sábado, 7 de novembro de 2026


07 de Novembro de 2026
CARPINEJAR

Felizes dinossauros

Eu escrevo há 30 anos. Nunca senti vontade de parar. Nunca bateu um desânimo ou bloqueio. Nunca faltou assunto, porque jamais me afastei da vida.

Já escrevi por desabafo, por justiça, por vingança, por carência, para ser visto, para desaparecer, por amor, por separação, por reconciliação, para pedir perdão, para não me desculpar. Já chorei com o meu próprio texto. Já ri com alguma história enquanto estava contando. Até acredito que sou mais instrumento das emoções do que autor.

Na hora de me sentar para trabalhar, vem a euforia de poder falar o que não consegui na frente dos outros. É uma coragem retroativa. Organizo as ideias e elas me organizam depois. Termino uma coluna como quem tomou um banho de mar: aliviado, sem dívidas com o oceano, com o sal benzendo a pele no sol.

Sou um poeta, ainda que cronista, e me interesso em retratar as mudanças no subsolo do comportamento. Quase como um sismógrafo das sutilezas. Tudo serve para mim, inclusive o que é jogado fora.

A pandemia, que me impediu de abraçar os pais, os irmãos e os filhos adultos, cada um em seu esconderijo, levou-me a não mais adiar o contato, a ser acessível.

Não deixo mais a saudade me matar - eu a mato primeiro. Assumi o propósito de priorizar a família.

Sem essa de achar que se tem todo o tempo, sem essa de esperar uma repescagem, sem essa de aguardar uma data festiva ou uma disponibilidade que não vai surgir. Jamais vislumbraremos qual é a duração de nosso filme.

Eu aprendi com o distanciamento.

Após o período isolado, decidi visitar de qualquer jeito, desprovido de solenidade, e isso gerou o estalo para o meu novo livro No meu tempo, eu era melhor, com sessão de autógrafos na 72ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Comecei a me perguntar: como eu vivia sem celular, sem redes sociais, nas décadas de 1970 e 1980? Como era namorar? Como era combinar de sair com os amigos? Eu me percebia mais radiante sem a necessidade de estar sempre conectado? Como eu me divertia? Como eu ia para casa? Como eu me informava?

Não havia quarto para mim, eu dividia os armários com meus irmãos, só que a rua parecia mais minha do que hoje. Encapávamos cadernos e livros para a escola, preservávamos os móveis com panos, forrávamos as gavetas com papel de presente, vestíamos o botijão de gás com uma saia. Tínhamos menos, mas muito mais capricho. Consertávamos os objetos, restaurávamos roupas e sapatos, guardávamos pregos e botões, fazíamos o almoço render para o jantar, comprávamos nossos pertences em carnês nas lojas. Economizávamos onde quer que fosse, exceto na realidade.

Será que melhoramos ou pioramos? É tanta tecnologia e tão pouca presença.

A virtualidade apenas aumentou a solidão. Não exercitamos as lembranças. Não decoramos mais nomes, lugares e telefones. Delegamos tarefas e evocações às máquinas, mergulhados em precoce Alzheimer digital.

Voltei atrás e localizei um futuro possível para salvar nossas relações. Como um menino grande que desenterra moedas no quintal.

Fui da ficha do orelhão no bolso, da lista telefônica, do mimeógrafo, de entrar pela porta dos fundos do pátio, do VHS, do K-7, do vinil, do grampeador e dos clipes, de prender dinheiro com elásticos amarelos, da fila do banco, do cheque voador, do pão de 1/2, do caderninho no armazém, da caligrafia, da procissão a pé para as festas, dos recados na palma da mão, das fotos tremidas com olho vermelho de vampiro, da televisão com seis canais e nenhum controle remoto, da máquina de escrever, da coleção de selos, da carta no correio, do bilhete na sala de aula, da reunião dançante, das brincadeiras na calçada, do romance no portão, no carro, no cinema; fui do mundo.

Se você é um feliz dinossauro e conserva velhas esperanças na humanidade como eu, marque na agenda de papel nosso encontro neste sábado, às 19h, na Praça da Alfândega. Quem sabe para um abraço apertado à moda antiga. 

CARPINEJAR

Nenhum comentário: