domingo, 22 de janeiro de 2017

A sangria, Teori e o esgoto
Clovis Rossi
22/01/2017 02h00



Entendo perfeitamente as suspeitas implícitas no pedido do delegado federal Marcio Adriano Anselmo para que sejam exaustivamente investigadas as causas do que ele chama de acidente entre aspas com Teori Zavascki.

Inimigo número 1 das teorias da conspiração, sou obrigado a convir que, neste caso, há abundantes motivos para alimentá-las. A ver:
Teori Zavascki morre em queda de avião no RJ André Barcinski/Folhapress

 
1 – Sérgio Machado é pescado no telefone implorando a Romero Jucá para trabalhar pelo impeachment de Dilma. Seria, para Machado, a única maneira de "estancar a sangria" que a Lava Jato estava provocando e ainda iria provocar.

2 – O impeachment veio, mas a "sangria" não foi estancada.

3 – Agora, procuradores federais têm informação absolutamente seguras de que a, digamos, "operação estanca-sangria" continua viva e operante.

4 – O ministro Teori Zavascki era o relator da Lava Jato no Supremo, a única pessoa habilitada, neste momento, a "estancar a sangria".

5 – No telefonema de Machado a Jucá, os interlocutores "reconheceram a impossibilidade de cooptar o ministro", no relato do sempre brilhante Bernardo Mello Franco na sexta-feira, 20.

6 – Aí, cai uma avioneta e Zavascki morre. Morre com ele a Lava Jato? Não necessariamente, porque parte considerável do trabalho está feita, já havia sido entregue, mas cópias de A a Z estão com a Procuradoria.

É um trabalho insano: foram 940 depoimentos dos 77 executivos da Odebrecht que entraram no esquema de delação premiada.

Procuradores e policiais federais formaram 122 equipes de mais de 200 pessoas para montar o dossiê.
 
Se prevalecesse a opinião do procurador-geral Rodrigo Janot, Zavascki deveria levantar o sigilo dos depoimentos. No mínimo, evitaria vazamentos parciais e/ou interessados - e os interesses são formidáveis quando se sabe que os nomes de políticos citados são de um ecumenismo extraordinário.

É razoável supor que o ministro agora morto tivesse aproveitado as férias para adiantar o trabalho de analisar a pilha de informações e, com isso, dar andamento mais rápido aos processos. Como é um trabalho de equipe, é igualmente razoável supor que o pessoal de Zavascki tenha avançado o suficiente para impedir que a morte entorpeça demais os procedimentos.

Mas aí entram as perguntas de cunho muito mais político que judicial-administrativo-burocrático: para começar, o substituto de Teori, seja quem for, terá idêntica disposição de trabalhar em conjunto com o Ministério Público e com a força-tarefa da Lava Jato?

Terá coragem para peitar a substancial fatia do mundo político sob suspeita? Terá suficiente isenção para degolar, se e quando for o caso, à direita, à esquerda e ao centro? Por tudo isso, é fundamental que não paire a menor dúvida sobre as causas do acidente.

É simplesmente assustador pensar que permaneça na cabeça do público a hipótese de que se tentou estancar a sangria à custa do sangue do ministro.

O Brasil cairia no esgoto.
Editoria de Arte/Folhapress
Acidente Teori

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