07 de setembro de 2014 |
N° 17915
L. F. VERISSIMO
Encontros
No outro dia, me encontrei com
Adolf Hitler. Ele parecia bem, para um homem com 125 anos. E feliz. Talvez
fosse o clima de Itatiaia, onde ele veio morar depois da guerra e onde tem uma
pequena pousada no estilo bávaro. Perguntei a que ele atribuía sua jovialidade,
e ele respondeu: “A uma vida bem vivida”. E continuou:
– Fiz tudo o que me propus fazer,
na vida. Sou um homem realizado. Um vitorioso.
Eu não quis ser indelicado, mas
era preciso lembrá-lo:
– A Alemanha perdeu a guerra,
Adolf.
– Ach, a Alemanha. EU ganhei.
Consegui tudo o que queria. Me vinguei!
Não entendi. Ele se vingara dos
aliados, que tinham vencido a I Guerra Mundial e imposto pesados castigos à
Alemanha derrotada? Se vingara dos seus inimigos políticos, que tinham tentado
impedir sua ascensão ao poder? Dos judeus? Se vingara de quem, exatamente?
– Da Academia de Artes de Viena,
que não me aceitou. Sabe o que eles disseram das minhas pinturas quando eu quis
me matricular? Que eram muito água com açúcar. Água com açúcar! Jurei, então,
que me vingaria. Que minha arte ainda iria espantá-los. Que eles iriam ver.
Depois de tanto tempo, Hitler
ainda se entusiasmava com a lembrança do que fizera. Mesmo com seus 125 anos,
dava pulinhos de satisfação. As pessoas não tinham entendido que a destruição
da Alemanha e de boa parte da Europa num holocausto de fogo era o seu objetivo:
era a sua obra.
A cada notícia de uma cidade
alemã arrasada por bombardeios, a cada nova barbaridade, ele dava gargalhadas.
Seu único sentimento ao ver Berlim totalmente em ruínas, antes de fugir para o
Brasil, fora o de não poder assinar o quadro como se assina uma pintura. Ele
conseguira. Um fim apoteótico, wagneriano. Queria ver a Academia chamar aquilo
de água com açúcar!
Quando nos despedimos, ele me
convidou a visitar sua pousada, onde serviam um apfelstrudel respeitável.
No mesmo dia (que dia!), dei com
o Martin Luther King na rua. Não pude me controlar a exclamei:
– Negrão! Ele não gostou. – What?
– Desculpe! É um hábito
brasileiro... “Negrão” é um termo carinhoso. Quer dizer, carinhoso não. É...
comum. A gente diz sem pensar. É como chamar negro de crioulo. Não é
desrespeito, entende? Ou é mas não é. A gente também chama crioulo – quer
dizer, desculpe, afrodescendente – de negrinho, mesmo que ele tenha dois metros
de altura. Não é racismo, é... é...
O King só me olhava. Finalmente
disse: – É racismo, sim.
Ele começou a se afastar. Eu
ainda gritei: – Mas é inconsciente! Não adiantou. Ele nem se virou.
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