segunda-feira, 24 de agosto de 2026

24 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O RS e a medicina de desastre

Se a Defesa Civil foi uma área em que o Rio Grande do Sul avançou desde a tragédia das enchentes de 2023 e 2024, há outro setor, bastante específico, que merece atenção do poder público e da esfera privada: a medicina de desastres.

Em andanças, de tragédia em tragédia, como o furacão Katrina, testemunhei, como enviado especial da RBS, que a primeira resposta a um desastre costuma ser dada pelo sistema de saúde local. E quando a própria rede hospitalar sucumbe? É diferente atuar com recursos, equipamentos e insumos em ambientes a que os profissionais estão acostumados. 

Em uma tragédia de grandes proporções, equipes de emergência são testadas em ambientes de estresse contínuo, de adoecimento mental, de traumas, sem medicamentos, o que exige capacitação prévia e posterior, continuada. A covid-19 foi um teste, em que profissionais de saúde do RS atuaram sob pressão, no limite da exaustão, encarnando o mais nobre desígnio de seus juramentos.

Mas treinamento em grupo, ações coordenadas e logística serão cada vez mais necessários. Em meio a uma crise, cabe a esses profissionais classificar rapidamente feridos para priorizar quem tem chance de sobrevivência com recursos limitados, montar hospitais de campanha, gerenciar o fluxo de suprimentos e equipes e integrar médicos, bombeiros, Defesa Civil e órgãos de saúde pública.

Organizações como Médicos Sem Fronteiras têm essa expertise. São, normalmente, as primeiras a chegar e as últimas a sair. Mas, para além de organizações não governamentais, poder público, hospitais e universidades devem investir nessa especialização.

Desde 2011, a Força Nacional do SUS existe, inclusive com uma base no Estado. Segundo afirmou ao jornal Folha de S.Paulo o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Adriano Massuda, novos efetivos serão criados a partir de 2027 no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. O setor privado também precisa investir. 

No eixo Rio-São Paulo, a rede Einstein é referência, com um grupo de especialistas que atuou no Haiti, no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, e em Brumadinho (MG). Mas, no RS, quantos cursos de especialização em nível acadêmico existem nessa área? Quantos hospitais dispõem de grupos de medicina de desastres? E há quanto tempo Porto Alegre não realiza uma grande simulação de resposta a uma emergência? _

O que foi feito no RS recentemente

Em resposta à coluna, o Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (Sindihospa) informou ter organizado simulações sobre desastres. Em junho, foi simulada a chegada de um voo com passageiros com doença infecciosa desconhecida.

Na ocasião, o exercício reproduziu um cenário em que a tripulação pede apoio médico para passageiros com sintomas dessa infecção, recebendo apoio. Planos de contingência foram ativados. Os casos "mais graves" foram transferidos para o Hospital de Clínicas.

No ano passado, foi realizada ainda uma simulação de incêndio e desabamento do teto do plenário da Câmara de Vereadores, na Capital. A ação contou com a participação voluntária de 50 estudantes de Medicina, que foram as "vítimas" de um desabamento seguido de incêndio no Plenário Otávio Rocha.

Nove hospitais, 15 ambulâncias e três caminhões do Corpo de Bombeiros participaram da operação, além de equipes da Defesa Civil, EPTC e Instituto Geral de Perícias (IGP).

Em 2023, outra simulação ocorreu, dessa vez no Hospital Moinhos de Vento, com o cenário hipotético de um incêndio envolvendo o deslocamento de vítima em helicóptero do Batalhão de Aviação da Brigada Militar.

Pacientes foram deslocados para outras unidades de saúde, enquanto o combate às chamas envolveu uma operação do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, Defesa Civil, forças de segurança e sistema hospitalar. _

Entrevista - Jeffrey Urkevich - Diretor de Parcerias da Juvare

"O Katrina foi um ponto de inflexão para a preparação de emergências"

O Codex Experience reuniu, na semana passada, especialistas, gestores públicos e executivos para discutir como dados, inteligência artificial e novas tecnologias podem contribuir para a tomada de decisões em respostas à crise climática. Um dos painelistas foi Jeffrey Urkevich, diretor de parcerias da Juvare, empresa americana que busca operações no país. Ele conversou com a coluna.

A tecnologia baseada em IA é uma plataforma de gestão digital adotada nos 50 estados americanos e em mais de 25 países para coordenar respostas a desastres em tempo real. Como pode ser a operação no Brasil?

O WebEOC pode permitir que todos os Estados e municípios brasileiros protejam pessoas e ativos por meio de uma plataforma que oferece uma visão operacional comum antes, durante e após um evento. Tem potencial para se tornar o ponto de comunicação entre os órgãos de gestão de emergências de todo o Brasil, contribuindo para melhorar o tempo de resposta e reduzir o tempo para o restabelecimento da normalidade.

Haverá operação no Rio Grande do Sul?

Não podemos compartilhar esse tipo de informação, mas a primeira implementação está em andamento na CEPDEC-ES (Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil do Espírito Santo). Esperamos expandir a operação.

Como a IA se dá, na prática, na plataforma de gestão?

O produto é uma ferramenta de IA que permite aos usuários interagir com a base de dados para criar relatórios e gráficos e encontrar respostas rapidamente em um ambiente seguro. A ferramenta aplica regras rigorosas de privacidade, respeita as permissões dos usuários e nunca utiliza dados dos clientes para treinar modelos externos de IA. Estamos atualmente trabalhando no desenvolvimento para o mercado brasileiro.

Um dos desafios é a dificuldade de integração de dados?

Fontes distintas e desconectadas são sempre um desafio na resposta. De modo geral, a existência de múltiplas fontes gera confusão e aumenta o tempo de resposta. O WebEOC permite conexões entre sistemas que já estão em uso, possibilitando uma visão comum. Por meio de conectores padronizados, conseguimos reunir diversas fontes de dados em uma única interface. Além disso, integramos dados de mapas por meio da extensão ArcGIS. O modelo que utilizamos nos EUA, liderado pela FEMA, é centralizado e adota como padrão a estrutura que garante coordenação em tempo real e interoperabilidade.

Durante o furacão Katrina, em 2005, também houve problemas relacionados à descentralização de dados. Passados mais de 20 anos, essa situação melhorou?

O furacão Katrina foi um ponto de inflexão para a preparação e a resposta a emergências nos Estados Unidos. A situação melhorou significativamente graças às APIs abertas, ao compartilhamento de dados e a sistemas centralizados, como o WebEOC. Sempre há espaço para melhorias, e novas lições são aprendidas diariamente por meio de treinamentos, aperfeiçoamento de processos e situações reais. _

INFORME ESPECIAL

domingo, 23 de agosto de 2026

Fábula cômica e perturbadora

o seculo dos imbecis

o seculo dos imbecis

EDITORA GLOBO/DIVULGAÇÃO/JC

Jaime Cimenti

Vivemos em meio a toneladas de informação e, ao mesmo tempo, envoltos em pouco conhecimento e sabedoria verdadeiros. Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis, que antes falavam bobagens e superficialidades apenas nas mesas dos bares, depois que a bebida tinha destravado suas línguas.


O século dos imbecis (Biblioteca Azul - Editora Globo, 344 pág, R$ 61,00), romance mais recente de Valter Hugo Mãe, premiado e consagrado escritor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor angolano, construiu uma fábula tão divertida quanto inquietante sobre essas e outras questões essenciais do mundo contemporâneo.


No alto das montanhas de um local fictício, num tempo indefinido, num palacete vive Agilulfo, o excêntrico Marquês da Malandrinha, inicialmente solteiro e depois em companhia de sua companheira, a Marquesa. Com a prosa lírica e singular que o caracteriza, o autor, que já publicou vinte e cinco livros, mescla com habilidade realismo mágico, humor afiado e reflexão filosófica para contar que o Marquês, sempre que sobe mais as montanhas se torna mais lúcido e brilhante. Quando desce e se aproxima do vilarejo e do mar, Agilulfo emburrece.


O Marquês desperta paixões, ressentimentos e ambições. Ao seu redor vai se desenrolando uma trama de luxúria, inveja, vergonha, ganância, empatia, solidariedade e estupidez. Tudo demasiadamente humano. A narrativa ataca o passado dos detentores do poder, faz crítica ao fascínio coletivo pela ignorância, ao modo como a burrice virou espetáculo com plateia e reflete sobre pessimismo, Deus e os emigrantes, por exemplo.


Os personagens de nomes esquisitos como Paciasso, Martinbon, Omobon e Omobestia, são tipos que seguem por aí, entre nós, atualmente. A Marquesa apresenta contradições bem humanas e a Criada é a única que compartilha a verdadeira intimidade do casal, os silêncios, as fraquezas e os segredos da casa.

O autor mostra a decadência de uma elite sem futuro, descendente de ladrões e criminosos, que mataram, escravizaram e trouxeram ouro do Brasil, mas tudo com fina ironia, humor, hábil construção narrativa e linguagem requintada.

 

Nem vencidos, nem vencedores: utópicos

Nesses nossos tempos escalafobéticos e apocalípticos em que até os jovens, os artistas e os escritores adoram curtir uma distopia básica, falar em paz, união, utopia da boa e fim de polarizações deletérias pode parecer fora de moda, ultrapassado, inútil e dinossáurico. Sobre utopias, aliás, escreveu o passarinho imortal Mário Quintana: "Se as coisas são inatingíveis...ora! / Não há motivo para não querê-las/ Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença das estrelas."


Nosso mundo marcado por polarizações, com dezenas de guerras e milhares de conflitos e nosso Brasil atormentado pela polarização destruidora que nos assola há décadas não nos deixam espaço para muita esperança. Essas próximas eleições aí estão marcadas pelo medo, pela descrença e pelo dificílimo futuro político, financeiro, econômico e social que o próximo presidente, seja quem for, vai ter que encarar. Nas campanhas o papo repetido é de redução de gastos, desenvolvimento econômico, menos impostos, ênfase na segurança e na educação e tal. Nem adianta ligar o promessômetro, que a gente nem precisa ser vidente pra saber como será o amanhã. A gente já viu o filme.


Pois mesmo com esse planeta e esse país do que jeito que estão, temos que seguir adiante. É o que temos. O melhor caminho seria o de pensar em rumos onde não houvesse vencedores e nem vencidos após as eleições e caminhos para pacificar o globo. A inclusão de países, sociedades, grupos e pessoas numa ordem mundial mais pacífica e equilibrada seria evidentemente o melhor. O sonho é antigo, a utopia também, mas em alguns lugares como a Escandinávia, o Japão, a Austrália, Nova Zelândia e alguns outros países, há, na real, mais paz, segurança, equilíbrio social, político e econômico e o interesse coletivo está melhor cuidado, com ganhos para todos.


Pena que os "diálogos" entre os líderes das nações muitas vezes são piores do que as conversas nos banheiros dos botecos, sem querer ofender, claro, os simpáticos frequentadores dos pés-sujos, a maior parte trabalhadores, pessoas dignas de respeito e consideração, ao contrário de algumas figuras públicas que estão aí mostrando que o "sapiens" não é lá essas coisas e precisa dar um trato no lado humano e na ética.

O ser humano por vezes é demasiado humano e desde os tempos das cavernas fica cobiçando os diversos bens alheios e partindo para a briga, para tomar territórios, riquezas e para saciar a vaidade das vaidades, como nos ensinou o Rei Salomão no livro bíblico Eclesiastes, do Velho Testamento.

Como já disseram, o homem é o lobby do homem, o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. A democracia segue como o regime menos pior e continua sendo uma construção eterna, apesar de alguns aí quererem enterrá-la para faturar mais em cima dos outros.


Esquerda e direita são conceitos e rótulos centenários que precisam de revisão e que não devem se prestar para detonar o bom interesse coletivo. Na história se sabe que se os coroados não se ligam, o povão perde a paciência e vai para cima.

 a propósito

É bom que os donos do poder, da grana, das mídias e dos campinhos espalhados pelo mundo pensem, ao menos de vez em quando ou pelo menos uma vez na vida, que caixão não tem gaveta, que no final do jogo de xadrez dos humanos os peões, as torres, os cavalos, os bispos, os reis e as rainhas vão todos para a mesma caixa. Enfim, se os "racionais" e "donos da linguagem" se tocarem, quem sabe a polarização se torne apenas uma degustação de Polar, inclusive e especialmente para os bipolares e multipolares que estão se multiplicando por aí. Paz, amor e humor para todos! Felizes, curiosos e bem-humorados são a nata da nata humana. (Jaime Cimenti)

 

lançamentos

a bíblia do burnout

a bíblia do burnout

CULTRIX/DIVULGAÇÃO/JC

A Bíblia do Burnout (Cultrix, 336 pág, R$ 59,00), de Rachel Philpotts, nutricionista inglesa especialista em saúde mental, traz uma abordagem natural com rigor científico para combater a fadiga e a sobrecarga emocional e receitas antiestresse práticas e funcionais para recuperar corpo e mente. A obra venceu o People's Book Prize e foi finalista do Business Book Awards.


Famílias empresárias brasileiras (FGV Editora, 168 pág, R$ 59), de Levindo O.C. Santos, doutor em administração pela FGV Eaesp e com quatro décadas de trabalho no mercado financeiro, traz memórias, reflexões e ensinamentos sobre legado, gestão e sucessão e narra casos empresariais de famílias do Grupo Votorantim, Grupo Colombo e G5 Partners, entre outros.


Você está aqui (Editora Intrínseca, 400 pág, R$ 76,00), de David Nicholls, escritor e roteirista de cinema e televisão, autor do best-seller Um dia, traz o encontro de Michael, destruído pela separação da esposa, com Marnie, abandonada pelo marido. No início foi difícil, mas depois virou história inspiradora de recomeços, primeiros encontros, segundas chances e voltar a estar no mundo.

22 de Agosto de 2026
O QUE ESTOU LENDO - Renata Cardoso

Pachinko - De Min Jin Lee

Intrínseca, 528 páginas

R$ 99,90 (livro físico) e R$ 69,90 (e-book)

Tradução de Marina Vargas

Preconceito, guerra, desigualdade e a condição feminina

Em um tempo ainda mais conservador, uma mulher mora no interior com a mãe, após a morte do pai. Um dia, ela conhece um homem mais velho, de outra cidade, se apaixona e se entrega. Até descobrir que ele é casado.

Então, vem uma descoberta ainda maior: ela está grávida. Isso significa vergonha, exclusão e a possível ruína da família - que já vive com muito pouco.

É assim que começa Pachinko, da autora coreano-americana Min Jin Lee. A história segue acompanhando a protagonista e os seus durante três gerações.

Eu poderia dizer que o livro fala sobre a ocupação japonesa da Coreia, a exclusão em função da nacionalidade, e a desigualdade gerada pela guerra. Tudo isso está lá. Mas, para mim, fala sobre a condição feminina.

Sobre o peso de carregar a responsabilidade pelo cuidado, pela honra, pelo sustento. Sobre performar beleza, delicadeza e feminilidade - e fazer tudo isso com um sorriso no rosto.

Pachinko, que não por acaso é o nome de um jogo de azar, é uma excelente analogia sobre como homens têm o poder de mexer no tabuleiro e definir não apenas a própria sorte, mas também a das mulheres a seu redor. E, ainda assim, são elas que mantêm tudo funcionando. _

O QUE ESTOU LENDO

22 de Agosto de 2026
MARTHA MEDEIROS

Loucura sem cura

O narcisista precisa recriar os fatos para fugir de seus remorsos. É um tema que causa consternação. Por mais que se saiba que a única saída é deixar o narcisista falando sozinho, fico tocada pelo fato de que ele jamais se reconhecerá doente. Estará sempre em busca de validação, sentindo-se perseguido e injustiçado. 

Não irá se tratar. Fugirá de terapia. Não escutará aqueles que o amam. Em vez disso, passará os dias inventando histórias, pois a verdade lhe é intolerável, ele precisa recriar os fatos para fugir de seus remorsos.

Já estive bem perto de alguns. Foram relações impossíveis, em que acreditei que conseguiria "salvar" a pessoa do próprio desatino, até que, cansada de sofrer sem obter nenhum resultado, tratei de salvar a mim mesma e me fui.

O livro de Andrea narra a história de um homem adulto que resolve nunca mais visitar a casa paterna - o "aniversário" é de 10 anos sem falar com pai e mãe (há sempre uma mãe submissa casada com o pai narcisista, e ela acaba pagando por essa união desastrosa). A mãe submissa também aparece no livro de Starnone, mas o autor se dedica principalmente a investigar a complexidade do distúrbio. O pai narcísico que ele cria é devastador com quem habita seu círculo. 

Não consegue parar de se gabar, tem mania de grandeza e mantém um estado de tensão permanente a sua volta, pois explode a cada vez que se sente ameaçado - sua cabeça é assombrada por inimigos imaginários e juízes fantasmas. 

Quando entra em um ambiente, adeus, harmonia: tudo pode terminar em gritos e acusações. Não tolera ser corrigido. É alguém consumido pela ideia de perfeição, um devoto de si mesmo. Inatingível. Bruto. Sempre a ponto de perder o controle.

Dois livros espetaculares, sendo que Via Gemito, por ser autobiográfico, vai mais fundo no passado do personagem, que sofreu várias frustrações até se transformar em um adulto alterado. Ninguém nasce narcisista, por isso me parece importante que se identifique os fatores que fazem com que um homem ou mulher passe o resto da sua vida defendendo-se de ataques que não existem. É lamentável que não haja cura, mas sempre se pode atenuar a dor quando se sabe de onde vêm as nossas perturbações. _

Acreditei que conseguiria "salvar" a pessoa do próprio desatino

MARTHA MEDEIROS

22 de Agosto de 2026
J.J. CAMARGO

A memória, sobrecarregada de lembranças úteis ou fúteis, pode ter sido displicente na seleção dos escaninhos confiáveis para arquivar as reminiscências mais preciosas. O coração, porém, sabe bem onde e como despertá-las, porque tem a senha-mestra de acesso às emoções definitivas - essas que, pela intensidade, estão muito além da tristeza do esquecimento e aguardam, serenas, a sacudida da ressurreição.

Pode ser a visita a uma linda capela em Viena, num final de tarde, quando o cheiro de velas me trouxe de volta para a dor que me impedia de engolir a saliva no velório do meu avô.

Ou na calmaria de uma velha barbearia no centro da cidade, quando o barbeiro mais antigo, orgulhoso do seu trabalho, resolveu refrescar as bochechas rosadas do seu cliente com a loção Bozzano Pós-Barba. Feito! Lá estava eu, outra vez, na Estação Rodoviária de Vacaria, envolto no abraço demorado do meu pai, que terminou por dizer o que eu mais precisava ouvir a caminho do vestibular:

- Vai lá, meu filho, e mostra pra aqueles caras que nesta família também tem pedigree!

Ou andando pelo French Quarter, em New Orleans - uma cidade que exala música -, quando um grupo enorme de turistas começou a dançar na calçada antes mesmo que eu alcançasse a música mais dançável que conheço. Como por encanto, vi-me dançando New York, New York em todos os Réveillons da minha vida.

Mas é claro que esta crônica, que nasce despretensiosa, também terá seu lugar neste maravilhoso arquivo. Um arquivo que, depois de um certo tempo (está bem, bastante tempo), de vez em quando - na verdade, muito de vez em quando - pode ratear, mas que por ora serviu para evocar uma espécie de mantra do primeiro relicário da minha vida.

No bar do aeroporto, um casal lanchava. A mãe, de olhos fixos no laptop; o pai, vigiando um sapeca lindo que, com a energia de seus cinco anos, não sossegava, correndo entre as mesas. De repente, o pai levantou-se e bradou, com aquela voz enérgica que a gente aprende logo que não significa nada:

- José, que eu não tenha que te chamar outra vez! Pronto! Lá estava a dona Zely, de mãos na cintura, ostentando uma fúria que nunca me convenceu. Saudades da baixinha, dona da minha infância. 

J.J. CAMARG

sábado, 22 de agosto de 2026

22 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Anjos de asas cortadas

Foi só um tapa, e crianças aparecem espancadas. Foi só um empurrão, e crianças são arremessadas nas paredes e nos móveis. Foi só uma queda de uma brincadeira, e crianças entram em coma. 

O inferno deve estar vazio, porque as tragédias estão enchendo as nossas ruas. Em Porto Alegre, no domingo passado, presenciamos mais um episódio de inexplicável e sombrio assassinato na infância.

Samylle, de 4 anos, sob a tutela dos tios, apesar de a guarda judicial pertencer à mãe, não resistiu aos ferimentos advindos de um castigo. O responsável de 22 anos afirma que aplicou apenas palmadas em sua bunda, e numa única vez, porém Samylle morreu de politraumatismo.

A Justiça decretou a prisão preventiva do réu. A Polícia Civil trata o caso como homicídio doloso, por ele ter assumido o risco de causar a morte.

O casal de tios com o qual Samylle morou nos últimos meses, com o aval do Conselho Tutelar, buscou atendimento na UPA Bom Jesus porque a menina havia convulsionado, e alegou que os hematomas seriam decorrentes de um tombo numa recreação.

Não é correção, nunca será correção, mas brutalidade a um ser frágil. Não é que perdeu a medida, mas promoveu um ato de violência gratuita e insana. Não é que educava, mas intimidava. Não é que pretendia dar uma lição provisória, mas investia suas forças para calar uma inocência para sempre. Não é que pretendia que ela deixasse de fazer algo errado, mas que deixasse de viver e perturbar.

A boçalidade nunca tem freios. Nem a vulnerabilidade inibe o ataque. A raiva não pede licença nem motivos. Não era a criança que vinha precisando de limites, era o adulto que carecia de limites.

Novamente aquele que cuidava matou. Novamente o berço se tornou cemitério. Novamente ouvimos versões inverossímeis a partir dos depoimentos para as autoridades. A criação nas mãos erradas gera destruição.

A razão assassina, de acordo com testemunha, resumiu-se ao fato de a pequena ter feito necessidades na calça. É de se supor o quanto ela já vivia sob o jugo de ultimatos e pressão psicológica. Seu corpo se mostrava desregulado de tanto medo. Clamava por ajuda. Gritava por socorro.

Samylle não pôde se defender, não pôde dizer o que sofria, não pôde ser resgatada por um colo redentor.

Desejava ser amparada, traduzida, apoiada, orientada. Desejava que alguém preparasse as suas tranças, colocasse os enfeites coloridos nos seus cabelos, a incentivasse a rir, demonstrasse paciência para responder à sua curiosidade sobre o mundo. Embora tenha trocado de lar após denúncias que correm em sigilo, não encontrou o carinho de que precisava, e sim manchas roxas na cabeça, nas pernas e nas nádegas.

Como se sentiria protegida, migrando de casa em casa, de crise em crise, sem jamais encontrar uma rede realmente segura? Não vai passar. Dói monstruosamente, e não vai passar. Cortam-se as asas dos anjos. Não há escada para o céu. 

CARPINEJAR

22 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Sinais de baixa renovação na Câmara

Na contramão da insatisfação da sociedade com o desempenho da Câmara dos Deputados, diferentes prognósticos, de instituições e cientistas políticos, elevam as apostas em um baixíssimo índice de renovação na Casa na eleição deste ano. É possível que os números conhecidos no próximo dia 4 de outubro mostrem a menor oxigenação desde a redemocratização do país. Por certo há parlamentares com bons serviços prestados que merecem a recondução, mas a chegada de novos rostos e ideias é saudável para qualidade da representação política. Diante do empoderamento do Congresso e dos altos volumes de recursos administrados pela cúpula dos partidos, fica difícil vislumbrar uma reversão significativa desse cenário.

Uma recente análise do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a partir do histórico das eleições anteriores e dos novos fatores que dão mais força aos candidatos em busca de reeleição, projeta que a renovação neste ano ficará entre 14% e 44%. Assim, teria grandes chances de acabar abaixo da menor taxa de eleição de novos deputados federais, de 43%, em 1988.

Vários aspectos sustentam as previsões de um inédito número de reeleições. Entre elas, o alto índice de recandidaturas. Dos 513 deputados em exercício, 438, ou 85,38% do total, vão tentar permanecer na Câmara. São oito a menos do que em 2022, mas isso porque 42 deputados - o dobro de quatro anos atrás - vão buscar colocação no Senado, que neste pleito terá dois terços das vagas em disputa. Apenas 14 deputados não vão se candidatar a nada.

Salta aos olhos a grande assimetria de condições de competitividade entre os deputados com mandato e novos postulantes à Câmara. Apenas em emendas individuais, cada membro da Casa teve este ano em média R$ 40 milhões para distribuir às suas bases, na busca de fidelizar eleitores e assegurar o apoio de prefeitos. Sem falar nas demais verbas que custeiam viagens, material, combustível e assessores.

As minirreformas eleitorais de 2015 e 2017 e o advento das federações, bem-vindos em muitos aspectos, também acabam contribuindo com essa tendência. As alterações legislativas tiveram o propósito de dificultar a criação de novas siglas e de estimular fusões, incorporações e associações, com o objetivo de diminuir a grande fragmentação partidária e, de certa forma, facilitar a governabilidade no contexto do presidencialismo de coalizão. Um dos principais mecanismos é a limitação do acesso ao dinheiro do fundo partidário, pelas cláusulas de desempenho. São regras que começaram a ser implementadas em 2018 e seguirão se tornando mais restritivas até 2030. Também foi reduzido o número de candidatos que cada legenda ou federação pode lançar.

O resultado é que, neste ano, a quantidade de postulantes à Câmara é de 7,6 mil, 28% abaixo dos 10,6 mil em 2022. A relação candidatos/vaga caiu de 21 para 15. Há menos gente na disputa e a preferência dos partidos passou a ser privilegiar ainda mais quem já detém o cargo, a partir da própria competitividade conferida pela atividade parlamentar. Diante do espírito de corpo reinante, trata-se de uma realidade que tende a ser mais difícil de ser modificada, continuando a dificultar uma saudável renovação na Câmara. São circunstâncias que reforçam a importância de o eleitor dar maior atenção à escolha do candidato ao cargo que merecerá seu voto daqui a seis semanas. 

22 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Datafolha mostra cenário estável na eleição

Como se houvesse uma camada de Teflon a proteger o presidente Lula (PT) e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro (PL), nada se move para além da margem de erro no cenário eleitoral. A pesquisa do Datafolha, a primeira realizada após o início oficial da campanha, traz números idênticos ao levantamento anterior e aos de outros institutos. Na simulação de segundo turno entre os dois, Lula tem 47% das intenções de voto e Flávio, 43%. Em 24 de julho, Lula tinha 48% e Flávio, 43%. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

No primeiro turno, Lula segue à frente, com 39%, seguido de Flávio, com 33%. Abaixo deles, Ronaldo Caiado (PSD) tem 5%, Renan Santos (Missão), 4%, Romeu Zema (Novo), 3%, Augusto Cury (Avante), 2%, Samara Martins (UP), 1%, Rui Costa Pimenta (PCO), 1%, Wilson Grassi (Democrata), 1% e Edmilson Costa (PCB), 1%. Clariana Barão (DC) e Hertz Dias (PSTU) não pontuaram. Branco, nulo ou nenhum somam 6% e indecisos, 4%. Em um segundo cenário, o Datafolha incluiu Pablo Marçal (PRTB), que está inelegível mas registrou a candidatura. O índice dele foi de 2%.

Flávio e Lula empatam na rejeição

Mais uma vez, registra-se empate técnico no quesito rejeição entre Lula e Flávio. Questionados pelo Datafolha sobre os candidatos em que não votariam de jeito nenhum, 46% responderam Flávio e 45%, Lula. Também ocorre empate técnico no segundo pelotão entre Zema (16%), Renan (14%) e Caiado (14%).

Três dados atestam que há margem para alteração do cenário com a propaganda de rádio e TV: 27% dos entrevistados disseram que ainda podem mudar seu voto, os indecisos, brancos e nulos somam 11% na estimulada. E na espontânea, indecisos, brancos e nulos chegam a 38%.

A pesquisa foi encomendada pela TV Globo e está registrada no TSE com o número BR-04496/2026. O Datafolha ouviu 2.058 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 18 e 20 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. _

Pelas pesquisas do Datafolha divulgadas na sexta-feira, três candidatos estariam eleitos no primeiro turno: Tarcísio Freitas (Republicanos) em São Paulo, Eduardo Paes (PSD) no Rio, e Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco.

Como será dividido o tempo na TV

No dia 28, terá início o horário eleitoral em rádio e televisão. A divisão do tempo e a ordem de aparições dos candidatos foram anunciadas nesta sexta-feira pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS).

Na estreia, Luciano Zucco (PL) será o primeiro a aparecer na propaganda eleitoral, e terá também o maior tempo: 4 minutos e 24 segundos. Juliana Brizola (PDT) virá na sequência, com 2 minutos e 21 segundos.

Marcelo Maranata (PSDB) é o terceiro, com 30 segundos. Gabriel Souza (MDB) fecha o bloco dos candidatos a governador, com 1 minuto e 44 segundos. Nos demais dias, a apresentação segue o sistema de rodízio. 

aliás

Os oito candidatos ao Senado terão de dividir sete minutos diários. Marcel van Hattem e Sanderson terão o maior tempo (3 minutos e 25 segundos para dividirem), seguidos de Manuela d?Ávila e Paulo Pimenta, com 1 minuto e 49 segundos. Germano Rigotto e Frederico Antunes terão 1 minuto e 20 segundos.

Candidato do PL faz incursão de três dias por nove cidades da Serra

Candidato a governador pelo PL, Luciano Zucco escolheu um terreno fértil para encerrar a primeira semana de campanha nas ruas. Nos últimos três dias, Zucco fez uma incursão por nove cidades da Serra.

Em 2022, a maior parte dos votos foi para os candidatos do PL: Onyx Lorenzoni, na disputa pelo Palácio Piratini, e Jair Bolsonaro, na corrida presidencial.

A agenda terminou na sexta-feira em Caxias do Sul, com caminhadas pelas ruas da região central e visitas a comitês de candidatos aliados.

Antes de Caxias, o candidato do PL passou por Vacaria, Lagoa Vermelha, Guaporé, Bento Gonçalves, Nova Prata e Veranópolis, Garibaldi e Farroupilha. _

Grendene doa R$ 2,5 milhões para campanha de Zucco

Menos de uma semana depois do início da campanha, apenas dois candidatos a governador apresentaram relatório parcial sobre recursos recebidos na campanha. O primeiro é Luciano Zucco (PL), que ganhou, de uma só vez, R$ 2,5 milhões do empresário Alexandre Grendene.

Pela legislação eleitoral, empresas não podem fazer contribuições para campanhas, mas seus donos podem doar como pessoas físicas.

A única outra campanha que registrou entrada de recursos é a de Rejane Oliveira (PSTU) - R$ 500 doados por Marcela Azevedo. _

Van Hattem no topo das doações

Entre os candidatos ao Senado, a maior entrada de recursos foi registrada por Marcel van Hattem (Novo). O deputado recebeu um total de R$ 651 mil nestes primeiros dias, sendo R$ 500 mil do diretório estadual do partido e o restante de doações de pessoas físicas: R$ 50 mil de Marcos Ribeiro Simon, R$ 30 mil de Valdomiro Remussi, R$ 20 mil de Antonio Augusto Bastos Filho e R$ 15 mil de Marina Helena Santos.

A assessoria de Marcel informa que esse dinheiro repassado pelo partido é de doações privadas e não do fundão eleitoral. A lista das pessoas que doaram para a sigla pode ser conferida no site DivulgaCand, do TSE.

Ainda sem incluir na campanha, Van Hattem também arrecadou mais de R$ 726 mil em vaquinha online. Em segundo lugar, vem Ubiratan Sanderson (PL), que recebeu R$ 100 mil do empresário Celso Rigo.

Paulo Pimenta declarou duas doações de pessoas físicas, no valor total de R$ 50 mil, sendo R$ 30 mil de recursos próprios e R$ 20 mil da esposa Cláudia Pereira Dutra.

Os demais não apresentaram relatório parcial de receita ou despesa. _

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