
A eleição presidencial nos EUA começa agora
Muita coisa está em jogo nas midterms, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos: além da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, o resultado vai colocar à prova o sistema de freios e contrapesos da democracia americana. Sobretudo, é um termômetro fundamental para a disputa presidencial, que ocorrerá em 2028. Na prática, a corrida para a sucessão de Donald Trump começará tão logo estejam consolidados os resultados para o Capitólio.
Como o voto para a Câmara é distrital, cada deputado eleito representa um dos 435 distritos eleitorais do país. São, portanto, 435 cadeiras na Câmara dos Representantes, todas em disputa nesta eleição. Esse voto permite compreender, no detalhe, como estão as preferências - e sobretudo as rejeições do eleitorado.
Os Estados decisivos na eleição presidencial não são necessariamente os mesmos das midterms.
Na eleição para presidente, o foco recai sobre Estados competitivos no Colégio Eleitoral. Nas eleições legislativas, determinados distritos da Câmara podem ser decisivos para definir qual partido terá a maioria, mesmo dentro de Estados tradicionalmente democratas ou republicanos. _
A situação em cinco campos de batalha
Ohio e os data centers
Uma das votações mais interessantes é a de Ohio. Chama a atenção a queda de braço em torno dos data centers, fundamentais para a nova economia, mas que demandam muita energia. No Estado que, no passado, foi conhecido pela indústria pesada (daí sua localização no chamado Cinturão da Ferrugem), a população tem reclamado do preço da energia elétrica. A instalação de data centers cresceu muito graças a incentivos fiscais públicos. Ato contínuo, a conta aumentou.
Disputam a vaga o hoje senador Jon Husted, pelo Partido Republicano, defensor da instalação dos data centers, e o ex-senador Sherrod Brown, do Partido Democrata.
Texas e o fenômeno Talarico
É um tradicional reduto republicano, mas, nos últimos anos, tem se tornado um Estado-pêndulo.
Lá desponta uma das estrelas democratas: James Talarico, pastor presbiteriano visto como possível candidato em 2028. Ele enfrenta o republicano Ken Paxton. O Texas não elege democratas ao Senado desde 1988.
Kansas e a truculência do ICE Kansas não elege um senador democrata desde 1932. Adam Hamilton, também pastor, enfrenta o republicano Roger Marshall. A insatisfação com a economia, a alta nos preços dos combustíveis e as operações truculentas do ICE, a polícia de imigração, pesam contra os republicanos.
Alasca pode virar
Outro Estado tradicionalmente republicano, o Alasca pode virar para o lado democrata. A última vez que os democratas conquistaram uma cadeira no Senado lá foi em 2008. A ex-congressista democrata Mary Peltola enfrenta o senador Dan Sullivan.
Maine e a disputa toss-up
É uma das disputas mais importantes. Susan Collins (republicana) enfrenta Troy Jackson (democrata). Susan busca seu sexto mandato, mas representa um Estado que votou nos democratas nas últimas eleições presidenciais. A disputa é classificada como toss-up, ou seja, sem vantagem clara para nenhum partido.
Os nomes para 2028
As midterms já começam a desenhar quem irá enfrentar a disputa presidencial em 2028.
Democratas
James Talarico - Jovem, religioso e carismático, o ex-professor de escola pública é candidato ao Senado pelo Texas. Notabilizou-se pela defesa do financiamento da educação pública, aumento dos salários dos professores e ampliação do acesso à saúde.
Jon Ossoff - Atua como senador dos EUA pela Geórgia. Ganhou destaque por presidir comissões investigativas no Senado voltadas para o combate à corrupção e à violação de direitos em prisões federais e sistemas de assistência social.
Alexandria Ocasio-Cortez - Deputada federal representando o 14º Distrito de Nova York, tornou-se, em 2018, a mulher mais jovem da história a ser eleita para o Congresso, aos 29 anos. É uma das principais líderes da ala progressista e da esquerda do Partido Democrata.
Pete Buttigieg - Veterano das forças armadas, foi secretário de Transporte do governo de Joe Biden. Antes disso, foi eleito prefeito de sua cidade natal, South Bend (Indiana), com apenas 29 anos. É um democrata de perfil pragmático.
Mark Kelly - Ex-astronauta e ex-piloto militar, atua como senador pelo Arizona. Apresenta-se como um democrata moderado e pragmático, com foco em soberania industrial, segurança nacional, pautas trabalhistas e gestão de recursos hídricos e ambientais.
Republicanos
Ken Paxton - Procurador-geral do Texas, é uma das figuras mais alinhadas à ala conservadora do Partido Republicano. Escândalo: em 2023, a Câmara dos Representantes aprovou artigos de impeachment contra ele por acusações de corrupção, suborno e abuso de poder.
Marco Rubio - Secretário de Estado dos EUA, nasceu em Miami, Flórida, e é filho de imigrantes cubanos. É um dos falcões em relações internacionais. Adota posições assertivas em relação à China, ao Irã, a Cuba e aos regimes autoritários da América Latina. Na pesquisa AtlasIntel de domingo, aparece em 1º lugar na preferência dos republicanos.
JD Vance - Atual vice-presidente dos EUA, serviu como senador por Ohio. É uma das principais vozes da ala populista de direita e do conservadorismo nacionalista do Partido Republicano.
Ron DeSantis - Governador da Flórida desde 2019, em mandato que vai até 2027, notabilizou-se por políticas de forte perfil conservador: oposição a restrições e lockdowns durante a pandemia.
Tucker Carlson - Apresentador e comentarista político, é uma das figuras mais influentes da direita e do movimento Make America Great Again (MAGA). Suas opiniões caracterizam-se por uma postura isolacionista em política externa e por uma rígida oposição à imigração.
Quais investigações podem ser abertas contra Trump
Se o Partido Democrata vencer em pelo menos uma das Casas, poderá investigar Trump pelos seguintes casos:
Família e finanças de Trump
Entre os pontos que os democratas prometem analisar, estão os vínculos entre o governo e as entidades corporativas - em particular, empresas de criptomoedas do conglomerado Trump - e os negócios internacionais geridos por Jared Kushner, seu genro. Outro ponto que pode ser analisado é a doação feita pelo Catar de uma aeronave de US$ 400 milhões para o presidente. Também a relação entre as empresas de Elon Musk e o governo americano.
Relações militares
Desde o início do seu segundo mandato, Trump afirmou que não iniciaria guerras. Mas realizou diversas investidas, como no Irã. Caso saiam vitoriosos, os democratas devem iniciar uma investigação sobre a atuação do secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, no conflito. As ações no Caribe e na Venezuela também estarão no alvo.
Imigração e ICE
As medidas de repressão a imigrantes se ampliaram no segundo mandato com a atuação do ICE, a polícia de imigração americana. Democratas pretendem iniciar investigações para avaliar a conduta dos agentes durante as abordagens.
Caso Epstein
No ano passado, o Departamento de Justiça foi obrigado a divulgar milhões de arquivos relacionados ao financista condenado por crimes sexuais. Os democratas poderiam avançar nas apurações sobre eventuais conexões entre Trump e Epstein.
Impeachment
Trump pode sofrer impeachment? É improvável. Os democratas até devem iniciar um novo processo. O pedido poderia passar na Câmara dos Representantes, mas dificilmente avançaria no Senado, já que, para a cassação, são necessários dois terços dos cem senadores (67 parlamentares).
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