terça-feira, 24 de janeiro de 2017



24 de janeiro de 2017 | N° 18750 
CARPINEJAR


Apagava os livros para o meu irmão mais novo

Quando terminava o ano letivo, eu tinha a missão de reunir os livros usados em aula e apagar o que escrevi para oferecê-los ao caçula. Era uma obrigação limpar as respostas. Levava dias e duas borrachas brancas para desaparecer com aquilo que aprendi durante uma série inteira.

Da lista escolar, apenas comprávamos os cadernos. Estudávamos na mesma escola e reutilizávamos os livros de exercícios. O meu irmão mais velho reproduzia o gesto comigo. História, geografia, matemática, língua portuguesa e ciências, as obras migravam de um nome para outro na aba de rosto sem trocar o sobrenome. Folheava os fascículos e em cada pergunta constava o relevo da letra emendada do Rodrigo, como um adubo do meu conhecimento, papel vegetal de minha alma. Ele nunca deixava nada sem preencher – a sua inteligência e presteza me apuravam. Queria ser como ele, desta forma seria melhor do que eu.

Suas marcas me inspiravam a não desistir, a cavar a solução dos problemas e equações. Pois, se ele respondeu, é que existia a resposta, isso me confortava a continuar buscando o resultado no fundo da memória. Às vezes, quando não sabia a questão, tentava trapacear e passar a minha letra por cima da dele. Nunca estive sozinho na dúvida. Ele me apoiava secretamente, tal tutor da caligrafia.

Predominava na época uma grave consciência de herança, de que deveria seguir os seus caminhos curvos da palavra e retos de conduta.

Jamais recebia um livro inédito. As linhas sempre estavam pressionadas pela mão direita do Rodrigo. Quando realizava os temas, eu também mantinha o capricho de não afundar demais o lápis, para não atrapalhar Miguel no ano seguinte. Escrevia leve, acariciando a folha. Não podia estragar o conjunto, rasgar algo, prejudicar a capa, desenhar nas bordas, colar adesivos. A responsabilidade já aparecia na ponta de meus dedos.

Havia a noção de que o livro era coletivo, não pessoal. Representava um patrimônio de todos os filhos. Não seria posto numa caixa de pertences para nunca mais, nem jogado fora. Estudar significava cuidar. Assim eu fui educado a não ser egoísta e possessivo, a não me sentir dono da verdade, a ceder o espaço para quem vinha depois de mim.

Livro importante era livro passado adiante.

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