sábado, 16 de janeiro de 2016



16 de janeiro de 2016 | N° 18416 
CLÁUDIA LAITANO

O dia em que eu não passei no vestibular

Não lembro como fiquei sabendo do resultado. Pelo rádio, provavelmente. Naqueles tempos pré-internéticos, vestibulandos e suas famílias costumavam acompanhar a interminável leitura em ordem alfabética do listão pelo rádio – para conforto dos Adamastores e prolongado sofrimento das Zuleikas. Curiosamente, não lembro do momento em que não ouvi meu nome no listão. A única memória que tenho daquele dia é de uma cena que aconteceu minutos mais tarde. 

Minha mãe começou a servir meu almoço enquanto a lista no rádio já devia andar pela letra D. Diante de um prato de arroz, feijão e bife, obviamente intransponível naquele momento, a tensão se desfez sobre a mesa. Não lembro de ter chorado tanto e de forma tão sentida em qualquer outro momento dos meus breves 16 anos. Minha mãe, parada na porta, ficou quieta – e retrospectivamente lamento a dor silenciosa dela mais do que a minha.

No ano seguinte, fiz outro vestibular, de novo para Psicologia na UFRGS, e passei. No primeiro dia de aula, era a aluna mais satisfeita da sala. Nunca tinha pensado em estudar outra coisa em outro lugar. Que sorte a minha, eu pensava. Três anos depois, como costuma acontecer com alguma frequência nessa época da vida, eu já tinha mudado de ideia. 

Fiz um novo vestibular, desta vez para Jornalismo, passei, mas não fiquei tão feliz quanto da primeira vez – assim como não teria ficado tão triste se não tivesse passado, imagino. Talvez fosse isso que a minha mãe quisesse me dizer naquele dia na cozinha, me olhando em silêncio parada na porta: nada é tão grave assim, minha filha. Bom, quase nada.

Esta semana voltei a viver, em versão atenuada, a tensão de um vestibular. Agora era eu acordando cedo para preparar o lanche, acalmar os ânimos e tentar dizer com o olhar: nada é tão grave assim, minha filha. Suportar as emoções de um filho exige autocontrole, para não avançarmos o sinal, e humildade, para entender que não podemos dar conta das ansiedades deles como cuidamos de um joelho ralado ou de um resfriado. Às vezes, um silêncio respeitoso é a única ajuda possível e necessária.

Mais de 30 anos depois do meu primeiro vestibular, fico feliz em constatar que poucas vezes na vida adulta chorei como naquele dia diante do prato de feijão e bife da minha mãe. Hoje entendo que aquele foi um choro inaugural, um rito de passagem. Chorei na cozinha porque me senti traída, porque as coisas não deveriam dar tão errado quando a gente faz tudo ao nosso alcance para que elas deem certo. Nunca nos acostumamos com a falta de justiça cósmica no universo, é verdade, mas depois de algum tempo não chegam a nos surpreender as frustrações, os desfechos infelizes, os desvios de rota. 

Vive-se. Minha reação, aos 16 anos, foi como o choro de um bebê que troca o ambiente protegido a que estava acostumado por um lugar onde os eventos nem sempre são muito amigáveis: a vida adulta. Apesar do desconforto inicial, neste mundo confuso e nem sempre muito justo, finalmente somos capazes de respirar e agir por conta própria – e isso, acreditem, não é pouca coisa. Sejam bem-vindos, vestibulandos.

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