
Terceirização cognitiva
Minha bisavó não sabia o que era academia. Ela caminhava até o armazém, carregava as compras na sacola de pano. Depois cozinhava durante horas, varria o chão, lavava roupa no tanque, torcia lençol no varal, rachava lenha, subia escada. A vida era o treino. Ninguém pagava mensalidade para malhar, o suor vinha embutido no dia, como o café vem com leite.
Depois vieram o elevador, o carro, a máquina de lavar, o controle remoto. O corpo foi ficando cada vez menos exigido. E aí, num movimento curioso, inventamos a academia: um lugar para onde a gente vai fazer força, e paga, pelo que antes a vida exigia de graça. Corremos na esteira sem sair do lugar, levantamos peso para nada, subimos escada que não leva a andar nenhum. A academia é a simulação do cotidiano que perdemos, um parque temático do esforço.
Agora olho para o outro lado e vejo o mesmo filme passando, só que na cabeça. A calculadora chegou e paramos de fazer contas. O cartão de crédito chegou e ninguém mais precisa calcular troco. Antes isso era reflexo, hoje nem lembramos que fazíamos. O GPS chegou e desaprendemos o caminho. O corretor ortográfico chegou e esquecemos como se escreve "exceção". O telefone guarda os números que a memória guardava. Se isso já era preocupante, eis que agora chegou a inteligência artificial, fazendo mil coisas que antes pediam que a gente pensasse: resumir, traduzir, calcular, organizar, lembrar, redigir.
E aí uma pergunta que se impõe: qual vai ser a palavra para sedentarismo mental? Nomeamos o corpo sedentário através do latim: sedere, sentar. Mas o "sentar" da cabeça ainda não tem nome. E qual será a academia do cérebro? Vamos fazer palavras-cruzadas como quem corre na esteira? Vamos fazer sudoku como quem levanta haltere?
Só que a esteira não devolve a caminhada. Simula. E simulação tem seu valor, mas não é a mesma coisa que a vida pedindo esforço de nós sem aviso. O cérebro que fazia conta de troco no balcão não precisava de app. O esforço era parte do dia, não uma sessão marcada.
E a principal pergunta: qual é o preço que pagamos pela "terceirização cognitiva"? Com o cérebro, o risco é maior do que com o corpo. O sedentarismo é visível, a atrofia mental não. _
Nenhum comentário:
Postar um comentário