sábado, 10 de julho de 2010



11 de julho de 2010 | N° 16393
L. F. VERISSIMO


Uma cidade que não existe

Depois de quase 40 dias aqui, ainda não sei exatamente onde estou. Cidade do Cabo, Durban e Port Elizabeth, que também conhecemos, pelo menos eram cidades definidas. Já Joanesburgo parece uma abstração – ou uma estranha coleção de células independentes que nunca formam um organismo.

Nosso hotel fica numa zona chamada Sandton, de grandes bancos e edifícios empresariais e residenciais novos ou em construção. Um bairro fino de Joanesburgo, pensa você. Ledo e ivo engano. Há placas indicando a direção de Joanesburgo, que obviamente não é ali.

Durante todo o tempo em que andamos de carro pelas intermináveis avenidas, chegando ou indo para o aeroporto, indo e voltando dos estádios, indo e voltando dos shopping centers, Joanesburgo nunca era ali, era sempre onde as placas indicavam. Conclusão: é uma cidade que não existe, só existe a sua periferia.

Os shopping centers são grandes e ricos. As casas que vislumbramos em condomínios residenciais, atrás de muros altos, são grandes e ricas. Impressiona o número de condomínios, que são uma forma de autossegregação. Veem-se também casas sendo construídas para a população pobre, mas a grande maioria ainda mora em favelas precárias.

O contraste entre rico e pobre não é novidade nem para europeu e americano, o que dirá para brasileiro, mas em nenhum outro lugar do mundo a distinção de cores é tão evidentemente uma distinção de classes como na África. E na África do Sul, para agravar os riscos dessa diferença brutal, existem ainda a lembrança recente e os ressentimentos vivos do apartheid.

Mas é preciso dizer que a impressão mais forte que levaremos da África do Sul é a da amabilidade das pessoas. Li a respeito da tensão que existe aqui, entre negros com ideias diferentes de como vencer o apartheid de fato que ainda existe, mas das alturas de Sandton tudo parecia remoto, noutro lugar, como a própria Joanesburgo.

Nenhum ressentimento com a Holanda, mas vou torcer pela Espanha, hoje. Nem tanto pela seleção como pelo país, que, com as vitórias do Nadal e outras conquistas esportivas e artísticas, está vendo seu sucesso como nação projetado no mundo. A economia espanhola anda com problemas, como todos nós, mas pela sua história recente, e pela Penélope Cruz, eles merecem.

Acabo de saber: o polvo escolheu a Espanha!

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