quarta-feira, 4 de novembro de 2026

02 de Novembro de 2026
CARPINEJAR

Dia da Saudade

Eu acredito que o Dia dos Finados deveria ser chamado de Dia da Saudade. Os mortos não morrem na saudade. Continuam vivendo dentro dela. Tanto que a maioria das condolências se refere à "saudade eterna".

A morte não é um fim, mas uma etapa, um ciclo do conjunto da vida. A morte não destitui a vida. É ainda vida. A despedida é a esperança do reencontro.

A tradição nos incute a ideia de futuro interrompido, levando-nos a lamentar a intimidade cortada e o que não será testemunhado por quem partiu. Não se fala, em nenhum instante, do passado inesgotável em aberto. O passado não se finalizou. Há muito para se descobrir sobre ele.

"Saudade" seria um termo mais apropriado, magnânimo e amplo para expressar a permanência do vínculo.

O luto não termina com o que você significou para alguém. Não abole a sua condição, não arranca a sua memória, não extingue a experiência. Se falece a mãe ou o pai, você segue sendo filho. Se falece um filho, segue sendo pai ou mãe. Se falece um irmão, segue sendo irmão.

O luto não termina com aquilo que aconteceu. O luto é o nosso jeito de fazer o ente querido resistir à passagem do tempo. É tudo, menos um vazio, menos uma ausência. O luto revela uma morada, uma presença em você. Você passa a ser habitado por uma cumplicidade, uma amizade inquebrantável.

Na verdade, ocorre uma virada quando você se dá conta de que não perdeu a pessoa, mas ganhou a pessoa definitivamente, apesar de ser um processo difícil, perturbador e doloroso de aceitação.

De repente, transcorreram cinco anos desde o enterro, dez anos, e o apego não altera a sua intensidade. Você só troca a rotina pela fé, e aprende a conviver com o invisível, a procurar conselhos e conversas no legado (percebe que ri como o outro, dobra a roupa como o outro, repete uma frase como o outro).

O morto não envelhece mais. Você guarda a feição que o afeto tinha no momento do desenlace. Mantém a imortalidade do seu último olhar.

Você não o enxerga, mas o sente. Sentir são os olhos interiores. Não tem como diminuir a emoção, ou invalidá-la. Sentimentos são fatos. A impressão física é de que ele recém saiu de perto: a ponto de você se arrepiar com uma rajada quente de vento, a ponto de entendê-la como um abraço, um cumprimento com o rosto encostado no rosto, um beijo cálido.

Você não vem imaginando coisas, tampouco reconstitui apenas o que já foi vivido: essa sensação resulta de um estar próximo perpétuo de quem desejava o seu bem e jamais o abandonará por completo. As recomendações de cuidado se mostram vitalícias.

Existem relatos de gente que é visitada em sonhos durante as piores crises pessoais. As mensagens são os mensageiros e reabrem os caminhos. A saudade sintetiza melhor esta data do que a noção de "Finados", porque ela é um lugar. Um território na alma além dos nossos limites terrenos. Um cantinho em nós mesmos. Um altar em que as velas nunca se apagam. 

O morto não envelhece mais. Você guarda a feição que o afeto tinha no momento do desenlace

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