
Gostar de qualquer jeito é gostar de nenhum jeito
A falta de atitude esvazia a opinião masculina. O receio de criticar é a pior crítica. O receio de decepcionar é a maior decepção.
Sua esposa volta do salão, apresenta o corte. Ela resistiu a tarde inteira na cadeira. São quatro horas de molho, não uma hora como no barbeiro. É um sacrifício, não uma imersão. Compreenda: ninguém morre de vontade de passar por isso. Ela ainda gastou os tubos e os bobes no cartão de crédito.
Levando em consideração as suas limitações, aparece na sua frente facilitando o game. Chega sem suspense, balançando a cabeça para mostrar escandalosamente os cachos. Não questiona o que há de diferente. Você não amargará o constrangimento de apontar as sobrancelhas, que são as mesmas desde sempre. Ela é educada, generosa.
Apenas pergunta: - Que tal? O que achou? Você só deveria dizer: "lindo", "que bonito", "maravilhoso", "parabéns", "ficou muito melhor", "é uma nova pessoa", "vai causar inveja"?
Mas inventa de falar: - Gosto de você de qualquer jeito. Você inclusive supõe ter colocado Vinicius de Moraes no chinelo. Acredita ter dado uma resposta impecável. Espera reconhecimento pela sua sensibilidade (de nabo), um abraço pela sua profundidade (de piscina infantil).
Porém, é um lance para o VAR. É cartão amarelo que vira expulsão com a reprise da câmera. O comentário corresponde a um "tanto faz", não exalta o investimento, não destaca a mudança.
E também expressa uma omissão: ela pode se arrumar de qualquer jeito. Pode vir de qualquer jeito que você sequer se detém. Trata-se de um juízo morto, nem neutro é. Não é sinal de liberdade e de respeito, mas ausência de reciprocidade.
Você mal levantou os olhos, não examinou, não se deslumbrou, não se desprendeu da tela do celular. Há um conjunto de gestos amparando o desdém. Seria até preferível que odiasse e demonstrasse algum sentimento, provasse que reparou.
Assim, é o ó do borogodó, o fim do caminho. Logo mais, você pedirá que ela escolha a roupa no seu lugar, o cardápio no seu lugar, as viagens no seu lugar, e fugirá de existir. Não sei se é medo da própria mulher, o que sei é que é covardia de assumir a própria vida.
Declare seu voto, manifeste-se, não dá para ser isentão no amor. O gostar genérico dispensa os detalhes. Ela termina sem entender se valeu a pena a ousadia. Não finja que é um dia igual ao outro.
Prepare-se para sair. Ela se embelezou, ela se cuidou, não irá querer permanecer em casa assistindo a filmes. Desejará quebrar a rotina em pedacinhos.
Mexa-se com as palavras e com o corpo. Sua companhia pretende tirar selfies, desfilar, desfrutar do efeito provisório dos cabelos alinhados. Montará um álbum, uma série para lotar as redes sociais nos próximos meses. Pense num local chique para jantar, para dançar.
Aproveite o encanto enquanto o feitiço não acabar. Ela não está para brincadeira. Depois de dormir, será um parto para repetir o penteado. Só regressando ao salão. E tendo que suportar o seu menear de ombros.
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