quinta-feira, 5 de novembro de 2026

05 de Novembro de 2026
CARPINEJAR

Quando meu eu antigo me pagava um cafezinho

Nunca mais me aconteceu esta alegria. Até porque dificilmente carrego dinheiro vivo comigo. Não tenho mais carteira. É tudo no celular, digital e indolor. Mas eu vibrava na minha juventude ao encontrar uma nota esquecida nos bolsos das roupas. Tão bom quanto o nosso time conseguir um golzinho de vitória nos acréscimos.

Quando chegava o frio e você tirava o casaco do fundo do armário, podia reaver um dinheirinho redentor. O que corresponderia hoje a dez reais, cinquenta reais, cem reais. Você se sentia rico de si mesmo. No roupeiro, havia a poupança dos distraídos. 

Mantínhamos o costume de ensacar os capotes e só os baixávamos para os cabides na mudança da estação. Congelávamos o troco e depois o descongelávamos para o nosso contentamento. Pois nem nos lembrávamos de ter deixado dinheiro ali.

Nossa versão anterior nos conferia uma mesada. Nosso eu antigo, de outro inverno, legava uma mensagem, uma gentileza, para nosso eu do momento. Nosso passado recente pagava nosso café, nosso pastel, nosso ônibus, nosso bilhete de cinema.

E sempre vinha a pequena quantia quando você se mostrava duro. Unicamente aqueles que se percebiam lisos, na pindaíba, mexiam pelos zíperes, vasculhavam os compartimentos e investigavam os forros de suas vestes.

A sorte azarada era quando a herança súbita se resumia a cifras em desuso, a bufunfa que tinha saído de circulação e se tornado papel velho. Você aparecia atrasado para o prêmio.

Apenas durante o governo de José Sarney (1985-1990), a moeda foi alterada duas vezes: para cruzado (Cz$), substituindo o cruzeiro com o corte de três zeros; em seguida, para cruzado novo (NCz$), suplantando o cruzado também com a supressão de três zeros.

Num período curto de três anos, as ressurreições renderam tristezas, com a possibilidade de localizar uma fortuna dilapidada pela inflação. O consumidor virava colecionador.

Na infância, eu catava centavos; na adolescência, aumentei a ambição cultural para arrecadar Florianos Peixoto, Princesas Isabéis, Deodoros da Fonseca, Ruys Barbosa, Oswaldos Cruz extraviados pelos cantos.

As maiores descobertas se davam diante da máquina de lavar, esse cofre dos desavisados. O dinheiro acabava lavado honestamente. Esperava-se que secasse no varal ao lado das roupas íntimas. Anotavam-se recados no numerário - espécie de mural da época, de telefone sem fio -, e o azul da caneta se espalhava na efígie.

Tanto que minha atividade doméstica predileta consistia em lavar a roupa da família. Para o espanto de todos, eu me voluntariava no fim da noite. A mãe se surpreendia com meus dotes.

- O Fabrício é o mais prendado dos filhos. Mal sabia a inocente. A generosidade escondia um interesse por trás. Quem cuidava do cesto e desvirava as peças que estavam do avesso desfrutava do bônus de revistar as sobras e recolher um troco anônimo, que ficava sem dono.

O que é achado em casa não é roubado. Regra que vale exclusivamente dentro de casa. _

CARPINEJAR

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