quarta-feira, 3 de abril de 2013


MARCELO COELHO

O livro das coisas parecidas

Clássico da literatura japonesa, escrito há mais de mil anos, é publicado agora no Brasil pela editora 34

POR VEZES, num livro escrito séculos atrás, encontramos uma voz tão atual, tão presente quanto a de qualquer contemporâneo nosso. Os "Ensaios" de Montaigne (1533-1592) são o maior exemplo disso.

Outro caso, ainda mais notável pela distância no tempo e no espaço, é o de "O Livro do Travesseiro". Foi escrito há mais de mil anos por Sei Shônagon, dama da corte imperial japonesa.

Numa série de textos curtos, Sei Shônagon anota impressões do cotidiano e fala de suas preferências em matéria de roupas, cores, pessoas e comportamentos. Parte importante do livro é reservada às listas, ou "catálogos de coisas parecidas" ("mono-zukushi"). A sensibilidade da autora tem o poder de entrar em sintonia conosco, apesar de todas as separações do tempo.

Coisas que causam insegurança. Coisas distantes que parecem próximas. Coisas que soam de modo diferente do habitual. Coisas que aborrecem. Coisas que a noite realça. Para cada uma dessas estranhas categorias classificatórias, Sei Shônagon dedica uma página, ou até menos do que isso.

Entre as "coisas que perdem a pose", por exemplo, o livro relaciona "um grande barco encalhado na maré baixa" e "uma esposa que, por causa de ciúme infundado, deixa sua casa, pensando que certamente a procurariam". Depois, continua Sei Shônagon, "não podendo mais continuar ausente, reaparece".

Numa lista desse tipo, é como se tivéssemos a matéria-prima para um conto que não é preciso escrever. Ao mesmo tempo, há possibilidades, ou promessas de metáfora, que ficariam esquisitas num texto mais formal.

Muito do livro -que foi adaptado, com excesso de maneirismos a meu ver, por Peter Greenaway em "O Livro de Cabeceira", filme de 1996- parece ter uma linguagem mais visual do que literária; as frases sem verbo, como ocorre com frequência nas listas, assemelham-se a descrições de pinturas, ou sugestões de quadros que poderiam ser feitos algum dia.

Sei Shônagon descreve os modos de um homem que sai da casa da amada antes do amanhecer. "Lembrando-se de um compromisso, levanta-se resoluto (...) por estar escuro, tateia ao redor, dizendo 'onde estão, onde estão?', em busca do leque e dos papéis dobrados deixados à cabeceira na noite anterior, que naturalmente haviam se espalhado."

Havia muitos encontros furtivos no Palácio Imperial, pelo que conta a autora. Os galanteios e comunicações vinham na forma de poemas, muitas vezes alusivos a outros poemas. A autora não se reprime: mostra sempre como foi engenhosa em responder com outras citações eruditas os versos de uma carta que recebeu.

É por isso, e pelas rivalidades político-amorosas da corte, que Sei Shônagon foi estigmatizada como pretensiosa pela outra grande escritora da época, Murasaki Shikibu, a autora de "A História de Genji". O livro de Sei Shônagon foi escrito entre os anos de 994 e 1001, e o de Murasaki pouco tempo depois. São os dois grandes monumentos da literatura clássica japonesa.

Muita coisa -em especial as páginas sobre cargos na complicadíssima hierarquia da corte- tem interesse hoje restrito a antropólogos e historiadores. Mesmo assim, a escrita de Sei Shônagon dá vida e humanidade ao que acontece.

Nada mais triste, diz ela, do que ver a casa de alguém tomada pelas expectativas de uma nomeação que termina sem acontecer. Os servidores antigos, os parentes, chegam de longe esperando a boa notícia, "comem, bebem saquê e fazem grande alvoroço".

Mas a madrugada avança sem sinal, continua Shônagon. "Estranhando a demora e apurando o ouvido", os convivas percebem que a comissão encarregada das nomeações já está indo embora. "À chegada do serviçal que estivera à espera de notícias, em meio ao frio, ninguém tem coragem de perguntar-lhe o resultado."

O livro ganha se lido aos poucos, ao acaso, deixando que cada pequena vinheta exerça, aos poucos, seu encanto. A equipe de tradução (cinco pessoas, desde 2001, preparam o texto para a editora 34), não economizou em notas, glossário e textos complementares. Desse modo, mesmo algumas alusões obscuras recuperam sua força estética.

Uma dama de antigamente havia se jogado nas águas do lago Sarusawa. Shônagon cita um poema sobre os cabelos em desalinho de uma mulher -que se parecem com as algas daquele lago. Não se fala em suicídio: a objetividade silenciosa da observação vale mais que páginas e páginas de sentimentos.

RUY CASTRO

Crédito de coraçõezinhos

RIO DE JANEIRO - Presidentes da República têm esse problema. Tudo que dizem é público. Veja a presidente Dilma. Uma inocente sugestão ao chefe de cozinha do Planalto, de que gostaria de um suflê de chuchu desidratado para o jantar, pode vazar e dar a entender que temos em Brasília uma flora intestinal com problemas -quando, na verdade, a presidente quer apenas descansar das bombas que é obrigada a ingerir todo dia em suas viagens pelas províncias.

Imagine então suas declarações sobre economia. Dependendo de como são interpretadas, podem levar o país para um lado ou para o outro. Foi o que aconteceu outro dia, na reunião dos Brics, na África do Sul. Dilma disse algo sobre inflação e taxa de crescimento do Brasil que alvoroçou indevidamente o mercado de juros. Pronto, mais um aborrecimento -culpa, claro, da imprensa.

E posso calcular sua decepção ao ver uma de suas melhores frases recentes -a de que, se alguém culpasse os raios pelos apagões, devíamos dar gargalhadas- ser desmentida pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), o qual concluiu que o apagão de dezembro, que deixou 12 Estados no escuro, foi causado por... raios. E agora, vamos rir de quê?

Presidentes são assim mesmo, contundentes quando não devem ou peremptórios sobre o que não entendem. Faz parte do emprego. Donde não é justo que exijamos deles uma infalibilidade que, hoje, já não se espera nem do papa. Pelo mesmo motivo, em termos jornalísticos, talvez nem tudo que dizem -já que não é para valer- deveria render manchete ou primeira página.

Em compensação, raro o dia em que não se vê, em jornal ou TV, Dilma fazendo para plateias o famoso gesto do coraçãozinho com as mãos. É reconfortante. Uma governante tão pródiga em coraçõezinhos merece um crédito, não sei se de confiança, mas de carinho.

ANTONIO PRATA

PEC & Pague

Encontrei Vanda, que cozinhava e lavava roupa em casa quando eu era criança, depois de dez anos

VANDA VINHA do interior da Bahia e de dentro de um livro de Charles Dickens. Caçula de nove filhos, aos sete anos foi dada pela mãe, incapaz de sustentá-la, a uma conhecida. Trabalhou de graça na casa da mulher até os 15, então pegou um ônibus e fugiu para São Paulo.

Quando eu ou minhas irmãs a importunávamos com nossas demandas de criança mimada, nos contava histórias da infância de gata borralheira, fazia-nos apertar seu nariz, quebrado por uma das filhas da "patroa" com um rolo de amassar pão e nos expulsava da cozinha: "Sai pra lá, peste, e me deixa acabar essa janta!".

Vanda cozinhava, limpava, lavava roupa e passava. Morava num quartinho nos fundos da casa, ao lado do tanque e da máquina de lavar roupa, aonde era vedada a minha entrada. Às vezes, a via pela porta entreaberta: de bobes na cabeça, falando ao telefone ou pintando as unhas dos pés, sob o lusco-fusco da TV preto e branco.

Nos fins de semana, arrumava-se toda e ia para a casa de umas primas, na periferia. Um domingo, levou-me junto, para um churrasco. Lembro de ter me saído estranhamente bem no futebol com os meninos da rua, lembro de mulheres curiosas pegando no meu cabelo loiro, lembro das gargalhadas que explodiram quando apontei a carne na grelha e perguntei se era picanha.

Levei muitos anos para entender a graça da minha pergunta. Levei muitos anos, também, para entender por que não nos referíamos à Vanda como "nossa empregada", mas como "a moça que trabalha lá em casa" -tentativa inútil de contornar o incômodo daquela anacrônica e persistente relação.

Vanda viveu e trabalhou conosco por 15 anos. Depois que crescemos e saímos de casa, minha mãe e meu padrasto resolveram não ter mais uma empregada morando lá. Falaram com amigos e arrumaram outra família para Vanda trabalhar. A patroa nova foi pegá-la uma noite, depois do jantar -a mudança da Vanda coube no porta-malas do carro.

Fiquei dez anos sem vê-la. Em 2011, caminhando por uma praia do litoral norte, ouvi um grito: "Tunim!". Ali estava ela, fazendo um castelo de areia, com os filhos da patroa. "Meu menino, meu menino!", ela repetia, me abraçando e chorando -eu fiquei tocado, mas não chorei. Naquela tarde, contou-me que ia se aposentar e voltar pra Bahia, onde estava terminando de construir uma casa, com suas economias. Ano passado, ela voltou: aos 60 e tantos anos, pela primeira vez desde os sete, dormiu num quarto que não pertencia a seus patrões.

Estranha sensação ao escrever esta crônica. Parece que falo da minha infância de menino de engenho, no interior de Pernambuco, no século 19, não da infância de um filho de jornalistas, numa casa geminada no Itaim Bibi, no final do século 20. Estranheza que confirma a profecia de Joaquim Nabuco (relembrada por Caetano Veloso, em "Noites do Norte"): "A escravidão permanecerá por muitos anos como a característica nacional do Brasil".

Característica que, lentamente, vamos deixando para trás, no início do século 21. Lentamente, pois ser empregada com FGTS, caixa de supermercado ou atendente de telemarketing ainda é muito pouco diante do que a vida pode oferecer -mesmo comendo picanha ou tomando banho com sabonete Dove.

antonioprata.folha@uol.com.br


03 de abril de 2013 | N° 17391
MARTHA MEDEIROS

Recebendo as visitas

Sempre me fascinou a maneira como tanta gente recebe amigos em casa de forma absolutamente desestressada. As visitas chegam sem avisar, abrem a geladeira, se esparramam no sofá e está tudo certo, desde que sejam íntimas. Se não forem íntimas, tornam-se.

Nesse aspecto, minha educação foi mais cerimoniosa. Gosto de ser avisada que virão à minha casa, até para ter tempo de me preparar: comprar algumas flores, abastecer a geladeira, deixar a música no ponto. Adoro receber, desde que me deem a chance de esperar meus convidados como acho que devo. Na contramão da maioria das pessoas, prefiro a previsibilidade ao ataque surpresa.

Não sei de onde vem essa formalidade, deve ser cultura familiar. Lembro de ouvir recomendações quando criança: trate bem as visitas. Mesmo eu não conhecendo alguns amigos dos meus pais, era obrigatório ir até a sala, de pijama e dentes escovados, cumprimentar os adultos e dar boa-noite. Podia ser aborrecido, mas não havia negociação.

Então, ficou incrustada em mim essa reverência prestada a todos os que nos visitam – mandam os bons modos oferecer ao menos um copo d’água, convidar para sentar, ser atencioso e procurar causar uma boa impressão.

Talvez seja por isso que a cada vez que ouço a notícia de que um turista estrangeiro sofreu alguma selvageria em nosso país, sou tomada pela vergonha. Óbvio que qualquer crime, contra qualquer pessoa, é chocante e inadmissível, mas o turista atacado me parece ainda mais indefeso do que nós: ele não conhece as manhas das nossas cidades, não fala nosso idioma, está aqui apenas para se divertir, e de repente sofre um assalto brutal e tem sua dignidade profundamente atingida, como foi o caso do casal de namorados que há poucos dias entrou numa van em Copacabana e acabou sofrendo abusos por seis horas nas mãos de delinquentes.

Cadê o copo d’água, a atenção?

É só assistir aos telejornais para perceber que o Brasil não mudou tanto quanto apregoa. Manicure mata criança, motorista atropela e foge, torcedores se agridem. E proliferam os roubos de carros, arrastões em restaurantes, depredação de caixas eletrônicos. Difícil nossas atrações turísticas competirem com o produto brasileiro mais divulgado lá fora: a violência.

Claro que existe o vice-versa: nem sempre brasileiros são recebidos no Exterior com tapete vermelho, como demonstram os casos de deportações sumárias e assassinatos inexplicáveis, a exemplo do garoto que recebeu vários eletrochoques disparados por policiais canadenses ou o famoso episódio envolvendo Jean Charles, que foi abatido a tiros num metrô de Londres.

Mas não atenua. Sigo muito envergonhada. Se vieram pacificamente até a nossa casa e abrimos a porta, que façamos a gentileza de deixar o cachorro preso.


03 de abril de 2013 | N° 17391
ARTIGOS - Aline Doral Stefani Fagundes*

Juiz, um ser solitário

Ele tinha 16 anos. A idade em que até uma espinha no nariz tira a confiança para um flerte. Lidando com uma máquina sem dispositivos de segurança adequados, atuando, no entanto, com parca diligência (e contribuindo em parte para o resultado), perdeu três dedos da mão.

Do outro lado, estava uma pequena empresa, administrada por pessoas aparentemente simples e boas, que, aos trancos e barrancos, dava emprego a uns 15 ou 20 trabalhadores. Uma condenação compatível com a gravidade do dano possivelmente levaria a empresa a fechar as portas, deixando 15 ou 20 famílias em situação crítica.

Entre essas duas histórias, uma juíza à procura do sono e do rumo de um julgamento sensato, equilibrado e (será que seria possível...) justo. Felizmente, as lides trabalhistas dão menos notícia, o que me poupou de acrescentar a essa já tortuosa reflexão a paixão da sociedade, as manchetes dos jornais, o sofrimento dos envolvidos ou solidarizados.

O julgamento é um momento de solidão, que não pode ser compartilhado com ninguém, nem deve se deixar levar por sentimentos externos. O processo do trabalho, pelo maior contato com a parte, propicia uma oportunidade de desabafo.

A parte quer ser ouvida e se justificar e, não raras vezes, externa a imagem – boa ou má – que tem do Poder Judiciário, sobretudo da Justiça do Trabalho. O juiz que se intimida com o sentimento da população não profere sentenças: escreve cartas de amor. Segue seu coração, favorecendo quem tem a história mais comovente, quem arrebanha maior número de seguidores, quem tem mais talento em conquistar, em convencer. A que sociedade interessa um juiz que se intimida com a sua imagem ou com a comoção pública?

A lei, justa ou injusta, nos dá ferramentas para atenuar os erros (eliminá-los é utópico). Todos os dias, felicito-me pela possibilidade de as minhas sentenças poderem ser reformadas ou anuladas por três desembargadores, ainda que a minha vaidade e comprometimento com a vontade de “fazer certo” me façam vibrar com cada confirmação. Sim, eu erro! É frustrante. Assim como em alguns casos vou morrer com a convicção de que quem “errou” foi o Tribunal.

Há que se fazer um exercício de empatia. Assim como se aperfeiçoa o juiz que consegue ver uma pessoa além das folhas do processo, alenta-se a parte que vê um juiz, e seu solitário sofrimento, por trás da sentença.

Que as 15 ou 20 famílias que talvez eu tenha levado ao desemprego me perdoem e agradeçam pelos dedos que seus pais deixaram de perder.

*JUÍZA DO TRABALHO SUBSTITUTA


03 de abril de 2013 | N° 17391
OLHAR GLOBAL | Luiz Antônio Araújo

Desta vez, é fria

Aideia de uma Guerra Fria só podia ser devidamente entendida em oposição à Guerra Quente de nossos pais e avós, a de 1939 a 1945, que deixou 17 milhões de mortos e foi a primeira da história a merecer o adjetivo de “mundial”.

Mas não só isso: num mundo dominado por duas superpotências nucleares, Estados Unidos e União Soviética, a perspectiva de um confronto com armas atômicas logo convenceu os estrategistas dos dois lados de que o mais importante era evitar o choque frontal.

Para americanos e europeus – e, em grande medida, para nós, latino-americanos –, mais do que Guerra Fria, houve uma Paz Morna.

Para asiáticos e africanos, porém, o período de 1945 a 1991 foi caracterizado por altas temperaturas. Foi o período da Revolução Chinesa, da Guerra da Coreia (1950 – 1953), da fase mais crítica da Guerra do Vietnã (1965-1975), do sangrento golpe militar na Indonésia (1965), da guerra civil no Laos (1962 – 1975) e no Camboja (1967 – 1980), da guerra de independência de Bangladesh (1971) e da invasão soviética do Afeganistão (1979 – 1989).

Excetuado o pesadelo nuclear de Hiroshima e Nagasaki, a verdadeira guerra quente da Ásia ocorreu quando as armas silenciaram na Europa. De todos esses conflitos, a ferida mais duradoura encontra-se na península coreana, onde uma única nacionalidade está dividida há mais de 60 anos.

É pouco provável que o regime norte-coreano decida atacar o sul. Se o fizesse, Pyongyang teria contra si não apenas Estados Unidos e Rússia, mas sua mais importante aliada, a China. Desde já, porém, é possível fazer uma previsão para a hipótese de a Coreia do Norte decidir atacar a Coreia do Sul: seus inimigos atacarão antes.


03 de abril de 2013 | N° 17391
PAULO SANT’ANA

O motorista faltoso

A melhor receita para sermos justos com os outros é, quando temos um impasse com alguém, colocarmo-nos no lugar desse alguém.

Entre mil coisas que evitaremos, existe muitas vezes o fato de exigirmos piedade e compreensão para nós e não concedermos isso para os outros.

Há milhões de situações em que é sensato nos colocarmos no lugar dos outros.

Outro dia, fui até a Fronteira Oeste de ônibus de linha. Era evidente que o motorista do ônibus em que eu viajava estava fazendo ultrapassagens arriscadas e imprimia excesso de velocidade nas curvas.

Antes de chamar a polícia rodoviária para corrigir o motorista, como eu sou uma pessoa muito conhecida, vários outros passageiros me escalaram para tomar uma providência.

Não me esquivei, fui até a cabina do motorista e, enquanto ele prosseguia dirigindo, eu lhe fiz as seguintes colocações:

– Senhor motorista, eu não o conheço, mas vários passageiros me pediram para que viesse aqui lhe fazer uma advertência e um apelo. Do jeito que o senhor está dirigindo, coloca em risco a vida de todos nós, passageiros, e sua própria. Os passageiros estão pedindo que o senhor não pratique mais ultrapassagens arriscadas e diminua a velocidade nas curvas. Tenha a bondade de atender o pedido deles. Sei que o senhor deve estar cansado e pode possuir razões para estar nervoso e apressado. Mas, acima de tudo, está a vida dos passageiros que o senhor está transportando.

Mas aí é que está a coisa. Voltei para junto dos outros passageiros e disse para todos o seguinte:

– Meus amigos e amigas que estão viajando comigo. Ponham-se no lugar desse motorista que está nos guiando. Com certeza, ele não dorme direito, não lhe concedem a folga justa e humana. Além disso, a empresa em que ele trabalha deve exigir um horário nos trajetos que está acima de seu desempenho normal, o que o faz apressar-se. Outra coisa, vim a saber quanto ganha um motorista de ônibus intermunicipal, é por volta de R$ 1.110 a R$ 1.400 mensais.

Ele deve ter família, talvez extensa prole, por já ter mais de 54 anos, não consegue dar um tratamento justo à família, falta dinheiro para sustentá-la. Eu pergunto, então, para os senhores: não há razões adequadas para esse motorista estar dirigindo tão perigosamente?

Todos concordaram comigo, e alguns, que tinham ameaçado até agredir o motorista faltoso, ou xingá-lo, resolveram nada fazer com ele e seguir viagem cordata, à espera de que a advertência que fiz ao motorista em nome deles surtisse efeito e a viagem não apresentasse mais sobressaltos.

É a tal coisa: precisamos nos colocar no lugar de quem está nos prejudicando com suas atitudes. Sempre.

Não é certo só olharmos as questões por nossos pontos de vista. É preciso que assumamos o lugar dos outros, e compreenderemos melhor a vida.

Ah, faltavam 200 quilômetros para o fim da viagem quando aconteceu o relatado acima. E toda a distância faltante foi percorrida com tranquilidade. O motorista se pôs sereno depois que falei com ele.

Sem necessidade de chamar a polícia.

terça-feira, 2 de abril de 2013



02 de abril de 2013 | N° 17390
FABRÍCIO CARPINEJAR

Dane-se a fila

O que sou não deve ser regra de convivência. O que sou morre comigo.

Descobri que amar não é fazer com que o outro siga meu ritmo insano.

Isso é ditadura.

Amar não é puxar a namorada para o nosso fôlego, não é arrancá-la de seu temperamento e forçar semelhanças.

Isso é indiferença.

Amar não é punir atrasos e castigar descompassos.

Isso é tortura.

Amar não é ameaçar com frases egoístas como “A fila anda”. É o contrário: é perder o lugar na fila, é ceder seu lugar na fila, é regressar ao início da fila.

Amar é estranhamente recuar. É encurtar as pernas para melhor passear, alongar os braços para melhor entrelaçar os dedos.

O apaixonado não impõe seu temperamento, acostuma-se a caminhar diferente, olhando ao lado. O lado passa a ser a nossa frente. Quem nos ladeia é o nosso horizonte.

Surgirá um contratempo de sua companhia, uma dificuldade inesperada e se verá contrariando seus planos para ajudar – só tem pressa quem não tem urgência.

Amar é proteger mais do que avançar, é cuidar mais do que atingir objetivos, é apoiar mais do que se vangloriar da distância.

Foi a minha avó Mafalda que me explicou. Ficava muito irritado pelo seu trotear na Rua Corte Real. Era velhinha, manca e, além de tudo, distraída. Ela me obrigava a participar de sua andança fisioterápica depois do almoço. Um quarteirão correspondia a queimar calorias de quatro quilômetros.

– Meu neto, é bom acompanhar um familiar doente, pois amar é ir aos poucos, é lentidão por fora e interesse por dentro – ela dizia.

Não fazia lógica para mim. Amar parecia voar, correr, atropelar. Amar significava velocidade, superação, afoiteza. Amar traduzia liberdade, transgressão, não se intimidar com os limites.

Eu me enganei, vó.

Seu andar miúdo, pequeno, de bengala, pesando cada pé no chão, me ofereceu uma aula emocional.

Nenhum casal corre de mãos dadas.

Amar é aguardar se necessário, voltar atrás se preciso, criar um novo passo para atender os dois.

Se fui apressado para conquistar minha mulher, agora devo ser lento, estar com ela é meu destino. Amar é

proteger mais do que avançar, é cuidar, é apoiar.


02 de abril de 2013 | N° 17390
DEBATE TRANSPORTE PÚBLICO - Roberto Rachewsky*

Nada pode ser mais injusto

A prefeitura de Porto Alegre foi alvo de grupos político-partidários que recrutam baderneiros travestidos de estudantes para pressionar o governo se utilizando de todas as formas ilegítimas de manifestação.

O poder público e os fora da lei reúnem-se em programas de rádio e televisão para fazerem acusações mútuas.

Podemos ver que os baderneiros, que deveriam ser responsabilizados criminal e pecuniariamente pelos danos que causaram, não têm razão nas suas demandas, seja no campo jurídico, seja no campo econômico, ao reclamarem do preço das passagens de ônibus, desconsiderando as causas dos aumentos e evadindo-se do fato de que um terço dessas passagens são fornecidas gratuitamente, onerando, assim, o custo total do serviço pago pelos dois terços de pobres coitados.

Do outro lado, o poder público se defende com justificativas legais e econômicas para explicar que a prefeitura é pródiga em tirar arbitrariamente do bolso de uns para, demagogicamente, dar a outros sob variadas motivações como a elevada idade do passageiro, a sua ocupação ou condição física. Para um político, sempre haverá alguém a ser satisfeito em troca de votos.

O que ninguém faz é discutir sobre as reais causas de termos um serviço de transporte coletivo público tão ineficiente, caro e, como vemos, polêmico ao ponto de parar uma cidade pelo evento de uma batalha campal entre forças bárbaras e as do status quo.

No debate, apegam-se a paliativos que pouco amenizam os sintomas do problema e muito contribuem para agravá-lo.

Ao restringir o acesso ao mercado de potenciais ofertantes, privilegia alguns com injustificada reserva de mercado, gerando incompetência, elevação dos preços, queda da qualidade dos serviços e muda o foco do empresário, que deveria ser o consumidor, para o burocrata que lhe outorga os benefícios. Sempre que no lugar do consumidor estiver um burocrata a conceder privilégios àqueles que participam num determinado mercado, estes estarão mais sujeitos à corrupção do que à insatisfação de seus usuários.

Não é à toa que permissões para a exploração dos serviços de transporte público valem tanto.

Ao estabelecer regramentos baseados nos conceitos burocráticos do poder público e não na vontade dos consumidores, que somente num livre-mercado poderia ser percebida e satisfeita com justeza, o governo desagrada a quase todos, pois não é onisciente nem onipotente ao ponto de saber sobre todos os desejos e vontades da população, nem as capacidades e vontades dos fornecedores daquele serviço controlado.

Assim, linhas a serem percorridas, cores dos veículos, tamanho dos carros, valor das tarifas, tipo de combustível etc., hoje definidos em gabinete, desprezam os interesses particulares dos indivíduos que se utilizam desses serviços ou os proveem.

A intervenção do Estado, que perverte a lei, colocando-a a serviço de demagogos e populistas, cria uma sociedade de usurpadores dos direitos individuais, onde tirar à força de uns para dar a outros, onde tirar a liberdade de iniciativa de uns para privilegiar outros, onde uns definem impositivamente o que outros, que inclusive pagam por isso, deverão usufruir, é o Estado totalitário aplicado à vida dos indivíduos no exercício de suas vontades e necessidades no dia a dia.

Quando o governo resolve agradar a todos de forma centralizada, ganha mais quem grita mais alto. É o que baderneiros sabem fazer mais do que o cidadão comum sem tempo de gritar, pois lhe é exigido trabalhar para seu sustento, para sustentar os que legislam e os que são beneficiados, como parasitas, pelas leis que são estabelecidas.

Tarifas caras e serviços ruins só têm um antídoto viável, a livre concorrência.

A justiça somente será encontrada quando deixarmos de botar a mão no bolso alheio e o alheio deixar de botar a mão no nosso. Será o fim da hipocrisia e o início do fim da barbárie.

*CONSELHEIRO DO INSTITUTO DE ESTUDOS EMPRESARIAIS E DO INSTITUTO LIBERDADE


02 de abril de 2013 | N° 17390
CLÁUDIO MORENO

Leitores

1 – O escritor britânico C. S. Lewis, mais conhecido no Brasil por suas Crônicas de Nárnia, deixou registrada sua crítica àqueles que leem um livro apenas uma vez. Segundo ele, sempre haverá uma esperança para quem nunca leu Shakespeare, Tolstói ou Montaigne, porque um dia poderá vir a lê-los. Agora, não há nada a fazer com alguém que diz “já li Cervantes” com aquele ar de quem, por ter lido uma vez o Dom Quixote, considera o assunto esgotado.

2 - Sir James G. Frazer, o famoso antropólogo, não desdenhava os autores de sua época (morreu em 1941), mas tinha especial predileção por obras clássicas, como a Ilíada ou a Bíblia. Segundo ele, o princípio darwinista de que só os melhores sobrevivem vale mais para a literatura do que para os homens. Livro ruim morre logo, mas os bons permanecem porque o mundo faz questão de não deixá-los morrer.

Quanto mais antiga uma obra, mais forte é o tributo que a humanidade presta à sua excelência; se os homens se deram o trabalho de reproduzir um livro vezes sem conta e passá-lo de geração em geração, podem ter certeza de que há alguma coisa nesse livro que merece viver.

Por onde andam nomes como Somerset Maughan, A. J. Cronin, Pearl S. Buck, estrelas dos anos 60? Por onde andarão, daqui a trinta anos, nomes que hoje são resenhados e premiados como carneiros de exposição? Não creio que cheguem aos meus netos – enquanto, sereno e incomparável, Machado de Assis vai ficando melhor a cada ano que passa.

3 – As crianças sabem. Isaac B. Singer, um dos autores favoritos de nosso saudoso Moacyr Scliar, no discurso que fez no banquete oferecido a ele logo após ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura de 1978, deixou sábias advertências para quem escreve livros infantis; delas, destaco algumas que, por sua atualidade, nunca deveriam ser esquecidas:

(1) crianças leem livros, não resenhas; não dão a mínima para a crítica;

(2) crianças não leem para encontrar sua identidade, para se libertar de culpas, para apaziguar sua sede de revolta ou para se livrar da alienação;

(3) elas ainda acreditam em Deus, na família, em anjos e demônios, em bruxa e gnomos, e também na lógica, na clareza, na pontuação e em todas essas coisas que parecem obsoletas;

(4) elas adoram histórias interessantes, mas detestam comentários e notas de pé de página;

(5) quando o livro é maçante, abrem um amplo e espontâneo bocejo, sem vergonha alguma e sem a menor consideração pelo renome do autor;

(6) por último, e talvez mais importante, não esperam que seu escritor favorito vá salvar a humanidade; tão jovens que são, sabem que isso está acima das forças dele e que só os adultos têm essas ilusões infantis.


02 de abril de 2013 | N° 17390
PAULO SANT’ANA

Justa aposentadoria

A meu ver e sentir, a renúncia do papa Bento XVI pôs fim a um dos maiores bestialógicos que a Igreja Católica impôs a si própria, aos católicos e ao mundo. Qual seja, decretar que devia permanecer no trono papal o pontífice que estivesse doente, senecto, decrépito, fisicamente decadente e amorfo.

Bento XVI, ao renunciar, jogou no lixo esse dogma absurdo, inovando ao consagrar que daqui por diante é lícito a qualquer papa se aposentar.

Vou mais adiante: passou a ser lícito agora à Cúria Romana encaminhar ao colégio dos cardeais a proposta, para que ele a aprecie por maioria, de aposentar o papa, mesmo que este resista a essa hipótese, quando não tiver mais condições físicas ou mentais para continuar exercendo o pontificado.

Não sou vaticanista, mas quantos e quantos papas já existiram que mereciam se aposentar e foram ainda assim submetidos a um calvário para si ou para os outros ao permanecerem no trono sem as mínimas condições de liderá-lo.

Com o papa deve acontecer o que ocorre em todas as carreiras: o fim delas tem de ser a aposentadoria. Apenas com uma diferença: a de que todos os papas eleitos já pertencem à velhice, por isso deve-se respeitar a índole de que ele exerça o cargo como ancião, desde que apresente as mínimas exigências ao desempenho de máximo pastor.

Os papas – viu-se isso no antepenúltimo e no penúltimo, João Paulo II e Bento XVI – não poderiam de maneira nenhuma, diante das obrigações cênicas a que eram submetidos, missas, aparições diante de multidões e outras solenidades, ser transportados no papamóvel doentes e alquebrados. O papamóvel, com eles dentro, mais parecia um carro semifúnebre.

Em outras palavras, jamais os fiéis podem sentir pena do papa.

Ao contrário, o papa tem de se mostrar física e mentalmente participativo em todas as suas atuações e movimentos.

E não é justo obrigar-se qualquer papa à tortura existencial de continuar no cargo se está cansado dele.

Por isso compreendo, aprovo e aplaudo a aposentadoria de Bento XVI.

E essa aposentadoria do papa anterior pôs fim também a um desígnio injustificável da Igreja: o de que o mandato de um papa só terminasse quando ele morresse, isso se constituiu num monumental contrassenso e num suplício constrangedor para inúmeros papas que foram obrigados a arrastar-se no cargo, implorando talvez até eles mesmos pela própria morte.


02 de abril de 2013 | N° 17390
DAVID COIMBRA

A confiança dos grandes

Julio Cesar foi tão grande que metade de seu nome tornou-se um mês, julho, e a outra metade tornou-se sinônimo de rei: kaiser na Alemanha, czar na Rússia, césar entre os romanos.

O curioso é que ele próprio, Julio Cesar, jamais foi rei. Cesar, que ironia, nunca foi césar. Quando Jesus falou “dai a césar o que é de césar”, não falava de Julio. O nome Cesar, àquela altura, já havia se transformado em cargo. O “césar”, por volta do ano 33 DC, era Tibério, que sucedera Augusto, este, sim, o primeiro césar, que também virou mês, agosto, mas essa é outra história. O que importa agora é Julio Cesar.

A vida de Julio Cesar foi uma fieira de lances bem-sucedidos, entre geniais e fortuitos, ou as duas coisas. Tratava-se de um homem inteligente, ousado e afortunado, e tinha consciência disso.

Uma vez, Cesar precisava atravessar um trecho do Mar Adriático no inverno, e precisava fazê-lo não em um grande navio, mas em um pequeno bote. O mar estava proceloso, nenhum marinheiro se arriscaria a enfrentá-lo naquelas condições. Mas Cesar teimou que iria em frente. Requisitou alguns homens e fez-se ao mar. Em meio ao trajeto, as ondas gigantescas jogavam com o barquinho para cima e para baixo, os remadores estavam apavorados, os olhos redondos de espanto e pavor, e aí Cesar sorriu para eles, e disse:

– Não se preocupem: vocês estão conduzindo Cesar e sua boa sorte.

Veja como Julio Cesar confiava na sua estrela. Como pensava positivamente. Isso é muito bom, faz com que uma pessoa vá em frente, não tema a vida e, graças a tal destemor, realize seus sonhos. Pena que esse sentimento nem sempre corresponda à realidade.

No caso de Cesar, as ondas jogaram-no de novo para a praia e lhe espatifaram o bote. Ele não atravessou o Adriático. No caso dos times de futebol, a confiança exagerada causa um relaxamento que acarreta fracassos como alguns que vêm abalroando o Grêmio no Gauchão. Está faltando concentração ao Grêmio, está faltando cuidado. Melhor ter confiança desconfiando, entrar em campo, senão temendo, respeitando o adversário.

Cesar não aprendeu com o episódio do Mar Adriático. Continuou vivendo com um sorriso de vitória acima do queixo eternamente erguido. Resultado: na manhã de 15 de março de 44 AC, sua mulher advertiu-o de que tivera um pesadelo nefasto com ele e pediu que não fosse ao Senado, local onde referviam seus inimigos. Cesar sorriu com desdém e foi em frente. Tomou a liteira na qual um dos senadores traidores o aguardava.

Pouco tempo depois, já na entrada do Senado, um homem se aproximou dele e lhe passou um bilhete que denunciava a conspiração para assassiná-lo. Cesar não leu. Guardou o bilhete numa dobra da toga, displicentemente. E foi em frente. No Senado, homens que o odiavam, que antes já tinham tramado contra ele, mas que ele, com sua imprudente confiança, havia perdoado, esses homens o apunhalaram até a morte.

A sorte não funciona sempre. Ela precisa de alguma ajuda. O saudável sentimento do medo às vezes bem pode ajudar.

segunda-feira, 1 de abril de 2013


LUIZ FELIPE PONDE

O gozo da pulsão de morte

O que está em jogo é torturar quem não parece estar enquadrado no jogo da pureza moral

Pense na Dinamarca. País perfeito, que, junto de Suécia, Noruega e Islândia (um dos lugares mais fascinantes em que já estive justamente porque é no fim do mundo e ninguém normal vai para lá), forma o paraíso na Terra para essa gente do "queremos um mundo melhor".

A chave para entender esses belos países não é o que gente mal informada acha que é, a saber, seu altíssimo grau de civilização e "consciência social" (em mil anos, termos como esse soarão como hoje soa "raça ariana superior"), mas, sim, seu altíssimo grau de prazer em reprimir tudo que não seja norma e de torturar todos que parecerem estar fora dela (dito de modo psicanalítico, um enorme gozo da pulsão de morte a serviço da repressão e humilhação moral).

O luteranismo puritano do passado escandinavo se transformou na repressão terrível em nome de "sua santidade" o politicamente correto, seja ele ecológico, social, sexual, cultural, ou que diabo for.

O que está em jogo é torturar quem não parece estar enquadrado no jogo da pureza moral. O cinema de Ingmar Bergman, Lars von Trier e Thomas Vinterberg, por exemplo, é um testemunho claro desse gozo mórbido pela hipocrisia do amor à norma.

Mas seria injusto passar a conta para os escandinavos. Nós todos gozamos em torturar quem cai na desgraça de ser um herege. O ódio nos move mais do que o amor, e, antes de tudo, odeio o racista mais do que amo sua vítima de racismo.

Adoramos humilhar, perseguir, destruir homens e mulheres, porque supostamente feriram códigos. Mas a maioria de nós não está nem aí para os códigos. Gosta, sim, de ver o desgraçado reduzido a lixo.

Somos inquisidores natos, prontos a babar em cima da primeira vítima que surgir, principalmente a "moçadinha" por um mundo melhor.

Por isso, na Idade Média levavam as crianças para o programa de domingo, que era ver infelizes arderem. E você, caro leitor, que talvez se ache o máximo, provavelmente levaria o seu filho também para cuspir no herege. Quer ver: o que você acha do pastor Feliciano? Ou de algum machista nojento? Ou de padre pedófilo? Merecem um xingamento básico? Quem sabe, ovo podre? Bruxa e gay hoje não são mais hereges, são parte do status quo "cabecinha".

Por falar em Vinterberg, veja o maravilhoso "A Caça", com o excelente Mads Mikkelsen (o mesmo do "Amante da Rainha") no papel principal de um professor de jardim de infância injustamente acusado de pedofilia por uma aluna.

O filme deveria ser passado nas escolas de magistratura, nas faculdades de psicologia, pedagogia, serviço social e outros quebrantos.

Tudo nele é sofisticado e a serviço de desmascarar o inquisidor que existe em nós. O erro da "moçadinha" para um mundo melhor é não entender que, para descobrir o inquisidor babão em si mesmo, a chave não é pensar em "vítimas oficiais de preconceito", mas sim em quem você odeia por razões que você considera justas.

A questão do filme não é negar o horror da pedofilia (vamos esclarecer antes que algum inquisidor comece a babar em cima de mim), mas, sim, mostrar como funciona nossa velha natureza humana em seus novos objetos de gozo mórbido moral.

A menina, Klara, tendo sido "recusada" em seu amor pelo professor Lucas (Mikkelsen) -ela o beija na boca-, vinga-se dizendo para a diretora da escola (esse ser quase sempre pronto para abraçar qualquer moda, mesmo as modas de horror como a pedofilia) que ele tinha mostrado seu órgão sexual para ela.

Daí, claro, segue-se o "normal": um especialista acaba por dar a bênção "científica" para a acusação de pedofilia contra o inocente Lucas. Ele segue a cartilha de que as crianças nunca mentem e quando negam o suposto abuso é porque estão envergonhadas. De repente, todas as crianças dizem terem sido abusadas.

Por isso, de nada adianta o arrependimento de Klara, que tenta negar o que disse mil vezes (e ela o faz várias vezes, mas nenhum adulto acredita nela). Todos "cospem" em Lucas: amigos e suas mulheres, colegas de trabalho, ex-mulher, quitandeiros.

Teste sua alma de inquisidor: o que você faria se acusassem o professor de sua filhinha de pedofilia?



01 de abril de 2013 | N° 17389
EDITORIAIS

Crimes desconcertantes

A execução de três taxistas em Porto Alegre na madrugada de sábado, apenas dois dias depois da ocorrência de episódio semelhante em Santana do Livramento, assombra a população gaúcha, aterroriza a categoria profissional das vítimas e impõe à Polícia o inadiável desafio de tirar de circulação os assassinos – ou, como se suspeita nos casos da Capital, o assassino.

A constatação de que as três mortes de sábado foram causadas por tiros saídos da mesma arma amplia o foco das investigações, pois a suspeita inicial de latrocínio, que chegou a ser levantada pelos investigadores, pode derivar para vingança, acerto de contas ou mesmo para a existência de um serial killer fixado em taxistas.

Em qualquer hipótese, os crimes precisam ser elucidados logo para reduzir a tensão e, evidentemente, também para que se faça justiça. Ao mesmo tempo, é impositivo que os órgãos de segurança atendam ao clamor dos motoristas de táxi por operações policiais mais frequentes e mais objetivas.

Como admitiu o próprio governador Tarso Genro em encontro com lideranças da categoria profissional, as blitze promovidas pela Brigada Militar têm falhas que precisam ser corrigidas, entre as quais a da questão da revista dos passageiros. Ora, não pode haver dúvida de que tanto os condutores quanto as pessoas que estão sendo transportadas têm o mesmo dever de se submeter à inspeção policial.

Além disso, outros instrumentos de proteção precisam ser implementados, tais como equipamentos de vigilância e sistemas de comunicação. Taxistas e frentistas de postos de gasolina, por operarem com dinheiro vivo, são alvos frequentes de criminosos.

Não passa dia sem que se registre assalto contra esses profissionais. Merecem, portanto, não apenas uma atenção maior do poder público, mas também uma estrutura de trabalho que não os deixe tão vulneráveis à criminalidade.



01 de abril de 2013 | N° 17389
KLEDIR RAMIL

Kleitons e Kledires

Estava no meu quarto de hotel, em Salvador, Bahia, e tocou a campainha. Abri a porta e um rapaz se apresentou: “Sou funcionário aqui do hotel. Você poderia me dar um autógrafo?”. “É claro”, eu disse, pegando o CD do rapaz: “Qual o teu nome?”. “Kleiton”, ele respondeu. Surpreso, comentei: “Que coincidência...”. O rapaz abriu um sorriso: “E eu tenho um irmão chamado Kledir. Nosso pai era fã da dupla”.

Temos encontrado alguns Kleitons e Kledires pelo Brasil afora. Provavelmente são frutos de namoros embalados pelos sucessos de K&K na década de 1980. Kleitons então, tem um monte. Não sei se é o caso, mas houve uma época em que o Internacional tinha três titulares com variações sobre o mesmo tema: Claiton, Cleitão e Cleiton Xavier. Pensei em telefonar para o presidente do clube sugerindo contratar uns Cledires para equilibrar melhor o time, mas acabei desistindo.

O Cordel do Fogo Encantado, ótima banda de Recife, tem um guitarrista chamado Kleiton. E o apelido desse Kleiton pernambucano, acredite se quiser, é Kledir.

Há pouco tempo, meu amigo Roberto Lima ligou pra contar que havia nascido mais um Kleiton em Minas Gerais. O bebê teve parto normal e na hora do “aí vem a placenta” foi que ficaram sabendo que havia outro. Eram gêmeos. O pai não teve dúvida, batizou de Kledir aquilo que haviam imaginado fosse apenas uma placenta. Tudo bem, estamos sobrevivendo, ele e eu.

Antigamente, era costume batizar os filhos com o nome de grandes vultos da história. Hoje em dia, pra você ver como está o mundo, até Kledires existem por aí.

Dentro dessa tradição de homenagear ídolos, aparecem algumas aberrações, como as que tentam reproduzir em português o nome de celebridades americanas: Maicol Jéquisson, Uóxinton, Xarlixáplim.

Muitas vezes, um nome esquisito é resultado da soma dos nomes dos pais. Conheço um Glaucimar, filho da Glaucia e do Ademar. Glaucimar tem uma irmã chamada Adéa, que é o que sobrou da montagem anterior. Essa mania de juntar dois nomes diferentes, ou batizar a criança com nome de artista, faz muita gente passar vergonha o resto da vida.

É o caso da filha de Raimundo de Souza, de Vitória da Conquista. Fã ardoroso de cinema, ele resolveu prestar uma homenagem às famosas atrizes Ava Gardner e Gina Lolobrigida, e batizou a menina de Avagina Cinema Souza. Parece brincadeira, mas é verdade.


01 de abril de 2013 | N° 17389
PAULO SANT’ANA

Assassinatos industriais

Desde que me conheço por gente acontecem assassinatos de motoristas de táxi no Estado e na Capital.

Mas nunca como neste fim de semana passado em que o mesmo assassino matou três taxistas com intervalo de minutos. E com a mesma arma, segundo a polícia.

Uma hipótese que não pode deixar de ser afastada é que o motivo dos três assassinatos de Porto Alegre seja a vingança. Porque é conhecido que os taxistas se organizam para surrar determinados assaltantes que são apanhados em flagrante. E um desses assaltantes surrados pode ter deliberado loucamente e industrialmente assassinar tantos profissionais do volante.

O fato leva à reflexão de que é muito fácil entre nós matar taxistas no trabalho. Mais de 90% dos assassinatos e latrocínios ficam impunes, é singela a ação dos matadores, que matam e fogem simplesmente.

Apesar do falecimento da mãe do treinador Vanderlei Luxemburgo, pelo que esta coluna lhe envia os sentidos pêsames, não é possível deixar de destacar a responsabilidade principal dele na derrota vergonhosa contra o Cruzeiro, em plena Arena, somada ao empate de ontem em Passo Fundo.

Luxemburgo tem em suas mãos um plantel milionário que lhe foi posto à disposição pela equipe de dirigentes liderada por Fábio Koff, e não fez até agora um time à altura desse dinheirão e desse prestígio.

Isso leva a torcida gremista a cultivar grande apreensão sobre o jogo contra o Fluminense no próximo dia 10, a vitória gremista é a única salvação para a nau tricolor, que vem mostrando muitos furos em seu casco.

Voltando ao jogo contra o Cruzeiro na semana passada, quando houve um frango colossal de Marcelo Grohe, somado a outro gol ontem contra o Passo Fundo, que o Marcelo Grohe poderia ter defendido facilmente.

Eu não disse? Eu disse que disse e disse-o porque disse.

Eu não sei mais do que os outros para classificar jogadores de futebol porque sou mais inteligente. Eu sei mais que os palpiteiros por eu ser mais velho.

O que eu recebi de desaforos por escrever que Marcelo Grohe não é o goleiro para o Grêmio não está no gibi.

Mas é que desse tipo de coisa eu entendo demais.

Vira e mexe e meus conceitos são comprovados pelos fatos.

Mas eu não me zango pelas restrições que aqui e ali alguns poucos torcedores fazem à minha análise sobre goleiros. Porque a maioria esmagadora dos torcedores me dá razão.

Eu me zango é com gente que ganha salários para opinar e opina desastradamente, tantos jornalistas se quebraram lamentavelmente sobre Marcelo Grohe. Agora devem estar com vergonha do que disseram.

A frase que se ouve tanto agora é de minha autoria, há 25 anos: “Só há um tipo de jogador inegociável: é o ruim”.

Mas eu agora estou tentado a fazer outra frase: “O jogador mais ruinoso para um time é o reserva que não joga nada. Porque, quando ele é chamado no banco, entra para salvar e acaba enterrando seu time”.

Se jogador ruim é desastroso quando titular, mais desastroso se torna quando é reserva.

Eu não disse? Eu disse que disse e disse-o porque sempre disse.


01 de abril de 2013 | N° 17389
ARTIGOS - Paulo Brossard*

Desastre monumental

No mês de março, recém findo, foram lembrados os 10 anos decorridos da invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Como o leitor está lembrado, circulava a versão segundo a qual Saddam Hussein armazenava armas de destruição em massa e essa seria a causa a justificar a invasão projetada e afinal consumada.

Ocorre que, lembro-me bem, a alegada existência desse armamento estava sendo investigada por comissão da ONU e pouco lhe faltava para a conclusão do seu trabalho, quando a comissão pleiteou a prorrogação do tempo necessário, para encerrá-lo, coisa de cinco, 10 ou 15 dias.

Contudo, o governo americano se opôs ao pedido, e assim o laudo deixou de ser encerrado com a declaração acerca da existência ou inexistência das faladas armas de destruição em massa; se não estou em erro, era o que queria o governo Bush, para começar a guerra que realmente foi iniciada no fim de março de 2003 para findar obrigatoriamente no dia 1º de maio do mesmo ano: a vitória era anunciada previamente, coisa que não se vira até então!

Ora, não sou especialista nem em assuntos da Panela do Candal e muito menos em questões bélicas que venham a ter a Ásia como teatro, mas, na ocasião em que a mais poderosa nação do mundo previa que a guerra estaria finda a 1º de maio, e disse para mim mesmo que naquele dia, ainda que com armas diferentes, a guerra teria início: dito e feito.

Basta dizer que o atual presidente dos Estados Unidos, que, quando candidato, se comprometeu a retirar os soldados americanos do país invadido, só agora, em dezembro passado, pôde cumprir sua promessa. É fácil iniciar uma guerra, mas não é fácil sair dela, em dia certo e carregando as glórias do triunfo.

O fato capital do episódio é que, nunca foram descobertas as supostas armas químicas e biológicas de destruição em massa, denunciadas pelo presidente Bush perante a Assembleia das Nações Unidas; nunca foram encontradas ou sequer vistas. O fato é de tal relevo que dispensa adjetivação. Ele fala por si.

Poderia ficar aqui e teria dito o essencial. Mas, apenas a título ilustrativo, direi que as perdas humanas que seriam mínimas, dada a rapidez da guerra em razão da superioridade bélica dos Estados Unidos, em verdade, importaram na morte de 190 mil pessoas e as despesas previstas em US$ 40 e US$ 60 bilhões ultrapassaram a casa dos US$ 2 trilhões! O país, por sua vez, depois de 10 anos da invasão, continuou a viver dias de extrema violência.

É difícil compreender como uma nação, que tenha atingido o desenvolvimento como a americana, aspectos que eram intuitivos e de previsão fossem ignorados; dir-se-á que o brutal atentado às torres gêmeas de Nova York era fato recente e provocara lesão imensa na alma da nação, o que é real. Mas a brincadeira da guerra era demais. Isto me faz lembrar a sentença do velho Adenauer, que do alto seus 80 anos reflexionava: uma coisa ainda compreendi, por que Deus, que limitou a inteligência do homem, deixou a burrice sem limite.

Dê-se ao fato o nome que se quiser, o desastre foi monumental e de muitos efeitos, entre outros, o de acordar ou excitar um mundo vincado por centenários se não milenários sentimentos, inclusive de ordem religiosa, bem diferentes dos do mundo ocidental. O fenômeno não se circunscreve ao Iraque, mas parece ter se expandido ao enorme e complexo mundo árabe, embora com raízes comuns.

*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF


01 de abril de 2013 | N° 17389
L. F. VERISSIMO

O nome feio

No meu tempo... Parênteses: sempre que um cronista começa a crônica com “no meu tempo” significa que está sentimentalizando sua velhice para não precisar lamentá-la, o que não interessaria a ninguém. No meu tempo, como eu dizia quando me interrompi tão rudemente, ler ou ouvir um “nome feio” fora de contexto era sempre uma felicidade. Me lembro da minha surpresa ao descobrir que havia nomes feios nos dicionários.

Agradávamos aos nossos pais, dando a impressão de que fazíamos uma pesquisa etimológica séria no dicionário, quando na verdade estávamos procurando “bunda”. No meu tempo, entre parênteses, “bunda” era nome feio.

Em Porto Alegre, há muitos anos, existia uma loja chamada Casa Carvalho. O nome da loja aparecia em letras aplicadas à sua fachada e, dependendo da sua faixa etária e da sua disposição para pensar em bobagem, você ou pertencia ao grupo que vivia em alegre expectativa do dia em que o “v” de “Carvalho” caísse, ou ao grupo mais velho que vivia em sobressalto com a possibilidade disto ocorrer.

Que eu me lembre, o desejado ou temido nunca aconteceu, e a loja chegou ao fim dos seus dias com o “Carvalho” intacto. Mas durante toda a sua existência, apenas aquele pequeno detalhe separou o estabelecimento do vexame e a cidade de um abalo moral.

No Rio, entre Copacabana e Ipanema, existe uma rua que eu já ouvi ser chamada de “Quase, quase” . Trata-se da Bulhões de Carvalho, que depende apenas de uma letra para deixar de ser um nome de família e se transformar numa raridade anatômica.

No meu tempo, isto seria motivo para muita risada, mas como hoje não existe mais “nome feio” e até em conversa de criança palavrão é usado como pontuação, perdeu a graça. Posso imaginar um avô atual chamando a atenção do neto para a consequência de um único erro ortográfico na grafia do nome da rua e o neto fazendo uma cara de “Me poupe”.

Eu e o hipotético avô acima pertencemos à ultima geração que espantou o Condor, o que explica nossa ingenuidade. Na apresentação dos filmes da distribuidora Condor aparecia um pássaro condor na beira de um precipício pensando em alçar voo, e era comum, era quase obrigatório, a plateia espantar o condor, que sem este incentivo jamais voaria. Nunca mais se espantou o condor, se é que o condor ainda existe. Olha aí, acabei me lamentando.

domingo, 31 de março de 2013





Feliz Páscoa!

““Páscoa é dizer sim ao amor e a vida;é investir
na fraternidade, é lutar por um mundo melhor, é vivenciar
a solidariedade.”
By Keyla