sábado, 27 de julho de 2019



27 DE JULHO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

O RISCO DE DEMÊNCIA

Pesquisa britânica recém divulgada investigou associação entre genética e estilo de vida. Anos atrás, os poucos que chegavam aos 60 anos eram chamados de sexagenários. Hoje, quando morre alguém com 70, dizemos que morreu moço.

Uma pesquisa recente mostrou que, ao completar 50 anos, pessoas que não fumam, bebem com moderação, praticam atividade física com regularidade, adotam dietas com mais vegetais e menos gordura animal e mantém o peso corpóreo na faixa saudável terão expectativa de viver em média mais 38 anos se forem homens, e mais 43 no caso das mulheres.

O preço a pagar pelo privilégio da longevidade, no entanto, extrapola a questão da Previdência Social, uma vez que a prevalência de enfermidades crônico-degenerativas aumenta com a idade. Entre nós, o custo é mais alto, porque envelhecemos mal: cerca de 90% dos brasileiros chegam aos 60 anos com pelo menos uma doença crônica.

Nesse universo, as demências ocupam lugar de destaque. Nem tanto pela prevalência - hipertensão e diabetes são muito mais prevalentes -, mas pelas consequências devastadoras, pessoais, familiares e sociais.

Diversos pesquisadores avaliaram a influência do estilo de vida na instalação dos quadros demenciais que ocorrem ocasionalmente, em indivíduos sem antecedentes familiares. Aprendemos que existem vários fatores capazes de aumentar esse risco: fumo, sedentarismo, dieta pobre em vegetais e rica em gordura animal, abuso de álcool, falta de estímulos cognitivos, distúrbios do sono, dificuldade de engajamento social, traumatismos cranianos e até a poluição.

Por outro lado, os avanços da genética levaram à identificação de mais de 250 mil variantes de genes associadas ao risco de demências. A presença delas, explica o número de casos concentrados em determinadas famílias. Para os portadores desses genes, bem como para filhos, netos e sobrinhos de pessoas com Alzheimer e outras degenerações cognitivas é fundamental saber se a tendência genética pode ser contrabalançada, por meio de mudanças no estilo de vida.

Acaba de ser publicadA na revista JAMA uma pesquisa conduzida por D. Llewellyn no Reino Unido para responder A essa pergunta.

Os autores acompanharam durante 10 anos 196 mil pessoas com mais de 60 anos, inscritas no UKBiobank study, que procura identificar fatores causais de enfermidades que incluem câncer, doenças cardiovasculares, depressão, demências e outras.

No material estudado no UKBiobank, foram identificadas 250 mil variantes genéticas que podem aumentar o risco de patologias demenciais. De acordo com o número de genes alterados, os participantes foram divididos em três grupos: escore genético alto (risco maior), intermediário ou baixo.

Em relação aos hábitos de vida, os autores isolaram apenas quatro variáveis, consideradas protetoras em relação às demências: 1) não fumar; 2) adotar dieta saudável; 3) não beber mais de 14g de álcool diárias, se for mulher, ou mais de 28g diárias se for homem; 4) praticar 150 minutos semanais de atividade física de moderada intensidade ou 75 minutos semanais de atividade intensa.

De acordo com a obediência aos itens citados, os participantes também foram classificados em três grupos: favorável (três ou quatro itens), intermediário (dois itens) e desfavorável (nenhum ou um).

Entre os participantes com risco genético alto e estilo de vida desfavorável 1,78% desenvolveram quadros demenciais, no período de 10 anos, enquanto nos do extremo oposto - risco genético baixo e estilo de vida favorável - apenas 0,56% o fizeram, ou seja, três vezes menos. Mesmo no grupo de risco genético alto, a adoção das medidas favoráveis fez cair o número de casos de demência, de 1,78% para 1,13%.

Os resultados revelam que genética e estilo de vida estão independentemente associados ao risco de apresentar demência. A adoção de estilos de vida saudáveis reduz a probabilidade, tanto nas pessoas sem casos na família quanto naquelas com predisposição genética.

Este foi o primeiro estudo que investigou a associação entre risco genético e fatores modificáveis na rotina diária, na incidência de quadros demenciais.

O fatalismo dos que dizem "não vou escapar, meus pais tiveram Alzheimer, minha avó, também", deve ser substituído pela disciplina de praticar atividade física, adotar dietas com mais vegetais e menos gordura animal, não fumar de jeito nenhum, beber pouco e ler muito. Realizado com maiores de 60 anos, esse estudo deixa evidente que nunca é tarde para começar.

DRAUZIO VARELLA


27 DE JULHO DE 2019
JJ CAMARGO

UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA

O tiroteio de Cristal provoca uma reflexão sobre a vida bandida. A solidariedade é um pré-requisito para a sobrevivência no mundo do crime, sempre em sobressalto pelos fantasmas do medo e da vingança. Um parceiro deixado para trás equivale à assinatura de um contrato de morte, que todos os envolvidos sabem que se cumprirá, não importa quanto tempo demore.

Muito se diz que essas pessoas deviam ser exterminadas do convívio social por serem irrecuperáveis, e que a pena de morte seria a única solução para interrompê-los. Os proponentes dessa estratégia de redução da criminalidade ignoram que a pena de morte só atemoriza quem dá valor à vida, o que não passa nem perto dos sentimentos de quem cresceu à margem dos elementos fundamentais para quem projeta ser feliz. Sem isso, só lhes resta a ânsia da autopreservação, nosso primeiro instinto. Quem banalizou a morte não tem nenhum apreço pela própria vida, muito menos pela dos outros.

Na vida bandida, a única lei vigente é tentar alongar a sobrevida, admitindo-se que o sonho de velhice é uma utopia. Quem presta atenção nas imagens dos nossos presídios percebe imediatamente que lá não moram velhos. E isso não decorre de progressão de regime. Nada disso. A maioria, aliás, tem grande chance de ser executada antes mesmo que a extensão da sentença tenha sido formalizada. O que significa que a nossa pena de morte já existe. O que devia encabular uma sociedade civilizada é que ela foi homologada de um jeito muito selvagem, que não segue os ritos legais dos países desenvolvidos.

Neste recente e trágico episódio de tentativa de resgate de parceiros do crime, cercados pela polícia, certamente muitas das loucuras que resultaram na morte de inocentes tiveram como objetivo demonstrar o quanto se deve valorizar a parceria no crime, pressupondo-se com isso igual fidelidade, se e quando, algum dia, os papéis se inverterem. A ideia de colocar familiares no carro para dar ao traslado um ar de respeitabilidade domiciliar teve um toque de criatividade cinematográfica, e que provavelmente teria funcionado se o intento de furar a barreira policial não tivesse sido à noite e o veículo não portasse vidros fumê tão densos que tornava seu interior indevassável.

Depois da identificação das placas monitoradas pela polícia, a partir da ultrapassagem da primeira barreira, o tiroteio subsequente, ao melhor estilo Bonnie & Clyde, era completamente previsível. O fato constrangedoramente inesperado foi a presença entre os alvos de um menino e duas mulheres, cujo maior crime foi, talvez, ignorar os sinais de sociopatia dos seus amados, que culminou com suas mortes, anunciadas desde o dia em que o destino os aproximou.

Nessa aventura surreal, nada comoveu mais do que a morte do garoto de quatro anos, atingido por três tiros, um dos quais implodiu-lhe a cabeça. E então, do meio do quase nada que sobrou daquela família, emergiu uma avó, que apesar de destroçada na sua essência, encontrou forças para um gesto de extrema generosidade: doou os órgãos do garotinho muito amado, e com isso evitou que famílias desconhecidas fossem poupadas da dor de também perderem as suas crianças. Velando o filho, que aparentemente no desespero pelo tamanho da desgraça não encontrou melhor saída do que o suicídio, e no limite do sofrimento, ela colocou uma única condição: que lhe devolvêssemos logo o corpo do netinho inocente, para que ela pudesse, ao menos, enterrá-los juntos.

JJ CAMARGO

27 DE JULHO DE 2019
DAVID COIMBRA

A russa do quinto andar


O alarme de incêndio tocou três vezes nessa madrugada aqui no prédio. É óbvio que está com defeito, não tem nada pegando fogo, mas você é obrigado a levantar e sair para a rua - normas de segurança e tal. Até porque ninguém conseguirá dormir. Em cinco minutos, sempre que soa o alarme, chegam dois caminhões de bombeiros, dois carros de polícia e uma ambulância, todos com as sirenes ligadas, fazendo grande alarde. Os bombeiros saltam dos carros e entram no edifício açodados, carregando mangueiras e machados e tudo mais. Naquele momento, eles são mais importantes do que o presidente da República. Agem com muita autoridade e são muito respeitados. Os moradores ficam esperando pacientemente que digam que o prédio está liberado e só então voltam para suas casas.

Na primeira vez que o alarme soou, eram 2h40min da madrugada. Escorreguei para fora da cama e me dirigi sem pressa para a escada de incêndio. Imaginava que devia ser uma panela esquecida no fogo, como da última vez que o alarme tocou. Quando saí do prédio, quase todos os vizinhos já estavam na calçada, inclusive a morena do quinto andar.

Ela é nova no prédio, e acho que veio da Rússia. Se não for da Rússia, veio da Moldávia. Ou da Ucrânia. Um desses lugares. Deve ter uns 35 anos, talvez um pouco mais. Calçava chinelos e uma camisola que escondeu debaixo de uma camiseta comprida. Seus cabelos estavam presos por um coque que deve ter improvisado ao saltar da cama. Atrás dela, um menino de uns 12 anos de idade a observava de olhos arregalados e boca aberta.

Entenda: vivemos o verão no Hemisfério Norte. As mulheres saem às ruas vestindo roupas sumárias, shorts mínimos, minissaias realmente mínis. Logo, é mais do que natural ver pernas de louça de mulher expostas por aí. Ou seja: a russa do quinto andar não mostrava nada que o garoto de 12 anos não visse todos os dias, em toda parte. Mas ele estava visivelmente emocionado.

Sorri. Lembrei-me de quando também tinha meus 12 anos. É uma idade decisiva para o menino, porque ele está deixando de ser criança e ainda não é adolescente. Está transitando entre a inocência e a malícia, sabe que algo de importante está prestes a lhe acontecer, mas ainda não aconteceu. Nessa idade, a diferença que existe entre os meninos e as meninas não faz mais com que queiram se afastar; faz com que queiram se aproximar.

Mas isso não é assim tão simples. Porque elas têm algo estranho, que os deixa inseguros. Olhe o que elas fazem. Quando vão cruzar as pernas, elas não cruzam, elas enroscam uma na outra de um jeito só delas e ficam equilibradas naquelas duas serpentes, bem eretas, como se estivessem prestando atenção em algo muito interessante que se passa logo ali. Algumas, se estão distraídas, enrolam uma mecha de cabelo no indicador e deitam a cabeça de lado, com suavidade. E, quando vão experimentar um perfume, borrifam o próprio pulso e levam-no à ponta do nariz, para sentir o cheiro. Como é bonito ver uma mulher aspirando o aroma que lhe vem do pulso. Mas é claro que, para um guri de 12 anos, o evento clássico se dá quando ele está na praia e vê uma mulher puxando a alça do biquíni para melhor encaixá-lo nas ilhargas. Esse é um acontecimento que ele quererá partilhar com os amigos: "Nem imagina o que eu vi hoje à tarde?".

Ah, uma mulher, mesmo que seja só uma menina, ela às vezes faz silêncios ou sorri de uma forma que é enigmática para um menino de 12 anos. Dependendo do silêncio e do sorriso, será enigmático até para meninos de 40, 50, 60 anos. Por isso, compreendi a fascinação daquele garoto com a russa do quinto andar. As rendinhas da camisola, que surgiam por baixo da camiseta larga, o chinelo rasteiro que ficou equilibrado entre os dedos do seu pé direito quando ela acomodou-se numa mureta e cruzou as pernas, aquela intimidade inesperada era o suficiente para deixá-lo sem respiração.

Fiquei olhando para a cena por alguns minutos. Agora, o alarme já havia sido desligado, o chefe dos bombeiros fez sinal de que estava tudo sob controle. Então, a russa se levantou, levou a mão para a parte de trás da cabeça e de lá puxou a vareta que lhe prendia o coque. Seus cabelos desabaram, macios, até os ombros. E o menino, a dois passos de distância, ergueu a mão ao peito e suspirou. Continuou ali parado, enquanto a morena sumia no saguão do edifício. Foi para casa sem nem desconfiar que, naquela noite, ela entrou para a história de uma vida.

DAVID COIMBRA


27 DE JULHO DE 2019
MÁRIO CORSO

A depressão traduzida em monstro

Você já sentiu uma pontada de frio na alma, uma sensação estranha de que nada vale a pena? Ou, repentinamente, o mundo fica sem cor e nada faz diferença? Ou, ainda, algo vago que começa com um aperto no peito, uma sensação de falta que, embora aguda, não se sabe do que é, acompanhada de uma desesperança absoluta e uma ideia de que está tudo errado com você?

Se essa sensação for eventual, tudo bem, de quando em quando a experimentamos e isso é incontornável da dimensão humana. Mas, se isso se instalar e vier com a certeza de que não valemos nada, nunca, para ninguém, temos uma depressão. Isso é muito sério, vá procurar ajuda.

O calvário da depressão ganhou um monstro à altura para representá-lo com a chegada do Dementador, uma das mais geniais criações da escritora J. K. Rowling. Esse monstro nos induz a um estado deplorável pela sua simples presença. Basta fazer sua aparição para que toda nossa esperança se esvaia e sejamos inundados pelo nada. Sentimo-nos sem valor, sem força para seguir lutando. Se sobrevivermos, será só por falta de energia até para nos tirar a vida. Ficamos inertes, hipnotizados por essa negatividade. Depois de encontrar um deles, acreditamos que nunca mais seremos felizes. No mundo de Harry Potter, eles são os guardas da prisão de Azkaban.

Até então os monstros machucavam, decepavam, engoliam e matavam, muito distintos destes, cuja arma é a tristeza. O Dementador é o terror em estado puro: uma aniquilação que prescinde de tocar no corpo. Ele age sugando nossas boas lembranças. Sem elas, seríamos reduzidos a nada. Como também inocula a desesperança, não resta a expectativa de conseguir valer algo no futuro.

Em síntese, a depressão é uma tristeza que nos engolfa quando os laços afetivos (nossas boas lembranças) que nos seguram como numa teia se desfazem. Então alcançamos o vazio e afundamos numa bolha egoica que não ama nada, nem a si mesmo.

Os psicanalistas não teriam muito a objetar a Rowling. É claro que nós acreditamos que em geral o Dementador está na nossa trincheira, ou seja, que a maior fonte de dor provém de nós mesmos quando nos desencaixamos dos trilhos dos afetos e das relações. Quando ficamos nus e sem defesa frente às exigências sociais.

Só quem já teve depressão de fato a entende. Sabe que não se trata de falta moral, de preguiça, de covardia. Sabe que o amor dos seus queridos lhe é importante, mas não é suficiente para dissolver a paralisia.

A arte é uma forma prévia de sabedoria, chega como literatura aquilo que sabemos de forma intuitiva. O fato é que temos uma excelente imagem da depressão, principalmente para um público jovem, pois nem as crianças ignoram ou estão a salvo dos perigos da depressão. Melhor assim, conhecendo os contornos do monstro, nomeando suas artimanhas, fica mais fácil combatê-lo.

MÁRIO CORSO

27 DE JULHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS


UM ERRO AMAZÔNICO

Ainda há tempo para Jair Bolsonaro entender que, hoje, nada prejudica mais a imagem do Brasil no Exterior do que a questão ambiental. A controvérsia alimentada pelo presidente em relação aos dados de desmatamento da Amazônia, com ataques à credibilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), só agrava a percepção. Para o mundo, passa a impressão de que o mandatário brasileiro está mais preocupado em esconder a estatística, e não com o problema da destruição da floresta em si.

Talvez por demonstrar certa aversão a dados científicos e preferir dar mais crédito a informações duvidosas e teorias conspiratórias que absorve na bolha ideológica de suas redes sociais, Bolsonaro emite sinais de não ter alcançado a compreensão exata de quanto o país pode ser prejudicado caso teime na postura de desdenhar da proteção do ambiente. É uma ameaça, por exemplo, ao acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia. E quem tem mais a perder, no fim das contas, é o próprio agronegócio. Sim, é o setor em que o Brasil é mais competitivo, mas o consumidor internacional, especialmente dos países desenvolvidos, está cada vez mais atento à forma como são produzidos os alimentos que leva à mesa. As entidades mais modernas ligadas à indústria agropecuária têm esta consciência e agem para frear os arroubos inconsequentes do governo.

Pessoalmente, o presidente já não goza de grande prestígio no Exterior por conta de suas declarações homofóbicas e misóginas e, ao demonstrar que considera o ambiente um entrave a atividades econômicas, está entrando no rol dos vilões internacionais, sendo apontado como uma espécie de incentivador da exploração desregrada e a qualquer custo da Amazônia pela agricultura e a pecuária. Desprezar a importância de salvaguardas a povos indígenas, minimizar a relevância de áreas de proteção ambiental e enfraquecer órgãos como o Ibama - espécie de salvo-conduto tácito a agressores da natureza - apenas fortalecem esta visão.

Não adianta colocar a culpa da imagem arranhada do país na imprensa internacional ou na suposta inação de embaixadores. Só há uma forma de começar a reverter o péssimo retrato do Brasil lá fora: mudar drasticamente o discurso, evitar rompantes e dar uma guinada na política ambiental, hoje vista como, no mínimo, leniente. Pouco importa, agora, se as nações ricas do Hemisfério Norte destruíram as suas florestas no passado. Preservar as matas, mantendo o delicado equilíbrio do ecossistema amazônico e colaborando para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, é uma tarefa que só trará benefícios ao Brasil. E esta também é a responsabilidade do país com as próximas gerações de todo o mundo.

OPINIÃO DA RBS

27 DE JULHO DE 2019
RODRIGO CONSTANTINO

Tecido social

As liberdades individuais não sobrevivem num vácuo de valores morais. Os liberais clássicos e conservadores sempre foram simpáticos a essa crença, daí a importância que dão ao tecido social, mantido justamente por associações voluntárias que fortalecem o sentido de comunidade, tais como as igrejas. Atualmente, com o recrudescimento do tribalismo, esse tecido está bastante esgarçado.

Ao frequentar com a família esses locais que buscam um propósito comum, o indivíduo encontra um ambiente de tolerância e igualdade. Não importa tanto a classe, o  sexo ou a “raça” ali, pois não é isso que une aquelas pessoas. O enfraquecimento dessas instituições tem colaborado para o clima de polarização exacerbada na sociedade, o que é alimentado pelas redes sociais. Os radicais ganharam mais voz, eis o fato.

E fazem um barulho ensurdecedor, que intimida a maioria silenciosa e mais moderada. De ambos os lados do espectro ideológico, há mais intolerância e desrespeito. São vários casos que ilustram essa tendência. Podemos pensar em palestrantes conservadores impedidos de falar em universidades americanas por conta de protestos agressivos de “justiceiros sociais” que dizem combater o fascismo, mas agem como fascistas.

Ao mesmo tempo, simpatizantes de Trump gritam num evento pedindo que o presidente mande uma congressista de volta ao seu país de origem, sendo que ela é americana. Por mais abomináveis que sejam as ideias racistas de Ilhan Omar, o coro é inaceitável e ao menos deixou Trump constrangido.

No Brasil, a jornalista Miriam Leitão foi alvo de pressão bolsonarista e teve sua participação cortada numa feira de livro. Ela já foi atacada por petistas também. Já o ministro da Educação foi cercado e humilhado por manifestantes de esquerda, mesmo com sua pequena filha no colo.

Existem inúmeros outros exemplos, mas o ponto está claro: há um ambiente tóxico de intolerância e falta de respeito ao contraditório. Disputas ideológicas têm ficado acima da decência humana. Ou resgatamos o tecido social que nos une, ou o tribalismo vai destruir as liberdades individuais.

RODRIGO CONSTANTINO

sexta-feira, 26 de julho de 2019


Lançamentos Corpos e almas - Uma história da pessoa na Idade Média 

(Ed. Unisinos, 362 páginas), do francês Jérôme Baschet), um dos maiores medievalistas da atualidade, na primeira parte apresenta os fundamentos das representações antropológicas medievais; na segunda, as questões da temporalidade humana, e, na terceira, uma abordagem comparativista ocidental com concepções modernas.

Parábola para unicórnios (Editora Penalux, 162 páginas), do médico, escritor e tradutor José Eduardo Degrazia, tem apresentações de Alexandra Almeida e Jane Tutikian e é seu vigésimo livro. "Os unicórnios preferem andar em linha reta, mas quando cansados andam em círculos" e "Os unicórnios sabem a geometria da parábola, mas não espalham" são alguns dos bem elaborados versos dos poemas.

A avoada e o distraído (Class, 170 páginas), romance dos escritores porto-alegrenses Vanessa Silla e Cláudio Levitan, traz criaturas que, pela lógica, nunca se encontrariam e cuja união teria tudo para dar errado. Bartolomeu, de meia-idade, é herdeiro de empresas de joias e livros raros.

Já Sirena é uma jovem linda e desmiolada, que veio do século XXIII, vivem um romance entre Punta del Este, Europa e Israel.

A propósito... 

O Dia do Amigo veio para ficar, foi e será sempre ótimo na internet, nas redes sociais, onde às vezes a gente se sente sozinho no meio de milhões e na real.

Mas é essencial pensar em pequenos gestos cotidianos de amizade, em pelos menos alguns minutos presenciais, por dia, com os amigos, para falar de tudo e de nada e tomar cafezinhos e providências para o presente. Por vezes a maior qualidade do amigo não é ele só ter qualidades, é ele ter defeitos como os nossos.

Especialmente com os amigos, melhor escutar ao invés de só ouvir, apertar a mão, abraçar, dar um beijo quando for o caso, ficar quieto na hora precisa e não esquecer de pronunciar as velhas palavras mágicas: muito obrigado, mil desculpas, com licença, gosto de nossa amizade e até sempre, meu amigo. -

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/07/694616-martin-fierro-a-biblia-gaucha.html


LIVROS Edição impressa de 26/07/2019. 
Alterada em 26/07 às 03h00min - Jaime Cimenti

Martín Fierro, a Bíblia Gaúcha 

 Os argentinos não exageram nem um pouco quando dizem que o imortal clássico Martín Fierro, do argentino José Hernández, é a Bíblia dos Gaúchos. 

Nos sete mil e duzentos versos do poema escrito há quase um século e meio, estão todas as manifestações que identificam e aproximam os habitantes do pampa. Religiosidade, arte de cantar, bons tempos, injustiças, recrutamentos, vida nos quartéis, lutas a ferro branco, vida de renegado, retorno ao rancho, encontro com Cruz, o trato com as mulheres e os bens que Deus deu aos homens estão em Martín Fierro, que acaba de merecer nova e cuidadosa edição bilíngue, da Editora Movimento. A tradução, as notas e um dos textos de apresentação são do consagrado homem de cultura Colmar Duarte, que dedicou uma década de trabalho para a tarefa. Colmar leu a obra há 60 anos e depois da releitura escreveu: "Segundo das palavras de Borges, li dois livros diferentes. 

Aquele encantava pela força da descrição das peleias de facão, pelo telurismo hostil do pampa deserto, pela rudeza da vida nos quartéis, pelo burburinho alegre das pulperias, pelo alarido empoeirado das correrias da indiada. Este me surpreendeu pelo estoicismo que fortalece a alma, pela experiência que ensina, pela universalidade de seus conceitos, pela sabedoria que dignifica o homem e redime as injustiças". 

José Edil de Lima Alves, professor, doutor em Letras e membro da Academia Rio-Grandense de Letras, escreveu: "Senhor de um conhecimento estribado nas leituras dos mais renomados autores argentinos, uruguaios e brasileiros, mormente os sul-rio-grandenses, e em sua vivência como homem do campo, Colmar, conservando o peculiar sabor da redondilha maior, tão caro às poéticas literárias de raízes espanholas e lusitanas, neste trabalho dá-nos uma magnífica oportunidade de adentrarmos ainda mais no conhecimento desta tão sofrida América do Sul". 

Na introdução há textos dos professores Élida Lois e Carlos J. Appel e reprodução de carta de José Hernández, de dezembro de 1872, ao editor José Zoilo Miguens. A capa da obra traz imagem de escultura do grande Vasco Prado e as ilustrações internas são de Ricardo Duarte. 

Essa importantíssima edição teve o apoio da Unimed Uruguaiana. 

Dia do amigo 

Sábado passado, 20.07, comemoramos no Brasil mais um Dia do Amigo, celebração que homenageia a chegada do homem a lua em 20.07.1969 e que a partir do século XXI passou a integrar o calendário de muitos países. Em 2011 a Organização das Nações Unidas convidou todos os países a celebrar o Dia da Amizade, em 30.07.2011. Não foi feriado no Dia do Amigo, mas até poderia ter sido, para maior confraternização entre as pessoas. 

Amizade é sentimento milenar que, com a internet e as redes sociais, ganha incalculável dimensão nestes tempos de relações humanas complexas, difíceis, briguentas e, como sempre, desde que o mundo é mundo, tendentes à ruptura. Algumas amizades desafiam o tempo, o espaço, os egos gigantescos e só acabam quando um dos amigos se esquece de respirar. Meu pai morreu de repente, aos 67 anos. Uns quarenta minutos depois chegou Olindo Pozzobon, 69 anos, seu amigo há sessenta anos, desde os tempos da Itália. Chorando, olhando o amigo com quem vivia conversando e falou: "Tu te foi, meu amigo. Tínhamos muito que conversar". Boas conversas com amigos nunca terminam. 

Nas redes sociais onde predominam sentimentos não tão nobres como a amizade, o Dia do Amigo foi uma maravilhosa trégua, com frases, cartões, filmes, mensagens e canções fraternas. Roberto Carlos cantando Amigo para Jô Soares, os dois chorando; James Taylor cantando You've got a friend (canção que alguns associam a criação e as palavras com Jesus); Pavarotti, Carreras e Plácido Domingo cantando Amigos para sempre e Milton Nascimento com sua Canção da América são alguns tons emocionante. Amizade é unanimidade boa, tipo árvore, mar, estrelas, lua. Ninguém é contra. 

Relações familiares tantas vezes terminam, amizades iniciadas no trabalho nem sempre continuam, relações de alunos com professores quase sempre duram até as férias, muitas relações conjugais acabam. Melhor discordar, amavelmente, do saudoso Millôr Fernandes, que dizia: "O pior casamento é o que dá certo". Ninguém precisa nem deve ser amigo de todo mundo. Até os paranoicos tem inimigos, faz parte. Amigo de todo mundo quase sempre é amigo de ninguém. Alguns amigos, contados nos dedos de uma ou das duas mãos já estão de bom tamanho. Numa era de relações líquidas, voláteis como as ações e os papéis da Bolsa, a amizade não é o ouro das relações, é o diamante. 

O ouro das relações é a emoção, irmã gêmea da amizade. Medalha de prata para o respeito e de bronze para a aceitação do outro (ia dizer tolerância, mas mudei, que tal?). Começo a escrever e longo baixa o Mario Quintana, o Anjo Malaquias, que escreveu: "Amizade é quando o silêncio a dois não se torna incômodo. 

Amor é quando o silencio a dois se torna cômodo". Pela frequência com que o Mario me visita, sigo acreditando em anjos e agradecendo pelas palavras de quem viveu da e para a poesia, em meio a muitos amigos e leitores, que, como ele dizia, eram todos poetas inéditos. - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/07/694616-martin-fierro-a-biblia-gaucha.html


26 DE JULHO DE 2019
DAVID COIMBRA

A dura vida de um leão

Nem a vida do leão é fácil, não se engane. Você pensa: ah, ele é o leão, o rei, está no topo da cadeia alimentar, tem aquela juba, ninguém ousa incomodá-lo. Mas não é bem assim.

Outro dia, vi um documentário sobre leões. Gosto de documentários a respeito de bichos, mas não todos. Os suricatos eu desprezo. Pouco me importa se é politicamente incorreto antipatizar com suricatos, não fingirei: estou me lixando para o destino deles. Não desejo o mal dos suricatos, também não é isso. Só não me convide para assistir a filmes em que eles são as estrelas.

Pronto. Falei.

Já dos filmes de leões gosto. Esse que vi contava a história de um grupo de seis leões que se juntaram para dominar uma região da savana africana. Seis leões unidos jamais serão vencidos. A não ser que se desunam, e foi o que aconteceu. Dois dos leões, os maiores do bando, brigaram com os outros quatro e se mudaram para um território contíguo.

Esses dois irmãos eram grandes e bons de briga. Enfrentavam (e devoravam) qualquer ser vivo que invadisse seu território, com exceção, é claro, de suas muitas gatíssimas leoas. E assim, soberanos e invencíveis, eles viveram em paz durante dois anos.

Um dia, porém, uma coalizão de nada menos do que cinco leões estrangeiros entrou em seu território pelo Sul. Eram cinco contra dois. Mas os irmãos nunca tinham sido derrotados, eles estavam acostumados a lutar. Traçaram uma estratégia: isolaram um dos cinco invasores e o atacaram. Mataram-no a dentadas. No entanto, ainda restavam quatro inimigos, que perseguiram os dois irmãos com furiosa insistência. Esperaram até que se separassem, o que acabou acontecendo. Então, pularam em cima do irmão mais novo. O bravo leão levou uma mordida tão violenta nos quartos traseiros que lhe rompeu algum nervo e ele ficou imobilizado. Não tinha mais como se defender. Morreria.

Nesse momento, o irmão mais velho surgiu das sombras. Atacou bravamente os quatro desafiantes, que, por um instante, se apartaram, assustados. Mas logo se reagruparam e investiram com todos os seus dentes e garras. O irmão mais velho percebeu que seria derrotado e fugiu, teve de fugir. O mais novo ficou abandonado à própria sorte. Os quatro valentões, então, o cercaram. Enquanto um o distraía pela frente, outro o dilacerava pelas costas. O local preferido das dentadas eram os testículos. Nosso bom leão rugia e rosnava e tentava combater, mas era inútil. De repente, os quatro paravam. Descansavam por 15 minutos, enquanto o leão arfava em desespero. Aí, recompostos, voltavam, repetiam o ataque. E de novo e de novo e de novo, a noite inteira. A certa altura, ouviu-se um barulho forte, um estalo que parecia um tiro seco de arma de pressão: era a espinha do pobre leão que havia sido quebrada de um golpe. Mas ele continuava vivo e vivo ficou até o amanhecer, quando enfim os quatro monstros o deixaram expirar.

Eu assistia a tudo isso de olhos arregalados. Se estivesse vendo O Exorcista, não ficaria mais impressionado.

Por que nosso amigo leão sofreu tanto? Ele não merecia. Afinal, um leão não é bom nem mau, ele é apenas um leão. Ele faz o que os leões têm de fazer, sem nenhum sentido moral. Nós, humanos, é que ultrapassamos essa neutralidade da natureza. E, sim, admitamos, muitas vezes somos malignos, nós, com a fumaça de nossos carros, com nossas armas de matar, com o nosso lixo tóxico e com nossos tóxicos que nos transformam em lixo, nós podemos ser maus, ao contrário de um leão. Mas nós, com a ciência que salva vidas de homens e bichos, com nossa consciência, que preserva praias e florestas, nós, com nosso sentimento e nosso pensamento, também podemos ser bons. É uma razão para ter esperança. Porque, às vezes, inacreditavelmente, nós podemos até melhorar a natureza.

DAVID COIMBRA

26 DE JULHO DE 2019
ARTIGOS

SER FORTE OU SER FELIZ?


Depois de muitos anos atendendo pessoas e seus dilemas, percebi que, toda vez que colocamos foco em mostrar que somos fortes e que damos conta do recado, nos afastamos da possibilidade mais profunda de ser feliz. Ninguém é forte o tempo todo. E não devemos confundir o ato de demonstrar fraqueza com ser fraco. São coisas diferentes.

Considero com muita força aquelas pessoas que conseguem manifestar suas necessidades, fragilidades, inseguranças? É necessário muita coragem para assumir as emoções e os sentimentos não tão positivos.

E mais uma vez, depois de tantos anos trabalhando nesta área, posso compartilhar um segredo: somos todos fracos. Somos todos carentes. Somos todos frágeis. Somos todos inseguros. O que nos diferencia é a capacidade de fazer algo a partir desses sentimentos.

Mostrar que somos fortes é olhar somente para fora. Torna-se necessário ficar atento se os outros estão percebendo que estamos fortes. É gastar tempo e energia tentando provar algo que no fundo não fará diferença na vida dos outros. A admiração mais sustentável é aquela que surge pela empatia e não pela idealização.

Quando abrimos mão do esforço de mostrar tal posição de força, começamos a olhar pra dentro. Nos voltamos a quem nós mesmos estamos sendo diante do que esteja acontecendo. Desenvolvemos a possibilidade de refletirmos sobre nossas próprias mudanças e as projeções que fazemos diante das crises.

Na queda de braço por mostrar quem é mais forte, perdemos a chance de dizer "eu errei", "tá doendo", "volta aqui", "vamos tentar", "me desculpa", "eu te amo", "é só saudade", "sinto falta", "te perdoo", "ando chorando", "preciso de ajuda", "me liga", "fica comigo"?

Ser feliz é viver em paz com nossas vulnerabilidades. Ser feliz é ir atrás do que se quer ser em vez de ir atrás daquilo que socialmente é considerado forte. Ser feliz é não ter que agir para se mostrar feliz.

GABRIEL CARNEIRO COSTA

26 DE JULHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

PRIVACIDADE INVADIDA


Há uma série de perguntas ainda sem respostas sobre a invasão dos telefones celulares do ministro da Justiça, Sergio Moro, do procurador Deltan Dallagnol e, sabe-se agora, até do próprio presidente Jair Bolsonaro, mas o primeiro passo para a elucidação deste rumoroso caso foi dado com a ação da Polícia Federal (PF). A prisão de quatro suspeitos de hackear os aparelhos, na quarta-feira, ao menos põe um ponto final na ação criminosa do grupo - três deles com envolvimentos anteriores em delitos como roubo, tráfico e estelionato - e também realimenta uma necessária discussão sobre segurança e privacidade das comunicações no Brasil.

Beira o inacreditável constatar que golpistas contumazes, com baixa sofisticação tecnológica, acostumados a falsificar cartões de crédito e documentos, possam ter fácil acesso aos telefones e às mensagens das mais altas autoridades da República. A informação é de que mais de mil diferentes números foram acessados pelos hackers. Se ministros, presidentes, membros do Judiciário e deputados estão à mercê desse tipo de violação, que garantia de proteção tem o cidadão comum contra todo tipo de invasão e fraude em seus celulares? Quantas outras quadrilhas não estão agindo e obtendo, para qualquer tipo de interesse, informações privadas da população e de pessoas com postos de destaque? O episódio mostra a importância do aperfeiçoamento da tecnologia dos aparelhos e aplicativos e do aprimoramento do arcabouço legal sobre o tema, para que casos como esse deixem de existir.

Em meio à polêmica gerada pelo vazamento de supostas mensagens trocadas entre Moro, quando era juiz federal, Dallagnol e procuradores da Lava-Jato, o Senado aprovou, no início do mês, uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que estabelece o direito à proteção a dados individuais, inclusive nos meios digitais. O texto ainda segue para a Câmara. A legislação sobre o assunto existe, de forma infraconstitucional, espalhada no Marco Civil da Internet e na Lei Geral de Proteção de Dados, por exemplo, mas ainda pode ser considerada incipiente. O avanço da PEC fará com que passe a ser uma garantia fundamental, prevista na Constituição. A rápida evolução da tecnologia, dos algoritmos e da comunicação digital merece atenção especial também nesta seara.

O episódio específico da divulgação de diálogos envolve ainda uma avalanche de paixões políticas e ideológicas. Cabe confiar no bom trabalho da Polícia Federal para que elucide o caso e, de forma técnica, como é a prática da corporação, aponte as responsabilidades. Assim como outros desdobramentos terão o momento correto de serem analisados pelos foros apropriados. O basilar para o país é que as instituições, de forma impessoal, continuem funcionando de forma sólida.


26 DE JULHO DE 2019
EDUARDO BUENO

A Morte da Terra


J.-H. Rosny aîné viveu e criou sua espantosa obra literária (mais de 150 livros) sob tons crepusculares. Embora isso signifique dizer que as cores do entardecer tingiram seus livros e sua vida, revela também que ele transitou dos fulgores do pôr do sol direto para a noite sem estrelas do esquecimento. De fato, um jogo de claro e escuro sempre brincou de gato e rato com a vida e a obra desse misterioso, quase inclassificável, escritor belga que, após ter flertado com Londres, instalou-se de vez em Paris. Rosny foi uma espécie de mutante, circulando entre a fama e o anonimato e repartindo-se, na temática de seus livros, entre o passado imemorial e um futuro longínquo demais para ser medido em séculos.

J.-H. Rosny urdiu um teatro de sombras que ao mesmo tempo ilumina e obscurece seu legado literário. Talvez por isso, sua legião de fãs seja bem menor do que a dos admiradores de Jules Verne e H.G. Wells - só que é muito mais fanática. Aliás, o território pantanoso no qual Rosny circulou reforça seus laços com os dois ícones da ficção científica: ele nasceu entre um e outro gigante literário. Jules Verne veio ao mundo em 1828 e morreu em 1905, enquanto H.G. Wells viveu de 1866 a 1946. Pena que Verne e Wells provavelmente nunca leram Rosny, que nasceu em 1856 e morreu em 1940.

Mas o fato é que Rosny correu mais riscos e enfrentou os desafios de sua própria imaginação com mais "coragem" - e de forma mais desvairada - do que Verne e Wells. Afinal, enquanto os protagonistas de 20.000 Léguas Submarinas e Viagem ao Centro da Terra (de Verne), bem como os heróis de A Máquina do Tempo e O Homem Invisível (de Wells), vão até os limites do mundo conhecido e os observam, sem jamais os penetrarem ou interagirem com eles, os personagens de Rosny mergulham em abismos insondáveis e veem, quando não enfrentam, seres inumanos nunca dantes imaginados.

Rosny flerta com o tempo fora das medidas, com os espaços ignotos, com vidas inorgânicas ou transumanas. Várias vezes mergulhou nos confins da pré-história - seu livro mais conhecido é A Guerra do Fogo (filme de sucesso em 1981) - mas também foi o primeiro a cunhar o termo "astronauta".

Nunca tinha ouvido falar em J. H. Rosny. Apaixonei-me por ele agora que o livro A Morte da Terra caiu-me nas mãos, graças à decisão da editora Piu de lançá-lo no Brasil. Adorei saber que ele liderou um movimento contra Zola (que antes idolatrava), refutando a "falsidade do naturalismo" do autor de A Besta Humana. Adorei saber que aos 17 anos ele quis se mudar para o Canadá, para viver entre os indígenas das enregeladas florestas do Norte. E, por fim, adorei saber que chamava os humanos de "animais verticais". Um animal tolo que, após devastar as florestas, pulverizar as montanhas, conspurcar as águas e enegrecer os ares, pode ser riscado do mapa.

Sim, pois embora o livro se chame A Morte da Terra, talvez não seja o planeta que morra no fim.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 25 de julho de 2019



25 DE JULHO DE 2019

DAVID COIMBRA



Há algo por trás da ação do governo


"Aí tem", foi a mensagem que recebi do Duda Garbi, ontem, em meio a uma entrevista no Timeline, da Gaúcha.

Foi como se estivéssemos em sintonia, porque era precisamente o que eu pensava, precisamente essa expressão popular: "Aí tem".

Quando você diz, como disse o Duda, ou pensa, como pensei eu, que "aí tem", um mundo de possibilidades se abre diante de seus olhos. Porque você está exercitando a mais sagaz das faculdades humanas: a dúvida. É importante, porque só a dúvida nos conduz ao conhecimento. O desenvolvimento é subproduto da dúvida.

No caso, tratávamos de um assunto do qual, confesso, sei bem pouco: agrotóxicos. O governo mudou a forma de classificá-los. Agora, há novas categorias e alguns produtos que antes levavam o selo de "perigo" passam a levar o de "risco". Obviamente, uma suavização.

Começamos entrevistando a Bela Gil, que, além de filha do Gilberto Gil, é nutricionista. Ou seja: atenta à qualidade do que se come.

A Bela Gil, talvez você não lembre, ficou famosa por comer a placenta que envolvia seu próprio nenê, como fazem as gatas. Mais do que isso: ela colheu um pouco da placenta, bateu no liquidificador com frutas e deu para o marido beber.

O marido bebeu.

Mas não abordamos, ontem, nenhuma dessas peculiaridades gastronômicas. Abordamos a novidade de apresentação dos agrotóxicos. Bela Gil criticou a mudança em particular e o uso de agrotóxicos em geral. Mas não ofereceu alternativas razoáveis. A entrevista dela foi lenta, seus argumentos foram vagos, beirando a utopia. Não me convenceu.

Então, fomos ver o outro lado. Ligamos para Alceu Moreira, deputado ruralista que defende a medida. Eu não tinha opinião formada a respeito do assunto, exatamente por não dispor de muita informação. Mas tinha uma questão não resolvida na cabeça, algo bastante simples, que pode intrigar qualquer consumidor, qualquer contribuinte, qualquer brasileiro que vai ao supermercado: qual a razão da mudança?

Foi o que tentei perguntar ao deputado e ele, de repente, se ouriçou. Ficou brabo. Começou a discutir. Até aquele momento, eu estava quase que em estado de inércia, levando o tema adiante apenas por ser a pauta do programa. Porque, como já disse, o assunto é complexo, não há consenso nem entre os técnicos que estudam o tema a fundo. Mas a reação do deputado fez com que me retesasse na cadeira. Pensei: "Aí tem!". E, no mesmo instante, chegou a mensagem do Duda: "Aí tem!".

O deputado continuou esbravejando por algum tempo, depois se acalmou. Mas não adiantava mais. Estava instalada no meu espírito não uma única dúvida, "a razão da mudança", mas outras três, que deixo com você:

1. Se é só uma mudança de rótulo, só uma questão burocrática, por que tanto empenho dos governistas em sua defesa?

2. Com a alteração, que agrotóxicos passarão a ser mais vendidos?

E a mais importante: 3. Quem ganha com isso?

Precisamos encontrar respostas a essas perguntas. Porque está dando a impressão de que aí tem.

DAVID COIMBRA

25 DE JULHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

UM GÁS PARA A ECONOMIA



Cobrado pela demora em tomar medidas que tenham capacidade de tirar a economia do marasmo, o governo Jair Bolsonaro oficializou nesta semana uma bem-vinda iniciativa gestada há alguns meses para reduzir o preço do gás natural no Brasil, quebrando o monopólio na importação e no transporte e a posição dominante na produção e distribuição desse insumo essencial para a indústria do país. É o pretendido choque de energia barata, como define o ministro Paulo Guedes. A consequência natural dessa ação, se bem-sucedida, como se espera, será a ampliação dos investimentos na área pela entrada de novos agentes, gerando empregos e melhorando as perspectivas de o país retomar um crescimento mais robusto e duradouro.

Os benefícios do programa não se resumem às fábricas. Tendem a chegar a todos os consumidores, uma vez que deve-se baratear também o gás de cozinha, um alívio para os brasileiros de renda mais baixa, que têm nos gastos com esse item um grande comprometedor do orçamento doméstico. Da mesma forma, são positivas medidas complementares, como o estudo em curso pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) para que a população possa ter o direito de comprar um botijão parcialmente cheio, uma possibilidade que também pode ajudar a aliviar as contas das famílias mais modestas, que muitas vezes chegam ao final do mês sem recursos para adquirir um recipiente cheio.

Voltando a analisar a questão sob a perspectiva da indústria, é inaceitável que o custo do gás natural, para as fábricas brasileiras, seja hoje o triplo do que pagam as concorrentes norte- americanas e cerca de 50% acima do preço praticado na Europa. Para um setor essencial da economia, ter acesso a um insumo em cotações mais parecidas com as que são observadas no Exterior é imprescindível para retomar a competitividade. Produzir gastando menos significa ainda a possibilidade de que todos os elos da economia, até o consumidor final, tirem proveito do chamado Programa do Novo Mercado de Gás.

O custo atual é resul- tado de um controle quase absoluto da Petrobras no setor. A abertura do mercado é salutar para a empresa e para o país. O Brasil ganha pela maior competição em cada segmento, da extração à distribuição, passando pelo transporte, por meio dos gasodutos. E a Petrobras, ao se desfazer de ativos que não fazem parte de seu plano de negócios, obtém recursos para diminuir o endividamento e investir em suas prioridades. 

Embora não tenha relação direta com o gás, um movimento neste sentido, a ser saudado, foi a venda de ações da BR Distribuidora, com a petroleira estatal deixando de ser a controladora da rede de postos de combustíveis, uma operação em que levantou R$ 8,6 bilhões. Enxuta e com um caixa mais saudável, a Petrobras pode centrar energias na produção de petróleo e gás, atividade em que detém competência comprovada.

 OPINIÃO DA RBS

25 DE JULHO DE 2019
NEGÓCIO DE R$ 86 BILHÕES

Petrobras privatiza rede de postos


A estatal Petrobras arrecadou R$ 8,6 bilhões com nova venda de ações da BR Distribuidora na terça-feira. A subsidiária de postos de combustíveis, a maior rede do país, com presença em todos os Estados, passa a ter mais capital privado do que público. O negócio é mais um capítulo dos desinvestimentos da Petrobras. A gestão Jair Bolsonaro, com Paulo Guedes à frente do Ministério da Economia, pretende acelerar esse processo.

A petroleira, que detinha 71,25% do capital da BR, se desfez de fatia de 30% do total da companhia. Com isso, deixa de ter controle, conforme fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Petrobras fechou a venda de quase 350 milhões de ações por R$ 24,50 cada. Agora, a petroleira detém 41,25% da distribuidora.

Um lote de mais papéis, chamado de suplementar, poderá ampliar as cifras dessa negociação de privatização nos próximos dias. Serão ofertadas mais 43,7 milhões de ações, também por R$ 24,50 cada uma. Efetuadas essas transações, a arrecadação poderá chegar a R$ 9,6 bilhões. Nesse caso, a participação da Petrobras na empresa cairá para 37,5%. Em 2017, a estatal já havia vendido 28,75% das ações da BR, em operação que girou em torno de R$ 5 bilhões. A petroleira, até então, detinha 100% do capital da distribuidora, o que fazia da BR uma empresa totalmente pública.

Concorrência

Hoje, a BR Distribuidora tem como principais competidores a Raízen, empresa da Cosan que opera com a marca Shell, e a Ipiranga, do grupo Ultra. A avaliação da gestão das empresas é de que, sem controle estatal, a distribuidora ficará mais ágil para competir no mercado brasileiro.

Aprovada pelo conselho de administração da Petrobras em maio, a venda das ações é parte do plano para levantar recursos para pagar dívidas e focar na exploração do pré-sal. A operação de terça-feira só foi possível após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em junho deste ano, que liberou a privatização de subsidiárias de estatais sem aval do Congresso.

Na esteira do julgamento do STF, a empresa também concluiu outro negócio bilionário. Em junho, foram negociados cerca de 90% das operações da TAG, subsidiária que opera as malhas de gasodutos do Norte e Nordeste, à francesa Engie e à canadense Caisse de dépôt et placement du Québec, por R$ 33,5 bilhões.

Também em junho, a Petrobras deu início à venda de refinarias. Serão desestatizadas oito das 13 unidades, em um processo que pretende privatizar metade da capacidade nacional de refino.


25 DE JULHO DE 2019
LF VERISSIMO

Heresia


As culturas científica e humanística eram separadas, entre outras razões, pela linguagem. Tinham vocabulários diferentes. Seus códigos não combinavam. Previa-se até que se distanciariam tanto, que um dia nenhuma comunicação seria possível entre as duas. O advento da língua comum dos computadores parecia ter diminuído essa discrepância, mas curiosamente a divisão perdurou, agora entre facções da mesma cultura, que usam o mesmo vocabulário e não se entendem. 

Economistas de um lado e de outro (rudemente, esquerda e direita) lidam com os mesmos números, analisam os mesmos gráficos, recebem as mesmas informações e falam todos o mesmo idioma universal, só variando o estilo - e veem e preveem coisas diferentes.

A não ser que se procure a causa da cisão no terreno movediço do caráter de cada um, ela não tem explicação. Ou tem: o mundo da ciência econômica, como todos os mundos, está subdividido entre humanistas e seus contrários, que divergem nos seus pressupostos antes de divergirem nas suas interpretações e receitas. O que os separa é o valor que dão à vida humana, o princípio de todas as equações econômicas para uns e um dado irrelevante para outros. 

Não se trata de ter melhor ou pior coração. Como já disse alguém, ninguém tem o monopólio dos bons sentimentos. Mas a sua escolha de lado na divergência entre economistas, no fim, é uma definição de escolha política. É-se solidário pela mais egoísta das razões, por uma preocupação elementar com a salubridade do meio em que se respira, porque uma civilização que sacrifica o ser humano pelo lucro não é exatamente o ambiente em que se quer viver.

Quando a Europa submergiu na intolerância religiosa e no obscurantismo da Idade das Trevas, dominada por uma espécie de pensamento único que condenava como heresia qualquer forma de desafio aos dogmas da Igreja, e nem os reis sabiam ler, foi nos claustros da própria Igreja que a escrita e a cultura clássica foram preservadas e, quase sem querer, resistiram ao dogma. Hoje, outra vez, uma minoria herética se vê sitiada por dogmas inquestionáveis. Mas a Idade das Trevas acabou na Renascença.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 24 de julho de 2019



24 DE JULHO DE 2019

DAVID COIMBRA

Quatro dramas de Porto Alegre



1. É certo enfileirar casinhas de cachorro na calçada, para cães sem dono?


2. É certo permitir que moradores de rua ocupem praças e canteiros públicos?

3. É certo a principal rua da cidade ser tomada por camelôs?

4. É certo levantar um espigão de 130 metros de altura em frente ao rio?

Essas são quatro questões de Porto Alegre. Todas são polêmicas. Mas as polêmicas só existem porque são debates atinentes a Porto Alegre. Se fossem de outras cidades, de outras partes do mundo, não haveria dúvida. Vou usar o exemplo de Boston, porque estou vivendo aqui há bastante tempo e conheço o lugar. Como os cidadãos de Boston responderiam às perguntas que fiz acima? Sei como. Assim:

É errado colocar casinhas de cachorro na calçada. Uma cidade não pode ter cães vadios andando pelas ruas, por causa da segurança das pessoas (cachorros mordem), da higiene e do bem-estar dos próprios animais.

Moradores de rua, aqui chamados de homeless, não podem montar "casinhas" em locais públicos, porque os locais públicos são? bem, públicos. Devem ser utilizados por todas as pessoas e não privatizados.

Nenhuma rua pode ser tomada por camelôs, porque prejudica a circulação de pessoas e o comércio às margens das calçadas.

Só se pode erguer um espigão em área de espigões. A cidade precisa ter harmonia urbanística, sem grande variação de altura de prédios numa mesma região. Além disso, prédios altos em frente a cursos d?água impedem a circulação de ar na cidade. Para arrematar, os centros urbanos importantes estão caminhando em sentindo oposto à verticalização das construções - estão priorizando a integração das edificações com a natureza.

Se não falássemos de Porto Alegre, portanto, essas polêmicas não existiriam. A diferença é que Porto Alegre é uma cidade refém da própria pobreza. Como, de resto, o Brasil inteiro.

Tempos atrás, o Lucas Mendes, do Manhattan Connection, contou que havia desistido de vez de voltar ao Brasil quando, durante uma visita ao país, viu um cachorro zanzando sozinho por uma rua de Belo Horizonte.

- Aquilo foi deprimente - disse - foi um símbolo do nosso atraso. De fato, você pode medir o desenvolvimento de um lugar pelos cachorros vadios que são vistos nas ruas e pela qualidade das calçadas. E numa cidade pobre, como Porto Alegre, há centenas, talvez milhares de cães sem dono, sem que a prefeitura tenha condições de cuidar deles. Assim, as casinhas na calçada parecem uma improvisação bondosa.

Quanto aos moradores de rua, há 4 mil deles em Porto Alegre. Se a prefeitura tira a barraca de um deles de uma praça, ele vai montá-la lá adiante, em outra. Desta forma, ver barracas e barracos pelas ruas torna-se natural para o cidadão.

Já os camelôs, se todos eles forem banidos, suas famílias ficarão sem recursos numa época em que 12 milhões de pessoas estão desempregadas. Assim, compreende-se a atuação deles, ainda que seja prejudicial ao comércio que paga os impostos e seus funcionários.

E o monstrengo ao lado do Beira-Rio, quem o defende alega que sua construção gerará, exatamente, muitos empregos dos quais o país sente tanta falta.

Viu como é difícil? A nossa pobreza faz mais do que nos privar de confortos materiais. A nossa pobreza nos rouba até a beleza. E faz com que não saibamos mais o que é o certo e o que é o errado.

DAVID COIMBRA

24 DE JULHO DE 2019
ARTIGOS

NO MEIO DO CAMINHO

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Esta é a questão principal da nossa economia, pressionada pela abundância de regras de um lado e, de outro, pela ausência de segurança jurídica. Falta equilíbrio para que o círculo virtuoso, cujo ambiente se mostra propício para ter início, retome seu caminho em busca da prosperidade.

Quem não aposta num final feliz para sua história? E este detalhe tem se mostrado intrigante na medida em que se abrem as portas em busca de melhorias e o que se encontra são desavenças impressionantes na área onde o equilíbrio deveria ser o principal requisito.

Falamos de segurança jurídica e de ambiente amistoso para os negócios, duas regras essenciais para que o País saia deste imbróglio de um Estado burocrático, lento e dilacerado pela questão fiscal que reduz seu potencial de crescimento como um obstáculo cada vez maior.

Exemplo bem perto de nós: o caso Fraport. Capital privado, internacional para alavancar investimentos e melhorar a logística de transporte da região sul do país. Tudo dentro das perspectivas de avançar por onde o Estado não tem condições de seguir e eis que surge grave obstáculo: a insegurança contratual.

Não se trata apenas da remoção da Vila Nazaré entre o alongamento da pista e a melhoria da produtividade, mas de como o contrato entre a Fraport e uma agência nacional pode resolver um problema histórico, com a construção de uma pista maior para que aviões de grande porte possam levar cargas daqui, tirando o aeroporto Salgado Filho do esgotamento e ampliando as alternativas logísticas do Estado. Basta cumprir o contrato. Uma parte da Vila Nazaré, o obstáculo visível, que ocupa o espaço para o alongamento da pista não pode ser o bode expiatório desse problema.

Quando um contrato prevê a desocupação, a eventual realocação é obrigação do poder público. Processos de reassentamento são prerrogativa do Estado. A solução para os problemas sociais não virá de novas interpretações de contratos já firmados. Pelo contrário, desta forma estaremos agravando problemas sociais em todo o Rio Grande, com fuga de empreendedores, talentos e empregos.

Diante disso, manifestamos preocupação com os próximos passos, especialmente quando estamos em busca de investidores interessados em concessões, infraestrutura, geração de energia, oportunidades... combustíveis essenciais para nossa recuperação. Quem vai apostar seu dinheiro num Estado onde os contratos são quebrados no meio do caminho?

SIMONE LEITE

24 DE JULHO DE 2019
A PARTIR DE AGOSTO

Três BRs ganham serviços de socorro


Em três semanas, motoristas e usuários das BRs 101, 386 e 448 passarão a contar com atendimentos médico e mecânico, além de inspeções de trânsito nas rodovias. Previstos no contrato de concessão assinado pela CCR ViaSul, os serviços começarão no dia 15 de agosto, segundo a empresa.

Serão disponibilizadas 10 novas ambulâncias, 13 guinchos e nove viaturas, além de dois caminhões-pipa, um veículo para transporte de animais e uma carreta para içamento de carros, segundo a concessionária. Também administrada pela CCR ViaSul, a freeway (BR-290) tem o serviço desde o início do contrato, dia 15 de fevereiro. Na rodovia que liga a Capital ao Litoral, há 13 veículos prestando atendimentos.

Em paralelo, a administradora afirma que tem realizado melhorias nas quatro estradas federais, conforme determinado no contrato. Cerca de 800 profissionais trabalham na recuperação do asfalto, nas operação tapa-buracos, na limpeza de canteiros e no reforço da sinalização.

A maioria das atividades, atualmente, concentra-se na BR-386. Há obras em Canoas, Carazinho, Soledade, Pouso Novo e Victor Graeff, com bloqueios temporários. Na BR-101, os trabalhos se estendem por todo o trecho, de Osório a Torres. Na BR-290, em Gravataí, Porto Alegre e Osório, e, na BR-448, em toda a extensão.

A CCR ViaSul também faz obras de preparação, como terraplenagem, para erguer cinco praças de pedágio, que funcionarão a partir de fevereiro do próximo ano. Na BR-386, ficarão nos municípios de Fontoura Xavier, Montenegro, Paverama e Victor Graeff. Na BR-101, em Três Cachoeiras.

A empresa apresentou à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) o projeto final dos locais de cobrança e aguarda a autorização da autarquia para dar início às construções.

24 DE JULHO DE 2019
+ ECONOMIA

Economia à espera de fôlego


Depois de tentar encaminhar, nos últimos meses, a aprovação da reforma da Previdência, o governo Jair Bolsonaro deve, enfim, anunciar hoje medida aguardada para dar fôlego ao consumo, que anda enfraquecido no país. Trata-se da tão comentada liberação de saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

- O ministro Paulo Guedes não quer botar a mão no bolso do governo para fazer as pessoas consumirem. Por isso, discute-se a liberação dos saques do FGTS - observa o economista-chefe da corretora Necton Investimentos, André Perfeito.

A proposta ganhou força na semana passada. Após idas e vindas, uma das opções que passaram a ser cogitadas é a permissão de retirada de até R$ 500 para cada conta ativa ou inativa na primeira fase dos saques, prevista para setembro. O valor frustrou quem pensava em ter acesso a quantias mais robustas.

- Isso reforça a ideia de que a medida é de fôlego curto. Ajuda, mas não resolve todos os problemas do país - menciona Perfeito.

Ontem, Guedes afirmou que os saques podem liberar R$ 42 bilhões na economia até 2020. Do total, cerca de R$ 30 bilhões estariam disponíveis até o final de 2019. Ou seja, 71,4% de todos os recursos.

Segundo Perfeito, os R$ 30 bilhões poderiam resultar em incremento ao Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 0,4% neste ano. Para chegar ao número, o economista dividiu a quantia pelo valor do PIB nacional em 2018 (R$ 6,8 trilhões).

- Apesar da possibilidade, o impacto não deve chegar a esse nível. Nem todas as pessoas que podem sacar usarão os recursos para comprar - pondera o analista.

Além de despertar expectativas sobre o consumo, a liberação do FGTS repercute na construção civil - outro motor do crescimento econômico. Representantes do setor temem que a medida transfira recursos que poderiam ser usados para financiamento de imóveis a compras diversas no varejo. O FGTS é importante fonte de financiamento para aquisições no programa Minha Casa Minha Vida.

LEONARDO VIECELI - INTERINO