segunda-feira, 21 de abril de 2025


21 de Abril de 2025
CARPINEJAR

Uma sexta-feira que matou a paixão

O Estado mostra-se profundamente adoecido de machismo e misoginia. Da madrugada à tarde, das balas às facas, os crimes se espalharam como uma epidemia de ódio pelas principais regiões: Metropolitana, Serra, Vale do Rio Pardo, Vale do Paranhana, Vale do Caí e Fronteira Oeste.

Todos os envolvidos e suspeitos são maridos ou ex-namorados. Ou não aceitavam o fim da relação, ou não admitiam divergências, ou sofriam de ciúme.

A vida das mulheres gaúchas está em perigo, parece que vale nada. É isto que é dito, na ameaça que se transforma em execução a sangue-frio: Você não vale nada. A possessividade vem dizimando famílias e abreviando futuros. É isto que é dito:

Se você não é minha, não será de mais ninguém.

Nenhum mandamento sagrado da existência é respeitado. Caroline Machado Dorneles, 25 anos, encontrava-se grávida de três meses. Ela e seu filhinho, dormindo esperançoso em seu corpo, foram assassinados a facadas pelo ex-companheiro em Parobé. Sequer a gestação inibiu a truculência, numa crueldade sem limites, numa completa profanação da vulnerabilidade. Acredito que Caroline não chegou a se defender, tentou em vão proteger seu ventre do ataque. Era mãe também de uma criança de cinco anos.

O que falar, então, de Juliana Proença, 47 anos, em São Gabriel? Golpeada furiosamente na frente da filha de seis anos pelo ex-namorado, que não teve piedade da pequena testemunha olhando tudo.

Em Feliz, Raíssa Müller, 21 anos, e seu namorado, Eric Turato, 24, terminaram subjugados numa emboscada pelo ex-namorado dela, que descobriu fotos do casal nas redes sociais. Em Viamão, Patrícia Viviane de Azevedo, 50 anos, sucumbiu baleada pelo ex-marido no bairro Santa Isabel. Em Bento Gonçalves, Jane Cristina Montiel Gobatto, 54 anos, viu-se encurralada e apunhalada até a morte pelo companheiro, preso em flagrante. Em Santa Cruz do Sul, Simone Andrea Meinhardt, 49 anos, amargou igual sina: morta a facadas pelo companheiro, usuário de cocaína.

Seis feminicídios em um único dia é a média de um mês inteiro em 2024. Um pico alarmante, que escancara a cultura de extermínio de um gênero. É necessário repensar as leis brandas e redobrar o cumprimento das medidas protetivas. Já são 21 feminicídios no ano que mal iniciou, cada qual numa cidade diferente.

Nem quando os ex vão embora as mulheres recuperam sua paz. Aliás, é na ruptura que irrompe o inferno da perseguição. Alguns homens só não matam porque passaram a se relacionar com novas presas.

Diante da carnificina em andamento, não é possível alegar que é exceção ou se acomodar na omissão e na impunidade. Mães, filhas, amigas, colegas, quantos lutos cobrindo de escura tempestade os céus do feriado?

Um dado preocupante: das seis vítimas, duas tinham pouco mais de 20 anos e quatro se situavam na faixa dos 50. Ou seja, bem nos momentos em que começavam ou recomeçavam a vida amorosa - com uma imensa dificuldade, devido à violência doméstica, para abandonar um namoro ou um casamento.

Numa data santa, numa Sexta-Feira da Paixão, por absoluta maldade, seis mulheres não estão mais com as suas famílias para a Páscoa. Nunca mais estarão. Não haverá domingo de ressurreição para elas. 

CARPINEJAR

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