quarta-feira, 4 de novembro de 2026

02 de Novembro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Afetos tristes

Em seu novo livro, A Máquina do Golpe - 1964: Como Foi Desmontada a Democracia no Brasil (Companhia das Letras, 312 páginas), a historiadora e cientista política Heloisa Murgel Starling reconstitui os oito eletrizantes dias que antecederam a deposição do presidente João Goulart. 

Era para o livro ter saído em 2024, quando o golpe militar completou 60 anos, mas o projeto tomou mais tempo do que o previsto e, por uma dessas emendas que melhoram o soneto, a publicação acabou chegando às livrarias poucos dias antes de outro confronto histórico entre o campo democrático e o pessoal que costuma não se conformar muito com o resultado das urnas - quando perde, of course.

Na excelente entrevista que concedeu ao podcast da Revista 451 no dia 23 de outubro, Starling falou sobre o livro, sobre as eleições que aconteceriam naquele mesmo fim de semana e sobre o risco de o país deixar à solta, mais uma vez, o "cupim" que corrói a democracia por dentro. 

A historiadora não tinha como prever que o cupim seria derrotado no domingo e fugiria do país já na terça-feira, mas sua análise sobre a erosão do espaço público nos ajuda a entender os episódios de assédio eleitoral que estaríamos comentando na semana seguinte: listas negras, boicotes a empresas e profissionais, demissão de funcionários e até o especialmente perverso cancelamento de doações e ações de voluntariado por motivos políticos.

Para a historiadora, estamos tomados pelos "afetos tristes" do ódio e do ressentimento, que nos isolam em bolhas e nos afastam não apenas uns dos outros, mas da realidade. Para combatê-los, diz ela, é preciso voltar a cultivar os "afetos da democracia": 1) a amizade, para tentar ver o mundo do ponto de vista do outro; 2) a tolerância, para ouvir todas as ideias, mesmo as que incomodam; e 3) a compaixão, para reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.

Enquanto não chegamos lá como sociedade, talvez só nos restem a reflexão individual e a autocrítica. Antes de curtir, compartilhar ou aderir ao próximo boicote digital contra alguém que expressou uma visão política oposta à sua, imagine um mundo em que o dissenso seja punido. Imagine que tudo em que você acredita, tudo que você considera bom e sensato seja visto pela maioria como ofensivo ou perigoso. 

Quando o tribunal do ostracismo bater à sua porta, exigindo sua demissão ou o fechamento da sua empresa em função do seu posicionamento político, você vai achar justo o castigo? Se a sua resposta for "não", bem-vindo ao postulado ético mais sucinto e mais fácil de entender (embora nem sempre tão fácil assim de executar): nunca faça nada que você não gostaria que se tornasse uma lei universal. _

CLÁUDIA LAITANO

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