quarta-feira, 20 de abril de 2011


ANTONIO PRATA

A vaca, o urubu e Sidney, de Jequiaçu

Sobre o urubu e Letícia, eu não saberia dizer nada, mas garanto: minha história não tem nada a ver com a deles

FAZ UNS DOIS MESES, escrevi sobre os fins, concomitantes, de uma vaca e um namoro. A vaca, colocada numa canoa para atravessar um rio, caía na água e acabava levada para o meio do mar. Ao testemunhar a cena, da praia, uma mulher brigava com seu namorado, que não tinha feito coisa alguma para evitar que pusessem a bichinha na sacolejante embarcação, momentos antes, quando a tragédia já se anunciava.

A situação foi inteiramente inventada, nem sei se vacas boiam, afundam ou se é possível transportá-las em canoas.

Sidney Mourinho, contudo, morador de Jequiaçu, Paraná, está convencido de que me baseei em sua separação, ocorrida cinco dias antes da publicação da crônica -muito embora, até receber seu e-mail na semana passada, eu jamais tivesse ouvido falar de Jequiaçu, muito menos deste seu filho, não sei se ilustre, mas, sem dúvida, solitário e iracundo: Sidney Mourinho.

Minha história e a dele realmente são parecidas. Na minha, um namoro acaba com a morte de uma vaca. Na dele, o casamento termina com o falecimento de um urubu. Para além disso, no entanto, não há semelhanças, como verá o leitor.

Sidney e Letícia estavam casados fazia um ano e, segundo ele, eram felizes. Como todo sábado, assistiam ao "Caldeirão do Huck", na sala do apartamento, no 12º andar. "Subitamente, o vidro da janela partiu-se em mil pedaços e um vulto precipitou-se" entre eles e a TV.

Demoraram alguns segundos para entender o que se passava, e mais um pouco para aceitar o que viam: ali, sobre o porcelanato, entre cacos de vidro, debatia-se um urubu ensanguentado.

"Faz alguma coisa! Sidney, Sidney!" Quanto mais a mulher berrava, mais o urubu se debatia. Sidney tentou pegar o bicho com duas almofadas e atirá-lo pela janela, mas ele escapou, e, pior, soltou um terrível grasnado. "Mais feio que corvo, que coruja, quase um balido de bode." Sidney temeu que Letícia tivesse um treco. "Eu sempre fui da paz, não mato nem barata, mas, quando vi, tinha agarrado a ave hedionda com as próprias mãos e quebrado o seu pescoço."

A mulher ficou encarando-o por quase um minuto, atônita. Então, levantou-se, saiu pela porta e nunca mais voltou. Duas semanas depois, Lívia e Leandra, irmãs dela, foram lá pegar suas coisas. Sidney e Letícia não se falaram mais. Ele diz que não entendeu, até hoje, como um urubu desgovernado rompeu a janela da sala, por que a mulher o deixou nem como a história teria chegado até meus ouvidos.

Sobre as atitudes do urubu e de Letícia, eu não saberia dizer nada, Sidney, mas uma coisa eu te garanto: a minha história não teve nada a ver com a sua. É realmente uma coincidência que seu casamento tenha terminado num sábado, em Jequiaçu, diante da morte de um urubu, e o namoro dos meus personagens tenha acabado na quarta, nesta página de jornal, por conta da vaca transatlântica.

Mas coincidências são só isso, eventos que coincidem num mesmo momento ou num mesmo local. Torço de verdade para que a Letícia recupere-se do trauma e volte para você. E para que os urubus de Jequiaçu se comportem como os de todo o resto do mundo e não colidam mais com sua janela.

Até mais e boa sorte, meu caro.

antonioprata.folha@uol.com.br

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