quinta-feira, 22 de julho de 2010


CRISTINA GRILLO

Dois meninos

RIO DE JANEIRO - Quatro dias separam as mortes trágicas de dois meninos cariocas, vítimas da inconsequência e do descaso com o próximo. Dois dramas que poderiam ter sido evitados se não vivêssemos em tempos descuidados, nos quais não pensamos nos efeitos de nossos atos.

Wesley Guilber Rodrigues de Andrade, 11, assistia à aula de matemática no Ciep Rubens Gomes, em Costa Barros, na zona norte, quando mais um dos rotineiros confrontos nas favelas cariocas, entre policiais e criminosos, irrompeu do lado de fora.

Triste cidade onde crianças de 11 anos reconhecem o som de tiros e, instintivamente, buscam proteção. Alguns se jogaram no chão; outros, como Wesley, buscaram refúgio no corredor, longe das janelas.

Para Wesley não houve tempo de encontrar abrigo. Foi atingido no peito por um tiro de fuzil. De onde veio, se de policiais ou de criminosos, não importa. O que choca é ver que os responsáveis por nossa segurança não levam em conta os riscos de uma operação policial diante de uma escola.

Rafael Mascarenhas, 18, aproveitava a pista interditada do túnel Acústico, na Gávea, zona sul, para andar de skate, prática comum entre a garotada carioca, apesar de proibida. Foi morto por outro jovem que, com seu carro, também invadira o túnel.

O motivo: fazer um "pega" com amigos que estavam em outro veículo, suspeita a polícia; encurtar o caminho de volta à zona sul e saciar a fome que batera àquela hora da madrugada, diz o atropelador.

Como no caso de Wesley, não importam os motivos. O vão de serviço de um túnel não é um retorno para encurtar caminhos, quer ele esteja aberto ou interditado.

Dois meninos, que em vida possivelmente jamais se encontrariam, descobrem na tragédia de suas mortes um ponto que os une: o ato irrefletido de seus algozes.

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