domingo, 20 de setembro de 2026

19 de Setembro de 2026
EM FOCO - Leticia Mendes -  Andressa Xavier - Rosane de Oliveira

EM FOCO

Operação do MP investiga fraude de R$ 2 milhões em projetos financiados por emendas parlamentares na área da saúde. Além do parlamentar da Câmara de Porto Alegre Giovane Byl, do Podemos, outras três pessoas foram presas

Vereador é preso sob suspeita de desvio de verba

Além dele, foram detidos o assessor da bancada do Podemos Evaristo Mutti e dois ex-dirigentes de uma entidade investigada, Lissauer Ferreira Dias e Alan Silva da Costa, que é advogado. Foram cumpridos também nove mandados de busca e apreensão na Capital e em Imbé, no Litoral Norte.

O grupo formado pelos investigados teria esquema para desviar recursos que deveriam ser destinados para executar projetos financiados por nove emendas impositivas na área da saúde. Conforme a apuração, o valor soma R$ 2 milhões.

No esquema, segundo o MP, a entidade identificada como Instituto de Estudos e Incentivo a Novas Tecnologias da Saúde, Políticas Sociais e Soluções Ambientais e Digitais (Inovatech RS) receberia os valores. As quantias eram inicialmente depositadas pelo Fundo Municipal de Saúde nas contas bancárias específicas de cada parceria.

Em seguida, os recursos seriam retirados dessas contas e transferidos para outra, de livre movimentação, do Inovatech RS. Conforme o MP, por não estar vinculada a um termo de fomento específico, essa conta bancária não era submetida ao mesmo controle. A investigação apontou que, a partir dessa conta central do Inovatech RS, os recursos seriam distribuídos a pessoas físicas e jurídicas relacionadas aos investigados.

O MP destaca que o Inovatech RS mudou de direção em maio, está atuando de forma regular e colabora com a investigação. Segundo o MP, quando foram solicitados extratos bancários das contas, o grupo teria feito empréstimos em nome da entidade para que parte dos recursos retornasse às contas fiscalizadas. O objetivo seria aparentar a aplicação regular das verbas públicas.

A operação é coordenada pela promotora de Justiça Roberta Brenner de Moraes, da 8ª Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Porto Alegre, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e da Brigada Militar. Por envolver um advogado, a Ordem dos Advogados do Brasil acompanhou a operação.

O Podemos afirmou que "respeita a atuação das autoridades responsáveis pela investigação", mas disse entender "ser fundamental preservar o devido processo legal, o direito à ampla defesa e a presunção de inocência, não cabendo conclusões sobre responsabilidades enquanto a investigação estiver em andamento". A assessoria de Byl informou que ele "é inocente das acusações atribuídas". _

Atuação discreta no parlamento e influência na prefeitura

Fábio Schaffner

O vereador Giovane Byl (Podemos) é uma das principais apostas do partido para deputado estadual. Atualmente no segundo mandato, Giovane Luiz de Lima Junior foi o sexto mais votado para a Câmara de Vereadores em 2024, com 12.115 votos.

Com forte atuação em comunidades da periferia, ele praticamente quadruplicou a votação, já que em 2020 havia conquistado 3.440 votos pelo então PTB. Sua estreia na política ocorreu em 2016, quando concorreu a vereador pelo Solidariedade. Na ocasião, ficou de segundo suplente e chegou a assumir o mandato em curtos períodos.

Aos 37 anos, casado e com dois filhos, Byl nasceu no bairro Bom Jesus, na zona leste da Capital, e cresceu no bairro Mario Quintana, na Zona Norte, suas maiores bases eleitorais.

A infância em bairros violentos marcou sua trajetória. Skatista, Byl investiu no esporte como plataforma de inclusão social, à frente da ONG Seja Livre Skate. Cantor e compositor, também é ligado ao movimento hip hop. Giovane não possui formação de Ensino Superior, apenas concluiu o Ensino Médio. Influente na prefeitura, Byl controla a subprefeitura do bairro Bom Jesus, onde coordenou pessoalmente ações durante a pandemia e na enchente de 2024.

Na Câmara, é considerado um parlamentar discreto. Não participa dos debates mais intensos e raramente usa a tribuna. Entre os 54 projetos de lei propostos nos dois mandatos, a maioria dá nome a ruas e logradouros.

Alinhado à cúpula do Podemos, Byl é considerado herdeiro político do secretário de Governança de Porto Alegre, Cássio Trogildo. O gabinete de Byl, onde o Ministério Público cumpriu mandado de busca e apreensão nesta sexta-feira, pertencia anteriormente a Trogildo, de quem ele também herdou os cabos eleitorais e a estrutura partidária. Na atual campanha, recebeu até agora R$ 226 mil do Podemos para o financiamento da candidatura. 

19 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

A ofensiva de Donald Trump para renomear territórios

Fumaça de churrasco é vista de longe

Em novembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, completará dois anos à frente da Casa Branca. Neste ínterim, o republicano já rebatizou, com o próprio nome, diversos órgãos, departamentos, prédios e programas governamentais. Outro alvo do americano tem sido renomear espaços geográficos - o movimento mais recente envolve a proposta de trocar o nome do Estado do Novo México para "Nova América".

A medida, contudo, não é nova. Em janeiro de 2025, Trump assinou uma ordem executiva para que o governo dos EUA passasse a chamar o Golfo do México de "Golfo da América". Na justificativa, alegou razões de justiça, afirmando que o novo nome seria mais "bonito".

A mudança teve efeito prático apenas em território americano, sem adesão obrigatória de outros países. Aplicativos de navegação e GPS, como Google Maps e Apple Maps, passaram a exibir a nova denominação para usuários nos EUA.

Mais recentemente, em agosto de 2026, em meio a uma crise diplomática e tarifária com o Canadá, Trump assinou outro decreto estabelecendo que o Lago Ontário passe a se chamar "Lago América" nos EUA. A medida seguiu a mesma lógica restrita ao público interno: nos mapas e aplicativos americanos, o nome mudou; no Brasil, por exemplo, o local continuou aparecendo com a grafia dupla ou original.

Em setembro, Trump sugeriu renomear o Estreito de Ormuz para "Estreito de Trump". A declaração ocorreu no contexto do conflito entre Washington e Teerã, no qual os dois países disputam a navegação e a segurança da passagem estratégica pelo Oriente Médio.

Além do estreito, o presidente voltou a defender a alteração do Estado do Novo México para "Nova América" durante discurso no feriado do Dia do Trabalho (Labor Day), associando a ideia às tensões nas negociações comerciais com o México. Na ocasião, ele ainda sinalizou que pode mirar oceanos:

- Se você parar para pensar, já temos um golfo e temos um lago. Agora, tudo de que precisamos é de um oceano. Talvez tenhamos de mudar o nome do Atlântico e do Pacífico. Talvez nós os mudemos - declarou a jornalistas. _

Uma das tradições do gaúcho é o churrasco, e em setembro não seria diferente. Agora, pense nos 236 piquetes instalados no Acampamento Farroupilha em Porto Alegre: é natural que toda essa quantidade de carne sendo assada e consumida gerasse uma "nuvem" de fumaça que poderia ser vista ao longe.

Na imagem acima, vista de um edifício da Cidade Baixa, é possível observar a névoa formada em cima do evento. O odor de carne assada também pode ser sentido nas zonas centrais da cidade.

Mas você já parou para pensar em quanto churrasco é assado durante o mês no Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre?

De acordo com a GAM3 Parks, responsável pela administração da concessão do Parque Harmonia, no Mercado Farroupilha - estabelecimento dentro do acampamento -, durante a semana (segunda a quinta-feira), são vendidos cerca de 700 quilos de costela por dia.

Aos fins de semana (sexta-feira, sábado e domingo), o número aumenta para 1,1 tonelada. O índice não considera outros cortes de carne bovina nem o que é levado de fora para o parque.

Somando outros itens de churrasco, como salsichão, linguiça, pão de alho e outros cortes de carne, o número durante a semana aumenta para 1,2 tonelada e, aos fins de semana, para 1,6 tonelada. Cacetinhos? O número varia de 2,5 mil a 3 mil por dia. _

Republicano já rebatizou, com o próprio nome, diversos órgãos, departamentos, prédios e programas

Centro integrado no Mario Quintana

PUCRS recebe líderes de 19 países

O espaço vai integrar três frentes hoje inexistentes ou insuficientes na região: saúde; um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, com oficinas continuadas para crianças e adolescentes de seis a 17 anos; e um estudo científico que acompanhará por até 15 anos os indicadores de qualidade de vida e desenvolvimento socioeconômico da comunidade.

Serão 300 vagas distribuídas em 12 oficinas e workshops, entre elas contação de histórias, robótica e programação, judô, teatro, dança clássica, hip-hop, orientação vocacional e preparação para o mundo do trabalho, cidadania e direitos humanos.

A programação inclui ainda rodas de conversa sobre saúde mental, nutrição, sexualidade e cuidados parentais, com participação das famílias nas atividades de fortalecimento de vínculos. _

A PUCRS recebeu, nos últimos 10 dias, 64 lideranças maristas de 19 países. O evento, que se encerrou na sexta-feira, foi a etapa presencial da terceira edição do Programa de Formação de Liderança Servidora e Profética.

Realizada pelo Instituto Marista em parceria com a universidade, a formação reúne gestores de diferentes frentes de missão em duas semanas de atividades presenciais, após uma etapa online com 11 disciplinas.

Durante a imersão, que se iniciou no dia 8 de setembro, os participantes aprofundam os conhecimentos e conhecem diferentes realidades de atuação da Rede Marista nas áreas de educação, saúde e assistência social, além de participarem de atividades sobre gestão, espiritualidade e missão. 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

17 de Setembro de 2026
ROGER LERINA

A batalha da memória

Um dos mais belos títulos do cinema contemporâneo, Nostalgia da Luz (2010) olha para o céu e a terra, perscruta o futuro e mira o passado a fim de especular sobre os caminhos possíveis de um país e seu povo. Patricio Guzmán, realizador desse poético filme-ensaio que entrelaça a memória e o legado da história recente do Chile com questionamentos mais amplos sobre a passagem da humanidade pela Terra, morreu na terça-feira em Paris, aos 85 anos. 

Ganhador de mais de 40 prêmios em festivais internacionais como Cannes e Berlim, o cineasta chileno registrou a ascensão do governo socialista de Salvador Allende no longa O Primeiro Ano (1972) e o golpe de estado militar liderado pelo general Augusto Pinochet na monumental trilogia A Batalha do Chile (1975 - 1979), considerado um dos melhores e mais completos documentários da história. (As três partes podem ser assistidas na plataforma de streaming Mubi.)

Ao lado de O Botão de Pérola (2015) e A Cordilheira dos Sonhos (2019), Nostalgia da Luz forma um tríptico de filmes que revisitam recorrentes temáticas sociais e políticas características da obra do diretor com uma inventiva abordagem formal - um tipo híbrido de cinema que mistura investigação, autobiografia, poesia, documentário, divagação e até drama. 

Nostalgia da Luz começa como se fosse um documentário científico, mostrando telescópios, observatórios astronômicos e estrelas. Já de partida, no entanto, a narração de Guzmán propõe caminhos paralelos ao acrescentar lembranças pessoais e comentários sobre o golpe que mergulhou o Chile nas trevas. 

As conexões vão se esclarecendo: graças à baixíssima umidade do ar, o deserto do Atacama é um dos melhores lugares do planeta para o acompanhamento dos astros no céu; já o isolamento da região também serviu para os militares criarem um campo de prisioneiros durante a ditadura, aproveitando as instalações de uma mina de salitre abandonada.

O filme mostra que, ao lado de sofisticadas instalações que buscam desvendar mistérios sobre a origem do universo, mulheres esquadrinham pacientemente a imensidão desértica atrás de pistas e fragmentos de ossos capazes de indicar o paradeiro de maridos e parentes desaparecidos políticos, que podem estar enterrados em valas comuns. 

"O que mais me interessa é a memória. Me interessa lutar contra a amnésia do Chile, o desejo de aparentar ser um grande país, o que também é, mas onde as diferenças sociais são enormes", dizia Guzmán. Uma lição que serve também ao Brasil, que insiste em esquecer a própria história. 

roger.lerina@gmail.com

ROGER LERINA

17 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Omissão do STF joga foco no Senado

O papelão de terça-feira no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) demonstra que parte dos ministros se acha membro de uma classe especial de brasileiros que não deve satisfações de nada a ninguém. Integrar essa categoria de seres superiores, pelo jeito, faz com que devam ser imunes a qualquer investigação, ainda que sobrem razões para terem os atos analisados pelas suspeitas de crimes. 

Esse foi o recado da sessão que deveria decidir pela abertura ou não de um inquérito para apurar a natureza da relação entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Diante da estratégia da ala pró-Moraes de protelar a discussão e criar alvoroço, o mérito não foi apreciado. O ministro Flávio Dino pediu vista e o caso pode levar até 90 dias para voltar a ser debatido.

A partir da resistência do Supremo em examinar com o devido rigor o comportamento de seus membros, como qualquer instituição republicana deveria proceder, abre-se o caminho para a análise do início de um possível processo de impeachment no Senado. Seria uma solução drástica, mas admissível caso permaneça o atual impasse. Em janeiro, o presidente do STF, Edson Fachin, alertou: ou o tribunal se autolimitava ou enfrentaria uma limitação vinda de outro poder.

O resultado da sessão vexaminosa faz com que os candidatos ao Senado passem a analisar mais a fundo essa possibilidade. É provável que essa pauta ganhe tração a partir do resultado da eleição e da posse da nova legislatura. São poucas as chances de um processo ser aberto neste ano diante das objeções do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, amigo de Moraes e também com explicações a dar no escândalo do Banco Master. A decisão cabe apenas ao presidente da Casa.

A hipótese de impeachment de um ministro do STF tende a acirrar a tensão institucional, mas essa é uma prerrogativa constitucional do Senado. Faz parte do sistema de freios e contrapesos da democracia, em que os poderes controlam e limitam uns aos outros como forma de conter abusos. O STF já teve chances suficientes para dar solução interna adequada.

Moraes tende a ser o alvo número 1. Mas outros ministros têm apresentado condutas incompatíveis com o cargo e aparecem enrolados com o Master. Também podem ter seus atos analisados. Se Moraes, em particular, vier a passar por um processo de afastamento, deveria ser pelas razões certas, ou seja, as relações obscuras com Vorcaro, e não por sua atuação para conter a tentativa de golpe de Estado e no julgamento que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro à prisão. Esse, no entanto, é o motivo por trás de boa parte da avidez por apear Moraes do Supremo.

A crise no STF, agravada pela sessão autodestrutiva da terça-feira, é lamentável por diversos aspectos. Por outro lado, pelo ponto crítico alcançado, impõe a discussão de reformas no Supremo que alterem desde o sistema de indicações até os poderes dos ministros. Ao lado das suspeitas de malfeitos, a politização do tribunal, com acusações até mesmo de que ministros norteariam sua atuação para afetar o resultado das urnas, piora o descrédito de uma instituição que deveria ter a confiança de todos os cidadãos, a despeito de suas preferências ideológicas. 

17 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Dino alertou para corrupção no sistema de Justiça

A autópsia das falas dos ministros na sessão de terça-feira no Supremo Tribunal Federal revelou bem mais do que uma disputa interna que partiu ao meio a Suprema Corte. Veio do ministro Flávio Dino uma das declarações mais graves, que exige aprofundamento por parte dos órgãos de investigação e ao menos alguma indignação da sociedade.

O que disse o ministro:

- Eu nunca vi tanta corrupção no sistema de Justiça do Brasil. Quero dizer que é o momento mais corrupto da história do Judiciário do Brasil. E digo com a autoridade de quem exerce a judicatura desde 1994. Infelizmente, o que prova que há erros. Porque se fala tanto de corrupção no Brasil, e a corrupção só aumenta. Na política também.

No plenário, ninguém rebateu, ninguém comentou, ninguém demonstrou indignação. Foi como se o ministro tivesse falado da beleza dos Lençóis Maranhenses ou do temporal que se armava do lado de fora do prédio do Supremo.

"Não existe venda de sentença sem advogado comprador"

O assunto em questão era um termo do juridiquês, a "avocatória", que vem a ser o ato de um ministro avocar para si a relatoria de determinado processo. Dino tinha entendido que Fachin avocara a relatoria dos casos Master e INSS, mas ele apenas os retirou temporariamente das mãos de André Mendonça, enquanto o plenário decide se o ministro cometeu ou não algum ilícito. Até lá, tudo fica congelado.

Em seguida, o ministro continuou:

- Nessa era de corrupção, temos que ser firmes nos termos da lei, no combate à corrupção. E o que ocorre? Se nós admitirmos a avocatória, vossa excelência e esse tribunal vão abrir uma avenida de corrupção, de comércio nos tribunais. Assim como há juízes ímprobos, há advogados ímprobos. Não existe venda de sentença sem um advogado comprando, não existe corrupção passiva sem corrupção ativa.

Esse trecho provocou uma nota de repúdio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que não gostou da menção aos profissionais que ela representa. _

O presidente da Ajuris, Daniel Neves Pereira, repudiou a fala de Dino. Disse que, "se há suspeitas a serem apuradas, elas dizem respeito a fatos e pessoas determinados e não autorizam extensão indiscriminada a toda a carreira".

Flávio e Lula comentam a crise do Supremo e trocam farpas

A crise no Supremo também foi assunto dos dois candidatos à Presidência melhor posicionados nas pesquisas de intenção de voto.

Ontem, durante comício em Recife, Pernambuco, o senador Flávio Bolsonaro (PL) classificou como "espetáculo de hipocrisia, de prepotência e de deboches" a sessão que analisaria a abertura de investigação sobre a conduta do ministro Alexandre de Moraes no caso envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

- Hoje, quem está votando em Lula, está votando em Alexandre de Moraes. Imagina o "padrão Lula" de indicação: mais quatro Alexandre de Moraes no STF ou mais quatro Flávio Dino no STF - disparou.

O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), rebateu as críticas de Flávio. Lembrou que não foi responsável pela indicação de Moraes.

- Eu não era presidente quando o Alexandre de Moraes foi indicado para ministro da Suprema Corte - enfatizou o petista durante participação no podcast Desce a Letra.

O petista ressaltou que não foi responsável pelas indicações de Nunes Marques e André Mendonça, escolhidos pelo seu antecessor, o ex-presidente Jair Bolsonaro. _

E desde quando a máfia é exemplo de ética, ministro?

Passadas 24 horas de uma das sessões mais bizarras da história do Supremo Tribunal Federal, ainda se ouvem os ecos das frases pronunciadas pelo decano Gilmar Mendes para criticar a "investigação seletiva" do ministro André Mendonça, focada apenas em Alexandre de Moraes e sem aval do Ministério Público.

Gilmar acusou Mendonça de conduzir os processos do Banco Master com "inequívoco viés político", para favorecer um grupo (o bolsonarismo) e de maneira digna de máfia, covarde e vil.

- Já disse isso em outro momento: até a máfia tem ética. É preciso ter decência, não se comportar desta forma. Um tribunal que isso admite já não delibera com liberdade - vociferou.

O código de ética da máfia não pode ser exemplo para ninguém, menos ainda para um ministro do Supremo. Porque a "ética" da máfia não se resume à "omertà", o código de silêncio citado por Gilmar. Basta ver um ou dois filmes para saber como são tratados os inimigos. _

Zucco apresenta o Saúde Tá On

Preocupado com a demora nos atendimentos de saúde, que resulta em longas filas de espera por consultas, exames e cirurgias, o candidato a governador Luciano Zucco (PL) planeja usar a tecnologia em favor dos pacientes.

A partir do programa batizado de Saúde Tá On, Zucco promete reorganizar o atendimento, reduzir burocracias e aproximar o cidadão dos serviços de saúde.

O foco do programa é o uso da telemedicina para acelerar o atendimento e evitar deslocamentos de pacientes, a chamada ambulancioterapia. _

mirante

Vai dar ciumeira. Candidata a deputada estadual, a vereadora Nicole Weber Covatti, esposa do presidente do PP no RS, Covatti Filho, recebeu R$ 1.265.000,00 da direção nacional do partido. Guilherme Pasin, o deputado que mais ganhou recursos do PP, contabiliza R$ 1.196.002,64.

Sandro do Covatti, irmão da deputada Silvana Covatti, recebeu R$ 900 mil.

A direção nacional do PL investiu R$ 500 mil na campanha de Adri Cherini, esposa do presidente estadual do partido, Giovani Cherini.

POLÍTICA E PODER

17 de Setembro de 2026
REPORTAGEM

REPORTAGEM

4| Aeroportos regionais tiveram pico em 2021

Outro modal de transporte fundamental para a integração logística estadual é o aeroportuário. Na última década, além do aeroporto internacional de Porto Alegre, o Rio Grande do Sul passou de cinco para seis terminais regionais em operação, mas chegou a ter um pico de 15 com voos regulares em 2021.

Até 2015, recebiam voos comerciais regulares os de Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Passo Fundo e Uruguaiana - o aeroporto de Santo Ângelo voltou a operar em 2017. Por outro lado, conforme a Secretaria Estadual de Logística e Transportes (Selt), deixaram de ter operações comerciais frequentes desde 2021 os de Bagé, Santa Rosa, São Borja, Torres, Canela, Vacaria, Santa Cruz do Sul, Alegrete e Erechim.

Também segundo a secretaria, a diminuição da utilização das estruturas regionais se deu por uma questão mercadológica do setor da aviação civil, que passou a operar com aeronaves maiores nos últimos anos. Assim, as companhias foram deixando de realizar voos com aeronaves menores, e então os aeroportos menores também foram deixando de ter uso.

Ainda de acordo com a Selt, o movimento de passageiros passou de 435.971 em 2016 para 713.215 em 2025, crescimento de 63,6%. Já o número total de decolagens cresceu de 5.784 voos para 6.566 (13,5%).

Mais terminais

O transporte de cargas, que nos aeroportos regionais ocorre predominantemente nos porões das aeronaves de passageiros que realizam os voos regulares, também cresceu no período: passou de aproximadamente 0,7 mil toneladas em 2016 para 1,45 mil toneladas em 2025.

- O Estado precisa de mais opções de terminais, para voos de longa distância e de curta distância. É uma questão estratégica, já vimos como é arriscado ficar dependente só de um aeroporto de maior porte. Tem agora o projeto do novo aeroporto da Serra, em Caxias, que deve começar as obras em breve. Precisamos desse e, se possível, outros. Esse reforço da malha é fundamental para melhorar a logística com o transporte de passageiros e cargas - observa Ricardo Portella, coordenador do Conselho de Infraestrutura e vice-presidente do Sistema Fiergs. _

Soluções incluem recuperação de vias, hubs logísticos e integração entre modais

Especialistas destacam como essencial para a evolução da infraestrutura logística do RS que os investimentos no setor sejam contínuos e superem gestões administrativas específicas, propiciando maior diversificação da matriz de transportes. Além disso, apontam a importância da tomada de decisão integrada entre governo estadual e federal, e também com as administrações municipais.

- A nova concessão da malha ferroviária é um exemplo de como é importante que os governos estaduais e o governo federal consigam chegar a um acordo pensando principalmente no desenvolvimento das regiões impactadas - argumenta Paulo Menzel.

O término das obras de recuperação após a enchente de 2024 também é apontado como prioridade. Além das estruturas de contenção contra cheias, os projetos aprovados no Plano Rio Grande e com recursos do Funrigs preveem a restauração de rodovias e também de equipamentos portuários, serviços de dragagem e outras atividades estruturantes.

- É preciso entender que investimento em infraestrutura é um vetor de desenvolvimento: reduz custos de transporte, deixa os negócios mais competitivos, geram-se mais empregos, aumenta-se a efetividade e a produtividade das empresas e atrai investimentos - afirma o economista Lucas Schifino, gerente de Relações Governamentais da Fecomércio-RS.

Para Ricardo Portella, coordenador do Conselho de Infraestrutura da Fiergs, a possibilidade de utilizar diferentes modais é fundamental para ter um transporte de cargas mais eficiente.

- Onde há competição e complementariedade de modais, o empresário consegue reduzir seu custo logístico. O Rio Grande do Sul já é o Estado com o maior custo logístico proporcional do Brasil - acrescenta.

Em complemento, o reforço geral e a integração estratégica dos diferentes modais de transporte também são aspectos apontados como demandas do setor produtivo para o avanço das condições logísticas.

- No agro, temos muito a questão da sazonalidade, então concentramos muito transporte em determinadas épocas do ano, e você precisa dar as melhores condições para o escoamento dessa carga - aponta o presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes.

Multimodalidade

O desenvolvimento e o fortalecimento dos diferentes canais de transporte podem ainda propiciar o estabelecimento dos hubs logísticos, pontos estratégicos de concentração, conexão e distribuição de cargas e mercadorias entre diferentes origens e destinos. Nessa concepção, o município de Santa Maria, na Região Central, desponta com um projeto já em andamento dentro deste modelo.

O projeto do Hub Logístico da Região Central começou a ser desenvolvido há cerca de quatro anos, impulsionado pela Agência de Desenvolvimento de Santa Maria (Adesm) e por parcerias com instituições como a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Conforme as lideranças do projeto, o objetivo é transformar a logística e impulsionar o desenvolvimento socioeconômico da região, estabelecendo um sistema integrado de transporte multimodal, criando um novo polo de crescimento econômico.

- Temos uma localização privilegiada, a cerca de 300 quilômetros de todos os principais centros econômicos e do porto de Rio Grande, além de conexões rodoferroviárias e aeroportuárias. Isso nos credencia a ser um polo de distribuição de cargas para o Estado e além de nossas fronteiras - afirma Evandro Behr, presidente da Adesm. _

Série aborda os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar. Na quarta reportagem das oito previstas, especialistas ressaltam quatro pontos que merecem a atenção do eleitor em transportes e logística e apontam soluções

Como tornar a infraestrutura do RS mais eficiente e resiliente

Mathias Boni

mathias.boni@zerohora.com.br

Há décadas o Rio Grande do Sul sofre com gargalos de infraestrutura e logística que elevam os custos de transporte, dificultam o escoamento de cargas e reduzem a competitividade do setor produtivo. As limitações no uso de hidrovias, ferrovias e aeroportos regionais intensificam a dependência das rodovias - alternativa que encarece ainda mais as operações devido às condições inadequadas de parte da malha viária, reduzindo a competitividade do Estado.

Esse cenário foi agravado pela enchente de 2024, que devastou de forma dramática a capacidade logística estadual - gerando prejuízo de R$ 4,1 bilhões estimado pelo Banco Mundial por perdas na infraestrutura de transportes.

O desastre climático provocou deslizamentos em estradas, derrubou pontes e reduziu as possibilidades operacionais de ferrovias e hidrovias. Além disso, deixou fora de operação por vários meses o Aeroporto Internacional Salgado Filho, na Capital, o principal do Estado.

A magnitude da tragédia expôs vulnerabilidades e evidenciou a urgência de reforçar e expandir a rede logística.

Segundo especialistas, as estruturas precisam se tornar mais resilientes e contemplar alternativas de integração entre os diferentes modais. O objetivo é suportar novos eventos climáticos, consolidar hubs logísticos, garantir condições adequadas de competitividade e alavancar o crescimento econômico.

Esta é a quarta de uma série de oito reportagens do Grupo RBS sobre os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar nos próximos anos. Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões centrais que merecem a atenção dos representantes do eleitor na área de infraestrutura e logística.

A reportagem apresenta um panorama atual e reúne soluções e caminhos apontados por especialistas. _

1| Melhorias no sistema rodoviário

Enquanto o modal rodoviário responde por cerca de 90% do transporte da produção gaúcha, conforme a Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (CâmaraLog), aproximadamente 73% das rodovias estaduais e federais foram consideradas "regulares, ruins ou péssimas" na pesquisa anual da Confederação Nacional do Transporte (CNT) de 2025.

Como destaca Paulo Menzel, presidente da CâmaraLog e CEO do Grupo Intelog, o avanço logístico necessário depende tanto da melhoria rodoviária quanto da maior utilização dos modais ferroviário, hidroviário e aeroportuário:

- O custo logístico do RS, hoje, é um dos maiores do país, e isso se deve, principalmente, ao atraso que enfrentamos em termos de infraestrutura. Pela falta de desenvolvimento dos equipamentos e uso dos outros modais, o rodoviário acaba assumindo uma carga que não é do seu DNA, gera preços mais caros pela falta de opções complementares e sobrecarrega as estradas.

A tradicional pesquisa da CNT avalia todas as rodovias federais e grande parte das estaduais, analisando 8,8 mil quilômetros de estradas gaúchas ao total, levando em consideração aspectos como pavimento, sinalização e geometria da via. O levantamento de 2025 classificou 46,7% dos trechos como regulares, 20,2% como ruins e 6,1% como péssimos. Os trechos em boas condições somaram 25,2%, e os ótimos, apenas 1,8%. Os índices deixam o Estado atrás da média nacional (37,9% de trechos bons ou ótimos) e de vizinhos como Santa Catarina (36,8%) e Paraná (38,6%).

- Os impactos das enchentes mostram como o planejamento dessa malha também tem de levar a questão climática em consideração para ser resiliente. Na nossa pesquisa, englobamos os trechos avaliados como regulares junto aos ruins e péssimos porque neles as rodovias começam a apresentar buracos, sinalização ruim e entraves ao tráfego - aponta Fernanda Rezende, diretora- executiva da CNT.

Mesmo antes da enchente de 2024, 72,2% do estado geral das rodovias estava em condições regulares, ruins ou péssimas, mas a tragédia climática agravou a situação: atingiu 13,7 mil quilômetros de estradas, derrubou dezenas de pontes e causou centenas de pontos de bloqueio. Inúmeras rodovias fundamentais para o escoamento de cargas foram severamente impactadas.

15% de custo a mais

No laticínio Sans Souci, em Eldorado do Sul - um dos municípios mais afetados pelo evento climático -, as dificuldades logísticas geram prejuízos contínuos. A empresa, além de ter sido inundada durante a enchente, também fica em uma região que sofre há tempos com dificuldades logísticas.

- Para receber a matéria-prima e distribuir nossos produtos, dependemos totalmente das rodovias, mas vemos muitas com obras de duplicação inacabadas, más condições de pista, sinalização. Fazemos uma estimativa de 15% de custo extra de produção e distribuição, em relação a tempo perdido de deslocamento e manutenção de veículos - diz Sigrid Pesenatto, sócia do laticínio junto ao marido, Enio Pesenatto.

Falta de trechos duplicados

Outro gargalo histórico relacionado às rodovias é a pouca quantidade de quilômetros duplicados, o que também impacta diretamente as condições de tráfego e a eficiência do transporte. Nas rodovias federais, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) afirma que, entre 2016 e 2026, realizou a duplicação de 180 quilômetros da BR-116 entre Guaíba e Pelotas, 28 quilômetros da BR-290 entre Eldorado do Sul e Pantano Grande e 34 quilômetros da BR-386 entre Tabaí e Estrela.

Contudo, a totalidade das obras de ampliação da capacidade das rodovias, tanto da BR-116 quanto da BR-290 e da própria BR-386, ainda não foi concluída e segue em andamento. A autarquia também empenhou R$ 1,1 bilhão para intervenções emergenciais e reconstrução de vias após a enchente de 2024.

De acordo com o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística (Setcergs), Delmar Albarello, essa deficiência estrutural gera prejuízos diretos à competitividade do setor produtivo por meio do aumento no tempo de viagens, custos elevados de frete e maior desgaste da frota.

Além do impacto logístico imediato, o déficit de infraestrutura compromete o desenvolvimento econômico global do território gaúcho, uma vez que novos investimentos industriais costumam migrar para regiões com maior facilidade de escoamento e custos operacionais reduzidos.

Albarello reforça que, por estar localizado na extremidade sul do país, o Estado deveria tratar a eficiência logística como uma prioridade absoluta para mitigar as desvantagens geográficas.

Insuficiência de recursos

Já na malha do Estado, até 2015, havia 146 quilômetros duplicados. De lá para cá, conforme a Secretaria Estadual de Logística e Transportes (Selt), entre trechos concedidos e não concedidos, foram duplicados mais 38 quilômetros: 12 quilômetros na RS-287, 21 quilômetros na RS-118 e cinco quilômetros na RS-734. A secretaria aponta ainda que, com recursos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), foram investidos cerca de R$ 3,1 bilhões para recuperação viária após a enchente de 2024, com obras ainda em andamento em 32 lotes de rodovias e 14 pontes.

Segundo o doutor em transportes e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Luiz Afonso Senna, o orçamento histórico do Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer) destinava apenas R$ 150 milhões anuais ao setor, montante insuficiente diante da demanda estimada em cerca de R$ 2 bilhões por ano apenas para a manutenção das estradas estaduais:

- No caso das rodovias, temos um grande problema que é a insuficiência de recursos para que o Estado possa fazer os investimentos necessários. Há uma situação hoje absolutamente crítica. _

2| Degradação ferroviária

O processo de precarização das ferrovias gaúchas é histórico. Desde a privatização, em 1997, e o estabelecimento da Malha Sul, a extensão utilizada no RS diminuiu 75%, passando de 3,8 mil para os atuais 921 quilômetros - até a tragédia climática de 2024, eram 1,6 mil quilômetros. Hoje, os trens transportam só cargas, mas o volume despencou 50% entre 2007 e 2025, caindo de 4 milhões para cerca de 2 milhões de toneladas anuais. Atualmente, o único trajeto em operação sai de Cruz Alta para o porto de Rio Grande.

A concessão da Malha Sul, administrada pela empresa Rumo e que inclui também as ferrovias de Paraná e Santa Catarina, vence em fevereiro, mas será prorrogada em até dois anos até que uma nova empresa possa assumir. O que acabou se tornando um imbróglio: o governo federal, por meio da Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT), defende o fatiamento da nova concessão em três lotes: Corredor Paraná-Santa Catarina, com 1.502 quilômetros concentrados nesses Estados, Corredor Mercosul, com 1.865 quilômetros, ligando SP até a fronteira com a Argentina, passando por PR, SC e parte do território do RS, e o Corredor Rio Grande, com 880 quilômetros, entre o noroeste gaúcho e Rio Grande.

O governo pretende realizar o leilão já em 2027, mas representantes gaúchos e catarinenses do setor defendem novo estudo e que a malha siga com apenas um grupo na administração.

- Depois da enchente, as ferrovias ficaram para trás, num empurra-empurra entre governos e concessionária. Na nova proposta, quem vai querer assumir um trecho concentrado no Estado com boa parte da estrutura destruída? - questiona João Edacir Calegari, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do RS. _

3| Subutilização das hidrovias

Outra forma de transporte de cargas que especialistas consideram atualmente subutilizada no Rio Grande do Sul é a hidroviária. A situação do modal também se agravou após a enchente de 2024.

Segundo a Associação Hidrovias do Rio Grande do Sul (Hidrovias RS), o Estado chegou a ter 1,2 mil quilômetros navegáveis até cerca de 30 anos atrás, mas o percurso foi sendo reduzido com o passar do tempo, principalmente por falta de dragagem e manutenção. Em 2023, eram em torno de 700 quilômetros, número que voltou a cair após a cheia.

Redução de portos

De 12 portos internos espalhados por cidades durante o auge da operação das hidrovias, restaram em operação regular somente os de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre - deixaram de operar com regularidade para o transporte de cargas os de Venâncio Aires, General Câmara, Tapes, Cachoeira do Sul, Estrela, Montenegro, São Lourenço do Sul, Rio Pardo e Santa Vitória do Palmar. Além disso, dos 21 terminais privados ao longo do traçado, sobraram 14.

Nos esforços de recuperação do Estado após a cheia, foram destinados R$ 731 milhões de recursos do Funrigs para dragagem e outras obras de reforço estrutural das hidrovias. Com os recursos, o governo estadual, via Portos RS, contratou serviços de dragagem para 22 canais hidroviários, divididos em sete lotes de execução, para serem realizados principalmente no canal de acesso ao porto de Rio Grande e aos canais de acesso da Lagoa dos Patos e do Guaíba - dos sete lotes, pelo menos três já foram finalizados, três estão em andamento e o sétimo, que envolve trechos dos rios Gravataí e Sinos, ainda está em fase de contratação.

- As coisas voltaram a evoluir com os investimentos realizados após 2024, o retorno da navegação noturna já foi uma conquista. Com as dragagens e os outros investimentos de infraestrutura portuária, poderemos aumentar o percurso navegável de volta, pelo menos, a 700 quilômetros, aumentar os cerca de 6 milhões de toneladas movimentadas para uma faixa entre 9 milhões e 12 milhões, retomar o uso de outros portos internos, já que continuamos apenas com Rio Grande como porto marítimo. A hidrovia é o modal mais barato, e o RS precisa explorar esse potencial - defende Wilen Manteli, presidente da Hidrovias RS. 

17 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Olhos de fora voltados para a Semana Farroupilha

As comemorações da Semana Farroupilha são um dos eventos culturais mais importantes do ano para os gaúchos. Mas e para o restante do país? O quanto o tradicionalismo é atrativo para viagens ao Rio Grande do Sul? Pensando nisso, a União Gaúcha dos Operadores e Representantes de Turismo (Ugart) e a Associação Brasileira de Agências de Viagens do Rio Grande do Sul (Abav-RS) trouxeram, nesta semana, 10 agentes de viagens do centro do país para uma imersão cultural na Capital.

São profissionais de São Paulo e Curitiba. Segundo o presidente da Ugart, Richard Abbade, a iniciativa, que conta com apoio da Secretaria de Turismo do RS, surgiu com a ideia de projetar a Semana Farroupilha em outros Estados.

- Assim como é feito com eventos de outras regiões do Brasil, como as festas juninas no Nordeste ou a Festa do Peão de Barretos. Queremos transformar a Semana Farroupilha e o Parque Harmonia em uma festa cultural que as pessoas realmente coloquem no calendário nacional para virem vivenciar essa experiência - explicou à coluna.

Os agentes chegaram a Porto Alegre na terça-feira e participaram de um jantar no Piquete do Estado do Rio Grande do Sul, oferecido pela Abav-RS. Ontem, fizeram um city tour pela Capital, passando por pontos como o Parque da Redenção, Praça da Matriz, Catedral Metropolitana, Palácio Piratini, Theatro São Pedro, Mercado Público, Chalé da Praça XV, Praça da Alfândega, Memorial do Rio Grande do Sul, Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), Casa de Cultura Mario Quintana, Basílica Nossa Senhora das Dores, Viaduto Otávio Rocha, Pontal e Orla do Guaíba, incluindo a Usina do Gasômetro. À tarde, seguiram para o Acampamento Farroupilha, onde participaram de atividades até o jantar promovido pela Ugart.

- O nosso objetivo é fortalecer o Rio Grande do Sul como um superdestino. O Estado já é um dos mais procurados e Gramado é a cidade mais visitada, mas queremos fortalecer Porto Alegre e a cultura gaúcha. Trazer esses agentes e operadores serve exatamente para que eles consigam, posteriormente, vender o nosso destino como mais um produto de prateleira - destacou Abbade.

Outras ações

Desde o início do ano, as duas entidades também realizam uma iniciativa de reconhecimento do território gaúcho. A proposta é levar influenciadores e agentes locais a diferentes regiões do Estado para fomentar o turismo regional. Até o momento, já foram realizadas cerca de oito etapas do projeto.

- Levamos influenciadores, agentes de viagens e operadores para conhecerem esses destinos e, posteriormente, impulsionarem as vendas nessas regiões. É uma campanha contínua de fortalecimento das marcas e dos territórios gaúchos - pontuou. _

Quarto Distrito ganha nova praça

O Quarto Distrito ganhará uma nova praça. O espaço terá 2,6 mil metros quadrados e adotará conceitos de Soluções Baseadas na Natureza (SBN). A praça será apresentada oficialmente na próxima terça-feira.

A iniciativa é do Instituto Caldeira, com financiamento do RegeneraRS e apoio de empresas e instituições públicas e privadas (Krebs+, Rhama Analysis, Dmae, IPH, Ramboll, Coalizão pelo Rio Grande e Life?s Gardener).

O terreno fica ao lado do novo prédio do Caldeira, na rua Frederico Mentz. Entre as tecnologias baseadas em SBN, o projeto prevê sistemas para mensuração e acompanhamento dos níveis hídricos, promovendo a regeneração urbana, a resiliência climática e a convivência comunitária.

A estrutura inclui uma floresta de bolso - núcleo compacto de vegetação densa e multiestratificada, com árvores, arbustos e forrações -, jardins de chuva, captação e infiltração de águas pluviais, resfriamento por arborização e paisagismo com materiais reutilizados, como antigos tonéis da fábrica que ocupava o local.

O espaço contempla ainda uma ágora para eventos, gramado com áreas de estar, eixo de ativação, apoio para café e a Galeria das Oliveiras, em referência à espécie trazida pelos açorianos no século 18, quando a região começou a se formar. _

Novas cores no prédio do IPE

Quem circula pela esquina das avenidas Aureliano de Figueiredo Pinto e Borges de Medeiros durante a noite pode ter percebido uma novidade: a iluminação do prédio que abriga as sedes do Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul (IPE Prev) e do Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos do RS (IPE Saúde) está com cores diferentes.

Trata-se de um novo sistema de iluminação externa, que entrou em fase de testes no início do mês. As tonalidades amarela, azul, vermelha e verde substituem a antiga luz branca, iluminando não apenas a fachada do edifício, mas também o mural em homenagem ao ambientalista José Lutzenberger.

Segundo as autarquias, a contratação - realizada em conjunto pelo IPE Saúde e IPE Prev - valoriza o patrimônio público estadual ao destacar a identidade visual das instituições.

De acordo com os órgãos, a novidade também gera redução no consumo de energia elétrica, em comparação com a tecnologia anterior, e permite o gerenciamento de cores e efeitos temáticos para datas comemorativas. _

Duas auditoras de controle externo do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS), Aline Selau Dall?Igna e Juliana Coelho Bortoluzzi, foram selecionadas para integrar o Conselho de Auditores da Organização das Nações Unidas (ONU). Esta não é a primeira vez que o órgão gaúcho conta com representantes no colegiado, responsável por fiscalizar a aplicação de recursos destinados a fundos e programas da organização internacional.

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

16 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Supremo escreve página infeliz da sua história

Quem assistiu à sessão histórica do Supremo Tribunal Federal neste 15 de setembro saiu com a sensação de que a instituição encolheu durante as oito horas da sessão que deveria decidir se autorizaria ou não a investigação do ministro Alexandre de Moraes. Parafraseando Chico Buarque e Francis Hime, na icônica Vai passar, os ministros escreveram uma "página infeliz" da história da Suprema Corte.

A imagem do STF está sendo queimada na fogueira das vaidades acesa por homens que ignoram a voz das ruas e, do alto da sua arrogância, não percebem que estão abrindo uma cratera.

Os ministros aliados de Alexandre de Moraes foram para a sessão pintados para a guerra com André Mendonça. Gilmar Mendes e Flávio Dino deram o tom da ópera bufa, valendo-se da fragilidade e da falta de pulso do presidente do STF, ministro Edson Fachin. Desde o início, deixaram claro que a estratégia era "melar a investigação".

O dia todo foi gasto nas chamadas preliminares, uma questão de ordem sobre a conveniência de tratar o caso Moraes na sessão desta terça-feira e a suspeição de Mendonça na próxima semana.

O decano Gilmar Mendes foi grosseiro com André Mendonça, acusou o ministro de direcionar a investigação do caso Master para favorecer um grupo político - o de Flávio Bolsonaro (PL), no caso. Moraes, em vez de se defender das acusações, ateve-se a questões formais, e votou como se não fosse parte interessada. Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques se declararam impedidos, usando subterfúgios para não dizer dos verdadeiros motivos da suspeição.

No momento em que o caldo entornou, com gritaria entre os ministros, Dino pediu vista, empurrando o caso para um tempo que pode chegar a 90 dias. E fez declarações gravíssimas sobre o Judiciário e sobre os colegas. Disse que nunca se viu tanta corrupção no Judiciário e que, com o levantamento do sigilo do telefone de Vorcaro, vão surgir acusações graves contra outros ministros, citando Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, como os próximos a integrar o grupo que já tem Moraes, Toffoli e Mendonça. _

Cármen Lúcia dá lição de decência aos colegas da Corte

Mais uma vez, veio dela, a ministra Cármen Lúcia, um dos raros momentos elevados na sessão do Supremo Tribunal Federal em que predominou a baixaria. Última a votar na sessão em que se discutia a abertura da investigação do ministro Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia deu uma lição de civilidade aos colegas que em alguns momentos se comportaram como colegiais mal-educados.

A ministra teve a dignidade de pedir desculpas ao povo brasileiro por não ter conseguido evitar que o Supremo provocasse o que ela chamou de "mal-estar cívico". Com voz calma, disse que estava vivendo um momento de profunda consternação.

- Sinto-me envergonhada. A menos de 20 dias da eleição estão todos voltados para o STF. É disso que se fala nas farmácias, nas padarias, nos telejornais. Não é um quadro bonito. Se eu, como juíza desta Casa, fui omissa para ter ajudado mais, estou pedindo desculpas aos colegas e ao povo brasileiro. Houve uma espetacularização desses casos, desta sessão mesmo, que faz mal ao país. O país espera de nós uma tranquilidade que não conseguimos dar.

Compromisso com a Justiça

Em outro ponto de sua fala, Cármen Lúcia se definiu como "uma velha avulsa", que não está em um grupo ou outro. Disse que não sofreu pressões internas nem externas. E disse que ministros não podem votar com base no clamor público.

- Eu cumprirei meu dever como juíza - disse Cármen Lúcia, antecipando seu voto pela apreciação em separado das petições contra Alexandre de Moraes e André Mendonça. _

Alta nas receitas não evita previsão de déficit em 2027

Com previsão de alta nas receitas e mais de R$ 6 bilhões para investimentos e inversões financeiras no ano de 2027, o projeto da lei orçamentária anual (LOA) foi enviado pelo governo do Estado na tarde de ontem. Pela última vez, o governador Eduardo Leite foi à Assembleia Legislativa para entregar uma cópia do documento, dessa vez ao deputado Cláudio Tatsch (PL), que representou o presidente Sergio Peres (Republicanos) no ato.

Os deputados devem votar a lei até o final de novembro. A LOA passa pela Comissão de Finanças antes de ser analisada em plenário.

Apesar do aumento na arrecadação em relação a este ano, o orçamento do governo do Estado tem previsão de encerrar 2027 com um déficit primário de R$ 4,8 bilhões. Leite minimizou a estimativa, lembrando que os cálculos para 2024 e 2025 também previam as contas no vermelho, mas o governo encerrou os dois anos com superávit. O cálculo pessimista, que leva em conta possíveis gastos extraordinários, vem sendo adotado nos últimos anos pela Fazenda.

- Não há passivos escondidos, mas um desafio conhecido - enfatizou Leite.

O orçamento prevê R$ 15 bilhões para a educação, R$ 9,36 bilhões para a saúde e R$ 12,29 bilhões para a segurança pública. Para ações relacionadas a eventos climáticos extremos, R$ 1,98 bilhão. _

Com críticas ao STF, Gabriel Souza e Rigotto fazem ato no "dia do 15"

Caminhadas, carreatas, bandeiraços e adesivaços do MDB ao redor do Estado marcaram o "dia do 15", ontem, em alusão ao número do partido. Em Porto Alegre, no Largo dos Açorianos, o candidato a governador Gabriel Souza conduziu um ato ao lado de Germano Rigotto, que concorre ao Senado, e aliados do PSD, como seu vice, Ernani Polo, Frederico Antunes, que também disputa o Senado, e o governador Eduardo Leite.

Gabriel enalteceu a presença das centenas de militantes e o trabalho corpo a corpo que vêm realizando na campanha. O vice-governador falou sobre os investimentos do governo estadual e, ao pedir votos para os candidatos da chapa a senador, criticou o STF.

- Aqui estamos trabalhando, mas lá em Brasília está uma vergonha - disparou.

Rigotto convocou os militantes para uma vaia coletiva, direcionada ao Supremo, e classificou como uma "vergonha" a crise envolvendo os ministros da Corte. 

POLÍTICA E PODER

16 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Crise no STF se prolonga com ofensas, pedido de vista e impasse

São quatro votos a três para manter separadas as investigações a respeito de Moraes e Mendonça. Dino pediu vista e adiou a análise da questão. Não houve avaliação de mérito sobre pedido para autorizar inquérito baseado em relatório da Polícia Federal sobre mensagens de Vorcaro

Diante de sua maior crise, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) acabou se mostrando dividido. Não conseguiu decidir ontem se investiga o ministro Alexandre de Moraes por suposta ligação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso por fraudes financeiras. Foi uma sessão marcada por vários bate-bocas no colegiado a respeito de procedimentos judiciais e que terminou em um pedido de vista (maior prazo de análise) por parte do ministro Flávio Dino.

Na prática, o plenário se limitou a avaliar questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, que propôs adiar o julgamento para o próximo dia 23 e analisar em conjunto os relatórios com informações da Polícia Federal (PF) sobre Moraes e também a petição contra Mendonça. As duas investigações tramitam sob relatorias e ritos diferentes.

Para Gilmar, as ações de forma separada poderiam gerar "tumulto processual" e decisões contraditórias sobre fatos correlacionados, decorrentes do caso Master. Seguiram esse argumento os ministros Cristiano Zanin e o próprio Alexandre de Moraes. Já Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram contra a unificação. Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli haviam se declarado, no início do julgamento, impedidos de participar da votação.

A sessão extraordinária do STF, que começou com um pedido de "sensatez, decoro e serenidade" feito pelo presidente da Corte, Edson Fachin, foi marcada ao longo do dia por confrontos entre ministros, questionamentos à condução dos trabalhos e manifestações acaloradas no plenário.

Antes de discutir se uma investigação contra Moraes deveria ou não ser aberta, os ministros precisavam decidir se os procedimentos relacionados às condutas dele e de André Mendonça no caso Master seriam analisados de forma conjunta ou separada. A questão, inicialmente processual, acabou se misturando aos próprios fatos dos casos e às versões apresentadas pelos ministros envolvidos ao longo da sessão.

A votação sobre a junção dos procedimentos chegou a quatro a quatro, com Gilmar Mendes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes pela análise conjunta, e Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia pela separação dos casos.

Ao final, Dino pediu vista, e seu voto deixou de ser considerado na contagem. O placar, portanto, ficou em quatro a três, e a análise foi interrompida antes que o STF chegasse ao mérito de uma eventual investigação contra Moraes.

Na parte da tarde, a discussão sobre o rito dos procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça avançou para os próprios fatos e para as versões apresentadas pelos ministros. Gilmar Mendes havia defendido que as petições fossem analisadas em conjunto, enquanto Fachin mantinha o entendimento de que os casos deveriam tramitar separadamente.

Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes seguiram a posição de Gilmar Mendes, enquanto André Mendonça ficou ao lado de Fachin. A discussão ganhou outro tom quando Moraes passou a questionar diretamente a condução dada por Mendonça ao procedimento que envolvia seu nome. Ainda durante a manhã, Moraes havia afirmado que apresentaria delegados, advogados e testemunhas que, segundo ele, poderiam esclarecer a atuação do ministro na apuração. Mendonça rebateu uma das afirmações com um "É mentira!".

"Miscelânea procedimental"

À tarde, os ministros passaram a discutir também os fatos que estavam na origem dos procedimentos. Moraes questionou a existência de pedidos da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República (PGR) para a abertura de investigação contra ele e criticou os prazos e a forma como as informações haviam sido encaminhadas aos ministros:

- Não há pedido. E se houvesse pedido, o que diz aqui: o interessado deve ser intimado do pedido com cópia da imputação com indicação de todas as provas e deve ter 15 dias para se manifestar.

Em outro momento, afirmou que o processo havia se transformado em uma "miscelânea procedimental" e voltou a defender que os casos fossem analisados conjuntamente.

Mendonça, por sua vez, defendeu a separação dos procedimentos. Disse que os casos tinham bases fáticas diferentes e que, no procedimento de Moraes sobre sua relatoria, há um suposto relatório de inteligência que a imprensa havia chamado de falso e que, segundo ele, poderia ter origem ilegal.

Moraes voltou a contestar a versão. Disse que Mendonça havia determinado a preservação e a busca de arquivos identificados como "Moraes.pdf" e "Toffoli.pdf" e que, segundo ele, o material fazia parte de um suposto dossiê ilegal. Também afirmou que o procedimento permaneceu parado por cerca de três meses e que, em 24 de agosto, Mendonça determinou de ofício uma investigação contra ele, sem pedido da PF ou da PGR.

A PGR também entrou no debate. Paulo Gonet negou ter relação de proximidade com Vorcaro e afirmou que o único encontro que teve com o banqueiro foi em abril de 2024, com a presença de outras autoridades. Ontem, o Conselho Superior do Ministério Público Federal marcou para o dia 25 a análise sobre o procedimento que aponta menções de Vorcaro a Gonet. Na sessão, Gonet defendeu a atuação do Ministério Público Federal na apuração.

Na sequência, Mendonça pediu para responder. Nessa hora, Gilmar interrompeu a manifestação.

- É impressionante a desfaçatez desse sujeito - esbravejou.

Diante da reação de Mendonça, disse que ele poderia chorar.

- Impressionante a desfaçatez de Vossa Excelência! Me respeite! Aqui não tem choro, não - rebateu Mendonça

Diante do bate-boca, Dino pediu vista. Ao justificar a interrupção, afirmou que o ambiente havia se tornado incompatível com a continuidade da deliberação.

- Tenho de interromper esta situação porque temos uma questão de ordem. Não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior, e a sociedade está assistindo a algo diferente do rito que a lei manda - afirmou.

Fachin aceitou a solicitação e interrompeu a análise. Após o pedido de vista, Luiz Fux e Cármen Lúcia seguiram as posições de Fachin e Mendonça, pela separação dos processos. Em seu voto, Cármen Lúcia criticou a "espetacularização" dos casos e da própria sessão, apontando que faz mal ao Supremo, ao Judiciário e ao Brasil.

- O país espera de nós uma tranquilidade que eu acho que nós não conseguimos dar. _

O que significa o pedido de vista de Dino e seu efeito

Caue Fonseca

caue.fonseca@zerohora.com.br

Conforme o entendimento de especialistas em Direito Constitucional, o pedido de vista do ministro Flávio Dino na sessão de ontem se refere a uma etapa preliminar ao julgamento do mérito da petição em pauta, que analisaria os fatos levantados por relatório da Polícia Federal em relação a Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.

Dino pediu vista quando a Corte deliberava sobre uma questão de ordem proposta por Gilmar Mendes - cujo ponto central é a unificação das duas petições envolvendo Moraes e André Mendonça.

- Penso que o pedido de vista abrange só a questão de ordem. Ninguém avançou na segunda parte do julgamento, não houve nenhum voto dizendo se o ministro Alexandre deveria ser acusado ou não, se ele poderia ser investigado ou não. É exclusivamente sobre o tema "questão de ordem". A deliberação sobre o fato de Moraes poder ser investigado ou não ficou totalmente fora do julgamento - avalia Marcelo Schenk Duque, professor de Direito Constitucional da UFRGS.

Professor de Direito Constitucional da Atitus Educação, Fausto Morais tem entendimento similar:

- O julgamento é feito em etapas. Antes do assunto principal, assuntos preliminares precisam ser decididos. A questão de ordem é um assunto preliminar para análise da principal, a petição 16.662. O pedido de vista está na petição 16.662, mas para apreciação dessa questão preliminar.

De qualquer forma, Dino tem 90 dias para análise. Embora tenha adiantado seu voto favorável à unificação, o ministro voltou atrás para pedir vista. Seu entendimento acompanharia Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin. Edson Fachin, Cármen Lúcia, André Mendonça e Luiz Fux votaram por manter a separação dos casos.

Na prática, o pedido de vista também impede que a Corte delibere em como se daria o desempate.

Embora haja divergências entre juristas sobre como isso se daria, o entendimento mais comum é de que Fachin, como presidente da Corte, daria um "voto de qualidade", na prática um voto de minerva desempatando a votação. _

Embates no tribunal

O clima entre os ministros esquentou diversas vezes no plenário

Alexandre de Moraes e André Mendonça

Moraes defendeu a análise conjunta dos casos envolvendo a si próprio e André Mendonça

Moraes - (...) Não há como julgar hoje (ontem) sem julgar (próxima) terça (analisar as suspeitas e questionamentos levantados por Alexandre de Moraes contra a conduta de André Mendonça na condução dos casos envolvendo o Banco Master e o INSS), porque eu pergunto, quem tem medo da Polícia Federal? Presidente, quem tem medo da Polícia Federal?

Mendonça - Não, não é questão de medo, não.

Moraes - Eu não estou perguntando a Vossa Excelência.

Mendonça - Não, mas eu estou lhe respondendo.

Moraes - Quem tem medo da Polícia Federal? Quem chamou a Polícia Federal? E exigiu que a Polícia Federal colocasse um colega na colaboração premiada. E vamos trazer aqui, presidente, vamos trazer aqui e chamar aqui testemunhas que eu vou indicar, não só policiais. Advogados, testemunhas, eu tenho testemunhas que o ministro André em reunião disse, "peçam isso".

Mendonça - Isso é mentira.

Moraes - Então, vamos chamar a testemunha?

Mendonça - Mentira.

Moraes - Vamos chamar?

Mendonça - Mentira.

Moraes - Vamos chamar?

Moraes - Não há como julgar hoje sem julgar terça-feira.

Mendonça - Pode chamar quem quiser, vão mentir.

Moraes - O ministro André chamou: incluam o ministro Alexandre. Por quê? Porque está a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país.

Mendonça - Eu não vou responder. É isso. No meu momento de fala.

Moraes - (...) Então, eu repito, presidente, tudo o que foi feito, essa investigação fraudulenta contra mim, já começou lá atrás. Não dá para julgar uma coisa sem outra.

Gilmar Mendes e André Mendonça

Gilmar Mendes apontou motivação política e eleitoral na condução do caso Master

Gilmar - É evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés eleitoral na forma como o tema foi conduzido nos autos dessa PET. Escolha de data, 7 de Setembro, todo esse cenário envolvendo essa Corte em campanha eleitoral.

Mendonça - O senhor está sendo leviano.

Gilmar - Isto não se faz. Pessoas decentes não fazem isso. Vossa Excelência não tem a palavra. Vai escutar com tranquilidade. Houve evidente condução político-eleitoral na escolha do 7 de Setembro. Isso não se faz. Pessoas decentes não fazem isso.

Mendonça - Não aponte o dedo para mim, ministro Gilmar. Não está falando com qualquer um. Respeite esse tribunal.

Gilmar - Quem não se dá respeito não merece respeito.

Gilmar também afirmou que a condução do caso submeteu integrantes da Corte a situações que classificou como indevidas.

Gilmar - É uma atitude covarde, vil. Já disse isso antes: até a máfia tem ética. É preciso ter decência. Não se comporta assim.

Flávio Dino e Edson Fachin

Os dois ministros se estranharam no plenário a respeito do uso da palavra

No momento em que Dias Toffoli se declarava suspeito para participar do julgamento, Dino pediu aparte.

Presidente da Corte, Fachin interviu, afirmando que a concessão de palavra seria dada pela presidência. Dino rebateu que a palavra é concedida por quem está falando.

Fachin elevou a voz e insistiu: "Vossa Excelência precisa pedir a palavra à Presidência".

"Vou seguir o regimento da Corte", reagiu Dino, e seguiu falando.

Mais tarde, quando Gilmar Mendes falava, Dino pediu licença para interrompê-lo. Em seguida, questionou Fachin se ele permitia que Gilmar o autorizasse.

"A ironia está nas entrelinhas. Sem dúvida, Vossa Excelência tem a palavra", respondeu Fachin.

"A ironia serve para descontrair o ambiente, Vossa Excelência sabe disso. É Aristóteles", revidou Dino.