sábado, 7 de novembro de 2026



06/11/2026 - 16h57min
Martha Medeiros

A liberdade de continuar lutando

O povo brasileiro está servindo de exemplo para outras nações. Por essa eu não esperava: ver o Brasil exportando consciência. O mundo inteiro está fazendo o L, e já não se trata de Lula, que agora tem que focar nos ajustes fiscais para conter o endividamento e fazer o país crescer. O L virou outra coisa: simbolismo residual de uma campanha bem-sucedida.

Ao barrar o avanço da extrema-direita, o povo brasileiro conseguiu um feito histórico: está servindo de exemplo para outras nações que flertam com o extremismo, como a França, que corre o risco de eleger Marine Le Pen em abril, e os Estados Unidos, que descobriram o que é ter um lunático no poder. Eleitores irritados costumam chutar o balde e eleger ditadores. O Brasil mostrou que é possível conter esse desatino.

Alguns votaram em Lula por amor a Lula, mas a maioria votou por amor à democracia, que é quem de fato venceu.

Os votos na extrema direita foram dados por quem não atentou para o adjetivo que a diferencia da direita tradicional. Extremidade: o ponto mais distante do centro, fronteiriço, onde o autoritarismo e o radicalismo imperam. 

De extrema-direita são os que defendem intervenção militar, promovem golpes, designam-se como ultranacionalistas (ainda que vendam barato a soberania) e cultuam valores fascistas, como a idolatria por torturadores. O mundo precisa voltar a eleger representantes da esquerda, do centro e da direita que dialogam entre si, independentemente de suas divergências. Os extremos estão longe demais de qualquer consenso.

É aí que uma letra do alfabeto ganha novos significados, em idiomas diversos. Em português, o L agora pode ser feito sem que haja medo de perder o emprego ou de ter o nome em listas de boicote. A eleição terminou e o L representa, por fim, a liberdade de continuar lutando pelo que se acredita (vale para todos os partidos). É um L que invoca a lucidez, a legitimidade, a leitura – livros nos mantém conectados com a verdade e com a história. 

Que floresça um novo “we are the world” por um futuro às claras, sem que fiquemos reféns das mentiras induzidas por algoritmos. Que as nações ocupem as ruas pacificamente para varrer preconceitos e abraçar a inclusão. Que as polarizações sejam substituídas por uma força conjunta contra a ascensão de vigaristas. 

Pense nos golpes de whatsapp, que usam nossa boa-fé contra nós mesmos. Na ânsia de ajudar alguém ou de ser ajudado, o que nos protege das armadilhas? A informação. A atenção. A cabeça preparada. É pela mente que se combate manipuladores. 

Por isso, ler, estudar e se reunir presencialmente uns com os outros pode nos salvar. Sei que não existe mundo ideal, que me chamarão de ingênua, inocente, até de louca. Ninguém mais quer saber de sonhadores. Ainda assim, hoje consagro meu L ao lirismo.

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