sábado, 28 de janeiro de 2017



28 de janeiro de 2017 | N° 18754 
ANTONIO PRATA

RG E CPF DO ASSASSINO, POR FAVOR

Quinta-feira, 5 de janeiro, 19h27min, passando ao lado do estádio do Pacaembu, ouço uns gritos: do outro lado da rua, diante de um predinho, um homem e uma mulher se estapeiam. Um menino de uns oito anos, assustado, tenta separá-los. O homem está sem camisa e parece bêbado. Não consigo entender quem bate e quem apanha, pois se engalfinham num clinch e, arrastando o menino junto, somem porta adentro. 

A porta é de ferro, com retângulos compridos de vidro opaco, não dá pra ver lá dentro. Parece o depósito ou uma pequena garagem. Os gritos continuam, juntam-se a eles barulhos de coisas caindo. Ou seriam pessoas? Abre-se um basculante na lateral da porta, surge o rosto do menino, “Socorro! Socorro!”, mas alguém o puxa pra dentro. Fecha-se o basculante.

Penso em tocar a campainha, em arrombar a porta, mas me acovardo. Disco 190. Atendem rápido. Disparo pra atendente: “Oi, tem um casal se batendo e uma criança gritando ‘socorro’ na Rua Capivari, número xxx, bem na frente do portão 23 do estádio do Pacaembu”. Depois de alguns segundos: “Esse endereço é Consolação?”. “Não, é Pacaembu, Capivari, número xxx, bem na frente do portão 23 do estádio.” “O senhor teria uma rua de referência?” “Rua? Eu tô dando um estádio de referência!”

Algo atirado de dentro do prédio faz um buraco no vidro. Não ouço mais os gritos. “Eu preciso de uma rua de referência.” “Tá, Doutor Arnaldo. A Capivari é uma das ruas laterais do Pacaembu! Rua Capivari, número xxx!” Mais uns segundos. Os gritos voltam. Somem. Ouço barulhos. Não ouço a criança. “O senhor poderia me passar o CEP?” “Cara, eu tô vendo um casal se espancar e uma criança gritando por socorro, eu tô te dando a rua e o número e falando que é na frente do portão 23 do Pacaembu e você quer o CEP? A polícia não tem Google? Não tem Waze? Vai morrer alguém aqui! Vocês que têm que achar o CEP!”

A atendente, no entanto, tem tarefas mais importantes do que salvar a vida de uma criança de oito anos, de uma mulher ou de um homem, ela tem que defender o seu orgulho ferido. “Olha, se o senhor estivesse tão aflito assim o senhor descobria esse CEP pra mim.”

Desligo e disco 190 de novo. Falo a mesma coisa. O novo atendente tampouco parece ter ouvido falar nesse tal estádio do Pacaembu. Pergunta se a rua fica na Consolação. Dessa vez, digo que pode ser, que o Pacaembu é perto da Consolação, difícil existirem duas ruas Capivari tão próximas. Ele diz que vão mandar uma viatura. Chego perto da porta. Penso em tocar a campainha, em arrombar, mas me acovardo. Grito lá pra dentro “A polícia tá chegando! A polícia tá vindo!” e sigo pra casa.

Alguns quarteirões adiante, passa uma viatura. Eu aceno. Eles param. Explico a situação, me dizem que a ocorrência já foi atendida. Aliviado, me esqueço de perguntar o que aconteceu, se alguém foi preso, se alguém se machucou.

Em casa, meia hora depois, meu telefone toca. “Boa noite, o senhor ligou pra polícia militar relatando uma ocorrência na Rua Capivari, número xxz?” “Número xxz?! Não! Número xxx! Eu disse várias vezes o número!” Será que eles foram no número errado? Será que ninguém ajudou aquele menino? “Hm”, resmunga o atendente, não muito preocupado. “Certo. Escuta, essa Rua Capivari: por acaso fica em Itaquera?”

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