não exatamente Deus, mas Lula, coisa equivalente para os adoradores da figura mais depravada da nossa história política, viu tua angústia e te oferece Givaldo Carimbão. Nada de quadros técnicos com os quais Temer formaria um ministério competente para os tempos dramáticos que já vigoram: Carimbão do nanico PHS, famoso por seu anonimato, não tem, digamos, um Armínio Fraga, mas votos contra o impeachment. 

Comprando deputados na ampliação da falência das instituições, o caudilho nefando prepara um calote, pois acabou a nossa grana, a única que a escória é capaz de obter, numa delinquência ávida para financiar o amor de Dilma. Sim, segundo Beth Carvalho, “é o amor que faz com que Dilma Rousseff se levante todos os dias de cabeça erguida para lutar por um Brasil mais justo”.

Coisa preciosa, amor não é fácil de achar e esse afeto de Dilma de plena perversão custa caro ao amado. É que a declaração ridícula confunde uma criatura indecorosa com uma presidente amorosa cujo afeto contra o país se traduz em crimes torpes como obstrução da justiça, improbidade administrativa, petrolão e inépcia tornada crime pelo gigantismo. O regime mafioso tirou milhões de pessoas da pobreza, os enamorados dele dizem relevando ou negando os crimes e fazendo dos pobres álibis morais da bandidagem. 

E onde as pôs? Num país sem educação, sem saúde, sem emprego, sem instituições – sem país. Meu pai achava bonito trabalhar em escritório, mas não foi por boniteza, e sim por precisão que comecei a trabalhar aos 14 anos num escritório com computador e telefone. Uma evolução e tanto, já que ele começara aos 6 nos canaviais de Alagoas. Esse homem que conheceu a pobreza que Lula desconhece rejeitava ser álibi moral de delinquentes.

Do meu salário, 60% iam para minha mãe e o resto para o sonho de conhecer Budapeste semeado desde criança quando li “Os meninos da rua Paulo” e achei a Hungria no mapa da biblioteca comunitária do bairro, onde se abrigava o livrinho adorável. Depois de quatro anos de poupança espartana, minha mãe quis me impedir em presságios que a maternidade me ensinou, mas ela sabia que eu já era livre. Na agência de viagem, uma foto deslumbrante do Índico me fez trocar a Europa pela Oceania. Pouco antes de voltar ao Brasil, pedi demissão por fax e avisei meus pais que a viagem virara mudança. 

Não estava matando nem roubando, só amando, esse voo que nos leva a manobras estúpidas, mas cuja vista lá de cima é única. No pouso, viúva aos 20 e poucos anos, como uma Ícara semialada que perdera uma das asas em voo alto demais, meus pais me aninharam com amor. Eles confirmaram o que a filha sabia e a mulher descobriu a caminho da Budapeste ainda não alcançada logo ali: formas do amor e torpezas não se misturam.
01/04/2016 às 16:31 - 
Atualizado em 01/04/2016 às 16:44

Caixa troca presidente da Funcef, que acumula déficit de R$ 13,2 bi

Carlos Caser deixou a presidência do terceiro maior fundo de pensão do país após cinco anos de atuação; banco estatal ainda não informou substituto

Carlos Caser deixa a presidência da Funcef

Carlos Caser deixa a presidência da Funcef(Lucio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados)

Cinco anos à frente do terceiro maior fundo de pensão do país, Carlos Caser deixa a presidência da Funcef -- previdência complementar dos funcionários da Caixa Econômica Federal. Funcionário de carreira do banco estatal, Caser pediu para sair da Funcef logo após a posse de Miriam Belchior na Caixa, mas só agora teve o pedido aceito. O site de VEJA não conseguiu contato com o banco.
A Funcef tem ativo total de 56 bilhões de reais e aproximadamente 137.000 participantes. O fundo acumula déficits desde 2012 que somam 13,2 bilhões de reais. Em 2015, o rombo foi de 8,8 bilhões de reais.

O resultado é consequência da queda do preço das ações e da perda com o investimento de 1,3 bilhão de reais na Sete Brasil, empresa criada para fornecer sondas à Petrobras, além da política de reajuste dos benefícios.

A conta do desequilíbrio vai ser paga pela Caixa e pelos participantes do plano de previdência (funcionários da ativa, aposentados e pensionistas), com aumento de 2,78% nas contribuições sobre o salário.

A contribuição adicional - para cobrir parte do desequilíbrio que havia até 2014 - deve ser cobrada por dezessete anos. Para cobrir parte do rombo de 2015, é provável que a Caixa e os participantes do plano tenham que aumentar as contribuições em 2017.

sábado, 2 de abril de 2016



02 de abril de 2016 | N° 18489 
MARTHA MEDEIROS

Meu querido

Para meu desespero, de vez em quando escapa a palavra inteira, e só me resta o autoflagelo, pois a pessoa não irá acreditar que eu a considero “querida” mesmo

Quando eu soube que o Lula, durante o célebre interrogatório do início de março, chamou o delegado de querido 30 vezes, recordei uma coluna que escrevi anos atrás sobre o tratamento que damos aos outros e suas sutilezas. O Lula, claro, devia estar querendo arrancar as tripas do querido.

Amigos íntimos tratam uns aos outros de “seu viado” e isso é uma declaração de amor. Tenho uma ex-colega do colégio que costuma entrar no meu WhatsApp perguntando “e aí, veia?” e eu não caio em prantos porque sei que ela só dedica esse afeto a quem considera muito especial. Ou seja: se quisermos respeito, melhor procurar quem nos odeia.

A maioria dos e-mails que recebo começa com “Oi, Martha”, às vezes “Oi, Martinha”, e suspiro aliviada: não há dúvida de que o desconhecido me quer bem. Mas quando a mensagem inicia com um reverente “Dona Martha”, fico lívida e com as pernas bambas. Serei detonada, e não vai ser pouco.

E se a mensagem começa com Ilustríssima, aí nem continuo a leitura. Sou muito carente.

Uma vez estava assistindo a uma palestra de uma senhora distinta e educada. Quando chegou a hora das perguntas da plateia, uma moça levantou na maior inocência e questionou a palestrante sobre um assunto incômodo. Fez-se um silêncio fúnebre durante três segundos, até que a resposta iniciou com uma voz gutural: “Minha filha, você...”

Nem quis escutar o resto. Aquele “minha filha” era uma navalha perfurando a jugular da desavisada que ousou interpelar a estrela do evento. Quem não sabe? Você só usa “minha filha” ou “meu filho” em dois casos: quando está se comunicando com alguém que tem o mesmo DNA que o seu ou quando se sente tão superior que não resiste em humilhar a criatura repugnante que se atreveu a cruzar seu caminho.

Vale o mesmo para “meu bem”.

Eu tenho um problema. Aliás, tenho vários, mas hoje vou revelar apenas este: eu costumava chamar as pessoas de querido e querida. Só que não estava nem um pouco irritada. Não estava querendo esganá-las. Não estava sendo cínica ou pedante – um pouco brega, no máximo. Era a droga de um carinho verdadeiro. Aí resolvi cortar a última sílaba e passei a chamar as pessoas de “queri” (pronuncia-se “quêri”). Um apelido para meus queridos e queridas, assim não restaria dúvida de que eu estava sendo fofa de verdade, e não de mentirinha.

Tem funcionado. Que saudade, queri! Adorei seu post, queri!

Porém, para meu desespero, de vez em quando escapa a palavra inteira, e só me resta o autoflagelo, pois a pessoa não irá acreditar que eu a considero querida mesmo. Com toda a razão.

O melhor é não deixar dúvida nenhuma sobre meu apego. Ultimamente, o que mais tenho dito é: adoro você, monstro.



02 de abril de 2016 | N° 18489 
CARPINEJAR

Agradável insatisfação


Quando a namorada escolhe a sua roupa para sair, a minha opinião somente vale para criar dúvidas. Se confesso que adorei, não significa que manterá a combinação. Cinco minutos depois estará com outro traje pedindo a minha opinião de novo. Ou seja, aquele vestido que elogiei já não existe mais, morreu de inédito.

A impressão é que não faz sentido o meu palpite, mas tem uma função eliminatória. Ela é capaz de recusar uma roupa que não gostei, porém não seguirá cegamente o que gostei. Porque precisa gostar mais do que eu. E uma mulher só gosta comparando.

Esqueça o sonho de que ela pegará um figurino no armário e deu, que será rápida e prática. Seu costume é realizar um leilão do seu guarda-roupa. Sempre derrubará os cabides sem medo da bagunça, com a intenção de intercambiar tecidos. É uma pintora diante da tela imensa do espelho, produzindo cores inéditas na paleta. Não esmorecerá até definir a opção certa para o clima e para a ocasião. Não deseja apenas estar bonita, porém ser também oportuna. Odeia a hipótese de chegar num lugar com jeito de fantasiada.

Escolher depende do cruzamento das peças com os acessórios. O costume é aprovar o vestido e não achar um sapato à altura, optar por uma calça e uma camisa e cismar com o cinto. Uma simples hesitação põe o trabalho de horas abaixo.

A importância do encontro pode ser mensurada pelo número de roupas que testou. Mais de cinco é sinal de que leva a sério o passeio.

Não reclamo quando a minha namorada troca de roupa seguidamente. Não reclamo da demora e do atraso. É a minha chance de vê-la nua várias vezes. É a minha chance de vê-la se despindo para mim várias vezes.



02 de abril de 2016 | N° 18489 
ANTONIO PRATA

A SOLUÇÃO PARA A CRISE


É começar a fumar. Ou se você, como eu, é (era) um ex-fumante, voltar a fumar: basta um trago ou dois e todos os seus neurônios se erguerão em ola na arquibancada craniana, recepcionando eufóricos o saudoso veneno e deixando de lado, por alguns instantes, o 7 a 1 a que assistimos diariamente dentro do campo. Se você nunca fumou, precisa insistir um pouco. Um maço. Dois. Três, no máximo. Depois do quarto, seu córtex já vai estar inquieto (a nicotina e a Philip Morris não brincam em serviço): cadê aquela substância que tava aqui?

Eu não punha um cigarro na boca havia 15 anos. Aí, em algum momento entre a eleição do Eduardo Cunha e a inflada do Pixuleco, me vi com um Marlboro na mão. De início, fiquei triste. Senti que era uma derrota. Um recuo. Uma queda. Mas, com o agravamento da crise política, social, cultural, moral, mental etc e tal, fui percebendo as vantagens da minha idiotice. O cigarro é um abraço de bolso, um travesseiro portátil, uma cortina de fumaça instantânea, como aquelas granadas de nuvem colorida que os ninjas jogam no chão para desaparecer nos velhos filmes B da televisão: basta acioná-lo para nos isolarmos do mundo – e existe momento melhor para nos isolarmos do mundo?

O Jornal Nacional divulga grampos de Lula, batem panelas: fumo um cigarro. Policial mata criança com tiro de fuzil, não batem panelas: fumo um cigarro. Meu tio Arnoldo, que votava no Maluf, que comprou a carta de motorista, que aplaudiu o massacre do Carandiru, posta no Facebook “Agora este país vai pra frente!”: fumo um cigarro. O jornaleiro fala: “Tinha é que fuzilar esses petistas!”: compro o cigarro, abro o cigarro, fumo o cigarro. O cigarro é um botão de pause: largo o computador, saio do restaurante, dou uma volta no quarteirão e ali ficávamos nós, eu e o Marlboro, sem pensar em nada, num silêncio de cumplicidade, como um homem com seu cachorro – ele é o homem, eu, o cachorro.

O cigarro é a droga mais estúpida de todas. O álcool é uma canção de ninar para o superego. A Cannabis, como descreveu Baudelaire, faz com que todas as coisas pareçam fora do lugar sem ter se movido um milímetro. A cocaína nos coloca acima do céu. O LSD transforma um amendoim no globo terrestre e o globo terrestre no globo ocular e você e o amendoim e o globo ocular na mesma coisa linda e louca e azul e rosa e luz e som e vida e ahhhhhh! Já o cigarro cumpre a única função de sanar a aflição da sua ausência. É sarna que arrumamos para nos coçar. Necessidade. Satisfação. Necessidade. Satisfação. (E falta de ar e tosse e fedor.) Mas, enquanto estamos envoltos em seu ciclo idiota, como um ratinho correndo na roda, nada mais nos importa.

Haverá impeachment? Eduardo Cunha se livrará e passará o resto dos seus dias comendo chocolate Lindt? Um acordão parará a Lava-Jato assim que o PMDB assumir? A próxima pauta progressista aprovada no Congresso será em 2167? O que fazer neste momento terrível da história nacional? Não sei. Vocês que resolvam. Eu vou ali fumar um cigarro. (E em meados de abril, quando rolar o impeachment e o CCC estiver invadindo peças de teatro para espancar os atores, não sofrerei tanto, pois terei questões pessoais muito sérias a resolver: estarei parando de fumar.)

O colunista escreve semanalmente neste espaço



02 de abril de 2016 | N° 18489 
DIANA CORSO

CREME NUMA HORA DESSAS?


Minhas duas avós eram húngaras, ambas chamavam-se Irene e tinham uma bela parceria. Essa amizade ficou um pouco estremecida em uma única ocasião: quando meu pai morreu de forma súbita e precoce e uma Irene precisou consolar a outra. Minha avó paterna perdera seu primogênito ainda jovem, enquanto a avó materna via-se às voltas com uma filha viúva de 20 e poucos anos, e eu, órfã ainda bebê.

Naquela ocasião uma silenciosa discórdia instalou-se entre elas por um motivo aparentemente pífio: a mãe de meu pai chorava copiosamente a perda do filho, mas isso não a impedia de passar creme no rosto várias vezes por dia, como era seu hábito. Uma Irene achou que o sofrimento da outra, a mãe enlutada, não era compatível com cuidar da pele. Disfarçou isso até para si mesma, mas acho que, no fundo de seu coração, não aceitou. Para a avó materna, o ato de embelezar-se da vó paterna tornava questionável a veracidade de sua dor: como assim passar creme numa hora dessas? Escutei essa crítica quando ela me contou a história, mas não consegui concordar.

Como minha avó paterna, e por causa dela, tornei-me adicta a hidratantes. Tenho a pele muito seca e os passo várias vezes por dia, incomodada pelo ar condicionado, pelo frio, com as mais diversas razões e desculpas. Só não vou mentir-me que esse hábito tenha muito a ver com hidratação propriamente dita. Acho que essa carícia de creme era para ela uma forma de autoconsolo da qual me tornei adepta. 

Em vez de esperar pela ajuda alheia, ela se recobria suavemente, dava-se um abraço cremoso. Como a perda de um filho é a maior dor que pode existir, algo capaz de sequestrar a vontade de viver de seus pais, não soa bem uma atitude que remeta à continuidade da vida. Somos contraditórios com aqueles que sofrem semelhante mutilação de seu futuro: queremos que quase sucumbam a uma dor insuportável, queremos que sejam fortes e sobrevivam.

Muitas pessoas costumam negar os momentos difíceis, saem imediatamente em viagem, afastando-se de tudo que os lembrava aquele que nunca mais voltará, entregam-se a duras jornadas de trabalho ou não tocam no assunto. Ignoram seus sentimentos e exilam os pensamentos que ajudariam a destilar a saudade. 

Há outras que se afundam para sempre, não perdem a oportunidade de um apocalipse pessoal e deixam-se abduzir pela dor. Estes últimos, alheios à necessidade de sua presença e afeto por parte dos que ainda estão vivos, parecem indicar que a única pessoa que amavam é a que morreu. Pais que têm a vida de um filho ceifada, se tiverem outros, precisam superar-se para que esses não pensem ser insignificantes frente ao irmão morto.

O raciocínio a respeito do luto pode ser aplicado a outras situações difíceis, onde a vida é ameaçada ou perde o sentido que tinha. Por exemplo, quando se recebe um diagnóstico ruim da própria saúde ou de alguém muito amado, uma inesperada demissão, uma aposentadoria para a qual não se está preparado, uma bancarrota, uma desilusão amorosa. Condenamos tanto os que negam uma perda, quanto os que se revelam incapazes de superação.

No raciocínio daquela Irene, que era sogra do falecido, encontramos essa tendência a avaliar com pouca tolerância os recursos utilizados por aqueles que sofrem. Queremos que sejam autênticos, que mostrem verdadeira entrega à sua dor, mas também que sejam breves e resolutivos, nada de depressões ou lutos arrastados.

Se uma Irene tivesse lembrado que, como a outra, era uma emigrante desgarrada de todo um passado e referências, talvez tivesse entendido esse gesto solitário de sobrevivência psíquica. Cuidar da pele era tão válido como tantas atitudes pouco convencionais a que as pessoas recorrem quando a vida pede que se tenha uma envergadura quase sobre-humana.

Cresci passando cremes e acostumei-me a dizer que as pessoas que tiveram vida difícil têm a “pele dura”, sem dar-me conta que remetia ao episódio daquela Irene passando creme para sobreviver à perda. Minha avó materna estava errada daquela vez: há diferentes recursos e são uma sorte para quem os tem. A dor também se enfrenta com hidratante.



02 de abril de 2016 | N° 18489 

DAVID COIMBRA

Onde está a democracia, afinal

Democracia, democracia, como há campeões da democracia no Brasil. Três casos recentes:

1. Houve um convescote em Porto Alegre, fiquei sabendo, em comemoração ao aniversário da chamada Redentora de 1964. Os organizadores anunciaram que se tratava de um evento “democrático”.

2. No mesmo dia, 31 de março, houve manifestações em favor do governo do PT. Faixas e discursos do Chico Buarque diziam que todos estavam lá “em defesa da democracia”.

3. Dias antes, 6 milhões de brasileiros saíram em vagas pelas ruas das cidades protestando contra o governo do PT.

Também eles gritavam pela democracia.

Para você ver como a democracia é fluida. Quando alguém fala que está defendendo a democracia, nunca sei se essa pessoa é contra ou a favor do governo.

Onde está a democracia?

O que é, de fato, a democracia?

Começo dizendo o que NÃO é:

A democracia não é só voto.

A democracia não é só um conjunto de direitos do cidadão.

A democracia não é a garantia de total liberdade.

A democracia tampouco é a garantia de total igualdade.

Isso é o que a democracia não é.

E o que ela é?

A democracia é o cumprimento do contrato social, para usar um termo do francês Rousseau. Em miúdos: a democracia existe quando tudo e todos, numa sociedade, estão abaixo da lei escrita pelos representantes legitimamente eleitos pelo povo.

Lei. A democracia é a lei.

Tomando esse princípio como base, não há confusão. É fácil de identificar, por exemplo, que o regime militar não foi democrático. O Legislativo não era respeitado, e o Legislativo é o poder que representa mais diretamente a população.

Esse jogo de pesos e contrapesos entre os três poderes é que define o equilíbrio da democracia.

O Executivo, precisamente por querer “executar”, tem uma natural tendência ao autoritarismo.

O Legislativo, por sua multiplicidade, tende ao conflito.

E o Judiciário, por sua tecnicidade, tende ao elitismo.

Quando um poder está mais fraco, os outros se fortalecem. No caso atual do Brasil, dois poderes estão em crise: o Executivo e o Legislativo. Normal, assim, que o Judiciário inche, seja requisitado como mediador e, eventualmente, se exceda.

O Judiciário a todo momento está sendo convocado para dirimir um problema havido entre os outros dois poderes.

Por que isso? Porque o Brasil está clamando pela orientação da LEI. Porque o Brasil quer, enfim, submeter-se à LEI. Porque o Brasil está se tornando uma democracia.

O caminho é longo, bem sei. Há riscos, sabemos. Mas avançamos. Negociação de muquiranas

O governo compra votos e paga com cargos. É miudeza, coisa de muquirana: em troca de um salário pingado na conta todo dia 5, o deputadinho vai lá e dá o seu votinho para que a presidente não seja demitida do seu empreguinho.

Se acontecesse numa empresa privada, seria um escândalo. Imagine o executivo de uma empresa usando os cargos subalternos para fins particulares, e não para o bom funcionamento da companhia. Os acionistas não aceitariam. O executivo seria demitido.

No caso do Estado, os acionistas são os cidadãos, mas eles não se importam. As pessoas ouvem as notícias sobre as negociações dos cargos no governo federal, e acham isso muito natural.

Para o brasileiro, o Estado não é dele: é do Executivo. Viemos de uma longa monarquia, tivemos um breve interregno de democracia e, depois, o Pai dos Pobres Getúlio, um rei de bombachas. A partir daí, continuamos em busca de reis: Jânio, Collor, Lula, todos pequenos reis.

O Estado, assim, não é dos seus acionistas. É do Executivo. Do rei. E o rei usa-o como bem entender, enquanto os súditos aplaudem e o saúdam: “Não vai ter golpe!”.

Já teve golpe. Todos os dias tem golpe.

A nossa impunidade

Durante décadas classificamos a impunidade como o maior mal do Brasil. Quando finalmente alguns brasileiros comuns, do povo, um juiz de primeira instância e um punhado de promotores e policiais, quando finalmente essas pessoas começam a agir com retidão para punir quem cometeu irregularidades, parte do Brasil ergue-se em críticas, ironias e relativizações.

A crítica à impunidade só valia quando os outros mereciam punição.

sexta-feira, 1 de abril de 2016


01 de abril de 2016 | N° 18488
ARTIGOS -EDUARDO K. M. CARRION*

O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS


O Sono da Razão Produz Monstros (1799), obra admirável de Francisco de Goya (1746-1828), pintor espanhol, produzida, no final do século 18, num contexto de conflitos políticos, sociais e militares na Europa, é um apelo pelo iluminismo e uma crítica aos sectarismos, de qualquer ordem, não importa a origem e o horizonte ideológico. Em suma, uma opção pelo projeto civilizatório.

É verdade que a política constitui-se como um cenário de diferenças, de conflitos, de contraposições, de lutas. Mas há de se entender também que a política se qualifica ou deve se qualificar pela superação da pura e simples violência, física ou simbólica. Por isso mesmo, deve se desenvolver no leito e nos limites de regras e de procedimentos consensual e legitimamente construídos, portanto democráticos. Antes de tudo, as regras constitucionais e legais, mas também as regras sociais e morais da sociedade em questão. Sob pena de substituirmos o projeto civilizatório pela barbárie.

Quem examina a conjuntura nacional com isenção, deve antes de tudo positivamente admirar-se com a capacidade criativa da sociedade e o fortalecimento, importante e necessário, de instituições de fiscalização e de responsabilização como, entre outras, a Polícia Federal, o Ministério Público, o Poder Judiciário. Isso é avanço institucional e democrático, sem dúvida, que merece ser saudado. Há eventual ou inevitavelmente traumatismos, que, de qualquer forma, fazem parte do processo. O momento que vivemos revela- se então como oportunidade histórica de repensarmos, reavaliarmos e redirecionarmos nossas práticas políticas. De, finalmente, democratizarmos nossa democracia, na perspectiva de um contrato social mais consensual e legítimo.

Observamos, entretanto, que por vezes os ânimos tendem a se acirrar além dos limites da razoabilidade, o adversário se transformando finalmente em inimigo, perdendo-se com isso a capacidade do diálogo, em detrimento do avanço institucional e político. O surpreendente nisso tudo é o fato de grande parte da intelectualidade, que, em princípio, deveria ser um referencial de racionalidade, deixar-se tomar completamente pelas paixões do momento. Nesse contexto geral, realmente o sono da razão pode produzir monstros.

Professor titular de Direito Constitucional da UFRGS e da FMP*


01 de abril de 2016 | N° 18488 
CLÁUDIA LAITANO

Torcida mista

Nunca pensei que eu fosse dizer isso, mas os brasileiros precisam aprender bons modos com os torcedores de futebol. Bom, pelo menos com uma minúscula parcela deles – aqueles que dividem alegrias e decepções com os adversários nos espaços reservados às torcidas mistas nos estádios.

É civilizatório dar rosto, voz e alma ao adversário, já que a raiva, muitas vezes, se alimenta da despersonalização. Somos menos propensos ao discurso do ódio se quem veste a camisa do outro time é o amigo de infância, o cunhado boa-praça, a namorada.

A não ser que estejamos em guerra com outros planetas ou lidando com psicopatas sedentos de sangue e aniquilação de liberdades, todos os adversários merecem ser honrados, no mínimo, com o reconhecimento de que sua existência é legítima. Por mais fanáticos que sejam, gremistas e colorados não são definidos apenas pelo time para o qual torcem. 

Quando o outro é reduzido a um único aspecto (crença, nacionalidade, ideologia, classe social), torna-se muito mais fácil imputar-lhe culpas reais ou imaginárias. De qualquer forma, ninguém deveria ser definido pela fé fora da igreja, pela ideologia fora do debate de ideias – pela etnia e pelo sexo em lugar nenhum. Quando o gremista não pode entrar no bar do colorado ou vice-versa, o prejuízo não é do time, mas do tecido social. A torcida mista é um singelo gesto de resistência contra tudo aquilo que impede que rivais se reconheçam – e se aceitem.

A notícia de que uma pediatra deixou de atender um paciente pela convicção ideológica dos pais deveria servir como exemplo do absurdo extremo da guerra civil ideológica que se instalou no país nos últimos tempos. Uma crise muito mais grave e desoladora do que a da economia ou da política – porque essas vão acabar passando mais cedo ou mais tarde.

A missão de arejar esse ambiente tóxico e irrespirável não é dos políticos em Brasília, mas de cada um de nós: médicos, taxistas, jornalistas, diretores de cinema, artistas, donas de casa, militares, advogados... A presidente pode cair ou não, a corrupção pode ter sofrido um golpe mortal ou apenas um cutucão, a economia pode voltar a florescer ou ficar pior ainda. A única certeza que temos é de que nunca torceremos todos para um único time. Abrir espaço para uma torcida mista nessa arena de guerra é a única maneira de voltarmos a ter alguma alegria em campo.

A partir da próxima semana, dou uma folga aos leitores para realizar o sonho antigo de um bimestre sabático. Nesse período, o psicanalista Mário Corso assume este espaço. Até mais!

01 de abril de 2016 | N° 18488 
NÍLSON SOUZA

O CAPÍTULO 17



Vargas Llosa escreveu um texto monumental sobre a verdade das mentiras, argumentando com extrema lucidez que a ficção nos permite ampliar a nossa única vida real para as muitas vidas dos romances. Graças à literatura, afirmou, podemos ser muitos outros sem deixarmos de ser nós mesmos.

Talvez valha o mesmo para o jornalismo nestes tempos de debates apaixonados e intolerâncias que estamos vivendo. Muitas pessoas não leem o que está escrito, mas sim o que querem ler. Buscam nas entrelinhas sentidos e insinuações que o autor jamais quis dar.

A verdade, matéria-prima deste ofício de reportar histórias, é uma minúscula pepita de ouro na montanha de fatos e boatos do nosso garimpo cotidiano. Raramente a encontramos na integridade do seu brilho e de sua pureza. Mas temos o dever de procurá-la obsessivamente, como Sísifo condenado a empurrar a sua pedra montanha acima, sabendo que ela escorregará de volta para a base.

Assim nos vemos, mas não é assim que o nosso público nos vê. Uma pesquisa recente feita na Itália sobre os profissionais que mais mentem coloca os políticos – sempre eles – num inalcançável primeiro lugar, mas o segundo posto é dos jornalistas, seguindo-se comerciantes, publicitários e por aí vai. Claro que isso é uma generalização pouco confiável, até mesmo porque, como provou um certo pastor escocês, célebre por seus sermões, todos podem cair na tentação. Aí vai a história:

– Vou pregar amanhã sobre a mentira, advertiu. Peço, porém, aos meus queridos ouvintes que, para melhor preparação do que irei dizer, leiam todos o capítulo 17 de São Marcos. Considero indispensável essa leitura prévia. No dia seguinte, compareceram todos. E, logo, o pastor inquiriu previamente:

– Aqueles que leram o capítulo 17 de São Marcos, conforme a minha recomendação, queiram levantar-se. Levantaram-se todos como um só homem. E o pastor prosseguiu:

– Sois vós realmente os verdadeiros ouvintes do meu sermão de hoje sobre a mentira. Porque, em verdade, não existe o capítulo 17. O evangelho de São Marcos tem apenas 16 capítulos.

De onde concluo também a minha pregação com uma citação do poeta espanhol Ramón de Campoamor, que dá um rumo para este debate: “No mundo, nada é verdade nem mentira: tudo depende da cor do cristal com que se mira”.

Amarelos, vermelhos e incolores, feliz dia da mentira!


01 de abril de 2016 | N° 18488 
DAVID COIMBRA

Informação demais

Os americanos usam no dia a dia uma expressão que é bem ilustrativa de sua cultura. Quando alguém começa a falar muito sobre si mesmo, eles se cutucam e comentam à sorrelfa:

– TMI...

Diz-se “ti êm ai”. Sigla para Too Much Information. Ou: informação demais.

Nós brasileiros reclamamos quando há informação de menos, eles reclamam quando há informação demais.

Isso não significa que os americanos prefiram alienar-se a enfrentar as vicissitudes da vida. O que eles não gostam é de enrolação. Você quer algo? Diga claramente, sem explicações em demasia. Se você tiver direito, eles dirão: Claro! Se não tiver, eles pedirão desculpas e dirão não. É simples: se pode, pode; se não pode, não pode. Fim. Não vai adiantar contar história.

Brasileiro suburbano que sou, confesso que esse comportamento me causou certa estranheza no início. O brasileiro, quando tem alguma reivindicação a fazer, sabe que terá de ser persuasivo para ser atendido. Ele precisará “convencer” alguém a lhe dar o que quer.

Ou terá de brigar.

Eis outro ponto interessante. Você decerto está farto de ouvir uma crítica ao comportamento dos brasileiros: “O brasileiro não reclama de nada!”. É justamente o contrário: o brasileiro reclama de tudo.

Outra noite, estava em um trem e, em determinada estação, os vagões pararam e o condutor avisou pelo sistema de som: “Desculpem, mas o carro está com defeito e todos terão de descer aqui”. O que aconteceu em seguida foi algo inverossímil para um brasileiro: os passageiros desembarcaram calmamente, em ordem, sem que ninguém, NINGUÉM!, sequer tivesse feito um muxoxo de protesto.

Tenho observado idêntico comportamento em outras situações do gênero. Uma fila demorada, um atendimento atrapalhado, pequenas confusões que fariam brasileiros dar discurso a respeito dos seus direitos são encaradas com paciência e naturalidade pelos americanos.

Por que isso?

Porque os americanos sabem que não estão sendo enganados.

O brasileiro grita, espeta o dedo no nariz do outro, reclama de tudo porque a todo momento e em todo lugar há alguém tentando enganá-lo. O brasileiro é um desconfiado porque é um sofrido. Ele sabe que só se dará bem na vida se puder contar com os favores de pessoas mais poderosas ou que gozam de certa influência. Donde, a necessidade de dar explicações e contar histórias tristes. De fornecer informação em excesso. O brasileiro sabe que precisa COMOVER o outro para ter o seu direito assegurado.

“O senhor me desculpa, mas preciso disso porque minha mãe está muito doente, apareceram uns tumores horríveis no pescoço dela, ela fica toda inchada e as pústulas estouram e o cheiro é podre e...”

Se um americano ouve, sai correndo. Ele dispensa essas intimidades, porque ele também não pretende expor suas intimidades. TMI.

Essa é a origem do jeitinho brasileiro. E do nosso cinismo. Quando tudo depende da boa vontade alheia, você sabe que em tudo pode haver logro e dissimulação. E você deixa para lá, porque afinal “é assim mesmo...”.

Por que os governos cometem irregularidades? Porque sempre cometeram. Por que não devem ser punidos? Porque nunca foram.

Não importa o que está na lei, importa se é “justo”, e o que é justo depende do que eu acho, do que você acha e, sobretudo, do que quem manda acha. No Brasil temos todos de falar demais, argumentar demais, dar informação demais. Porque o que pode às vezes não pode. E o que não pode, sabe-se lá, talvez possa.