quarta-feira, 15 de julho de 2015



15 de julho de 2015 | N° 18227 
FÁBIO PRIKLADNICKI

A ARTE DO OBITUÁRIO

Nem todos estão imediatamente prontos para reconhecer a beleza de um obituário, o texto jornalístico que faz o elogio de uma personalidade que deixa a vida para entrar na história. Claro, a morte não é uma coisa legal, menos ainda quando acontece com um familiar ou amigo. Mas o obituário é um reconhecimento a um legado no momento em que as pessoas próximas mais precisam de reconforto. O ofício de obituarista é extremamente exigente: precisa resumir – com “lucidez, precisão e objetividade”, segundo Gay Talese – feitos de uma vida, em um tempo geralmente exíguo.

Não é segredo algum que jornais do mundo inteiro têm um arquivo de obituários preparados com antecedência, mas também é verdade que frequentemente os jornais são pegos de surpresa. Na reportagem Sr. Má Notícia (1966), um perfil do obituarista Alden Whitman (1913 – 1990), do New York Times, Talese conta que o periódico nova-iorquino tinha, na época, 2 mil obituários em seu arquivo. Às vezes, a prática reserva situações inusitadas: um dos dois jornalistas que assinaram o elogio de Oscar Niemeyer no britânico Guardian, em 2012, havia morrido quatro anos antes.

Em Sr. Má Notícia (republicado no livro Fama & Anonimato), Gay Talese revela um antes inimaginado charme no ofício. Whitman, o obituarista perfilado, é o estereótipo de um jornalista dos anos 1960: usa óculos de aro de tartaruga, fuma cachimbo e tem um bigode avermelhado, o que está novamente na moda hoje, por sinal. Talese conta como Joan, a futura esposa de Whitman que era 16 anos mais jovem que ele, ficou fascinada logo no primeiro encontro. Ele sabia de cor, por exemplo, a lista de todos os papas de trás para frente e de frente para trás.

Whitman era, sobretudo, um perfeccionista. Ficou frustrado com o obituário que escreveu do filósofo judeu Martin Buber, sobre quem não sabia praticamente nada – recorreu a um especialista. Sentiu-se uma fraude. No dia seguinte, voltou à redação esperando ser criticado. Em vez disso, ficou sabendo que diversos intelectuais de Nova York haviam telefonado para parabenizar o jornal. Whitman desconfiou de todos os elogios.

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